Abril, ao abandonar o verão, promete temperaturas amenas, o que nem sempre cumpre. O de 2026, quente e já pelo meio, acontece em um ano no qual o menino levado, El Niño, vai aprontar das suas. Ouvi de um especialista que ainda não se pode prever catástrofes — tempos mais secos no Norte e chuvosos no Sul, sim —, mas é certa uma elevação considerável da temperatura a partir de setembro.
Por motivos alheios ao clima, tenho um acerto de contas com este
mês em que dois irmãos, um sobrinho-afilhado, duas sobrinhas-netas e alguns
amigos fazem aniversário, pois de cara nos levou aquela amiga – escritora,
tradutora e, corajosa, também editora – um pouco mais velha que eu, portanto
nem jovem nem idosa. Não, senhor, não é assim que se inicia seu mandato no
calendário. Não é assim que se comporta. Sua função é nos dar mãos fortes para muitos
parabéns e, insisto, aliviar o calor, nos ajudando a poupar o dinheiro gasto
com o ventilador ou o ar-condicionado.
O mês de arianos e taurinos também nos tirou uma prima com
mais de 90 anos. Sempre lamentamos a morte, mas minha prima, ao contrário da
amiga, teve uma vida plena, não foi antes do tempo. Espero que o senhor entenda
a diferença entre encerrar um ciclo completo e interromper aquele por se
completar.
Mal associo minha prima à plenitude, me questiono, pois relembro
o que me aconteceu um pouco depois do dia internacional da mentira, marco
inicial do mês da descoberta do Brasil e de São Jorge.
No meu ônibus de sempre, me sentei ao lado de uma senhora;
97 anos, viria a saber. Estava sozinha e puxou assunto comigo de uma forma pouco
usual. Na página da revista que eu lia, havia uma charge: uma mulher está
deitada na cama, ao lado de uma cartola de mágico, e um homem, à porta do
quarto, diz: “Eu sei que você está aí”. A senhora então, invadindo minha
leitura, perguntou quem estaria ali. Ri. Ela respondeu com um sorriso maroto e
emendou, assim do nada, que o atual presidente dos EUA é o diabo. Me fisgou. Confessou
a idade e contou que servira desde seus doze anos a uma família brasileira,
grande parte do tempo vivendo na Inglaterra. Lá, não foram raras as vezes em
que cuidou de quinze crianças enquanto os pais se divertiam em pubs. Histórias
de exploração começaram a saltar em minha cabeça, mas achei melhor não entrar
nesse assunto.
Continuando a conversa, enfiou outra observação política: com
o Bolsa Família, o presidente brasileiro estava fazendo com que ninguém mais quisesse
trabalhar. O velho e desgastado papo conservador. Para quem achava Trump o
diabo, assassino de crianças, a opinião sobre a transferência de renda era um
passo e tanto atrás. Depois de tentar, sem sucesso, lhe explicar a ideia desse programa,
perguntei se ela estava a passeio ou voltara de vez ao Brasil. Voltou de vez,
mesmo sob protesto, já que os patrões viam no país um lugar de no money, no
job.
Embora lúcida, com capacidade visual e auditiva
impressionante, era dona de um pensamento estranho, que alcançou o ápice ao culpar
as mulheres por todas as mazelas do mundo. Fazem filhos e não se importam com a
criação deles, enfatizou. Atordoado com tamanho disparate, tentei voltar à
leitura. Fui mais uma vez interrompido, agora a senhorinha falava da comida
brasileira, da alegria de comer feijão de domingo a domingo.
Enfim, ela toda em si, quase um milagre da natureza, e eu,
transitando entre o encanto e a covardia, nos separamos. Para desembarcar,
atravessou o ônibus e desceu as escadas sem vacilo algum, num andar de quem tem
mais ou menos a idade de minha amiga que, um dia depois, abril, o senhor
impediria de chegar aos setenta.
Não bastassem o calor, as mortes ao meu redor e o episódio triste
e anedótico do ônibus, este mês de outono infantil seguiu com a ameaça feita
pelo Orange Man de extinguir numa noite a civilização persa. Reforçando o
comportamento habitual de menino valente de rua que, na hora H, se esconde entre
as pernas dos pais, o energúmeno recuou.
Sabe de uma coisa,
mês que estende o tapete vermelho para maio, esse, sim, lindo, de céu
espetacular? Embora eu não entenda nem acredite no zodíaco, você avança sem
personalidade própria, arredio à intensidade ariana e à persistência taurina.
Fica um conselho: se redima, sopre-nos um vento fresco, ainda é tempo.
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