Até agora não me transformei em uma barata — ou sei lá que inseto era aquele em que Gregor Samsa se viu numa certa manhã em Praga —, mas tenho acordado igualmente de sonhos intranquilos. É verdade que me esqueço da maioria deles, embora alguma coisa, um sabor, um aperto, um riso, me acompanhe ao longo do dia ou até mesmo por alguns dias. Não sou de sonhar com papai e mamãe, mas eles andaram por aqui nesse janeiro de clima oscilante, com dias até frios.
Estranho, estranho mesmo foi um dia desses acordar com uma
música de bastante sucesso nos anos 1970 e associada aos militares. Se o que
sobreviveu daqueles tempos foram as canções de protesto, muitas censuradas, meu
HD tratou de registrar uma coisa brega, que enaltecia as belezas do país, tudo
que os ditadores queriam. Eu te amo, meu Brasil, dois irmãos, um que dizia ter
o dom, o outro que se pensava Ravel, cantavam. Um horror. Há um detalhe sobre a
dupla. Tentando fugir dessa associação com a ditadura, fizeram uma música
contestatória, quer dizer, na letra os grandes maltratavam os pequenos e, como
conclusão, não passávamos de animais irracionais. Com isso, não conseguiram se
aproximar da esquerda e distanciaram-se da direita. A vida é cruel.
Seja como for, acordei com um de seus hinos laudatórios a esta
pátria, trópico abençoado, e passei o dia com aquela melodia que, se chamada de
chiclete, seria um elogio. Sei bem que aqui não é um consultório psicanalítico,
mas, devo confessar, o eco da trilha sonora daquele sonho chamou a atenção da
parte diurna do cérebro, a que relativiza muito a importância do sonho. Qual o
significado disso, monstros meus?
Uma hipótese é a percepção de que regimes autoritários podem
tornar-se realidade em países muito orgulhos de sua democracia. Os EUA estão
agindo no desespero, interna e externamente. Observo as notícias ao longo do
dia, emburaco em sonhos opressores, acordo com músicas estúpidas. Afinal, sou
um sujeito preocupado com os rumos do mundo e tenho medo de que o presidente
norte-americano, com armas capazes de destruir mil vezes o planeta, invada o meu,
quer dizer, o nosso quintal.
Pode ser também que, ao me aproximar de uma idade redonda,
65 anos, comece a visitar minha vida inteira e nela encontre aquele período
conturbado no qual, nos programas de televisão dominicais, não era raro a
malfadada duplinha se apresentar. As televisões sempre fazem um jogo dúbio, nem
sempre tão dúbio assim. Seria então apenas uma coisa natural, e talvez mais
tarde eu venha a sonhar com as músicas de protesto, quem sabe “Para não dizer
que não falei das flores”, do Vandré, que eu e uns amigos cantávamos bem
baixinho e à noite numa praça do interior de Minas Gerais.
Uma terceira
possibilidade, essa mais cruel, é que retive nas minhas retinas cansadas, nas
minhas elipses em curto-circuito, coisas que não quero confessar que gostava.
Mas será o Benedito? Eu, aquele menino com faros canhotos numa terra
conservadora, poderia gostar daquilo? Gente, gente, somos um caixinha de quinquilharias
de surpresas amarfanhadas. Cruz, credo.