29.6.26

Barulhos

O quarto que ocupo há pouco tempo, ao contrário dos dois anteriores, não preza o silêncio. A qualquer hora do dia, posso ouvir aviões se preparando para pousar no Santos Dumont, o aeroporto mais bonito do mundo. Quando passam sobre o prédio, as aeronaves fazem sombra no meu quarto e na sala — com o que os cachorros se assustam e latem — e interferem no funcionamento da antena da televisão comprada para assistir sem delay aos jogos do Brasil. Ouço carros e ônibus circulando na rua, uma novidade para um ex-morador de apartamentos imunes a esses excessos urbanos. Ouço o porteiro do plantão da noite brigar com quem o substituirá. Acho que o primeiro não engoliu a justificativa do atraso do outro, mas, feito a Glória Pires, não sou capaz de opinar. Ouço um pouco distante a manha de uma menina, talvez seja a mesma que logo cedo, na companhia do pai, chamando pela mãe, sai revoltada a caminho da escola. Ah, meu Deus, por que separamos os filhos de suas mães?

Ouço o movimento do vizinho no banheiro, por sorte só o movimento. Isso me tranquiliza, minha intimidade corpórea não ecoa prédio afora. Com tanta gente no mundo, viver em edifícios, empilhados uns sobre os outros, é a única maneira possível, mas, convenhamos, os apartamentos passaram a ter paredes finas demais, o que me leva a crer que, nesses novos condomínios, uns ouvirão os outros em momentos de amor, desarranjos e ressaca.

Stefano Mancuso, um botânico italiano, sugere fechar algumas ruas e naquele espaço plantar árvores. Segundo ele, o Brasil lançou essa ideia, mais precisamente em Curitiba, quando Jaime Lerner foi prefeito. Já servimos de exemplo ao mundo, mas isso faz tempo, muito tempo. Seja como for, tenho simpatia pela ideia do biólogo, embora nada contenha a tendência de construir apartamentos totalmente devassáveis, cada vez mais promíscuos. Penso aqui numa coisa, vejam se faz sentido. Essas moradias não mais guardarão nossa vida privada da vista e do ouvido alheios. Isso de certa forma é um retorno à vida primitiva, período no qual a ideia de privacidade, se existia, era diferente da atual. Um retorno, sim, mas, no lugar das florestas, selvas de pedra — apelido de um condomínio carioca localizado no Leblon, bairro caro até para padrões estrangeiros. Se a ideia de Mancuso se espalhar, teremos atenuantes ao calor que tudo indica nos matará em breve. Talvez também diminua a poluição sonora, o que seria um efeito colateral positivo.

Falando em volta no tempo, li “Os imortais”, de Paulliny Tort, editado pela Fósforo e ambientado na pré-história. O romance começa com os neandertais vagueando em busca de alimentos (os cavalos são sua carne preferida), o que sugere algum deterioramento do meio ambiente. No caminho, encontram os sapiens, que, apesar de se mostrarem mais organizados, não resistem ao ataque dos primeiros. Dos sapiens restarão uma mulher, por pouco tempo, e uma bebê, que crescerá entre os neandertais. Não vou dizer mais que isso, pois esse aparte, verdadeiro ruído na crônica que parecia tão bem traçada, tem o objetivo de dizer a você, leitor ou leitora, que há coisas mais prazerosas do que ler estas minhas bobagens. De toda forma e do alto da capacidade crítica que não tenho, emendo: “Os imortais” entrará para a lista dos clássicos da literatura brasileira. Anotem e daqui a cem anos, se eu estiver errado, façam barulho no meu leito eterno, que não existirá, pois serei cremado, mas pode ser que minhas cinzas tenham sido jogadas aos pés de uma mangueira. Importunem a árvore, se for o caso.

Afastado o ruído, volto à questão auditiva, leitmotiv dessa crônica de voz miúda. Semana passada, acordei com tiros e bombas estourando não muito longe de casa. Depois eu soube: a polícia fez uma operação no morro Dona Marta, segundo a justificativa oficial, para prender perigosos bandidos ligados ao Comando Vermelho. O problema dessas ações é que a polícia age praticamente como os próprios bandidos, não raro invade as casas de quem não tem nada a ver com o tráfico e rouba comida, televisão, micro-ondas, tênis, roupa, quando não comete violência sexual. Isso eu não ouvi dizer não, os jornais registram. Há uma guerra no Rio de Janeiro, mas nenhum dos lados é o meu.

15.6.26

Mãos lavadas

 E ontem, o que foi aquilo diante do Marrocos, no estádio MetLife Stadium, em Nova Jersey? Eita, vamos parar logo por aqui. No momento em que escrevo, o jogo ainda não aconteceu, mas, confesso, ando tão pessimista com a seleção e pouco empolgado com o torneio que adianto o sofrimento. Mas isso talvez seja salutar, se ocorrer a catástrofe, já estou preparado. Se não, me embriago da alegria. Neste caso, olharei para trás e direi: ô, bobo, os meninos jogam muito, ainda é o futebol brasileiro.

Se ainda não sei nada dos fatos de ontem, na Copa ou fora dela, devo procurar um assunto para compartilhar com vocês neste domingo junino. Não quero escolher nenhum obscuro, mas, vejam só, estamos sendo tão torpedeados que é difícil fugir deles.

A mãe do Henry, aquele menininho assassinado em casa, até aqui vista como cúmplice do padrasto condenado com uma pena adequada, foi liberada. A justificativa para isso requer que a gente vista o fardão de um juiz. Primeiro, o crime da ré mudou de figura. Entenderam que ela não atuou de forma premeditada, mas que contribuiu indiretamente — ou seja, não foi crime doloso, mas culposo. Crimes culposos não são julgados pelo júri, então foi a juíza que — por estar diante de uma ré primária, que, por ser mulher e mãe, num mundo patriarcal, não goza da proteção normalmente concedida aos homens — lhe concedeu o perdão jurídico. Mais que isso, viu a reação pública como desmesurada. Será? Me surpreende diante das evidências que circulavam em torno do caso. Pior de tudo, Henry está morto.

Mas as evidências podem parecer óbvias por quererem que acreditemos nelas. É nossa característica meio fofoqueira. Eu falo, alguém me ouve e fala para alguém, que ouve e passa para mais alguém. Posso não ter compreendido — ou ter interesse numa certa versão —, e com certeza outras incompreensões e más intenções serão acrescentadas nesse telefone sem fio — ah, crianças, essa expressão já fez sentido, há muito não faz, mas, por favor, esforcem-se um pouco e a compreenderão (de qualquer modo, deixem que eu a use sem grande questionamento). Continuo meu argumento: desde o surgimento da imprensa, os jornais dão conta de fazer o tititi circular com cara de verdade. Quer dizer, antes da invasão das redes sociais cumpriam esse papel, uma vez que a eles se dava essa espécie de autoridade. Agora, com a fúria das redes, temperada pelas trapaças da inteligência artificial, o jogo mudou e estranhamente estamos vivendo num mundo parecido com aquele do disse me disse entre vizinhos: todo mundo fala, ninguém ouve. A justiça, carambola, tem mesmo de pisar em ovos, caso contrário é melhor dizer que lava as mãos. Não para crucificar o Cristo, mas para liberar os possíveis ladrões.

Terei virado sociólogo, pensador, sábio? Se aconteceu, foi à revelia de mim. Continuo aquele aéreo de sempre, cavoucando o nada para encontrar uma palavrinha que rime com outra ou uma frase que dê sentido à anterior. Fiel a meus princípios, prometo que a partir daqui não serei o vidente pilantra nem o intelectual de quinta categoria.

Anunciarei uma boa notícia.

Hoje é dia 14 e ainda tenho uns caraminguás na conta, não é um milagre?

1.6.26

Arco da derrota

Peguei uma rebarba do movimento hippie. Quer dizer, eu via a coisa acontecendo, embora não pertencesse a ela. Para falar a verdade, na minha pacata e conservadora cidade não havia nenhum hippie. Ou, se houve, achou melhor tirar o time de campo, mudar-se para um grande centro e lá desfrutar da filosofia da turma.



Uma filosofia? Sim, paz e amor, essa conjunção simples e difícil. Mais que filosofia — ou menos, não sei —, era uma utopia, ou Utopia, como queiram. O mundo já se permitiu sonhar em acabar com a guerra, as guerras, amar-se livremente, viver em comunhão com a natureza. As más línguas blasfemavam contra esse mundo encantado, espalhavam que nele não haveria lugar para banho e os hippies seriam assim sujinhos. O que é a sujeira diante da guerra? Quem vive em comunhão com a natureza, se banha, os portugueses aprenderam isso tão logo puseram os pés por aqui. Para dizer a verdade, se espantaram com nossos habitantes originários, nus e limpos. Pois então, os hippies estavam mais para indígenas do que para colonizadores.

A utopia defende a igualdade, a fraternidade e a igualdade sem precisar decapitar ninguém.

Falo em decapitação e me meto na outra parte desta crônica. Caminhava pela espetacular pista entre Botafogo e Flamengo — aquela parte onde um tanto de natureza original vive em harmonia com a obra da arquitetura, o Parque do Aterro —, quando um corredor passou por mim. Quer dizer, vários corredores me ultrapassam, ando em modo acelerado, mas não tão acelerado assim. Nessa minha velocidade de cágado aflito, ainda paro e aprecio o Pão de Açúcar, a Enseada de Botafogo, o céu, melhor dizendo, os céus: hoje vermelho, amanhã cinza, no sábado azulíssimo. Faço um parêntese: ando escrevendo uma novela cujo personagem gosta do céu azul, sem nuvem, sem pôr do sol. Não sou como ele, mas o entendo.

Onde eu estava mesmo? Em que parte da crônica, quero dizer, pois sei que contava de uma caminhada entre Botafogo e Flamengo. Ah, sim, um corredor passou por mim. Nas costas dele, a frase na camiseta dizia: “f*ck your peace” — assim mesmo, com “*” no lugar do “u”. Ora, vejam só. Não basta esfaquear a velha utopia e sua esperança de paz, tem de usar o inglês.

O rapaz é a bandeira desses dias atuais nos quais triunfou a guerra, a violência, a distopia, ou Distopia, como queiram. É um mundo medonho. É um mundo cruel. É um mundo que não é de Deus, embora em nome dele se levantem muitas vozes obscuras.

Meus sessenta e quatro anos me dizem que ainda verei atrocidades imensas, mas também que não demora tanto assim para ser chamado para o coração da terra — não para o inferno, que não existe, nem para o céu, que, enquanto morada eterna, tampouco existe —, deixando vocês aí com o abacaxi na mão.

18.5.26

Em fuga

Em um mundo em guerra, é preciso pensar em pelo menos duas coisas. A primeira é o que fazer se as bombas começarem a ser despejadas por aqui, nas nossas fuças. A segunda é procurar se distrair, não dá para ficar ligado nessa loucura o tempo todo, caso contrário a bomba estoura dentro do peito e o velho coração não aguenta.

Se atingirem nosso quintal, eis a verdade, não estaremos apenas mais angustiados que o goleiro na hora do gol, estaremos liquidados. Fico boquiaberto ao ver drones atirando não sei onde, mísseis viajando milhares de quilômetros e, antes de atingirem o alvo, serem bloqueados por interceptadores. É um jogo de videogame com sangue e tristeza na fase final. Nosso país, até onde sei, não tem grandes recursos nem de defesa nem de ataque.

No Brasil, os que vivem fora do Rio – mais ou menos noventa por cento da população – têm uma visão aumentada da violência fluminense e acham que já temos túneis de escape e não sei mais o quê. Não é verdade. Apesar de mãos sujas estarem assinando leis e comandando o orçamento nas instituições de poder, a violência está concentrada na periferia da Cidade Maravilhosa, envolvendo o Grande Rio, e é muito seletiva. As balas, em obediência a dedos muito bem treinados, têm preferência pelos garotos pretos. Portanto, não estamos em situação privilegiada – oh, que ironia seria isso! – em relação ao resto do Brasil. Ou seja, meus amigos, façam suas conexões ao divino de sua crença, pois não temos controle sobre a engrenagem do mundo, mesmo com a nossa boa diplomacia, que o governo anterior quase destruiu.

Diante de situação tão desesperadora, é preciso se distrair. A festa, como se diz, não é alienação, é proteção, terapia, apaziguamento. Festejemos. Eu festejo saindo com amigos, jogando conversa fora – aqui e ali falando sério, pensando o mundo, que por sua vez nos ignora –, ouvindo música e principalmente lendo e escrevendo.





Há uma diferença entre ler e escrever. Escrever exige uma busca de algo a ser dito, então dificilmente se escapa dessa barafunda na qual nos encontramos. Ler requer uma abertura, ir lá no que o outro escreveu em busca de diálogo. Leio no momento “O jogo da Amarelinha”, do Cortázar, um mais que romance, um ensaio sobre o romance, uma destruição do romance, mas que, assim mesmo, conta a história de um portenho que se encontra em Paris e, depois de expulso da França, volta a Buenos Aires. É um sujeito que não é simpático, aliás, nem um pouco, mas, ao carregar tantas questões em sua trajetória meio sem pé nem cabeça, nos carrega para bem próximo dele. O autor argentino tinha a manha e, topetudo, enfrentava a grande literatura mundial no braço, de igual para igual.

Ler um livro como o romance argentino nos distrai, mas não nos livra da angústia, que, no extremo, leva à guerra. Então ler nem sempre se parece a uma festa. A menos que você recorra à crônica. Não a qualquer uma – esta, por exemplo, não serve –, mas àquelas nas quais seus escritores se entregam às minudências da vida. Rubem Braga é mestre nisso. Clarice Lispector também, às vezes. Fernando Sabino pesponta e chuleia assuntos triviais. Temos uma longa tradição, e ouso dizer que a crônica, tendo ou não nascido por aqui, é brasileiríssima e se parece às nossas forças armadas em um aspecto: não tem ataque nem defesa muito fortes. Ela está na fronteira da inutilidade, de onde nada se espera e, não raramente, nos socorre de alguma “dor canalha”, como dizia Walter Franco.

Na revista Rubem, além de nós, seus colunistas, você encontra uma aba com grandes crônicas brasileiras: além dos três já citados, Nélida Piñon, Paulo Mendes Campos, Cecília Meireles, entre outras e outros, estão lá, num pot-pourri delicioso. Num site incrível, Portal da Crônica Brasileira, o leitor pode esquecer até dos boletos, aqueles contra os quais travamos nossa guerrinha diária.

4.5.26

Filho do carnaval

Sempre brinco que, por ter nascido em novembro, sou filho do carnaval. A terça gorda de 1961 foi no dia 14 de fevereiro, nove meses exatos antes do meu nascimento, em 17 de novembro, e um dia depois do aniversário do meu pai. Essa hipótese ganha força quando esclareço que sou o caçula, numa família de quatro filhos, e que derrubei do galho minha irmã cinco anos mais velha do que eu. Sou então o último suspiro reprodutivo do casal, ele com quarenta e dois anos e ela com trinta e oito.

Dá para imaginar esse dia: alguém ficou com os três filhos, e papai e mamãe se permitiram uns drinques, ir ao clube, onde se entregaram à alegria comandada pelas marchinhas daquele tempo. "Oh, jardineira, por que estás tão triste?", "Allah-la-ô, ô-ô-ô, ô-ô-ô, mas que calor, ô-ô-ô, ô-ô-ô". Brincaram, jogaram lança-perfume uns nos outros, comentaram sobre o exagero da fantasia de fulano, da pouca intimidade carnavalesca de sicrano. Ergueram milhares de brindes ao aniversariante da véspera.

Encontrando tudo tranquilo em casa, fecharam-se no quarto. Dando-se a um encanto que quatorze anos de casamento – muitos deles enfrentando dificuldades, financeiras, inclusive – nem sempre favorecia, celebraram a vida carnal, nossa essência, enfim.

Essa tese esbarra em um problema. Minha mãe dizia que nasci de dez meses. Aliás, nascemos, seus quatro filhos. Tudo indica que ela tinha diabetes gestacional, o que não se conhecia à época. Reforça essa hipótese o fato de que todos chegamos ao mundo grandes; eu, exageradamente, com cinco quilos e seiscentos.

Nessa segunda hipótese, o calendário tem de ser recuado em quatro luas, a um janeiro no qual não vejo nenhum motivo para o casal se embriagar de vinho e desejo. A história perde um pouco do brilho, mas é bom mirar o fato de que naquele dia o encanto visitou o casal. Imagino que mamãe tenha distraído os filhos em férias, montado um quebra-cabeça com os mais velhos, onze e nove anos, e contado história para a então caçulinha, quatro anos. Depois disso, o casal se trancou no quarto e uma carícia cheia de segundas intenções partiu da mão de um ou de outro.

Conto tudo isso sem uma razão, impulsionado por sonhos que tive nos últimos dias. Em um esteve meu p ai, não me lembro bem em que situação, noutro, minha mãe. Ela estava sentada na cadeira que ficava em seu quarto, e eu lhe entregava um neném lindo, filho de um casal de amigos que não tem nem quer ter filhos.