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2.6.25

Crianças na rua

Em 1980, ano em que cheguei ao Rio, foi lançado o disco “Raíces de América”, gravado a partir de um show do grupo homônimo, formado por músicos argentinos, chilenos e brasileiros, com participação especial da atriz Isabel Ribeiro e direção de Flávio Rangel. Provavelmente foi uma das minhas irmãs que, na casa de nossos pais, no período das férias, me apresentou o som que, bonito de muitos jeitos, me marcou principalmente pelo trecho do poema do argentino Armando Tejada Gómes (aqui reproduzido sem que eu saiba de quem é a tradução) declamado por Isabel. 

Há uma criança na rua

A esta hora, exatamente, há uma criança na rua.

É dever do homem proteger o que cresce,

Cuidar para que não tenha uma infância dispersa pelas ruas,

Evitar que naufrague seu coração de barco,

Sua enorme vontade de pão e chocolate,

Caminhar por seus países de bandidos e tesouros

Pondo-lhe a esperança no lugar da fome.

 

De outro modo é inútil ensaiar na terra a alegria e o canto,

De outro modo é absurdo porque de nada vale se há uma criança na rua.

Importam duas maneiras de conceber o mundo:

Uma, ser alguém como as outras pessoas ou

Arrancar cegamente dos demais a bolsa.

E a outra, um destino de salvar-se com todos,

Comprometer a vida até o último náufrago.

 

Como se pode dormir de noite se há uma criança na rua?

Exatamente agora, se chove nas cidades,

Se desce o nevoeiro gelado no ar

E o vento não é nenhuma canção nas janelas,

Não deve andar o mundo com o amor descalço

Levando um diário como uma asa na mão.

 

Trepando nos trens, provocando-nos o riso,

Golpeando-nos como um anjo de asa cansada,

Não deve andar a vida, recém-nascida, já lutando,

A meninice arriscada a um pequeno ganho,

Porque então as mãos são dois fardos inúteis

E o coração, apenas uma má palavra.

 

Eles esqueceram que há uma criança na rua,

Que há milhões de crianças que vivem na rua

E uma multidão de crianças que cresce nas ruas.

A esta hora, exatamente, há uma criança crescendo.

 

Eu a vejo apertando seu coração pequeno,

Olhando para todos com seus olhos de fantasia,

Percorrem e olham para o homem rico,

Um relâmpago forte cruza seu olhar,

Porque ninguém protege essa vida que cresce

 

E o amor se perdeu como uma criança na rua.



Se o garoto de dezoito anos que eu era nunca foi insensível à dor humana e não se preocupava apenas com o próprio futuro, ao ouvir esse disco se convenceu de que não se poderiam ignorar as questões sociais, mais ainda, era preciso olhar para além de Passos, Rio de Janeiro, Brasília. Havia um mundo maravilhoso, mas também sofrido, ao nosso lado. Alguns anos mais tarde, eu dividiria um apartamento com meu irmão Gonzalo, boliviano, e, a partir de nossa amizade, conheci muitos argentinos e chilenos principalmente. Meu mundo se abria, e nele entravam outros grupos musicais – o Inti-Illimani, por exemplo – e Borges, Cortázar, Benedetti, essa turma da pesada. 

O “Raíces de América”, em particular o poema na voz de Isabel Ribeiro, voltou à minha memória porque, quarenta e cinco anos depois de minha chegada a esta grande e complexa cidade, constato que a infância continua desprotegida, e não só aqui. Crianças são alvejadas nas favelas de nossos países e exterminadas, por bala ou fome, na Palestina, nessa guerra em que o que parecia uma resposta a uma agressão se transformou em um massacre sem fim por parte dos que comandam Israel e seus aliados. 

Em uma publicação em rede social, a jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho compartilhou um post de Sami Abu Salem, um “pai de filhos pequenos” sobrevivendo aos horrores da guerra. O texto dele, em tradução chinfrim, começa assim: “a arma mais feroz que Israel usa contra Gaza é a fome”. Depois, em itens, registra tudo que um faminto é capaz de fazer (dois exemplos: “a fome transforma as pessoas em monstros”, “a fome destruiu muitas paredes da vida, da piedade, da fraternidade, da generosidade, do tempo e dos laços sanguíneos”), terminando assim: “a fome é mais perigosa que foguetes”. 

Sebastião Salgado, que nos deixou no dia 23 de maio, disse numa entrevista que uma fotografia começava bem antes dela e terminava bem depois. Que na apreciação de suas fotos enxergaríamos, para além das pessoas ou animais, das paisagens ou construções nelas registradas, o próprio Salgado, sua vida, a família, a escola, tudo que o cercava. Acho a imagem de uma beleza sem fim, e a trago para cá na esperança de que tamanha consciência artística e humana supere, se possível brevemente, a maldade cultivada por esses homens orgulhosos da guerra.

18.10.15

Outubro


Não consigo pegar o pulso da crônica que começo a escrever, o que não quer dizer que eu não tenha assunto. É tão somente uma advertência que faço levando em conta que a crônica da falta de assunto, em algum momento, foi, é ou será escrita por todo cronista, bom ou não. Eu diria até que, feito os temas clássicos do jazz, valorizados pelos improvisos dos músicos, a crônica da falta de assunto é um clássico que se apresenta ora num improviso de Rubem Braga, ora noutro de Clarice Lispector e até mesmo no improviso “preso à pauta” de um AB qualquer.

O que não falta a minha crônica é assunto — triste, de uma tristeza mais triste que a tristeza comezinha presente em alguma outra, por exemplo, a de quando minha mãe morreu, na qual eu comentava o abandono de seus cachorros e a coincidência de sua morte com a tragédia do voo da TAM ao pousar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

É difícil dosar a tristeza e, de resto, qualquer estado de espírito. O lado de lá da tristeza, a alegria e suas imediações, também não se dá à crônica com mansidão. Se em torno do arco da tristeza estão, doces, o recolhimento e a introspecção e, ásperos, o melodrama e o sentimentalismo rasteiro, na beira do arco da alegria cabem a parcimônia da ironia e a devassidão da comicidade. É árduo equacionar os sentimentos, o que beira ao tormento quando está se falando de um lá depois da tristeza. E o que pode haver nesse tão longe? Uma dor não exatamente nossa, do nosso íntimo, mas que reverbera nele de forma aguda, impiedosa.

Tomo as rédeas da crônica e, com ou sem pulso, digo logo o que tenho (e não gostaria) de dizer.

Outubro, no Brasil, é o mês das crianças. Essa data não surgiu de uma ação do comércio — ainda que bem aproveitada por ele. Foi, ao contrário, uma recomendação, no âmbito da ONU, de 1954 — esforço que culminou, em 1959, na “Declaração Universal dos Direitos da Criança” e, em 1989, na “Convenção sobre os Direitos da Criança”. A intenção de todos esses documentos está, a meu ver, sintetizada no de 1959. Nele são listados dez princípios que deveriam ser seguidos em qualquer lugar. O primeiro é a igualdade, o que significa não haver discriminação por raça, religião ou nacionalidade, e o último o de “crescer dentro de um espírito de solidariedade, compreensão, amizade e justiça entre os povos”. Entre os dois, o direito ao amor, à educação gratuita, ao socorro prioritário em caso de catástrofe.

Tudo faria crer que uma preocupação política dessas, sexagenária, já deveria ter revertido o quadro de sofrimento de nossos meninos, mas sabemos que isso não aconteceu. As crianças morrem vítimas da violência policial (veja o recente relatório da Anistia Internacional, com foco no Brasil), morrem de doenças insignificantes, têm dificuldade de entrar na escola e, quando entram, de permanecer nela. Em nosso país, segundo a Unicef, 25% das crianças de 4 a 6 anos não frequentam a escola e 64% das pobres não o fazem durante a primeira infância. E mais: o Brasil ainda tem 535 mil crianças de 7 a 14 anos — faixa na qual 98% delas estão matriculadas — longe da sala de aula, das quais 60% são negras. Sobre os jovens negros e pobres, no Brasil ou não, o relho da inação bate mais forte.

Não bastasse esse quadro de desamparo, as guerras que não cessam tornam o grave um ponto alocado no meio de uma escala que alcança o trágico. Debruce sobre as notícias da Síria, de onde a família de Aylan Kurdi, o garoto encontrado emborcado numa praia turca, tentava fugir. Imagine a situação do Afeganistão. Se o leitor não tem uma referência sobre o país, sugiro a leitura de “Terra e cinzas” (Estação Liberdade), de Atiq Rahimi, romance no qual é contada a história de uma longa jornada em que avô e neto buscam avisar ao filho do primeiro e pai do segundo que a vila em que viviam foi destruída por um bombardeio e, da família, apenas os dois sobreviveram. O menino é surdo, melhor, ficou surdo pelos bombardeios. A guerra era a dos anos 1980, e pelo Afeganistão de hoje passa outra guerra no lugar daquela. Como estarão as crianças, que insistem em nascer? A mesma preocupação se aplica às palestinas e, de outra maneira, às israelenses.


Se a África, em regiões conflagradas ou não, fez alguma coisa para suas crianças tendo em vista a lista da ONU, baseou-se apenas no rascunho do que ali era intenção. Sabemos da penúria de povos que sofrem, ao lado da pobreza, a violência de estados corruptos e a insanidade de grupos radicais como o Boko Haram, que, não por acaso, elegem como alvo preferencial de ataque as crianças, em especial as meninas. Ferir a inocência e apressar seu fim é uma orquestração bem pensada, cujo intuito é melhor não compreender.

Eu erraria a mão ao escrever a crônica, sabia disso desde a primeira frase. Todavia, neste ano da graça de nosso Senhor, ano que faz questão de não jogar o pó da maldade para baixo do tapete, não posso me dar ao luxo de cantarolar por aí o leve refrão de Michael Sullivan e Paulo Massadas: “Hoje é o seu dia / que dia mais feliz”.  A felicidade tem passado longe.