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16.3.20

Em torno do umbigo

Gostaria de começar esta crônica-espelho com a palavra convulsão, pois me vi num estado convulsivo nos dias próximos ao lançamento no Rio de Janeiro de “Nenhuma poesia: uma antologia” (Editora Patuá), um conjunto de poemas escritos ao longo de quarenta anos. Como quarenta são os anos vividos no Rio, é um livro comemorativo. Sim, uma comemoração minha comigo mesmo. Meu nome é Narciso Alexandre Pessôa Brandão. Ou foi por uns dias. Agora já voltei à realidade estúpida reproduzida pelos espelhos, vitrines, capôs de carros e latas abandonadas nas ruas.

Nos meus dias de beleza revelada pela água, vivi as bobagens mais bobas que a ansiedade nos faz viver. Me vi um adolescente que não sabe muito bem como lidar com os compromissos que, da noite para o dia, mudam de tom. Símbolo dessa mudança era deixar de usar calças curtas. Pois então, nos dias em torno do dia do lançamento, minhas calças compridas estavam sendo confeccionadas pelo alfaiate da delicadeza, da amizade. Eu não sabia e pensava que elas iriam me apertar e me reter no chão. Insônia, dúvidas em cascatas, essas são as companhias da ansiedade adolescente.

Mas também há um nível da ansiedade menos estúpido, aquele no qual um cara com sete livros soltos pelo mundo se vê metido. Será que não fui longe demais, por que não ficar escrevendo meus contos e crônicas, deixando isso de poesia pra lá? Mas por que não, se há material para um livro? Essa briguinha tem, de um lado, a vontade de se dar ao mundo como mais uma voz que lhe quer falar e, de outro, a vaidade, a proteção um tanto quanto covarde do próprio nome.

Publicar o livro foi a vitória de quem quer dialogar. Como digo sempre, escrevo com esse fim. Claro que, ao escrever, busco a forma que me agrade, ou seja, não faço pouco caso das questões estéticas, mas o meu interesse é falar com o hoje.

Amigos que escrevem entendem esse estado convulsivo, um pouco letárgico e muito viçoso. Para quem não escreve, pode soar incompreensível, mas, por favor, faça um esforço, não saia por aí dizendo que o Xandão é cheio de nove horas. Não sou, só tenho um umbigo que, numa hora dessas, fica maior que o mundo.

Chegado o dia do lançamento, raspei o prato do afeto. No quintal da casa que minha filha e outras psicólogas alugam (mulheres, obrigado pelo espaço tão acolhedor), recebi pessoas de vários mundos: da faculdade, do trabalho, da família, do círculo de amigos, da literatura. E foi um encontro, além de lindo, potente. Todos nós sorríamos. Poderia ser simplesmente uma festinha, mas não, ali firmávamos o compromisso calado de manter o sorriso no rosto para enfrentar a monstruosidade que governa nosso país, eco desafinado de uma monstruosidade que se impõe ao mundo.

Na viagem ao umbigo, encontrei forças para sair dele e exigir que a gente lute para retornarmos à convivência social respeitosa — ainda que contraditória, com forças conflituosas puxando a corda cada uma para o seu lado —, que, com a intermediação do Estado, deve buscar o bem comum. 

15.1.20

40 anos no Rio

Cheguei ao Rio no dia 5 de março de 1980. Vim depois de passar as férias em Passos, mas eu já não morava lá, saí de minha cidade em 1977, mudando-me para Belo Horizonte.

Um dia talvez eu escreva alguma memória sobre esse período, mas hoje minha intenção é apenas justificar porque, na efeméride dessa data, resolvi lançar um livro de poesia.

O fato é que a poesia foi minha primeira manifestação artística. Ainda criança, fazia musiquinhas e, um pouco mais tarde, compunha músicas bem precárias. Dessa experiência o que ficou foi a poesia.

Em 1986, minha irmã Patrícia trabalhava na Imprensa Oficial de Minas Gerais, e ali se fazia (e ainda faz, creio) o Suplemento Literário de Minas Gerais. Ela sabia que eu escrevia, conhecia minhas músicas. Como lá no Suplemento circulava um conterrâneo nosso, o premiado poeta Antonio Barreto, a Paçoca levou um material para ele avaliar. Acho que mandei uns cinco ou seis poemas. Passado um tempo, recebi tudo de volta com anotações (tenho tudo em casa, sabe-se lá onde). Mais surpreendente, três foram publicados.

Quando me derramo de agradecimento ao Barreto, ele diz que não teve essa de QI, não. Seu relato é que os poemas foram parar nas mãos de pareceristas e a decisão final foi sugerir a publicação de três. Seja como for, considero o mestre Barreto um dos meus padrinhos literários. Ele, o Noll (que fez o prefácio de meu primeiro livro, Contos de homem) e o Marco Túlio Costa (que me inventou cronista).

Para comemorar meus 40 anos de Rio, pensei em escrever uma série de crônicas memorialistas, mas, quando dei por mim, não teria tempo para preparar um livro a ser lançado em 5 de março de 2020. É uma tarefa hercúlea para um sujeito desmemoriado e que não dá muito valor ao que viveu. As duas coisas indicam que produziria um péssimo livro.

Quando estive na Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto (Gilberto Abreu, outro conterrâneo, meu ex-professor de história e escritor admirável, foi o homenageado), eu, Alexandre Marino e Nádia Monteiro trocamos umas figurinhas e eles se prontificaram a ler minhas poesias. Foi uma coisa linda e uma força danada. Depois pedi outras leituras (com respostas igualmente lindas), de Adriane Garcia e Alberto Bresciani. Isso sem contar o próprio Eduardo Lacerda, editor sensível, com pendores claros para a escrita e a edição de poesias.

Se tenho um livro de poesia, ora, façamos de seu lançamento a comemoração dos meus 40 anos na cidade maravilhosa, mas feia; de cultura inclusiva, mas de segregação; da beleza dos corpos, mas de clima infernal.

É um livro bom? Olha, todo escritor é vaidoso, mas eu, no caso da poesia, sou menos (já como contista e cronista, nem digo). Isso quer dizer que estou mais preocupado com a comemoração do que com a qualidade da poesia (todo escritor é mentiroso). De todo modo, acho que tem alguma coisa bacana, sim, ao lado de poemas menores, ruins de verdade. Na realidade, em tudo que faço (fazemos?) há essas duas porções. Passados 25 anos desde o lançamento de meu primeiro livro, já não alimento grandes ilusões. Escrevo porque quero falar com meu tempo.

Assim será. Ainda que formalmente não dedique meu livro a esses caras que me deram a força inicial, o livro é deles, em especial do Barreto.

Um brinde!

#nenhumapoesiaumaantologia

Lançamentos: 

                    15/02, em São Paulo (na Patuscada, Rua Murat, 40, Vila Madalena).

                    05/03, no Rio de Janeiro (local por ser definido).


Já em pré-venda.