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7.3.16

O sequestro do sorriso

Para minha colega de trabalho Ana




No último carnaval, levei um susto e não foi com bate-bola ou com bêbado sem-noção solto pela rua. Eu gastava o tempo à beira da piscina. Estava sozinho e, como bom bisbilhoteiro, atento ao mundo de tantos desconhecidos largados a minha volta. Na água, duas mulheres conversavam em inglês. Meu domínio do idioma é pré-básico, sendo assim, nem me dei ao trabalho de esticar o ouvido e desfrutar da prosa alheia. Durante alguns longos minutos, olhei com discrição os gestos e expressões das duas. Caramba, não houve um sorriso, um menos que sorriso, um ricto insinuando alguma ironia ou uma simples afeição. Nada disso. Os olhos de uma se abriam em espanto ao que a outra dizia. E uma dizia e a outra respondia, e uma subia de tom e a outra diminuía, tudo em seca seriedade. Supus que pelo menos uma delas era estrangeira, talvez americana, e concluí que esses estrangeiros sofrem com gosto. Como é possível conversar tanto tempo sem desviar o assunto e meter nele um comentário sarcástico, bobinho, fresco? Nós, que sempre importamos as modas, chegaremos ao ponto de conversarmos horas a fio sem fazer uso de uma frase ou comentário que alimente um risinho, frouxo que seja?

Uma colega de trabalho do escritório de São Paulo me ligou. Levantou um problema, e, juntos, demos encaminhamento a uma possível solução. Despedi mandando-lhe um beijo. Ela disse então: “Alexandre, Alexandre, espere um pouco”. Daí tomou outro rumo e afirmou que, nós, do Rio, éramos mais leves, mandávamos beijos, brincávamos. Em São Paulo, ela sentia, as relações estavam muito fechadas, frias de fato. Eu disse, em tom de brincadeira, que o exemplo paulista espalhava-se por todos os cantos. Para ilustrar, contei-lhe as mudanças ocorridas na cidade em que nasci: na minha juventude, o cumprimento entre homens e mulheres se dava com três beijos (“três pra casar”), mas hoje a coisa minguara para um só beijo. Profetizei que em breve seríamos como os americanos, apertaríamos as mãos, se tanto.


Se eu estiver certo, ao aperto de mão seguirá um papo interminável e sisudo (mesmo dentro da piscina, em dia de descanso). Seremos apenas espanto, olhares furiosos, punhos fechados, rugas e disciplina. Nesse dia, o país poderá virar o jogo, tornar-se grande em todos os sentidos objetivos da grandeza (PIB estratosférico, assento nas comissões mais importantes da ONU, não sei mais quê). Nesse dia, os jovens terão o futuro dos deuses ao alcance das mãos. Nesse dia, os pobres serão uma fatia mínima da população. Nesse dia, teremos cruzado o deserto e chegado à terra da fartura. Mas nos faltarão o sorriso e o beijo de afeto. Nos faltará um pingo de nossa alegria inconsequente, carnavalizada até. Teremos sepultado o país que tanto surpreende os estrangeiros — de quem se rouba um sorriso. Nesse dia, ai, meus deuses, faça com que o Xandão seja apenas uma saudade ou, se não for muita pretensão, uns livros ainda disponíveis nalguma biblioteca ou, enfim a glória, um movimento — clandestino, se a situação exigir — pelo resgate sem fiança do sorriso sequestrado de um povo que sempre se empenhou em parecer fazer pouco caso de suas dores.

18.10.15

Outubro


Não consigo pegar o pulso da crônica que começo a escrever, o que não quer dizer que eu não tenha assunto. É tão somente uma advertência que faço levando em conta que a crônica da falta de assunto, em algum momento, foi, é ou será escrita por todo cronista, bom ou não. Eu diria até que, feito os temas clássicos do jazz, valorizados pelos improvisos dos músicos, a crônica da falta de assunto é um clássico que se apresenta ora num improviso de Rubem Braga, ora noutro de Clarice Lispector e até mesmo no improviso “preso à pauta” de um AB qualquer.

O que não falta a minha crônica é assunto — triste, de uma tristeza mais triste que a tristeza comezinha presente em alguma outra, por exemplo, a de quando minha mãe morreu, na qual eu comentava o abandono de seus cachorros e a coincidência de sua morte com a tragédia do voo da TAM ao pousar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

É difícil dosar a tristeza e, de resto, qualquer estado de espírito. O lado de lá da tristeza, a alegria e suas imediações, também não se dá à crônica com mansidão. Se em torno do arco da tristeza estão, doces, o recolhimento e a introspecção e, ásperos, o melodrama e o sentimentalismo rasteiro, na beira do arco da alegria cabem a parcimônia da ironia e a devassidão da comicidade. É árduo equacionar os sentimentos, o que beira ao tormento quando está se falando de um lá depois da tristeza. E o que pode haver nesse tão longe? Uma dor não exatamente nossa, do nosso íntimo, mas que reverbera nele de forma aguda, impiedosa.

Tomo as rédeas da crônica e, com ou sem pulso, digo logo o que tenho (e não gostaria) de dizer.

Outubro, no Brasil, é o mês das crianças. Essa data não surgiu de uma ação do comércio — ainda que bem aproveitada por ele. Foi, ao contrário, uma recomendação, no âmbito da ONU, de 1954 — esforço que culminou, em 1959, na “Declaração Universal dos Direitos da Criança” e, em 1989, na “Convenção sobre os Direitos da Criança”. A intenção de todos esses documentos está, a meu ver, sintetizada no de 1959. Nele são listados dez princípios que deveriam ser seguidos em qualquer lugar. O primeiro é a igualdade, o que significa não haver discriminação por raça, religião ou nacionalidade, e o último o de “crescer dentro de um espírito de solidariedade, compreensão, amizade e justiça entre os povos”. Entre os dois, o direito ao amor, à educação gratuita, ao socorro prioritário em caso de catástrofe.

Tudo faria crer que uma preocupação política dessas, sexagenária, já deveria ter revertido o quadro de sofrimento de nossos meninos, mas sabemos que isso não aconteceu. As crianças morrem vítimas da violência policial (veja o recente relatório da Anistia Internacional, com foco no Brasil), morrem de doenças insignificantes, têm dificuldade de entrar na escola e, quando entram, de permanecer nela. Em nosso país, segundo a Unicef, 25% das crianças de 4 a 6 anos não frequentam a escola e 64% das pobres não o fazem durante a primeira infância. E mais: o Brasil ainda tem 535 mil crianças de 7 a 14 anos — faixa na qual 98% delas estão matriculadas — longe da sala de aula, das quais 60% são negras. Sobre os jovens negros e pobres, no Brasil ou não, o relho da inação bate mais forte.

Não bastasse esse quadro de desamparo, as guerras que não cessam tornam o grave um ponto alocado no meio de uma escala que alcança o trágico. Debruce sobre as notícias da Síria, de onde a família de Aylan Kurdi, o garoto encontrado emborcado numa praia turca, tentava fugir. Imagine a situação do Afeganistão. Se o leitor não tem uma referência sobre o país, sugiro a leitura de “Terra e cinzas” (Estação Liberdade), de Atiq Rahimi, romance no qual é contada a história de uma longa jornada em que avô e neto buscam avisar ao filho do primeiro e pai do segundo que a vila em que viviam foi destruída por um bombardeio e, da família, apenas os dois sobreviveram. O menino é surdo, melhor, ficou surdo pelos bombardeios. A guerra era a dos anos 1980, e pelo Afeganistão de hoje passa outra guerra no lugar daquela. Como estarão as crianças, que insistem em nascer? A mesma preocupação se aplica às palestinas e, de outra maneira, às israelenses.


Se a África, em regiões conflagradas ou não, fez alguma coisa para suas crianças tendo em vista a lista da ONU, baseou-se apenas no rascunho do que ali era intenção. Sabemos da penúria de povos que sofrem, ao lado da pobreza, a violência de estados corruptos e a insanidade de grupos radicais como o Boko Haram, que, não por acaso, elegem como alvo preferencial de ataque as crianças, em especial as meninas. Ferir a inocência e apressar seu fim é uma orquestração bem pensada, cujo intuito é melhor não compreender.

Eu erraria a mão ao escrever a crônica, sabia disso desde a primeira frase. Todavia, neste ano da graça de nosso Senhor, ano que faz questão de não jogar o pó da maldade para baixo do tapete, não posso me dar ao luxo de cantarolar por aí o leve refrão de Michael Sullivan e Paulo Massadas: “Hoje é o seu dia / que dia mais feliz”.  A felicidade tem passado longe.