24.8.26

Três postiços e um original

A vida é cheia de obstáculos. Reconheço o teor filosófico-clichê da frase anterior, mas, de fato, penso dessa maneira e imagino que poucos discordem de mim. Para seguir na linha de dizer o mil vezes já dito, emendo: há obstáculos e obstáculos, uns barra-pesada, outros mais leves, pequenas picadas de um mosquitinho mequetrefe.

O nariz de cera anterior serve apenas para alertá-los de que estou ciente de que o perrengue a ser contado está numa escala intermediária: não chega a trágico, afinal estou vivo; no entanto, desprezível também não é, pois perdi alguns dentes. Peço que se acalmem, violência ou acidente não fazem parte dessa história. Como diz minha dentista, entrei — e há algum tempo — na terceira dentição, quando os dentes começam a cair de maduro.

Vou confessar um pecado com a intenção de lançar um alerta, ou seja, uso meu exemplo para que não sirva de exemplo a ninguém. O ponto é o seguinte: passei oito anos sem ir à dentista de quem sou paciente há mais de vinte e dez sem ir ao médico que me acompanha desde o século passado.

Uma estupidez dessas cobra seu preço. No meu caso, três dentinhos foram ao chão. Na realidade, não ao chão, mas, soltos na boca, os recolhi e botei numa caixinha. E mais na realidade ainda, não exatamente dentes, mas próteses: uma ponte, um bloco e uma coisa que nem sei o que é. Ao voltar à dentista, entreguei-lhe a caixinha, o que a deixou aparentemente comovida. Imagino que sua reação se explique, em parte, por me rever, afinal, nos tornamos amigos a ponto de trocarmos notícias de nossas famílias: vibramos com o sucesso de um filho, nos preocupamos com a saúde de outro. Comovida ou não, por isso ou por aquilo, de posse do conteúdo da caixinha, passou a avaliar a minha boca e, inclusive, elogiou meus dentes e gengiva — pouco estrago para tamanha negligência. Teve atenção especial com a ponte, chegou a simular seu reimplante. Depois de ponderar e reponderar, sugeriu que eu me despedisse daquelas peças, quem sabe até escrevesse uma crônica sobre elas. Dei-lhes tchau enquanto tomavam o caminho da lixeira e, como vocês podem ver, escrevo a crônica.

Não guardava afeto pelos três dentinhos postiços, já que afeto mesmo eu tinha pelos originais quando ainda saudáveis. O fato de ter mantido a caixinha por tanto tempo e de não a ter perdido em duas mudanças recentes me ligou de alguma forma ao seu conteúdo. Digamos que tinha por elas mais fidelidade que afeto. Mas, por ser esclarecido, entendi seu descarte. A vida segue. E seguirá, ao final do tratamento, com a boca mais apresentável e funcional. A terceira dentição não é o fim do mundo.

Alguns podem estar curiosos pelos motivos que me levaram à ausência tão grande dos consultórios. Não pensem em rebeldia, distração ou até mesmo num processo depressivo; nada disso, faltou dinheiro. Na verdade, continua faltando, mas, apertando aqui e ali, agora dá para pagar.

Minha boca agradece.

Meu fígado, vítima de uma hepatite C, que foi curada numa época em que a cura era uma loteria, e personagem secundário nessa crônica, respira aliviado. Sem que eu tivesse feito o acompanhamento necessário, ele, velho de guerra, aguentou o tranco e está até melhor do que dez anos atrás.

Ô, sorte. 

Um comentário:

Ricardo - Cueca - Lemos disse...

Ohh sorte...rsrsrsr... Abs.