7.9.26

Tropa do ódio

Enquanto agrediam Cláudio Landeira, homem que julgavam ter roubado uma bicicleta, os justiceiros se proclamavam membros da tropa do ódio. Esse caso, ocorrido em Copacabana no início de agosto e que levou à morte o agredido, mostra bem a que ponto chegamos. Quase escrevo estamos chegando. Não, já chegamos.

Entre as pessoas que mataram o ciclista, havia dois seguranças de rua. Em português castiço, dois funcionários da milícia hoje espalhada pelo Rio de Janeiro — na voz de Tim Maia, do Leme ao Pontal; no traço do mapa, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, mar e baía incluídos. Milicianos ou não, é gente contratada pelos lojistas, embora eu não duvide da participação de associações de moradores nesse arranjo. É uma reação ao medo. Infelizmente, uma reação que não recorre ao poder público por achá-lo incapaz. Assim se consolida a derrota da democracia. O fascismo não vem de cima, é gestado entre a gente, o ovo da serpente.

Um dos assassinos, justo um segurança, depois de ter negado a participação, se entregou à polícia e em seu depoimento reconheceu ter praticado um ato insano, que fugia a sua compreensão. Isso me lembrou uma peça vista há um bom tempo, Baque (do norte-americano Neil LaBute). Em três atos e histórias independentes, pessoas aparentemente tranquilas, bem-situadas, cometem atrocidades de forma gratuita e inexplicável. O tal segurança poderia ser um daqueles personagens não fosse o fato de ser um segurança, portanto de estar sempre a ponto de agir violentamente em defesa do patrimônio — ainda que uma bicicleta — sabe-se lá de quem.

Além dos seguranças, dois entregadores de aplicativos — os empreendedores da pobreza — participaram da barbárie. Em Botafogo, um pouco antes, um grupo deles foi se vingar de um cliente que destratara um parceiro. Pois bem, atacaram a casa errada na vila onde teve início o incidente, causando prejuízo e medo a quem não tinha nada com aquilo. Mesmo se a casa fosse a certa, não se justificaria a ação espontânea, à margem da lei. O capitalismo selvagem, que se alimenta de uma mão de obra tão desprotegida, cada dia é mais selvagem. Se olho a selva e seu funcionamento, não posso qualificar o capitalismo de selvagem, seria alisar sua cabeça, quase acarinhá-lo. O capitalismo opressor desses entregadores é voraz, estúpido, sem espírito ético — coisa de animal racional e urbano.

Ouço muito por aí a expressão “puro suco de Rio de Janeiro”, que alude tanto o jeitão descompromissado do carioca, como o ambiente perverso do estado — tráfico, milícia e poder público amalgamados. O caso do inocente Cláudio, que pegou emprestada a bicicleta da irmã para passear pela Cidade Maravilhosa, é o puro suco da fruta podre. É o trigésimo milionésimo aviso que recebemos de nossa derrota, e, apesar disso, não houve e não há uma ação efetiva de combate ao quiproquó no qual o Rio de Janeiro (vamos lá, não só, a coisa está se alastrando) se transformou.

Mas como a situação será combatida se o poder público tem, entre os seus, milicianos, traficantes etc.? É o circo vicioso, e os palhaços somos nós.

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