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26.1.26

WA em BH

 Mal entramos num tradicional bar de cozinha alemã de BH, apontei o sujeito sentado sozinho à mesa. “Não é o Woody?” Mais interessado em pedir a cerveja e o rosbife, RG deu uma olhada rápida e concordou. O homem era a cara e o focinho do cineasta americano, autor de filmes incríveis e sobre o qual uma sombra de pedofilia ainda pesa, apesar de a justiça tê-lo inocentado. Quando a véu de noiva chegou e molhamos as palavras, o colega de mesa voltou o rosto novamente em direção ao sósia. Dessa vez, se espantou. “Fotografa a peça.” Missão impossível, havia entre nós e o sujeito um grupo ruidoso e movimentado, gente que mudava de cadeira, levantava-se para fumar ou ir ao banheiro. O registro morreria na nossa memória.

Isso de fotografar me lembra “Mystery Train”, de Jim Jarmusch, um filme com três episódios cujo único ponto em comum é o fato de os personagens estarem hospedados em um mesmo hotel em Memphis. Na primeira história, um casal de japoneses chega à cidade americana para visitar o túmulo de Elvis Presley. No aeroporto, o rapaz dispara a tirar fotos, sua companheira lhe pergunta por que ele fotografa todos os aeroportos e nunca as paisagens lindas visitadas nos quatro cantos do mundo. Ele responde que os aeroportos são todos iguais, portanto é preciso fotografá-los para não caírem no esquecimento. O Woody Allen de Minas seria uma paisagem deslumbrante, inesquecível, portanto, segundo o personagem de Jarmusch, desnecessária de ser captada.

Voltando ao bar, que é o que interessa, de repente, WA se levanta e, ao se encaminhar para fora do bar, cutuca as costas de RG e o chama de “meu ídolo”. Desconcertado, meu parceiro de copo leva uns segundos para processar quem era aquele seu fã. Quando a ficha cai, o nome do sósia salta-lhe à boca. O Allen mineiro estava uns goles acima e, impulsionado pelo encontro, começou a contar casos que esclareceram a ligação entre o fã e o ídolo. Este, por sua vez, não conseguia parar de rir. Ria de tudo. Se o WA estivesse sóbrio, teria ficado chateado. Enfim, ouvimos um pouco daquelas histórias, tiramos fotos, nos desejamos boas festas. A vida seguiu, quer dizer, papamos o rosbife, descemos algumas cervejas e, pronto, fomos eu para minha casa, RG para a dele. WA decerto tomou um avião.

RG escreveu “O dia em que os Beatles visitaram Belo Horizonte” (editora Lê) e garante que os meninos estiveram em Minas, embora seja impossível checar as evidências porque o quarteto, antes do sucesso, teria ido de avião de Londres ao Rio pela Panam e de trem do Rio a BH pela Vera Cruz, empresas que não existem mais. Além disso, não se hospedaram em hotel, mas num apartamento na Afonso Pena defronte ao Parque Municipal, onde RG morou até a mocidade, e dali Paul McCartney teria visto e se deslumbrado com um pássaro preto, nessa versão, a verdadeira fonte de inspiração de Blackbird. Esse apartamento também não existe ou ninguém sabe de seus moradores daquela época. Agora que vi o cineasta e jazzista em BH, começo a acreditar que o livro de meu amigo não é uma ficção, mas um relato de quem presenciou os queridinhos de Liverpool — ou seus sósias — flanando pela Capital dos Sonhos. Ê, Minas!

As coisas não acontecem isoladas uma das outras, segundo a voz popular. Digo isso porque, quando fui embora de Belo Horizonte, encontrei uma possível personagem de Woody Allen no ônibus. Detectei tratar-se de uma pessoa compulsiva ao despachar minhas malas no bagageiro. Ela fazia o mesmo e falava, falava pelos cotovelos — não seria a primeira vez que uma mulher seria o alter ego do diretor. Naquele instante, contava a outro passageiro uma história que visivelmente não interessava a ele. O caso tinha a ver com uma esfirra dura comprada num bar de beira de estrada — na viagem feita na noite anterior, do interior para Belo Horizonte — e era descrito com riqueza de detalhes, principalmente o enfrentamento com a vendedora intransigente, disposta a não trocar o salgado. Precisava desabafar, pensei, mas, ao se acomodar no ônibus, a falação não teve fim. Como não havia ninguém ao seu lado, passou a gravar e disparar em sequência mensagens pelo zap. Certa hora, estiquei o ouvido. A personagem do diretor de Nova Iorque dizia a um interlocutor, depois repetia a outro — chegou a falar com aquele rapaz do início, que, sentado na poltrona depois do corredor, fez ouvido de mouco — que o Brasil era um absurdo, veja só, não havia iluminação nas rodovias, tudo era escuro, e sobravam árvores, era preciso podá-las em bom número.


Imagem criada por IA

Maldade minha com Woody, a senhora não era uma de suas personagens, está mais para essa grei que reza para pneus e crê na terra plana. A essa altura, deve estar aplaudindo o senhor Laranja, sem desconfiar de que o que ele fez ao sequestrar o polêmico Maduro, com quem não me simpatizo, e sua esposa é crime. Um ato terrorista? Ah, isso é para os advogados, não entendo nada de direito internacional.

26.8.24

Uma semana de cão

 



Para Helena e Luan


Helena e Luan viajaram, então passei uma semana cuidando da Kira e do Yuki, os cachorros que me conhecem como seus auvô. Fomos felizes, creio, ainda que eles parecessem melancólicos e donos de um vazio evidente. Como também mergulho em poça nem rasa nem funda, fomos felizes também por compartilhar, em silêncio, nossas garatujas existenciais.

Em minha casa, no interior de Minas, sempre houve cachorros. O que marcou minha vida foi o que temia tanto a água quanto a palavra água. Era só dizê-la para o Zorro sumir do mapa. Nunca tomou um banho que não fosse dado pela chuva, da qual não tinha como fugir, pois não frequentava o interior da casa, vivendo no seu, e todo seu, quintal. Assim, o corpo a corpo com meus aunetos foi um aprendizado e me obrigou a me desvencilhar de preconceitos. Os dois dormiam ao meu lado, às vezes me fazendo de travesseiro. Aí está uma ideia a se pensar: nascemos, crescemos, formamos família e, não mais que de repente, nos transformamos em travesseiros. Num mundo em que muitos mal conseguem abrir ao afeto um mínimo espaço dentro de si, não é ruim ser um travesseiro – para cachorro ou não.

Durante aqueles dias, aqui e ali torcia por nossas equipes nas Olimpíadas e, final do dia, início da noite, via ou revia filmes. Houve uma certa decepção com a seleção feminina de futebol – quem ganha a medalha de prata perdeu o jogo final – e a alegria promovida pela dupla feminina de vôlei de praia. Entre as medalhistas de ouro, descobri Bia Souza (1), do judô. Só de olhar para ela, dá vontade de ser seu amigo, de compartilhar daquele sorriso esplendoroso. E principalmente de abraçar aquela mulher que, diante de um repórter sem noção que lhe pede, enquanto ela desce do pódio, uma opinião sobre Teddy Riner – o judoca francês que conquista tudo –, responde que o cara é bom, mas ela, com a medalha de ouro no peito, quer saber é de comemorar a própria vitória. Isso, garota, falo sozinho. Kira balança o rabo, igualmente solidária à Bia. Indiferente, Yuki rói o osso.

As disputas em Paris inspiraram vários memes. Ciscando um aqui, outro ali, cheguei a duas conclusões: não há vida sem memes e Minas está em alta. Graças à inteligência artificial, Simone Biles e Rebeca Andrade conversam, e a americana pede à nossa atleta que leve a Los Angeles, em 2028, um queijo brasileiro bom. Rebeca responde que tem amigos em Minas, que irá arranjar o melhor. Aí Simone comenta que na terra dela também falam uai, e a brasileira, meio surpresa, diz que jurava que sua adversária era mineira. Bobagens saborosas, que Kira e Yuki ignoram, preferindo, em momento de tédio profundo, partir para uma brincadeira mais vigorosa: encaram-se, avançam um sobre o outro, trocam mordidas e latem com ganas de calar o mundo. Com isso, quem não se anima sou eu e, depois de tentar sem sucesso repreendê-los, me abstraio daquela balbúrdia e vou preparar meu café das 16h, que não é boca de pito para aquele cigarrinho das 16h20m.

Sou daqueles que gostam de uma boa e velha sala de cinema, mas quem não tem cão, caça com gato. No caso, eu tinha cães, que, aliás, gostam de caçar pernilongos e não soube nem sei – por sorte – como fariam se, por acaso, um rato nos visitasse. Sendo assim, como se adentrasse uma floresta de raposas, na companhia de meus ferozes cães farejadores, explorei os streamings da vida.

Entre as revisões: “Terra estrangeira”, de Walter Salles e Daniela Thomas, se passa na época de Collor e me faz suspirar: “ah, o Brasil e seu habitual retorno ao abismo”; “Meia noite em Paris”, de Woody Allen, nostálgico e leve, dá uma chave de braço em nossa perspectiva: a utopia está no passado, quer dizer, esteve, ou seja, além de nostálgico e leve, um tantinho pessimista. “Encontro e desencontro”, de Sofia Coppola, é, como minha memória retinha, um ensaio delicado sobre a solidão. Por fim, “Priscilla, a rainha do deserto”, de Stephan Elliott, um filme com vinte anos e atual, é uma deliciosa ode à diversidade sexual, ali representada por duas drag queens e uma transexual.

Vi “Belfast”, de Kenneth Branagh, e “Clube de compra de Dallas”, de Jean-Marc Vallée, pela primeira vez. O primeiro é um olhar sobre a infância numa cidade que vai sendo tomada pelo embate violento entre protestantes e católicos. Nos créditos finais, o filme é dedicado aos que ficaram em Belfast, aos que partiram e aos que se perderam em meio ao conflito. E é isso que essa história de formação evidencia: não é covarde quem vai embora, não é herói quem fica e muitos se perdem, tendo ficado ou ido. O segundo, além de pontuar um momento tão cruel da história recente, o do surgimento da aids, mostra, sem panfletarismo, como a ciência e a indústria em alguns momentos defendem interesses próprios, nem sempre em sintonia com os da população. 

Se os memes não interessaram aos irmãos Kira e Yuki, os filmes, muito menos, ainda mais por nenhum deles colocar em cena um gato, um cachorro, peixinhos no aquário; um rato que fosse.


(1) Uma entrevista com a atleta, feita por meu filho, o jornalista Pedro Werneck, pode ser vista aqui.