Peguei uma rebarba do movimento hippie. Quer dizer, eu via a coisa acontecendo, embora não pertencesse a ela. Para falar a verdade, na minha pacata e conservadora cidade não havia nenhum hippie. Ou, se houve, achou melhor tirar o time de campo, mudar-se para um grande centro e lá desfrutar da filosofia da turma.
Uma
filosofia? Sim, paz e amor, essa conjunção simples e difícil. Mais que
filosofia — ou menos, não sei —, era uma utopia, ou Utopia, como queiram. O
mundo já se permitiu sonhar em acabar com a guerra, as guerras, amar-se
livremente, viver em comunhão com a natureza. As más línguas blasfemavam contra
esse mundo encantado, espalhavam que nele não haveria lugar para banho e os
hippies seriam assim sujinhos. O que é a sujeira diante da guerra? Quem vive em
comunhão com a natureza, se banha, os portugueses aprenderam isso tão logo
puseram os pés por aqui. Para dizer a verdade, se espantaram com nossos
habitantes originários, nus e limpos. Pois então, os hippies estavam mais para
indígenas do que para colonizadores.
A
utopia defende a igualdade, a fraternidade e a igualdade sem precisar decapitar
ninguém.
Falo
em decapitação e me meto na outra parte desta crônica. Caminhava pela
espetacular pista entre Botafogo e Flamengo — aquela parte onde um tanto de
natureza original vive em harmonia com a obra da arquitetura, o Parque do
Aterro —, quando um corredor passou por mim. Quer dizer, vários corredores me
ultrapassam, ando em modo acelerado, mas não tão acelerado assim. Nessa minha
velocidade de cágado aflito, ainda paro e aprecio o Pão de Açúcar, a Enseada de
Botafogo, o céu, melhor dizendo, os céus: hoje vermelho, amanhã cinza, no
sábado azulíssimo. Faço um parêntese: ando escrevendo uma novela cujo
personagem gosta do céu azul, sem nuvem, sem pôr do sol. Não sou como ele, mas
o entendo.
Onde
eu estava mesmo? Em que parte da crônica, quero dizer, pois sei que contava de
uma caminhada entre Botafogo e Flamengo. Ah, sim, um corredor passou por mim.
Nas costas dele, a frase na camiseta dizia: “f*ck your peace” — assim mesmo,
com “*” no lugar do “u”. Ora, vejam só. Não basta esfaquear a velha utopia e
sua esperança de paz, tem de usar o inglês.
O
rapaz é a bandeira desses dias atuais nos quais triunfou a guerra, a violência,
a distopia, ou Distopia, como queiram. É um mundo medonho. É um mundo cruel. É
um mundo que não é de Deus, embora em nome dele se levantem muitas vozes
obscuras.
Meus sessenta e quatro anos me dizem que ainda verei atrocidades imensas, mas também que não demora tanto assim para ser chamado para o coração da terra — não para o inferno, que não existe, nem para o céu, que, enquanto morada eterna, tampouco existe —, deixando vocês aí com o abacaxi na mão.