Não conto mentira, mas tenho péssima
memória, pouco espírito investigativo e sou propenso a afirmar categoricamente como
verdadeiro o que não passa de suspeita ou é fruto de um sonho. Rola por aí que
os computadores americanos têm memória, os portugueses, uma leve lembrança. Sou
um PC português.
No livro que lancei em 2014 — “Qual é,
solidão?”, Editora Oito e Meio —, há um conto, “Sob chuva”, no qual Lois, ao
voltar a sua casa, depois de um dia complicado, encontra a namorada do amigo
assistindo ao filme “Quem comeu os cogumelos?”. Tudo no conto é invenção, menos
o filme, ainda que eu nunca tenha encontrado alguém que o conhecesse e, além
disso, jamais tenha visto referência a ele por aí, ou, por outra, li uma única
na internet, numa edição de 1982 do Diário Oficial: sua liberação com cortes
para exibição após as 23 horas. Certa madrugada de insônia, assisti na TV
Manchete a partes do filme, o bastante para ficar marcado pelo nonsense da trama. Rever ou ver por
inteiro esse filme pode reatar alguns dos meus nós. Ou desatar de vez os poucos
ainda intactos.
Eu soube, tão logo Darcy Ribeiro
morreu, que ele mantinha um galo em seu apartamento. O pensador indignado — ele
dizia que nunca se resignaria, preferindo indignar-se ao longo da vida — não
deixou filhos, mas um galo em Copacabana, essa selva de pedras cantada em verso
e prosa. Não acho referências ao galo de Darcy no oráculo Google, por exemplo.
Recentemente voltou à tona o apartamento dele — sem o galo. Acreditemos ou não,
o imóvel foi usado durante anos por pessoas do judiciário enquanto, na Justiça,
até agora não se sabe o destino a ser dado a ele — onde, eu juro, viveu um galo
—, já que não há um herdeiro direto. Talvez a escorregada recente do juiz
afastado do caso Eike Batista não seja de fato uma escorregada, mas sim prática
mais comum do que a nossa insana razão pode imaginar.
Drummond — ele? Eu é que não fui —
dizia que um bom poeta deveria gostar de um mau poeta, desses que todos
rechaçam, e, ao mesmo tempo, deveria desprezar um poeta consagrado pela unanimidade.
Um escritor que respeito muito, cujo nome preservo, não coloca Saramago no
panteão dos grandes. Se concordo? Ora, que vale minha opinião se sou apenas um
cronista “sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”?
Bem, também não sou um zé-ninguém, ouçam o que lhes conto a seguir.

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