4.5.26

Filho do carnaval

Sempre brinco que, por ter nascido em novembro, sou filho do carnaval. A terça gorda de 1961 foi no dia 14 de fevereiro, nove meses exatos antes do meu nascimento, em 17 de novembro, e um dia depois do aniversário do meu pai. Essa hipótese ganha força quando esclareço que sou o caçula, numa família de quatro filhos, e que derrubei do galho minha irmã cinco anos mais velha do que eu. Sou então o último suspiro reprodutivo do casal, ele com quarenta e dois anos e ela com trinta e oito.

Dá para imaginar esse dia: alguém ficou com os três filhos, e papai e mamãe se permitiram uns drinques, ir ao clube, onde se entregaram à alegria comandada pelas marchinhas daquele tempo. "Oh, jardineira, por que estás tão triste?", "Allah-la-ô, ô-ô-ô, ô-ô-ô, mas que calor, ô-ô-ô, ô-ô-ô". Brincaram, jogaram lança-perfume uns nos outros, comentaram sobre o exagero da fantasia de fulano, da pouca intimidade carnavalesca de sicrano. Ergueram milhares de brindes ao aniversariante da véspera.

Encontrando tudo tranquilo em casa, fecharam-se no quarto. Dando-se a um encanto que quatorze anos de casamento – muitos deles enfrentando dificuldades, financeiras, inclusive – nem sempre favorecia, celebraram a vida carnal, nossa essência, enfim.

Essa tese esbarra em um problema. Minha mãe dizia que nasci de dez meses. Aliás, nascemos, seus quatro filhos. Tudo indica que ela tinha diabetes gestacional, o que não se conhecia à época. Reforça essa hipótese o fato de que todos chegamos ao mundo grandes; eu, exageradamente, com cinco quilos e seiscentos.

Nessa segunda hipótese, o calendário tem de ser recuado em quatro luas, a um janeiro no qual não vejo nenhum motivo para o casal se embriagar de vinho e desejo. A história perde um pouco do brilho, mas é bom mirar o fato de que naquele dia o encanto visitou o casal. Imagino que mamãe tenha distraído os filhos em férias, montado um quebra-cabeça com os mais velhos, onze e nove anos, e contado história para a então caçulinha, quatro anos. Depois disso, o casal se trancou no quarto e uma carícia cheia de segundas intenções partiu da mão de um ou de outro.

Conto tudo isso sem uma razão, impulsionado por sonhos que tive nos últimos dias. Em um esteve meu p ai, não me lembro bem em que situação, noutro, minha mãe. Ela estava sentada na cadeira que ficava em seu quarto, e eu lhe entregava um neném lindo, filho de um casal de amigos que não tem nem quer ter filhos.




20.4.26

Ares de abril

 


Abril, ao abandonar o verão, promete temperaturas amenas, o que nem sempre cumpre. O de 2026, quente e já pelo meio, acontece em um ano no qual o menino levado, El Niño, vai aprontar das suas. Ouvi de um especialista que ainda não se pode prever catástrofes — tempos mais secos no Norte e chuvosos no Sul, sim —, mas é certa uma elevação considerável da temperatura a partir de setembro.

Por motivos alheios ao clima, tenho um acerto de contas com este mês em que dois irmãos, um sobrinho-afilhado, duas sobrinhas-netas e alguns amigos fazem aniversário, pois de cara nos levou aquela amiga – escritora, tradutora e, corajosa, também editora – um pouco mais velha que eu, portanto nem jovem nem idosa. Não, senhor, não é assim que se inicia seu mandato no calendário. Não é assim que se comporta. Sua função é nos dar mãos fortes para muitos parabéns e, insisto, aliviar o calor, nos ajudando a poupar o dinheiro gasto com o ventilador ou o ar-condicionado.

O mês de arianos e taurinos também nos tirou uma prima com mais de 90 anos. Sempre lamentamos a morte, mas minha prima, ao contrário da amiga, teve uma vida plena, não foi antes do tempo. Espero que o senhor entenda a diferença entre encerrar um ciclo completo e interromper aquele por se completar.

Mal associo minha prima à plenitude, me questiono, pois relembro o que me aconteceu um pouco depois do dia internacional da mentira, marco inicial do mês da descoberta do Brasil e de São Jorge.

No meu ônibus de sempre, me sentei ao lado de uma senhora; 97 anos, viria a saber. Estava sozinha e puxou assunto comigo de uma forma pouco usual. Na página da revista que eu lia, havia uma charge: uma mulher está deitada na cama, ao lado de uma cartola de mágico, e um homem, à porta do quarto, diz: “Eu sei que você está aí”. A senhora então, invadindo minha leitura, perguntou quem estaria ali. Ri. Ela respondeu com um sorriso maroto e emendou, assim do nada, que o atual presidente dos EUA é o diabo. Me fisgou. Confessou a idade e contou que servira desde seus doze anos a uma família brasileira, grande parte do tempo vivendo na Inglaterra. Lá, não foram raras as vezes em que cuidou de quinze crianças enquanto os pais se divertiam em pubs. Histórias de exploração começaram a saltar em minha cabeça, mas achei melhor não entrar nesse assunto.

Continuando a conversa, enfiou outra observação política: com o Bolsa Família, o presidente brasileiro estava fazendo com que ninguém mais quisesse trabalhar. O velho e desgastado papo conservador. Para quem achava Trump o diabo, assassino de crianças, a opinião sobre a transferência de renda era um passo e tanto atrás. Depois de tentar, sem sucesso, lhe explicar a ideia desse programa, perguntei se ela estava a passeio ou voltara de vez ao Brasil. Voltou de vez, mesmo sob protesto, já que os patrões viam no país um lugar de no money, no job.

Embora lúcida, com capacidade visual e auditiva impressionante, era dona de um pensamento estranho, que alcançou o ápice ao culpar as mulheres por todas as mazelas do mundo. Fazem filhos e não se importam com a criação deles, enfatizou. Atordoado com tamanho disparate, tentei voltar à leitura. Fui mais uma vez interrompido, agora a senhorinha falava da comida brasileira, da alegria de comer feijão de domingo a domingo.

Enfim, ela toda em si, quase um milagre da natureza, e eu, transitando entre o encanto e a covardia, nos separamos. Para desembarcar, atravessou o ônibus e desceu as escadas sem vacilo algum, num andar de quem tem mais ou menos a idade de minha amiga que, um dia depois, abril, o senhor impediria de chegar aos setenta.

Não bastassem o calor, as mortes ao meu redor e o episódio triste e anedótico do ônibus, este mês de outono infantil seguiu com a ameaça feita pelo Orange Man de extinguir numa noite a civilização persa. Reforçando o comportamento habitual de menino valente de rua que, na hora H, se esconde entre as pernas dos pais, o energúmeno recuou.

Sabe de uma coisa, mês que estende o tapete vermelho para maio, esse, sim, lindo, de céu espetacular? Embora eu não entenda nem acredite no zodíaco, você avança sem personalidade própria, arredio à intensidade ariana e à persistência taurina. Fica um conselho: se redima, sopre-nos um vento fresco, ainda é tempo.




5.4.26

Ziguezagueando

 Estive lendo nos últimos dias “Pequenos fantasmas”, de Humberto Werneck, lançado pela Seja Breve Edições, uma série de contos escritos entre o fim da década de 1960 e o início da seguinte, ou seja, quando eu era menino. De certo modo, aquele mundo (ainda bem rural, com a classe média vivendo em casas, mesmo em cidades grandes, mulheres estudando em colégios que não admitiam homens entre os alunos) ruiu, mesmo assim o caldo humano é o de sempre: a criança descobrindo a vida, os primeiros amores, a reação diante da morte, enfim, tudo isso que se repete desde os tempos das cavernas, embora em ritmos e formas diferentes e, no caso, bem tratado pelo autor mais conhecido como cronista. Tive a impressão de que pelo menos dois contos remetem ao famoso “Casa tomada”, de Cortázar. Não é o caso de resenhar nada aqui, mas de pontuar que Werneck andou transitando no mundo mágico, influenciado também, imagino, por seu amigo, incentivador e mestre, Murilo Rubião.

Talvez por reencontrar um mundo parecido com aquele no qual cresci e fazer a ligação entre o escritor mineiro e Cortázar, essa leitura me levou à minha colega de ginásio Argentina. Argentina era ou é – nunca mais soube dela – uma negra de tal maneira retinta que não era raro eu ficar olhando para ela e me distrair das aulas. Outra característica dela era o silêncio: não me recordo de ter ouvido alguma vez sua voz. Enfim, em torno dela se instalava algo de mistério.

A leitura nos faz perder o controle, vejam onde fui parar. Mas é irônico esse caminho, pois tem muito argentino envolvido em episódios racistas no Brasil. Agora mesmo há uma mulher, Agostina Páez, envolvida em um episódio racista no Brasil, pelo qual ficou presa e foi recentemente liberada — com o que pôde voltar a seu país e protagonizar cenas terríveis de racismo. Há muitas explicações ou pseudoexplicações sobre o fato de alguns de nossos vizinhos se comportarem tão mal, mas não faço sociologia, sou apenas um cronista ziguezagueando em torno de ideias revolutas.

Havia uma campanha na TV educativa bem interessante: um repórter saía à rua e perguntava às pessoas onde elas escondiam o racismo. Isso, isso mesmo, nós, brancos, pero no mucho (afinal a mestiçagem está na origem da nossa formação), fomos educados de forma racista. É preciso então lutar contra isso todos os dias. Quem bate no peito e diz não ser racista por ter um amigo negro só está tentando esconder o preconceito.

Seja como for, ainda pequeno convivi e fui amigo de muitos negros: os filhos da Dita (que trabalhava em nossa casa; nada a se espantar, não é?), a família do Antônio José, motorista de táxi que vivia duas casas abaixo da nossa, além da própria Argentina. Essa convivência quase diária por si só não me livrou de me tornar racista, mas me fez, primeiro, desconfiar e, depois, ter certeza de que não há nada que justifique o racismo. Meus amigos eram e são inteligentes, bem-humorados, descolados, audazes, alguns, como a Argentina, quietos. Enfim, humanos.

23.3.26

Outras guerras

Dia 8 de março, fui à manifestação pelo Dia Internacional da Mulher, que, no Rio, estava bonita, ainda que não com o número de pessoas — particularmente de homens — ideal. Hoje, depois que as mulheres, em luta, conquistaram tantos espaços, não é possível cruzar os braços e achar que toda a violência que sofrem sejam casos isolados, coisa de homem desajustado. Não é, não. O mundo anda bem complicado, e a ascensão dessa direita adepta da guerra e da anticiência, xenofóbica e misógina reflete o ressentimento masculino. No caso do senhor Laranja estadunidense, a reação vem com o que há de mais moderno em termos de armas de destruição, não poupando sequer as crianças, haja vista que um dos alvos americanos no Irã foi uma escola infantil para meninas. O presidente americano faz o trabalho sujo enquanto a maioria de nós, homens, se senta à sombra à espera do novo dia, que na realidade é o velho, o velhíssimo, impossível de ser reproduzido.

Minha amiga Graça, dia desses, me mandou um post reportando o primeiro concurso de miss travesti em Minas Gerais, ocorrido em 1966. Ela conheceu, conviveu até, com a ganhadora, Sofia de Carlo. Interessante é que a vice-campeã, Erika, é minha conterrânea. Posso estar enganado, mas é uma pessoa apagada da história municipal, o que é compreensível, mas não justificável. O que terá sido dela? Em que rua nasceu e cresceu? Continua em Passos (imagina a barra que era naquela época, se ainda é hoje)? Está viva? As travestis, as trans e todas as pessoas nesse grande leque LGBTQIAPN+ formam outra população na mira dos machos em modo vingança.

Diante da notícia anterior, brinco que Passos faz parte da vanguarda, mas, na verdade, a cidade, como tantas outras, está inserida no cenário da violência. No final de semana em que se celebrava o Dia da Mulher — me corrijo, é dia da luta, ligado a momentos de protagonismo feminino nas questões trabalhistas —, uma jovem de 15 anos levou dezessete facadas na zona rural do município. Não houve assalto, ela não sofria ameaças, tudo indica tratar-se de mais um feminicídio. Triste.

É preciso que não percamos de vista essas histórias. O estupro coletivo acontecido no Rio de Janeiro — quatro rapazes armaram uma cilada para a ex-namorada de um deles; ele e ela menores de idade —, ao chegar à mídia, revela muitos outros. Pior que isso, redes misóginas, a machosfera, vêm à tona. Nelas, homens e jovens ensinam uns aos outros como violentar mulheres, como impor o sim ao não. Num mundo de tantas guerras, ao que parece, as mulheres são a pátria a ser abatida.

9.3.26

Um único tiro

Enquanto as bombas estouram a mando de boçais, a prima de mamãe, caminhando para os cem anos, faz lindos crochês e os vende numa lojinha improvisada à porta de sua casa. Nessa mesma hora, o doceiro de Tiradentes prepara os mil tachos de seu doce de leite sem açúcar, uma receita inventada por seu pai e que caiu como uma luva nesse mundo de controle severo dos níveis de glicose no sangue.

Enquanto as bombas inteligentes matam a cúpula do poder iraniano — e uma penca de civis, não poucas crianças entre eles —, meu netinho, vestido num parangolé de algum super-herói, comemora seus dez anos. No instante em que os contra-ataques são planejados e executados, eu e meus primos pelo lado do papai, alguns que eu nem conhecia, brindamos o encontro.

Enquanto os homens com cara de assassinos e não de chefes de estado regozijam de seus feitos de morte, um casal se extasia em seus corpos tão comuns e naquele instante alçados à beleza máxima. Paralelamente, um desportista passa creme nas pernas doloridas pelo esforço recente.

Enquanto outros homens do poder se dizem abismados com o ataque e a morte do líder de um país soberano — alguns desses homens travando suas próprias guerras sem grandes cuidados com a tal “ética” —, um entregador leva pizza a uma família de poucos luxos a não ser um pequeno assim, no final de semana. Em uma cidade aflita, mas não em guerra, tampouco em paz absoluta, uma futura mãe prepara o chá de bebê para sua filhota que chegará pronta para mudar o mundo.

Enquanto os financistas sentam-se à mesa de negociação para planejar estratégias para faturar bom dinheiro com a guerra — como se ela própria já não enchesse seus cofres —, um motorista de ônibus, ao desempenhar uma função adicional que passou a exercer depois da dispensa dos cobradores, se enrola com as moedas do troco. Numa outra mesa na qual não se negocia nada, o pai lembra ao filho que viver tem um quê de beleza.

Enquanto a guerra encobre os mil pecados de seu dono, uma senhora tenta recordar a música cantada por sua mãe quando lavava roupas na beira do rio e um jovem senhor, caçula em uma família de quatro filhos, pergunta à mãe, em pensamento, se não é espantoso ele já ter alcançado a idade de usufruir das pequenas prioridades — uma quase esmola — reservadas aos idosos.

Enquanto a guerra escreve roteiros de livros e filmes que irão levar às lágrimas a mim, a você e até mesmo a alguns dos que estão guerreando, um neném passa dias irritado com o dente que desponta aos poucos e uma calcinha fica esquecida no box do banheiro por uns bons quatro ou cinco dias.

Enquanto a guerra sobrepõe corpos mortos no meio das ruas do que resta da cidade cujos habitantes vão se endurecendo da dor, um jovem arranca uma flor vermelha e a leva à mãe da namorada e dois homens perdem-se em piadas bobas ao abrirem a segunda garrafa de vinho.

Enquanto a raça humana transita no ápice da irracionalidade, a chuva, anabolizada pela destruição da natureza, mata. Cumprindo seu ciclo numa sociedade insana, que muitos consideram evoluída, mata sem primeira ou segunda intenções.

Enquanto o mundo se avizinha do fim — guiado por ideias antigas e cruéis — um escritor covarde senta-se diante do computador e escreve uma crônica como se desse um tiro, um só e certeiro, no coração do tirano.