5.4.26

Ziguezagueando

 Estive lendo nos últimos dias “Pequenos fantasmas”, de Humberto Werneck, lançado pela Seja Breve Edições, uma série de contos escritos entre o fim da década de 1960 e o início da seguinte, ou seja, quando eu era menino. De certo modo, aquele mundo (ainda bem rural, com a classe média vivendo em casas, mesmo em cidades grandes, mulheres estudando em colégios que não admitiam homens entre os alunos) ruiu, mesmo assim o caldo humano é o de sempre: a criança descobrindo a vida, os primeiros amores, a reação diante da morte, enfim, tudo isso que se repete desde os tempos das cavernas, embora em ritmos e formas diferentes e, no caso, bem tratado pelo autor mais conhecido como cronista. Tive a impressão de que pelo menos dois contos remetem ao famoso “Casa tomada”, de Cortázar. Não é o caso de resenhar nada aqui, mas de pontuar que Werneck andou transitando no mundo mágico, influenciado também, imagino, por seu amigo, incentivador e mestre, Murilo Rubião.

Talvez por reencontrar um mundo parecido com aquele no qual cresci e fazer a ligação entre o escritor mineiro e Cortázar, essa leitura me levou à minha colega de ginásio Argentina. Argentina era ou é – nunca mais soube dela – uma negra de tal maneira retinta que não era raro eu ficar olhando para ela e me distrair das aulas. Outra característica dela era o silêncio: não me recordo de ter ouvido alguma vez sua voz. Enfim, em torno dela se instalava algo de mistério.

A leitura nos faz perder o controle, vejam onde fui parar. Mas é irônico esse caminho, pois tem muito argentino envolvido em episódios racistas no Brasil. Agora mesmo há uma mulher, Agostina Páez, envolvida em um episódio racista no Brasil, pelo qual ficou presa e foi recentemente liberada — com o que pôde voltar a seu país e protagonizar cenas terríveis de racismo. Há muitas explicações ou pseudoexplicações sobre o fato de alguns de nossos vizinhos se comportarem tão mal, mas não faço sociologia, sou apenas um cronista ziguezagueando em torno de ideias revolutas.

Havia uma campanha na TV educativa bem interessante: um repórter saía à rua e perguntava às pessoas onde elas escondiam o racismo. Isso, isso mesmo, nós, brancos, pero no mucho (afinal a mestiçagem está na origem da nossa formação), fomos educados de forma racista. É preciso então lutar contra isso todos os dias. Quem bate no peito e diz não ser racista por ter um amigo negro só está tentando esconder o preconceito.

Seja como for, ainda pequeno convivi e fui amigo de muitos negros: os filhos da Dita (que trabalhava em nossa casa; nada a se espantar, não é?), a família do Antônio José, motorista de táxi que vivia duas casas abaixo da nossa, além da própria Argentina. Essa convivência quase diária por si só não me livrou de me tornar racista, mas me fez, primeiro, desconfiar e, depois, ter certeza de que não há nada que justifique o racismo. Meus amigos eram e são inteligentes, bem-humorados, descolados, audazes, alguns, como a Argentina, quietos. Enfim, humanos.

23.3.26

Outras guerras

Dia 8 de março, fui à manifestação pelo Dia Internacional da Mulher, que, no Rio, estava bonita, ainda que não com o número de pessoas — particularmente de homens — ideal. Hoje, depois que as mulheres, em luta, conquistaram tantos espaços, não é possível cruzar os braços e achar que toda a violência que sofrem sejam casos isolados, coisa de homem desajustado. Não é, não. O mundo anda bem complicado, e a ascensão dessa direita adepta da guerra e da anticiência, xenofóbica e misógina reflete o ressentimento masculino. No caso do senhor Laranja estadunidense, a reação vem com o que há de mais moderno em termos de armas de destruição, não poupando sequer as crianças, haja vista que um dos alvos americanos no Irã foi uma escola infantil para meninas. O presidente americano faz o trabalho sujo enquanto a maioria de nós, homens, se senta à sombra à espera do novo dia, que na realidade é o velho, o velhíssimo, impossível de ser reproduzido.

Minha amiga Graça, dia desses, me mandou um post reportando o primeiro concurso de miss travesti em Minas Gerais, ocorrido em 1966. Ela conheceu, conviveu até, com a ganhadora, Sofia de Carlo. Interessante é que a vice-campeã, Erika, é minha conterrânea. Posso estar enganado, mas é uma pessoa apagada da história municipal, o que é compreensível, mas não justificável. O que terá sido dela? Em que rua nasceu e cresceu? Continua em Passos (imagina a barra que era naquela época, se ainda é hoje)? Está viva? As travestis, as trans e todas as pessoas nesse grande leque LGBTQIAPN+ formam outra população na mira dos machos em modo vingança.

Diante da notícia anterior, brinco que Passos faz parte da vanguarda, mas, na verdade, a cidade, como tantas outras, está inserida no cenário da violência. No final de semana em que se celebrava o Dia da Mulher — me corrijo, é dia da luta, ligado a momentos de protagonismo feminino nas questões trabalhistas —, uma jovem de 15 anos levou dezessete facadas na zona rural do município. Não houve assalto, ela não sofria ameaças, tudo indica tratar-se de mais um feminicídio. Triste.

É preciso que não percamos de vista essas histórias. O estupro coletivo acontecido no Rio de Janeiro — quatro rapazes armaram uma cilada para a ex-namorada de um deles; ele e ela menores de idade —, ao chegar à mídia, revela muitos outros. Pior que isso, redes misóginas, a machosfera, vêm à tona. Nelas, homens e jovens ensinam uns aos outros como violentar mulheres, como impor o sim ao não. Num mundo de tantas guerras, ao que parece, as mulheres são a pátria a ser abatida.

9.3.26

Um único tiro

Enquanto as bombas estouram a mando de boçais, a prima de mamãe, caminhando para os cem anos, faz lindos crochês e os vende numa lojinha improvisada à porta de sua casa. Nessa mesma hora, o doceiro de Tiradentes prepara os mil tachos de seu doce de leite sem açúcar, uma receita inventada por seu pai e que caiu como uma luva nesse mundo de controle severo dos níveis de glicose no sangue.

Enquanto as bombas inteligentes matam a cúpula do poder iraniano — e uma penca de civis, não poucas crianças entre eles —, meu netinho, vestido num parangolé de algum super-herói, comemora seus dez anos. No instante em que os contra-ataques são planejados e executados, eu e meus primos pelo lado do papai, alguns que eu nem conhecia, brindamos o encontro.

Enquanto os homens com cara de assassinos e não de chefes de estado regozijam de seus feitos de morte, um casal se extasia em seus corpos tão comuns e naquele instante alçados à beleza máxima. Paralelamente, um desportista passa creme nas pernas doloridas pelo esforço recente.

Enquanto outros homens do poder se dizem abismados com o ataque e a morte do líder de um país soberano — alguns desses homens travando suas próprias guerras sem grandes cuidados com a tal “ética” —, um entregador leva pizza a uma família de poucos luxos a não ser um pequeno assim, no final de semana. Em uma cidade aflita, mas não em guerra, tampouco em paz absoluta, uma futura mãe prepara o chá de bebê para sua filhota que chegará pronta para mudar o mundo.

Enquanto os financistas sentam-se à mesa de negociação para planejar estratégias para faturar bom dinheiro com a guerra — como se ela própria já não enchesse seus cofres —, um motorista de ônibus, ao desempenhar uma função adicional que passou a exercer depois da dispensa dos cobradores, se enrola com as moedas do troco. Numa outra mesa na qual não se negocia nada, o pai lembra ao filho que viver tem um quê de beleza.

Enquanto a guerra encobre os mil pecados de seu dono, uma senhora tenta recordar a música cantada por sua mãe quando lavava roupas na beira do rio e um jovem senhor, caçula em uma família de quatro filhos, pergunta à mãe, em pensamento, se não é espantoso ele já ter alcançado a idade de usufruir das pequenas prioridades — uma quase esmola — reservadas aos idosos.

Enquanto a guerra escreve roteiros de livros e filmes que irão levar às lágrimas a mim, a você e até mesmo a alguns dos que estão guerreando, um neném passa dias irritado com o dente que desponta aos poucos e uma calcinha fica esquecida no box do banheiro por uns bons quatro ou cinco dias.

Enquanto a guerra sobrepõe corpos mortos no meio das ruas do que resta da cidade cujos habitantes vão se endurecendo da dor, um jovem arranca uma flor vermelha e a leva à mãe da namorada e dois homens perdem-se em piadas bobas ao abrirem a segunda garrafa de vinho.

Enquanto a raça humana transita no ápice da irracionalidade, a chuva, anabolizada pela destruição da natureza, mata. Cumprindo seu ciclo numa sociedade insana, que muitos consideram evoluída, mata sem primeira ou segunda intenções.

Enquanto o mundo se avizinha do fim — guiado por ideias antigas e cruéis — um escritor covarde senta-se diante do computador e escreve uma crônica como se desse um tiro, um só e certeiro, no coração do tirano.

23.2.26

Aqueles carnavais

Já fui do samba, ainda que do samba mineiro, lá do interior, onde o forte são as congadas. Seja como for, saí em escola de samba e em blocos feitos por minha turma. Fizemos coisas bem interessantes, mas duvido que elas tenham ficado na memória da cidade.

Esses blocos eram sofisticados, não pensem em esculhambação. Nós pedíamos a grandes artistas que nos dessem um tema e desenhassem as fantasias. Contratávamos costureiras para confeccioná-las, enquanto nós acompanhávamos de muito perto a produção dos acessórios. De nossos três blocos mais bonitos — Feiticeiros do Alto Xingu, Mosqueteiros do Rei e Bumba-meu-boi — o castelo dos Mosqueteiros foi montado num galpão de uma concessionária de veículos, de propriedade de um dos componentes; a colagem do papel machê nos bois feitos de bambu (por um cesteiro tradicional) aconteceu num barracão na casa de outro componente; e a preparação do carro dos Feiticeiros (com um caldeirão e tudo) em algum canto perdido na memória.

Os momentos de preparação e desfile pecavam pelo nosso mau comportamento. Éramos terríveis. Quando pensávamos em maneirar, o pintor do castelo tirava o chapéu e nos oferecia um aditivo escondido ali. Sem contar que o carnaval nos convidava a novas experimentações, e algumas delas viriam a cobrar um preço alto de muitos de nós. Lembro-me de certa vez em que um radialista — o mais famoso da cidade e "dono" dos desfiles de rua — disse que "chupávamos bolinhas". Bolinhas, para quem não sabe, eram pequenos comprimidos que, misturados à bebida, nos davam resistência e coragem; podemos chamá-las de ancestrais das atuais "balas".

Bem, exigimos uma entrevista para responder a tamanha afronta. Sugeri ao meu amigo escalado para nos representar — por coincidência apelidado de Bola (por ter sido gordinho na infância) — que explicasse ao radialista que as bolinhas eram tomadas, e não chupadas. Enfim, que nos levassem a nocaute, mas sem espalhar falsas informações. Não conseguimos espaço no programa, se não me falha a memória.

No desfile dos Mosqueteiros, um primo meu, na figura do Cardeal Richelieu, levou o personagem tão a sério que apontava para os policiais na avenida e dizia que mandaria prendê-los. Quase fomos presos, isso sim. Nesse desfile, éramos o único concorrente na categoria luxo e perdemos — quer dizer, fomos desclassificados. Em protesto, queimamos nossas fantasias na frente dos jurados. Já no desfile dos Feiticeiros, o fogo do caldeirão atingiu as cordas da roupa do cacique, e a rua começou a gritar: "É fogo, é fogo!". Diante das primeiras manifestações, pensávamos estar abafando e demoramos a perceber que as chamas quase tomavam o corpo do colega. Perguntado se não sentira o quente, ele disse: "Que quente?"

Outro desfile sem prêmios, apesar da beleza das fantasias e até mesmo de sua importância histórica. Nesse dia, logo depois, caí do carro alegórico que nos levava a algum destino incerto. Passei o carnaval todo esfolado, o que não me impediu de pintar e bordar. A vodca deu a força necessária, nas palavras de um amigo que viria a se tornar veterinário. 

Hoje vejo o carnaval de longe e assustadoramente careta. Alguns dirão, “careta, é?” Falam das minhas cervejinhas. Coitadas, são, quando não entregues por aplicativos, vendidas em mercado, portanto os perigos ligados ao seu consumo parcimonioso são ser atropelado ao atravessar a rua para comprá-las ou levar um choque ao colocá-las para gelar. O carnaval, meu povo, fazendo um paralelo não descabido com o amor escrito pelo Chico e cantado pela Gal, é uma página virada, descartada do meu folhetim.


A primeira escola de samba, o primeiro rabo de galo.


9.2.26

Um mergulho em meu sonho recente

Até agora não me transformei em uma barata — ou sei lá que inseto era aquele em que Gregor Samsa se viu numa certa manhã em Praga —, mas tenho acordado igualmente de sonhos intranquilos. É verdade que me esqueço da maioria deles, embora alguma coisa, um sabor, um aperto, um riso, me acompanhe ao longo do dia ou até mesmo por alguns dias. Não sou de sonhar com papai e mamãe, mas eles andaram por aqui nesse janeiro de clima oscilante, com dias até frios.

Estranho, estranho mesmo foi um dia desses acordar com uma música de bastante sucesso nos anos 1970 e associada aos militares. Se o que sobreviveu daqueles tempos foram as canções de protesto, muitas censuradas, meu HD tratou de registrar uma coisa brega, que enaltecia as belezas do país, tudo que os ditadores queriam. Eu te amo, meu Brasil, dois irmãos, um que dizia ter o dom, o outro que se pensava Ravel, cantavam. Um horror. Há um detalhe sobre a dupla. Tentando fugir dessa associação com a ditadura, fizeram uma música contestatória, quer dizer, na letra os grandes maltratavam os pequenos e, como conclusão, não passávamos de animais irracionais. Com isso, não conseguiram se aproximar da esquerda e distanciaram-se da direita. A vida é cruel.

Seja como for, acordei com um de seus hinos laudatórios a esta pátria, trópico abençoado, e passei o dia com aquela melodia que, se chamada de chiclete, seria um elogio. Sei bem que aqui não é um consultório psicanalítico, mas, devo confessar, o eco da trilha sonora daquele sonho chamou a atenção da parte diurna do cérebro, a que relativiza muito a importância do sonho. Qual o significado disso, monstros meus?

Uma hipótese é a percepção de que regimes autoritários podem tornar-se realidade em países muito orgulhos de sua democracia. Os EUA estão agindo no desespero, interna e externamente. Observo as notícias ao longo do dia, emburaco em sonhos opressores, acordo com músicas estúpidas. Afinal, sou um sujeito preocupado com os rumos do mundo e tenho medo de que o presidente norte-americano, com armas capazes de destruir mil vezes o planeta, invada o meu, quer dizer, o nosso quintal.

Pode ser também que, ao me aproximar de uma idade redonda, 65 anos, comece a visitar minha vida inteira e nela encontre aquele período conturbado no qual, nos programas de televisão dominicais, não era raro a malfadada duplinha se apresentar. As televisões sempre fazem um jogo dúbio, nem sempre tão dúbio assim. Seria então apenas uma coisa natural, e talvez mais tarde eu venha a sonhar com as músicas de protesto, quem sabe “Para não dizer que não falei das flores”, do Vandré, que eu e uns amigos cantávamos bem baixinho e à noite numa praça do interior de Minas Gerais.

Uma terceira possibilidade, essa mais cruel, é que retive nas minhas retinas cansadas, nas minhas elipses em curto-circuito, coisas que não quero confessar que gostava. Mas será o Benedito? Eu, aquele menino com faros canhotos numa terra conservadora, poderia gostar daquilo? Gente, gente, somos um caixinha de quinquilharias de surpresas amarfanhadas. Cruz, credo.