A vida é cheia de obstáculos. Reconheço o teor filosófico-clichê da frase anterior, mas, de fato, penso dessa maneira e imagino que poucos discordem de mim. Para seguir na linha de dizer o mil vezes já dito, emendo: há obstáculos e obstáculos, uns barra-pesada, outros mais leves, pequenas picadas de um mosquitinho mequetrefe.
O nariz de cera anterior serve apenas para alertá-los de que
estou ciente de que o perrengue a ser contado está numa escala intermediária:
não chega a trágico, afinal estou vivo; no entanto, desprezível também não é, pois
perdi alguns dentes. Peço que se acalmem, violência ou acidente não fazem parte
dessa história. Como diz minha dentista, entrei — e há algum tempo — na
terceira dentição, quando os dentes começam a cair de maduro.
Vou confessar um pecado com a intenção de lançar um alerta, ou
seja, uso meu exemplo para que não sirva de exemplo a ninguém. O ponto é o
seguinte: passei oito anos sem ir à dentista de quem sou paciente há mais de
vinte e dez sem ir ao médico que me acompanha desde o século passado.
Uma estupidez dessas cobra seu preço. No meu caso, três
dentinhos foram ao chão. Na realidade, não ao chão, mas, soltos na boca, os
recolhi e botei numa caixinha. E mais na realidade ainda, não exatamente dentes,
mas próteses: uma ponte, um bloco e uma coisa que nem sei o que é. Ao voltar à
dentista, entreguei-lhe a caixinha, o que a deixou aparentemente comovida.
Imagino que sua reação se explique, em parte, por me rever, afinal, nos
tornamos amigos a ponto de trocarmos notícias de nossas famílias: vibramos com
o sucesso de um filho, nos preocupamos com a saúde de outro. Comovida ou não,
por isso ou por aquilo, de posse do conteúdo da caixinha, passou a avaliar a
minha boca e, inclusive, elogiou meus dentes e gengiva — pouco estrago para
tamanha negligência. Teve atenção especial com a ponte, chegou a simular seu
reimplante. Depois de ponderar e reponderar, sugeriu que eu me despedisse
daquelas peças, quem sabe até escrevesse uma crônica sobre elas. Dei-lhes tchau
enquanto tomavam o caminho da lixeira e, como vocês podem ver, escrevo a
crônica.
Não guardava afeto pelos três dentinhos postiços, já que
afeto mesmo eu tinha pelos originais quando ainda saudáveis. O fato de ter mantido
a caixinha por tanto tempo e de não a ter perdido em duas mudanças recentes me
ligou de alguma forma ao seu conteúdo. Digamos que tinha por elas mais
fidelidade que afeto. Mas, por ser esclarecido, entendi seu descarte. A vida
segue. E seguirá, ao final do tratamento, com a boca mais apresentável e
funcional. A terceira dentição não é o fim do mundo.
Alguns podem estar curiosos pelos motivos que me levaram à ausência
tão grande dos consultórios. Não pensem em rebeldia, distração ou até mesmo num
processo depressivo; nada disso, faltou dinheiro. Na verdade, continua
faltando, mas, apertando aqui e ali, agora dá para pagar.
Minha boca agradece.
Meu fígado, vítima de uma hepatite C, que foi curada numa
época em que a cura era uma loteria, e personagem secundário nessa crônica,
respira aliviado. Sem que eu tivesse feito o acompanhamento necessário, ele,
velho de guerra, aguentou o tranco e está até melhor do que dez anos atrás.
Ô, sorte.
Um comentário:
Ohh sorte...rsrsrsr... Abs.
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