Em 2025, depois de seis anos, voltei a minha cidade natal, Passos, interior de Minas. Daquela vez, passei por experiências incríveis, a começar pela recepção surpresa que meus amigos da vida inteira me fizeram. Os abraços e brindes reforçaram a amizade em momento em que a política nos separa de forma até violenta. Isso para mim foi um aprendizado e uma reconexão com uma parte minha agradável e humana.
Naqueles
dias, convidando meu amigo Rodrigo Leste, escritor e ator belo-horizontino,
organizei uma Felifitá — Festa Literária de Fim de Tarde. O evento ocorreu num
local que eu desconhecia, o Instituto Motirõ, uma instância político-cultural tocada
na força e na coragem por Márcio Carvalho e Betânia Marques, dois professores. No
Motirõ, juntou-se a nós o grupo Vastafala — reunião de amantes do teatro e da
poesia cuja história é semente de tudo que veio depois.
Também
esteve conosco o cronista da cidade, Sebastião Wenceslau Borges. Ele contou a
história da "língua do sapateiro", dialeto criado pelos
artesãos (como ele) para conversas veladas — às vezes para falar mal de
clientes que cobravam rapidez no serviço e pechinchavam, noutras para erotizar
as mulheres do high society. Meu mestre Gilberto Abreu, poeta e
romancista de mão cheia, também marcou presença. Ele foi meu professor de
história antes de deixar a cidade por questões políticas para se tornar um
grande docente, vereador e secretário municipal em Ribeirão Preto. Por fim, e
tão importante quanto os demais, a poeta Marise Pacheco, integrante do
revolucionário grupo de estudantes secundaristas que, em plena ditadura,
produziu a Protótipo, revista mimeografada que circulou pelo Brasil. Reunimos
umas cinquenta pessoas e fizemos um sarau inesquecível. Minha emoção circulou,
então, nesse eixo afetivo-cultural.
Acabo de voltar de Passos, de uma outra
viagem igualmente mágica. Fomos eu, minha filha (que não voltava lá há uns dez
anos) e, pela primeira vez, meu genro. Antes de chegar a Passos, paramos na
Estância dos Lagos, um condomínio bonito à beira da represa de Furnas, para o
casamento da Jéssica e do Thales — ela, filha dos meus primos-irmãos, Rosa e
Jânio.
Que festa! Não me lembro de ter ido a
outra igual, e não digo apenas pela grandiosidade. O lugar é maravilhoso e os
convidados estavam de fato irmanados. Ali, revi pessoas que passaram pela minha
vida, mas que não eram do grupo mais próximo. Eram homens e mulheres com os
quais não mantive contato desde a adolescência. Brinquei com alguns,
chamando-os pelo nome de seus pais. É isto: vamos ficando iguais aos nossos
velhos, o que é uma coisa bonita. Esses reencontros não trouxeram nostalgia,
mas me fizeram ver como a vida é realmente um sopro. Um sopro às vezes com
cisco, às vezes apenas uma lufada mansa, incapaz de levantar um fio de cabelo,
e refrescante. A viagem com minha filha e meu genro foi
ótima, tanto pelas estradas atravessadas ao som de boa música, quanto por tudo
que vivemos lá. Helena já havia avisado ao Luan para não se assustar, pois
vários conhecidos diriam que ela é a cara da minha mãe. Não deu outra. Só no
casamento, contei uns vinte comentários desses. A figura de minha mãe no rosto
de minha filha é forte para mim e para ela, que sempre teve uma relação profunda
com a avó. Fomos visitar o túmulo de meus pais, que
custamos a encontrar. Uma vez lá, Helena depositou sobre ele lírios brancos.
Ela não sabia, mas nos santinhos de primeira comunhão dos filhos de dona Haydée
vinha escrito: “Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham
nem fiam; e eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu
como qualquer deles” — versículos de Mateus e de Lucas. Nós três ainda mergulhamos nas
cachoeiras ao redor do Lago de Furnas. Nesta época do ano, a água é gelada, mas
não há o risco de trombas d’água e o sol é forte. O corpo ainda agora agradece
por essa limpeza. Por fim, houve o lançamento de “Os
verbos estão cansados” (Editora Patuá), meu mais recente livro de contos. Outra
festa, na qual velhos e novos amigos, parentes e pessoas da cultura — inclusive
a diretora municipal — me prestigiaram. O local, um bar com espetinhos
maravilhosos, foi perfeito para o encontro. Registro, em letras
maiúsculas, a presença do escritor belo-horizontino Ronaldo Guimarães,
responsável pela orelha do meu livro. Esse admirável amigo saiu cedo de BH e
venceu quase quatrocentos quilômetros de estrada só para tomar uma cerveja
comigo. Ao ser apresentado ao Ronaldo, o escritor Marco Túlio Costa, morador de
Passos e colecionador de prêmios literários, inclusive o Jabuti, brincou
dizendo que estava ali a pessoa certa para "puxar a minha orelha". Não
discordo, mas a presença de meu orelhista me mostrou o verdadeiro significado
da amizade.Escarpas do Lago, Capitólio, Minas Gerais