Nunca eu mesmo disse, nem a mim, nem a amigos, sobrinhos ou filhos. No entanto, o fato é que poucas vezes chorei.
Lembro de todas elas.
Quando minha avó materna morreu. Um certo dia depois da morte de meu pai. Quando foi a vez do Marião. Sempre a morte. O choro da orfandade é a exceção permitida: lembro de assistir atônito ao pai: homem forte, rasgando-se na frente de todos diante da morte do filho.
Nunca no cinema. Nunca lendo um livro. Nem ao ver uma imagem de terror. Não choro diante da pobreza vergonhosa habitante de nossas ruas, ainda que sofra por ela; covardemente.
Sou da secura de minha mãe.
Ainda que.

Posso muito bem ver Elis levantando os braços, fechando os olhos, naquele instante em que a melodia sofre sua inflexão, para cantar o estribilho (“solto a voz nas estradas...”). Neste momento e todas as vezes, Elis cruza a fronteira, passa para o lado do sublime. A guitarra de Natan Marques toca solo assemelhado a um lamento metálico, levando a voz de Elis. Para onde?
Não sei ao certo... É provável que para um ponto de muitos pontos, onde minha química, minha biologia, meus nervos e minhas fricções elétricas sucumbem à magia da condição humana, que nasce ali entre tudo isso para ser uma força muito maior do que a soma de seus elementos.
Enfim, espaço onde a dor é e pronto.
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