Comecei a
escrever crônicas na passagem do século XX para o XXI, convidado pelo amigo e
escritor Marco Túlio Costa, que, naquela época, ajudava a reerguer um antigo
jornal de Passos. (Portanto, se há um culpado, é ele.) Apesar desses dezessete
anos, este é meu primeiro texto que sai justamente no dia do Natal. É verdade
que escrevi uma crônica natalina, e nela contei de uma ceia, na casa da tia
Yole, quando vi as renas e o Papai Noel cruzarem os céus. Essa visão, ao
contrário do que se pudesse esperar, me fez descrer de vez da figura do
velhinho de barba branca. Vi para descrer, o que São Tomé diria disso?
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Natal singelo numa rua de Botafogo, Rio de Janeiro |
Nada dessas coisas importa mais, hoje escrevo para ser lido na mais celebrada festa cristã. Quero
fugir das platitudes, do senso comum, o que não é, adianto, fácil. Eventos
repetitivos nos levam a buscar repetidas formas de lidar com ele. Feliz Natal!
Que Cristo nasça e renasça em seus corações. Que o bom velhinho não se esqueça
de você. O meu amigo oculto é vesgo, mas enxerga longe. Tudo isso embalado pela
Simone, que, ao cantar a versão traduzida de “Happy Xmas (War is over)” do John
Lennon, viu-a transformada em canção para estimular o comércio, destituída da
mensagem pacifista.
Não pretendo
seguir o caminho oposto, aquele no qual muita gente procura macular o espírito
da festa, trazendo à tona tudo de desumano que brota no meio de nós. 2016 é um
ano propício a isso, haja vista o número de pessoas que têm fugido de seus
lugares de nascimento para tentar, sem estrutura alguma, a vida em outro país —
são sírios, são moçambicanos, a lista é grande. Sem contar nossas tragédias
caseiras, muitas evitáveis, como essa que acomete o jovem negro, vítima
preferida da guerra contra o tráfico.
Não quis
escrever platitudes, e eis que estão escritas. Não quis escrever sequer duas
linhas que borrassem a festa, e eis que estão escritas. Preciso buscar uma compensação
a meu deslize e a minha incapacidade de trazer algo novo para sua leitura. Já
sei, um poema, um pequeno poema, e pronto. Escolho este de Machado de Assis por
identificação, pois me parece que ele também penou para escrever qualquer coisa
sobre o Natal.
Aonde chegamos? A Machado. Ótima companhia.
Soneto de Natal
Machado
de Assis
Um homem, — era aquela noite amiga,
noite cristã, berço no Nazareno, —
ao relembrar os dias de pequeno,
e a viva dança, e a lépida cantiga,
quis transportar ao verso doce e ameno
as sensações da sua idade antiga,
naquela mesma velha noite amiga,
noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto... A folha branca
pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e
manca,
a pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro
adverso,
só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”![]() |
Ilustração retirada do site de Antonio Miranda. |
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