Já fui do samba, ainda que do samba mineiro, lá do interior, onde o forte são as congadas. Seja como for, saí em escola de samba e em blocos feitos por minha turma. Fizemos coisas bem interessantes, mas duvido que elas tenham ficado na memória da cidade.
Esses blocos eram sofisticados, não pensem em esculhambação.
Nós pedíamos a grandes artistas que nos dessem um tema e desenhassem as
fantasias. Contratávamos costureiras para confeccioná-las, enquanto nós
acompanhávamos de muito perto a produção dos acessórios. De nossos três blocos mais
bonitos — Feiticeiros do Alto Xingu, Mosqueteiros do Rei e Bumba-meu-boi — o
castelo dos Mosqueteiros foi montado num galpão de uma concessionária de
veículos, de propriedade de um dos componentes; a colagem do papel machê nos bois
feitos de bambu (por um cesteiro tradicional) aconteceu num barracão na casa de
outro componente; e a preparação do carro dos Feiticeiros (com um caldeirão e
tudo) em algum canto perdido na memória.
Os momentos de preparação e desfile pecavam pelo nosso mau
comportamento. Éramos terríveis. Quando pensávamos em maneirar, o pintor do
castelo tirava o chapéu e nos oferecia um aditivo escondido ali. Sem contar que
o carnaval nos convidava a novas experimentações, e algumas delas viriam a
cobrar um preço alto de muitos de nós. Lembro-me de certa vez em que um
radialista — o mais famoso da cidade e "dono" dos desfiles de rua —
disse que "chupávamos bolinhas". Bolinhas, para quem não sabe, eram pequenos
comprimidos que, misturados à bebida, nos davam resistência e coragem; podemos
chamá-las de ancestrais das atuais "balas".
Bem, exigimos uma entrevista para responder a tamanha
afronta. Sugeri ao meu amigo escalado para nos representar — por coincidência
apelidado de Bola (por ter sido gordinho na infância) — que explicasse ao
radialista que as bolinhas eram tomadas, e não chupadas. Enfim, que nos levassem
a nocaute, mas sem espalhar falsas informações. Não conseguimos espaço no
programa, se não me falha a memória.
No desfile dos Mosqueteiros, um primo meu, na figura do Cardeal
Richelieu, levou o personagem tão a sério que apontava para os policiais na
avenida e dizia que mandaria prendê-los. Quase fomos presos, isso sim. Nesse
desfile, éramos o único concorrente na categoria luxo e perdemos — quer dizer,
fomos desclassificados. Em protesto, queimamos nossas fantasias na frente dos
jurados. Já no desfile dos Feiticeiros, o fogo do caldeirão atingiu as cordas
da roupa do cacique, e a rua começou a gritar: "É fogo, é fogo!".
Diante das primeiras manifestações, pensávamos estar abafando e demoramos a
perceber que as chamas quase tomavam o corpo do colega. Perguntado se não
sentira o quente, ele disse: "Que quente?"
Outro desfile sem prêmios, apesar da beleza das fantasias e
até mesmo de sua importância histórica. Nesse dia, logo depois, caí do carro
alegórico que nos levava a algum destino incerto. Passei o carnaval todo
esfolado, o que não me impediu de pintar e bordar. A vodca deu a força necessária,
nas palavras de um amigo que viria a se tornar veterinário.
Hoje vejo o carnaval de longe e assustadoramente careta.
Alguns dirão, “careta, é?” Falam das minhas cervejinhas. Coitadas, são, quando
não entregues por aplicativos, vendidas em mercado, portanto os perigos ligados
ao seu consumo parcimonioso são ser atropelado ao atravessar a rua para
comprá-las ou levar um choque ao colocá-las para gelar. O carnaval, meu povo, fazendo
um paralelo não descabido com o amor escrito pelo Chico e cantado pela Gal, é
uma página virada, descartada do meu folhetim.
