Enquanto agrediam Cláudio Landeira, homem que julgavam ter roubado uma bicicleta, os justiceiros se proclamavam membros da tropa do ódio. Esse caso, ocorrido em Copacabana no início de agosto e que levou à morte o agredido, mostra bem a que ponto chegamos. Quase escrevo estamos chegando. Não, já chegamos.
Entre as pessoas que mataram o ciclista, havia dois
seguranças de rua. Em português castiço, dois funcionários da milícia hoje espalhada
pelo Rio de Janeiro — na voz de Tim Maia, do Leme ao Pontal; no traço do mapa,
de Norte a Sul, de Leste a Oeste, mar e baía incluídos. Milicianos ou não, é
gente contratada pelos lojistas, embora eu não duvide da participação de
associações de moradores nesse arranjo. É uma reação ao medo. Infelizmente, uma
reação que não recorre ao poder público por achá-lo incapaz. Assim se consolida
a derrota da democracia. O fascismo não vem de cima, é gestado entre a gente, o
ovo da serpente.
Um dos assassinos, justo um segurança, depois de ter negado
a participação, se entregou à polícia e em seu depoimento reconheceu ter praticado
um ato insano, que fugia a sua compreensão. Isso me lembrou uma peça vista há
um bom tempo, Baque (do norte-americano Neil LaBute). Em três atos e histórias
independentes, pessoas aparentemente tranquilas, bem-situadas, cometem atrocidades
de forma gratuita e inexplicável. O tal segurança poderia ser um daqueles
personagens não fosse o fato de ser um segurança, portanto de estar sempre a ponto
de agir violentamente em defesa do patrimônio — ainda que uma bicicleta — sabe-se
lá de quem.
Além dos seguranças, dois entregadores de aplicativos — os
empreendedores da pobreza — participaram da barbárie. Em Botafogo, um pouco
antes, um grupo deles foi se vingar de um cliente que destratara um parceiro.
Pois bem, atacaram a casa errada na vila onde teve início o incidente, causando
prejuízo e medo a quem não tinha nada com aquilo. Mesmo se a casa fosse a certa,
não se justificaria a ação espontânea, à margem da lei. O capitalismo selvagem,
que se alimenta de uma mão de obra tão desprotegida, cada dia é mais selvagem.
Se olho a selva e seu funcionamento, não posso qualificar o capitalismo de
selvagem, seria alisar sua cabeça, quase acarinhá-lo. O capitalismo opressor desses
entregadores é voraz, estúpido, sem espírito ético — coisa de animal racional e
urbano.
Ouço muito por aí a expressão “puro suco de Rio de Janeiro”,
que alude tanto o jeitão descompromissado do carioca, como o ambiente perverso
do estado — tráfico, milícia e poder público amalgamados. O caso do inocente
Cláudio, que pegou emprestada a bicicleta da irmã para passear pela Cidade
Maravilhosa, é o puro suco da fruta podre. É o trigésimo milionésimo aviso que
recebemos de nossa derrota, e, apesar disso, não houve e não há uma ação
efetiva de combate ao quiproquó no qual o Rio de Janeiro (vamos lá, não só, a
coisa está se alastrando) se transformou.
Mas como a situação será combatida se o poder público tem, entre os seus, milicianos, traficantes etc.? É o circo vicioso, e os palhaços somos nós.
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