23.3.26

Outras guerras

Dia 8 de março, fui à manifestação pelo Dia Internacional da Mulher, que, no Rio, estava bonita, ainda que não com o número de pessoas — particularmente de homens — ideal. Hoje, depois que as mulheres, em luta, conquistaram tantos espaços, não é possível cruzar os braços e achar que toda a violência que sofrem sejam casos isolados, coisa de homem desajustado. Não é, não. O mundo anda bem complicado, e a ascensão dessa direita adepta da guerra e da anticiência, xenofóbica e misógina reflete o ressentimento masculino. No caso do senhor Laranja estadunidense, a reação vem com o que há de mais moderno em termos de armas de destruição, não poupando sequer as crianças, haja vista que um dos alvos americanos no Irã foi uma escola infantil para meninas. O presidente americano faz o trabalho sujo enquanto a maioria de nós, homens, se senta à sombra à espera do novo dia, que na realidade é o velho, o velhíssimo, impossível de ser reproduzido.

Minha amiga Graça, dia desses, me mandou um post reportando o primeiro concurso de miss travesti em Minas Gerais, ocorrido em 1966. Ela conheceu, conviveu até, com a ganhadora, Sofia de Carlo. Interessante é que a vice-campeã, Erika, é minha conterrânea. Posso estar enganado, mas é uma pessoa apagada da história municipal, o que é compreensível, mas não justificável. O que terá sido dela? Em que rua nasceu e cresceu? Continua em Passos (imagina a barra que era naquela época, se ainda é hoje)? Está viva? As travestis, as trans e todas as pessoas nesse grande leque LGBTQIAPN+ formam outra população na mira dos machos em modo vingança.

Diante da notícia anterior, brinco que Passos faz parte da vanguarda, mas, na verdade, a cidade, como tantas outras, está inserida no cenário da violência. No final de semana em que se celebrava o Dia da Mulher — me corrijo, é dia da luta, ligado a momentos de protagonismo feminino nas questões trabalhistas —, uma jovem de 15 anos levou dezessete facadas na zona rural do município. Não houve assalto, ela não sofria ameaças, tudo indica tratar-se de mais um feminicídio. Triste.

É preciso que não percamos de vista essas histórias. O estupro coletivo acontecido no Rio de Janeiro — quatro rapazes armaram uma cilada para a ex-namorada de um deles; ele e ela menores de idade —, ao chegar à mídia, revela muitos outros. Pior que isso, redes misóginas, a machosfera, vêm à tona. Nelas, homens e jovens ensinam uns aos outros como violentar mulheres, como impor o sim ao não. Num mundo de tantas guerras, ao que parece, as mulheres são a pátria a ser abatida.

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