10.8.26

Academias

Agora faço academia. De ginástica, esclareço. Quer dizer, frequento outra também, se der tempo ou ainda houver espaço, comento sobre ela, aliás bem mais interessante que a outra.

Ao chegar para os exercícios físicos, tenho de mostrar meu rosto a uma tela, que o reconhece e libera a minha entrada. É o início do mundo narcísico. Com meu nome assim exposto, os atendentes me cumprimentam como se fôssemos velhos amigos. Quer dizer, como eles são bem jovens, fazem questão de dizer, “bom treino, senhor Alexandre”. Respiro fundo, pego uns paninhos para secar o suor e subo na esteira. À minha frente, um espelho; nele, eu, o senhor Alexandre, cada dia mais senhor e menos Alexandre. Fico ali entre caminhada e corrida por uma meia hora. Para fugir da minha imagem e dessemelhança, me entretenho olhando as modas, o que não tem nada a ver com o vestuário. Olhar as modas, explico, caso algum adolescente esteja passando por aqui, é se deixar observar em volta de forma distraída. Nesse olha-não-olha, reparo nos primeiros narcisos felizes com um mundo cheio de espelhos. Como as esteiras ficam na entrada da academia, muitas moças, ao chegar, dão uma espiada no espelho — quase sempre observam o próprio derrière —, ajeitam uma coisinha ou outra e rumam para os aparelhos. Confesso que, diante de tamanha preocupação, sinto-me obrigado a checar se está tudo bem com aquela menina, esquecendo meus olhos na moça que se vai academia adentro. Não é raro eu achar que alguma coisa a incomodava, sei lá, a roupa fora do lugar, a calcinha aparecendo, essas indelicadezas que nos acontecem de forma inexplicada. Mas não é nada disso, a moça só confere se é bonita mesmo, se o corpo está tinindo.

Não é exclusividade feminina, os rapazes também se enamoram no espelho da entrada. Se é mais comum dar uma ajeitada no cabelo e uma checada nos bíceps e no peitoral, alguns também checam as nádegas. Enfim, desfilam diante de mim um não sei quantos tipos que se acham. Enquanto eu me escondo. E corro. E suo. E o tempo não anda.

A passagem pela entrada é um nada perto do que irá acontecer nos aparelhos. Não é raro puxar o ferro com a câmera ligada e, diante dela, rodar o corpo para exibi-lo de frente e de trás. Desconfio que alguns, decerto influenciadores, transmitem ao vivo aquele momento. Casais malham juntos e, enquanto um se esforça, o outro filma. É um narcisismo, mas aí já vejo um jogo amoroso. Mais tarde, em casa, verão o vídeo e se esbaldarão um no outro. Que assim seja, amém.




Nunca havia frequentado academia — quer dizer, há uns anos, sim, por pouco tempo —, embora, na juventude, praticasse muitos esportes: futebol, handebol e basquete. Não era bom em nenhum, ainda que no basquete tivesse lá meu jeitinho com a bola e boa visão de jogo. Mas a idade chegou — cada dia mais senhor, repito —, e é preciso proteger as costas, os músculos, emagrecer ou não engordar. A tal da academia é útil.

Não sei se vocês se lembram de uma música do Caetano Veloso e do Jorge Mautner, “Tarado”. O trecho inicial é assim: “Gosto de ficar na praia deitado / com a cabeça no travesseiro de areia / olhando coxas gostosas por todo lado / das mais lindas garotas, também das mais feias / porque são todas gostosas e sereias / pro meu olhar de supremo tarado”. Imagino que os compositores tivessem mais ou menos os anos que tenho hoje quando fizeram a música, pois é uma idade na qual a juventude em si já nos deixa meio doidos (amigas dizem que sentem o mesmo pelos jovens mancebos). Apesar disso, essa turma da academia não me desperta tanto, justamente por esse autofascínio, excessivo a meu ver.

Já que falei em velhos tarados, vou tratar da outra academia. Nela, adianto, não há só velhos e velhas, muito menos só tarados e taradas. Num boteco em Botafogo, onde se come o melhor pastel da região, em uma noite na qual o estupendo acepipe se fazia acompanhar de cerveja bem gelada, fundamos a Academia Brasileira dos Poetas do Pastel (ABPP). Somos todos bons no ofício (de escrever poemas e de comer pastéis) e nenhum se liga nessa coisa de espelho. Um desavisado poderá dizer: “ah, vocês espelham a alma”, no que, como resposta, receberá uma excelsa vaia.

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