23.2.26

Aqueles carnavais

Já fui do samba, ainda que do samba mineiro, lá do interior, onde o forte são as congadas. Seja como for, saí em escola de samba e em blocos feitos por minha turma. Fizemos coisas bem interessantes, mas duvido que elas tenham ficado na memória da cidade.

Esses blocos eram sofisticados, não pensem em esculhambação. Nós pedíamos a grandes artistas que nos dessem um tema e desenhassem as fantasias. Contratávamos costureiras para confeccioná-las, enquanto nós acompanhávamos de muito perto a produção dos acessórios. De nossos três blocos mais bonitos — Feiticeiros do Alto Xingu, Mosqueteiros do Rei e Bumba-meu-boi — o castelo dos Mosqueteiros foi montado num galpão de uma concessionária de veículos, de propriedade de um dos componentes; a colagem do papel machê nos bois feitos de bambu (por um cesteiro tradicional) aconteceu num barracão na casa de outro componente; e a preparação do carro dos Feiticeiros (com um caldeirão e tudo) em algum canto perdido na memória.

Os momentos de preparação e desfile pecavam pelo nosso mau comportamento. Éramos terríveis. Quando pensávamos em maneirar, o pintor do castelo tirava o chapéu e nos oferecia um aditivo escondido ali. Sem contar que o carnaval nos convidava a novas experimentações, e algumas delas viriam a cobrar um preço alto de muitos de nós. Lembro-me de certa vez em que um radialista — o mais famoso da cidade e "dono" dos desfiles de rua — disse que "chupávamos bolinhas". Bolinhas, para quem não sabe, eram pequenos comprimidos que, misturados à bebida, nos davam resistência e coragem; podemos chamá-las de ancestrais das atuais "balas".

Bem, exigimos uma entrevista para responder a tamanha afronta. Sugeri ao meu amigo escalado para nos representar — por coincidência apelidado de Bola (por ter sido gordinho na infância) — que explicasse ao radialista que as bolinhas eram tomadas, e não chupadas. Enfim, que nos levassem a nocaute, mas sem espalhar falsas informações. Não conseguimos espaço no programa, se não me falha a memória.

No desfile dos Mosqueteiros, um primo meu, na figura do Cardeal Richelieu, levou o personagem tão a sério que apontava para os policiais na avenida e dizia que mandaria prendê-los. Quase fomos presos, isso sim. Nesse desfile, éramos o único concorrente na categoria luxo e perdemos — quer dizer, fomos desclassificados. Em protesto, queimamos nossas fantasias na frente dos jurados. Já no desfile dos Feiticeiros, o fogo do caldeirão atingiu as cordas da roupa do cacique, e a rua começou a gritar: "É fogo, é fogo!". Diante das primeiras manifestações, pensávamos estar abafando e demoramos a perceber que as chamas quase tomavam o corpo do colega. Perguntado se não sentira o quente, ele disse: "Que quente?"

Outro desfile sem prêmios, apesar da beleza das fantasias e até mesmo de sua importância histórica. Nesse dia, logo depois, caí do carro alegórico que nos levava a algum destino incerto. Passei o carnaval todo esfolado, o que não me impediu de pintar e bordar. A vodca deu a força necessária, nas palavras de um amigo que viria a se tornar veterinário. 

Hoje vejo o carnaval de longe e assustadoramente careta. Alguns dirão, “careta, é?” Falam das minhas cervejinhas. Coitadas, são, quando não entregues por aplicativos, vendidas em mercado, portanto os perigos ligados ao seu consumo parcimonioso são ser atropelado ao atravessar a rua para comprá-las ou levar um choque ao colocá-las para gelar. O carnaval, meu povo, fazendo um paralelo não descabido com o amor escrito pelo Chico e cantado pela Gal, é uma página virada, descartada do meu folhetim.


A primeira escola de samba, o primeiro rabo de galo.


9.2.26

Um mergulho em meu sonho recente

Até agora não me transformei em uma barata — ou sei lá que inseto era aquele em que Gregor Samsa se viu numa certa manhã em Praga —, mas tenho acordado igualmente de sonhos intranquilos. É verdade que me esqueço da maioria deles, embora alguma coisa, um sabor, um aperto, um riso, me acompanhe ao longo do dia ou até mesmo por alguns dias. Não sou de sonhar com papai e mamãe, mas eles andaram por aqui nesse janeiro de clima oscilante, com dias até frios.

Estranho, estranho mesmo foi um dia desses acordar com uma música de bastante sucesso nos anos 1970 e associada aos militares. Se o que sobreviveu daqueles tempos foram as canções de protesto, muitas censuradas, meu HD tratou de registrar uma coisa brega, que enaltecia as belezas do país, tudo que os ditadores queriam. Eu te amo, meu Brasil, dois irmãos, um que dizia ter o dom, o outro que se pensava Ravel, cantavam. Um horror. Há um detalhe sobre a dupla. Tentando fugir dessa associação com a ditadura, fizeram uma música contestatória, quer dizer, na letra os grandes maltratavam os pequenos e, como conclusão, não passávamos de animais irracionais. Com isso, não conseguiram se aproximar da esquerda e distanciaram-se da direita. A vida é cruel.

Seja como for, acordei com um de seus hinos laudatórios a esta pátria, trópico abençoado, e passei o dia com aquela melodia que, se chamada de chiclete, seria um elogio. Sei bem que aqui não é um consultório psicanalítico, mas, devo confessar, o eco da trilha sonora daquele sonho chamou a atenção da parte diurna do cérebro, a que relativiza muito a importância do sonho. Qual o significado disso, monstros meus?

Uma hipótese é a percepção de que regimes autoritários podem tornar-se realidade em países muito orgulhos de sua democracia. Os EUA estão agindo no desespero, interna e externamente. Observo as notícias ao longo do dia, emburaco em sonhos opressores, acordo com músicas estúpidas. Afinal, sou um sujeito preocupado com os rumos do mundo e tenho medo de que o presidente norte-americano, com armas capazes de destruir mil vezes o planeta, invada o meu, quer dizer, o nosso quintal.

Pode ser também que, ao me aproximar de uma idade redonda, 65 anos, comece a visitar minha vida inteira e nela encontre aquele período conturbado no qual, nos programas de televisão dominicais, não era raro a malfadada duplinha se apresentar. As televisões sempre fazem um jogo dúbio, nem sempre tão dúbio assim. Seria então apenas uma coisa natural, e talvez mais tarde eu venha a sonhar com as músicas de protesto, quem sabe “Para não dizer que não falei das flores”, do Vandré, que eu e uns amigos cantávamos bem baixinho e à noite numa praça do interior de Minas Gerais.

Uma terceira possibilidade, essa mais cruel, é que retive nas minhas retinas cansadas, nas minhas elipses em curto-circuito, coisas que não quero confessar que gostava. Mas será o Benedito? Eu, aquele menino com faros canhotos numa terra conservadora, poderia gostar daquilo? Gente, gente, somos um caixinha de quinquilharias de surpresas amarfanhadas. Cruz, credo.