Quando você estiver lendo essa crônica, se é que a lerá, se
é que alguém a lerá, estarei arrumando minhas coisas para voltar de Paraty, da
Flip. É possível que eu esteja, então, feliz ou pelo menos alegre. Mas pode ser
que esteja chateado por uma fala besta, por uma timidez na hora errada, por ter
pagado a mais uma conta que não era só minha. Da perspectiva do passado, o
futuro é apenas um quadro, um prego e uma parede ainda não manufaturados. Sou
uma incógnita nesse domingo, 26 de julho.
Certo é que no dia 22, no ônibus — a passagem já está
comprada, mas há uma possibilidade de eu ir de carro, até mesmo dirigindo um
veículo alugado, o que não muda o que direi —, a caminho de Paraty, me
lembrarei de minha mãe. Seria o aniversário dela, seus cento e três anos, dos
quais esteve conosco até quase os oitenta e quatro.
Na semana passada, depois de eu, minha filha e meu genro
voltarmos de Passos, cidade na qual nasci, Helena compartilhou fotos da viagem
com o resto da família. Os netos de minha mãe — espalhados pela Europa, América
do Norte, Oceania, Belo Horizonte e Rio — começaram a trocar lembranças da
velhinha. Como era querida, como cada testemunho revelava a marca de uma
influência. Dona Haydée era esplêndida.
Não sei se já contei alguma vez, mas me lembro de minha mãe
toda vez que compro laranjas. No mercado, ela pegava, alisava e balançava uma
antes de decidir se colocava ou não na sacola. Depois da escolha, a explicação:
o ideal é optar pelas de cascas finas e não muito leves. Não é incrível que,
entre tantas lembranças, conviva amiúde com essa? O afeto é rasteiro mesmo, e
ser ou não ser é conversa de bardo inglês.
Em Paraty, se tudo tiver dado certo — quer dizer, se eu não
sofrer um piriri ou tomar um porre antes da hora —, terei participado de uma
mesa sobre crônica. Não sei agora o que falarei, nem saberei depois o que
falei. Não sou muito de teorias sobre nada e escrevo crônicas ora olhando a
rua, ora o beco sem saída que sou. É certo que aprenderei com meus colegas de
mesa, é certo também que acharei um horror estar ali, eu tão ignorante. Mas
estarei, dona Haydée me deu um mapa dos abismos. As mães, como a terapia, não
nos protegem das enrascadas, mas nos indicam quais são os sinais. O que posso
afirmar, enquanto escrevo, é que estou de olho na fumaça do futuro, produzida
por um fogo ainda não aceso.
Então, leitor, leitora, caso ainda estejam aqui, ao me
preparar para voltar ao Rio, é possível que lute desesperadamente para
distribuir os livros adquiridos pela mala pequena. Não só eles, ela terá de
acomodar ainda um cobertor, as toalhas de banho e rosto, além das roupas — no
fim da viagem, sujas e amarfanhadas; ao contrário da ida, limpas e dobradas.
Não recebi lição de como armar esse quebra-cabeça, quer seja de minha mãe, quer
seja de meu pai, com quem viajei muitas vezes.
Joaquim — agora teria cento e sete anos e faleceu há trinta
— nunca foi de ensinar as coisas práticas da vida, como escolher laranjas ou
dobrar roupa. Com ele aprendi a caçoar da vida e a fazer as pessoas rirem. Além
disso, como meu irmão escreveu na lápide, o velho sempre soube levantar-se
depois dos tombos — ainda estou pelejando nessa cartilha.
Enfim, além das lições domésticas, minha mãe me deu a arte.
Já meu pai, mestre na diplomacia, me ensinou também a dar o nó no cadarço do
sapato.