15.6.26

Mãos lavadas

 E ontem, o que foi aquilo diante do Marrocos, no estádio MetLife Stadium, em Nova Jersey? Eita, vamos parar logo por aqui. No momento em que escrevo, o jogo ainda não aconteceu, mas, confesso, ando tão pessimista com a seleção e pouco empolgado com o torneio que adianto o sofrimento. Mas isso talvez seja salutar, se ocorrer a catástrofe, já estou preparado. Se não, me embriago da alegria. Neste caso, olharei para trás e direi: ô, bobo, os meninos jogam muito, ainda é o futebol brasileiro.

Se ainda não sei nada dos fatos de ontem, na Copa ou fora dela, devo procurar um assunto para compartilhar com vocês neste domingo junino. Não quero escolher nenhum obscuro, mas, vejam só, estamos sendo tão torpedeados que é difícil fugir deles.

A mãe do Henry, aquele menininho assassinado em casa, até aqui vista como cúmplice do padrasto condenado com uma pena adequada, foi liberada. A justificativa para isso requer que a gente vista o fardão de um juiz. Primeiro, o crime da ré mudou de figura. Entenderam que ela não atuou de forma premeditada, mas que contribuiu indiretamente — ou seja, não foi crime doloso, mas culposo. Crimes culposos não são julgados pelo júri, então foi a juíza que — por estar diante de uma ré primária, que, por ser mulher e mãe, num mundo patriarcal, não goza da proteção normalmente concedida aos homens — lhe concedeu o perdão jurídico. Mais que isso, viu a reação pública como desmesurada. Será? Me surpreende diante das evidências que circulavam em torno do caso. Pior de tudo, Henry está morto.

Mas as evidências podem parecer óbvias por quererem que acreditemos nelas. É nossa característica meio fofoqueira. Eu falo, alguém me ouve e fala para alguém, que ouve e passa para mais alguém. Posso não ter compreendido — ou ter interesse numa certa versão —, e com certeza outras incompreensões e más intenções serão acrescentadas nesse telefone sem fio — ah, crianças, essa expressão já fez sentido, há muito não faz, mas, por favor, esforcem-se um pouco e a compreenderão (de qualquer modo, deixem que eu a use sem grande questionamento). Continuo meu argumento: desde o surgimento da imprensa, os jornais dão conta de fazer o tititi circular com cara de verdade. Quer dizer, antes da invasão das redes sociais cumpriam esse papel, uma vez que a eles se dava essa espécie de autoridade. Agora, com a fúria das redes, temperada pelas trapaças da inteligência artificial, o jogo mudou e estranhamente estamos vivendo num mundo parecido com aquele do disse me disse entre vizinhos: todo mundo fala, ninguém ouve. A justiça, carambola, tem mesmo de pisar em ovos, caso contrário é melhor dizer que lava as mãos. Não para crucificar o Cristo, mas para liberar os possíveis ladrões.

Terei virado sociólogo, pensador, sábio? Se aconteceu, foi à revelia de mim. Continuo aquele aéreo de sempre, cavoucando o nada para encontrar uma palavrinha que rime com outra ou uma frase que dê sentido à anterior. Fiel a meus princípios, prometo que a partir daqui não serei o vidente pilantra nem o intelectual de quinta categoria.

Anunciarei uma boa notícia.

Hoje é dia 14 e ainda tenho uns caraminguás na conta, não é um milagre?

1.6.26

Arco da derrota

Peguei uma rebarba do movimento hippie. Quer dizer, eu via a coisa acontecendo, embora não pertencesse a ela. Para falar a verdade, na minha pacata e conservadora cidade não havia nenhum hippie. Ou, se houve, achou melhor tirar o time de campo, mudar-se para um grande centro e lá desfrutar da filosofia da turma.



Uma filosofia? Sim, paz e amor, essa conjunção simples e difícil. Mais que filosofia — ou menos, não sei —, era uma utopia, ou Utopia, como queiram. O mundo já se permitiu sonhar em acabar com a guerra, as guerras, amar-se livremente, viver em comunhão com a natureza. As más línguas blasfemavam contra esse mundo encantado, espalhavam que nele não haveria lugar para banho e os hippies seriam assim sujinhos. O que é a sujeira diante da guerra? Quem vive em comunhão com a natureza, se banha, os portugueses aprenderam isso tão logo puseram os pés por aqui. Para dizer a verdade, se espantaram com nossos habitantes originários, nus e limpos. Pois então, os hippies estavam mais para indígenas do que para colonizadores.

A utopia defende a igualdade, a fraternidade e a igualdade sem precisar decapitar ninguém.

Falo em decapitação e me meto na outra parte desta crônica. Caminhava pela espetacular pista entre Botafogo e Flamengo — aquela parte onde um tanto de natureza original vive em harmonia com a obra da arquitetura, o Parque do Aterro —, quando um corredor passou por mim. Quer dizer, vários corredores me ultrapassam, ando em modo acelerado, mas não tão acelerado assim. Nessa minha velocidade de cágado aflito, ainda paro e aprecio o Pão de Açúcar, a Enseada de Botafogo, o céu, melhor dizendo, os céus: hoje vermelho, amanhã cinza, no sábado azulíssimo. Faço um parêntese: ando escrevendo uma novela cujo personagem gosta do céu azul, sem nuvem, sem pôr do sol. Não sou como ele, mas o entendo.

Onde eu estava mesmo? Em que parte da crônica, quero dizer, pois sei que contava de uma caminhada entre Botafogo e Flamengo. Ah, sim, um corredor passou por mim. Nas costas dele, a frase na camiseta dizia: “f*ck your peace” — assim mesmo, com “*” no lugar do “u”. Ora, vejam só. Não basta esfaquear a velha utopia e sua esperança de paz, tem de usar o inglês.

O rapaz é a bandeira desses dias atuais nos quais triunfou a guerra, a violência, a distopia, ou Distopia, como queiram. É um mundo medonho. É um mundo cruel. É um mundo que não é de Deus, embora em nome dele se levantem muitas vozes obscuras.

Meus sessenta e quatro anos me dizem que ainda verei atrocidades imensas, mas também que não demora tanto assim para ser chamado para o coração da terra — não para o inferno, que não existe, nem para o céu, que, enquanto morada eterna, tampouco existe —, deixando vocês aí com o abacaxi na mão.

18.5.26

Em fuga

Em um mundo em guerra, é preciso pensar em pelo menos duas coisas. A primeira é o que fazer se as bombas começarem a ser despejadas por aqui, nas nossas fuças. A segunda é procurar se distrair, não dá para ficar ligado nessa loucura o tempo todo, caso contrário a bomba estoura dentro do peito e o velho coração não aguenta.

Se atingirem nosso quintal, eis a verdade, não estaremos apenas mais angustiados que o goleiro na hora do gol, estaremos liquidados. Fico boquiaberto ao ver drones atirando não sei onde, mísseis viajando milhares de quilômetros e, antes de atingirem o alvo, serem bloqueados por interceptadores. É um jogo de videogame com sangue e tristeza na fase final. Nosso país, até onde sei, não tem grandes recursos nem de defesa nem de ataque.

No Brasil, os que vivem fora do Rio – mais ou menos noventa por cento da população – têm uma visão aumentada da violência fluminense e acham que já temos túneis de escape e não sei mais o quê. Não é verdade. Apesar de mãos sujas estarem assinando leis e comandando o orçamento nas instituições de poder, a violência está concentrada na periferia da Cidade Maravilhosa, envolvendo o Grande Rio, e é muito seletiva. As balas, em obediência a dedos muito bem treinados, têm preferência pelos garotos pretos. Portanto, não estamos em situação privilegiada – oh, que ironia seria isso! – em relação ao resto do Brasil. Ou seja, meus amigos, façam suas conexões ao divino de sua crença, pois não temos controle sobre a engrenagem do mundo, mesmo com a nossa boa diplomacia, que o governo anterior quase destruiu.

Diante de situação tão desesperadora, é preciso se distrair. A festa, como se diz, não é alienação, é proteção, terapia, apaziguamento. Festejemos. Eu festejo saindo com amigos, jogando conversa fora – aqui e ali falando sério, pensando o mundo, que por sua vez nos ignora –, ouvindo música e principalmente lendo e escrevendo.





Há uma diferença entre ler e escrever. Escrever exige uma busca de algo a ser dito, então dificilmente se escapa dessa barafunda na qual nos encontramos. Ler requer uma abertura, ir lá no que o outro escreveu em busca de diálogo. Leio no momento “O jogo da Amarelinha”, do Cortázar, um mais que romance, um ensaio sobre o romance, uma destruição do romance, mas que, assim mesmo, conta a história de um portenho que se encontra em Paris e, depois de expulso da França, volta a Buenos Aires. É um sujeito que não é simpático, aliás, nem um pouco, mas, ao carregar tantas questões em sua trajetória meio sem pé nem cabeça, nos carrega para bem próximo dele. O autor argentino tinha a manha e, topetudo, enfrentava a grande literatura mundial no braço, de igual para igual.

Ler um livro como o romance argentino nos distrai, mas não nos livra da angústia, que, no extremo, leva à guerra. Então ler nem sempre se parece a uma festa. A menos que você recorra à crônica. Não a qualquer uma – esta, por exemplo, não serve –, mas àquelas nas quais seus escritores se entregam às minudências da vida. Rubem Braga é mestre nisso. Clarice Lispector também, às vezes. Fernando Sabino pesponta e chuleia assuntos triviais. Temos uma longa tradição, e ouso dizer que a crônica, tendo ou não nascido por aqui, é brasileiríssima e se parece às nossas forças armadas em um aspecto: não tem ataque nem defesa muito fortes. Ela está na fronteira da inutilidade, de onde nada se espera e, não raramente, nos socorre de alguma “dor canalha”, como dizia Walter Franco.

Na revista Rubem, além de nós, seus colunistas, você encontra uma aba com grandes crônicas brasileiras: além dos três já citados, Nélida Piñon, Paulo Mendes Campos, Cecília Meireles, entre outras e outros, estão lá, num pot-pourri delicioso. Num site incrível, Portal da Crônica Brasileira, o leitor pode esquecer até dos boletos, aqueles contra os quais travamos nossa guerrinha diária.

4.5.26

Filho do carnaval

Sempre brinco que, por ter nascido em novembro, sou filho do carnaval. A terça gorda de 1961 foi no dia 14 de fevereiro, nove meses exatos antes do meu nascimento, em 17 de novembro, e um dia depois do aniversário do meu pai. Essa hipótese ganha força quando esclareço que sou o caçula, numa família de quatro filhos, e que derrubei do galho minha irmã cinco anos mais velha do que eu. Sou então o último suspiro reprodutivo do casal, ele com quarenta e dois anos e ela com trinta e oito.

Dá para imaginar esse dia: alguém ficou com os três filhos, e papai e mamãe se permitiram uns drinques, ir ao clube, onde se entregaram à alegria comandada pelas marchinhas daquele tempo. "Oh, jardineira, por que estás tão triste?", "Allah-la-ô, ô-ô-ô, ô-ô-ô, mas que calor, ô-ô-ô, ô-ô-ô". Brincaram, jogaram lança-perfume uns nos outros, comentaram sobre o exagero da fantasia de fulano, da pouca intimidade carnavalesca de sicrano. Ergueram milhares de brindes ao aniversariante da véspera.

Encontrando tudo tranquilo em casa, fecharam-se no quarto. Dando-se a um encanto que quatorze anos de casamento – muitos deles enfrentando dificuldades, financeiras, inclusive – nem sempre favorecia, celebraram a vida carnal, nossa essência, enfim.

Essa tese esbarra em um problema. Minha mãe dizia que nasci de dez meses. Aliás, nascemos, seus quatro filhos. Tudo indica que ela tinha diabetes gestacional, o que não se conhecia à época. Reforça essa hipótese o fato de que todos chegamos ao mundo grandes; eu, exageradamente, com cinco quilos e seiscentos.

Nessa segunda hipótese, o calendário tem de ser recuado em quatro luas, a um janeiro no qual não vejo nenhum motivo para o casal se embriagar de vinho e desejo. A história perde um pouco do brilho, mas é bom mirar o fato de que naquele dia o encanto visitou o casal. Imagino que mamãe tenha distraído os filhos em férias, montado um quebra-cabeça com os mais velhos, onze e nove anos, e contado história para a então caçulinha, quatro anos. Depois disso, o casal se trancou no quarto e uma carícia cheia de segundas intenções partiu da mão de um ou de outro.

Conto tudo isso sem uma razão, impulsionado por sonhos que tive nos últimos dias. Em um esteve meu p ai, não me lembro bem em que situação, noutro, minha mãe. Ela estava sentada na cadeira que ficava em seu quarto, e eu lhe entregava um neném lindo, filho de um casal de amigos que não tem nem quer ter filhos.




20.4.26

Ares de abril

 


Abril, ao abandonar o verão, promete temperaturas amenas, o que nem sempre cumpre. O de 2026, quente e já pelo meio, acontece em um ano no qual o menino levado, El Niño, vai aprontar das suas. Ouvi de um especialista que ainda não se pode prever catástrofes — tempos mais secos no Norte e chuvosos no Sul, sim —, mas é certa uma elevação considerável da temperatura a partir de setembro.

Por motivos alheios ao clima, tenho um acerto de contas com este mês em que dois irmãos, um sobrinho-afilhado, duas sobrinhas-netas e alguns amigos fazem aniversário, pois de cara nos levou aquela amiga – escritora, tradutora e, corajosa, também editora – um pouco mais velha que eu, portanto nem jovem nem idosa. Não, senhor, não é assim que se inicia seu mandato no calendário. Não é assim que se comporta. Sua função é nos dar mãos fortes para muitos parabéns e, insisto, aliviar o calor, nos ajudando a poupar o dinheiro gasto com o ventilador ou o ar-condicionado.

O mês de arianos e taurinos também nos tirou uma prima com mais de 90 anos. Sempre lamentamos a morte, mas minha prima, ao contrário da amiga, teve uma vida plena, não foi antes do tempo. Espero que o senhor entenda a diferença entre encerrar um ciclo completo e interromper aquele por se completar.

Mal associo minha prima à plenitude, me questiono, pois relembro o que me aconteceu um pouco depois do dia internacional da mentira, marco inicial do mês da descoberta do Brasil e de São Jorge.

No meu ônibus de sempre, me sentei ao lado de uma senhora; 97 anos, viria a saber. Estava sozinha e puxou assunto comigo de uma forma pouco usual. Na página da revista que eu lia, havia uma charge: uma mulher está deitada na cama, ao lado de uma cartola de mágico, e um homem, à porta do quarto, diz: “Eu sei que você está aí”. A senhora então, invadindo minha leitura, perguntou quem estaria ali. Ri. Ela respondeu com um sorriso maroto e emendou, assim do nada, que o atual presidente dos EUA é o diabo. Me fisgou. Confessou a idade e contou que servira desde seus doze anos a uma família brasileira, grande parte do tempo vivendo na Inglaterra. Lá, não foram raras as vezes em que cuidou de quinze crianças enquanto os pais se divertiam em pubs. Histórias de exploração começaram a saltar em minha cabeça, mas achei melhor não entrar nesse assunto.

Continuando a conversa, enfiou outra observação política: com o Bolsa Família, o presidente brasileiro estava fazendo com que ninguém mais quisesse trabalhar. O velho e desgastado papo conservador. Para quem achava Trump o diabo, assassino de crianças, a opinião sobre a transferência de renda era um passo e tanto atrás. Depois de tentar, sem sucesso, lhe explicar a ideia desse programa, perguntei se ela estava a passeio ou voltara de vez ao Brasil. Voltou de vez, mesmo sob protesto, já que os patrões viam no país um lugar de no money, no job.

Embora lúcida, com capacidade visual e auditiva impressionante, era dona de um pensamento estranho, que alcançou o ápice ao culpar as mulheres por todas as mazelas do mundo. Fazem filhos e não se importam com a criação deles, enfatizou. Atordoado com tamanho disparate, tentei voltar à leitura. Fui mais uma vez interrompido, agora a senhorinha falava da comida brasileira, da alegria de comer feijão de domingo a domingo.

Enfim, ela toda em si, quase um milagre da natureza, e eu, transitando entre o encanto e a covardia, nos separamos. Para desembarcar, atravessou o ônibus e desceu as escadas sem vacilo algum, num andar de quem tem mais ou menos a idade de minha amiga que, um dia depois, abril, o senhor impediria de chegar aos setenta.

Não bastassem o calor, as mortes ao meu redor e o episódio triste e anedótico do ônibus, este mês de outono infantil seguiu com a ameaça feita pelo Orange Man de extinguir numa noite a civilização persa. Reforçando o comportamento habitual de menino valente de rua que, na hora H, se esconde entre as pernas dos pais, o energúmeno recuou.

Sabe de uma coisa, mês que estende o tapete vermelho para maio, esse, sim, lindo, de céu espetacular? Embora eu não entenda nem acredite no zodíaco, você avança sem personalidade própria, arredio à intensidade ariana e à persistência taurina. Fica um conselho: se redima, sopre-nos um vento fresco, ainda é tempo.