E ontem, o que foi aquilo diante do Marrocos, no estádio MetLife Stadium, em Nova Jersey? Eita, vamos parar logo por aqui. No momento em que escrevo, o jogo ainda não aconteceu, mas, confesso, ando tão pessimista com a seleção e pouco empolgado com o torneio que adianto o sofrimento. Mas isso talvez seja salutar, se ocorrer a catástrofe, já estou preparado. Se não, me embriago da alegria. Neste caso, olharei para trás e direi: ô, bobo, os meninos jogam muito, ainda é o futebol brasileiro.
Se
ainda não sei nada dos fatos de ontem, na Copa ou fora dela, devo procurar um
assunto para compartilhar com vocês neste domingo junino. Não quero escolher nenhum
obscuro, mas, vejam só, estamos sendo tão torpedeados que é difícil fugir deles.
A
mãe do Henry, aquele menininho assassinado em casa, até aqui vista como
cúmplice do padrasto condenado com uma pena adequada, foi liberada. A
justificativa para isso requer que a gente vista o fardão de um juiz. Primeiro,
o crime da ré mudou de figura. Entenderam que ela não atuou de forma
premeditada, mas que contribuiu indiretamente — ou seja, não foi crime doloso,
mas culposo. Crimes culposos não são julgados pelo júri, então foi a juíza que
— por estar diante de uma ré primária, que, por ser mulher e mãe, num mundo
patriarcal, não goza da proteção normalmente concedida aos homens — lhe
concedeu o perdão jurídico. Mais que isso, viu a reação pública como
desmesurada. Será? Me surpreende diante das evidências que circulavam em torno
do caso. Pior de tudo, Henry está morto.
Mas
as evidências podem parecer óbvias por quererem que acreditemos nelas. É nossa característica
meio fofoqueira. Eu falo, alguém me ouve e fala para alguém, que ouve e passa
para mais alguém. Posso não ter compreendido — ou ter interesse numa certa
versão —, e com certeza outras incompreensões e más intenções serão
acrescentadas nesse telefone sem fio — ah, crianças, essa expressão já fez
sentido, há muito não faz, mas, por favor, esforcem-se um pouco e a
compreenderão (de qualquer modo, deixem que eu a use sem grande questionamento).
Continuo meu argumento: desde o surgimento da imprensa, os jornais dão conta de
fazer o tititi circular com cara de verdade. Quer dizer, antes da invasão das
redes sociais cumpriam esse papel, uma vez que a eles se dava essa espécie de
autoridade. Agora, com a fúria das redes, temperada pelas trapaças da
inteligência artificial, o jogo mudou e estranhamente estamos vivendo num mundo
parecido com aquele do disse me disse entre vizinhos: todo mundo fala, ninguém
ouve. A justiça, carambola, tem mesmo de pisar em ovos, caso contrário é melhor
dizer que lava as mãos. Não para crucificar o Cristo, mas para liberar os
possíveis ladrões.
Terei
virado sociólogo, pensador, sábio? Se aconteceu, foi à revelia de mim. Continuo
aquele aéreo de sempre, cavoucando o nada para encontrar uma palavrinha que
rime com outra ou uma frase que dê sentido à anterior. Fiel a meus princípios,
prometo que a partir daqui não serei o vidente pilantra nem o intelectual de
quinta categoria.
Anunciarei
uma boa notícia.
Hoje é dia 14 e ainda tenho uns caraminguás na conta, não é um milagre?