9.2.26

Um mergulho em meu sonho recente

Até agora não me transformei em uma barata — ou sei lá que inseto era aquele em que Gregor Samsa se viu numa certa manhã em Praga —, mas tenho acordado igualmente de sonhos intranquilos. É verdade que me esqueço da maioria deles, embora alguma coisa, um sabor, um aperto, um riso, me acompanhe ao longo do dia ou até mesmo por alguns dias. Não sou de sonhar com papai e mamãe, mas eles andaram por aqui nesse janeiro de clima oscilante, com dias até frios.

Estranho, estranho mesmo foi um dia desses acordar com uma música de bastante sucesso nos anos 1970 e associada aos militares. Se o que sobreviveu daqueles tempos foram as canções de protesto, muitas censuradas, meu HD tratou de registrar uma coisa brega, que enaltecia as belezas do país, tudo que os ditadores queriam. Eu te amo, meu Brasil, dois irmãos, um que dizia ter o dom, o outro que se pensava Ravel, cantavam. Um horror. Há um detalhe sobre a dupla. Tentando fugir dessa associação com a ditadura, fizeram uma música contestatória, quer dizer, na letra os grandes maltratavam os pequenos e, como conclusão, não passávamos de animais irracionais. Com isso, não conseguiram se aproximar da esquerda e distanciaram-se da direita. A vida é cruel.

Seja como for, acordei com um de seus hinos laudatórios a esta pátria, trópico abençoado, e passei o dia com aquela melodia que, se chamada de chiclete, seria um elogio. Sei bem que aqui não é um consultório psicanalítico, mas, devo confessar, o eco da trilha sonora daquele sonho chamou a atenção da parte diurna do cérebro, a que relativiza muito a importância do sonho. Qual o significado disso, monstros meus?

Uma hipótese é a percepção de que regimes autoritários podem tornar-se realidade em países muito orgulhos de sua democracia. Os EUA estão agindo no desespero, interna e externamente. Observo as notícias ao longo do dia, emburaco em sonhos opressores, acordo com músicas estúpidas. Afinal, sou um sujeito preocupado com os rumos do mundo e tenho medo de que o presidente norte-americano, com armas capazes de destruir mil vezes o planeta, invada o meu, quer dizer, o nosso quintal.

Pode ser também que, ao me aproximar de uma idade redonda, 65 anos, comece a visitar minha vida inteira e nela encontre aquele período conturbado no qual, nos programas de televisão dominicais, não era raro a malfadada duplinha se apresentar. As televisões sempre fazem um jogo dúbio, nem sempre tão dúbio assim. Seria então apenas uma coisa natural, e talvez mais tarde eu venha a sonhar com as músicas de protesto, quem sabe “Para não dizer que não falei das flores”, do Vandré, que eu e uns amigos cantávamos bem baixinho e à noite numa praça do interior de Minas Gerais.

Uma terceira possibilidade, essa mais cruel, é que retive nas minhas retinas cansadas, nas minhas elipses em curto-circuito, coisas que não quero confessar que gostava. Mas será o Benedito? Eu, aquele menino com faros canhotos numa terra conservadora, poderia gostar daquilo? Gente, gente, somos um caixinha de quinquilharias de surpresas amarfanhadas. Cruz, credo.

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