O momento em que o leitor abre o livro e perde o chão perdido antes pelo escritor é forte, mas raro, a despeito da qualidade do livro ou do leitor. É raro porque o ato de ler sofre a influência de uma série de coisas, entre elas, o estado emocional. Pode acontecer de se abrir um, sei lá, Dostoiévski, Drummond, Lispector, Woolf e não se sentir tocado, abismado, sequestrado de si mesmo. É o dia, é a noite, são os perrengues da vida, são paixões. Tudo pode distrair um leitor e torná-lo resistente ao que vem de fora, ou melhor, ao que vem de dentro de um outro.
Mas, quando acontece, não ofereça um café ao leitor, não lhe
diga que está frio ou o faça lembrar-se do almoço do próximo domingo na casa
dos vizinhos. Deixe a figura quieta, isolada no seu canto. A leitura é sempre
amorosa e erótica, no molde de “Felicidade Clandestina”, conto publicado por dona
Clarice lá no terceiro quarto do século XX. Enfim, o escritor numa ponta e o
leitor na outra se dão em um relacionamento silencioso, não necessariamente
sereno.
Se já me amasiei com a obra dos autores antes citados, noutras
tantas e às cegas agarrei um achado meu como o amor mais precioso. Ainda jovem,
caiu em minhas mãos — está na minha biblioteca, embora sem releitura — “Tantubá”
(Global Editora), de Luiz P. Cardoso. A história é simples: durante o velório,
o morto reflete sobre a vida em diálogo com seu cachorro. Outro, esse não tão
desconhecido, “O Túnel”, de Ernesto Sábato, tumultuou minhas ideias de rapazola
de vinte anos, ainda que, depois de o ter lido mil vezes, dei uns passos atrás
em minha idolatria. Aquela fixação apaixonada, quase violenta, do artista pela
mulher ultrapassou os limites da minha empatia.
“O Grande Caderno”, de Ágota Kristóf, escritora húngara
exilada na Suíça, agora reeditado pela Dublinense, foi uma recomendação feita
nos anos de 1990 por dois grandes amigos, desses que não chegaram a passeio. Com
a nova edição, tive acesso aos outros dois volumes que formam a “Trilogia dos
Gêmeos”. A leitura do conjunto reforçou a boa impressão mantida em silêncio por
uns trinta anos. A primeira novela, contada por um narrador na primeira pessoa
do plural, opção pouco comum, acompanha a história dos gêmeos deixados pela mãe
na casa da avó para protegê-los da guerra na capital. Os gêmeos, pela opção
narrativa, não se desassociam, são um só — os demais volumes são dedicados a
cada um deles, embora verdade e mentira nas mãos da húngara sejam apenas um
jogo. Recentemente, ao ler “Sorriso Sorvete de Cereja”, de Giovanna Ramundo (Cambucá),
deparei de novo com esse narrador plural e não muito usual, mas são dois casos distintos.
A jovem escritora brasileira criou uma personagem, a menina Rio, que encontra
nos nós de seus cabelos uma outra. Com isso, a narração pode estar na primeira
do singular, na primeira do plural ou num misto de ambas, no caso cometendo um
“erro” de coesão textual. Seja como for, outras coisas aproximam “O Grande
Caderno” do “Sorriso Sorvete de Cereja”, talvez uma certa crueldade infantil. Se
me espantei no contato inicial com Kristóf — li, além da trilogia, o
autobiográfico “Ontem” (Nós), que me apresentou uma mulher forte e corajosa —, o
mesmo aconteceu com a nossa brasileira.
Seguindo o caminho de autores fora do eixo Estados
Unidos-Europa Ocidental, vou ao outro lado do mundo. Da Estação Liberdade, li a
pequena novela “Terra e Cinza”, de Atiq Rahimi, escritor e cineasta do
Afeganistão exilado na França. A história é comovente: o avô e o neto vão ao
encontro do filho do primeiro e pai do segundo — trabalhador em uma mina longe
de casa — para avisá-lo das bombas despejadas sobre a aldeia, responsáveis pela
morte de toda a família a exceção dos dois. A criança está surda por conta de
um estrondo ocorrido bem ao seu lado. A escrita do autor, lidando
principalmente com o silêncio, é sóbria, poética na medida, o que nos leva a aproximar,
em vez de fugir, da tristeza.
Há duas consequências quando dá match entre mim e o livro. A primeira é me perguntar por que razão insisto em escrever, não vale a pena, tudo está tão bem escrito. A segunda, em resposta quase imediata à primeira, é correr até a mesinha, ligar o computador e dar início a alguma aventura que oxalá um dia alcance um leitor atento e disponível.