Sem sono, zapeei até chegar ao Arte 1.
Neste canal passava um documentário sobre Mondrian, parei para vê-lo. Naquele
instante contava-se que, antes da Primeira Guerra Mundial, ele fora visitar o pai adoentado
na Holanda. A guerra eclodiu, e o artista teve de ficar um bom tempo longe da
França, onde vivia àquela altura de sua vida. Deve ter sido a referência à enfermidade
paterna o que me fez lembrar-me de meu pai, de quando ele morreu.
Em minha memória armazeno inteiro e
intacto aquele dia. Na tarde anterior, recebi um telefonema dizendo que meu velho
havia sido internado. Intuindo o pior, corri à rodoviária e, depois de combinar com meu
cunhado e minhas irmãs de irmos de carro para o interior de Minas, peguei um
ônibus com destino a Belo Horizonte. Pouco dormi durante a noite. Pensava nas muitas
viagens que fizéramos juntos, papai e eu. Irresponsável, ele entregava o carro
nas mãos de um garoto de 14 anos — e dormia. No escuro, eu buscava me confortar com essas
e outras recordações e me arrastava à boca de uma conclusão: a nosso modo,
fomos cúmplices. Viagem com um tico de transgressão, nosso segredo.
Uma senhora, sentada na primeira fila,
puxava assunto com o motorista, claramente uma estratégia para não deixá-lo dormir. Lá pelas tantas, ele lhe deu uma cantada, e ela reagiu indignada. A
desavença me devolveu a meu pai, um sujeito que, apesar de ter nascido num
mundo rural, fugiu ao estereótipo e não se tornou rude — rudes eram muitas
pessoas de seu convívio, alguns parentes, outros amigos. O velho jamais
cantaria uma mulher naqueles termos, jamais alteraria o tom da voz, como de
fato nunca o vi fazer. Algumas vezes vi-o desmoronar, cair abatido, mas, mesmo
aí, com serenidade.
Em Belo Horizonte, a notícia de sua
morte veio nos olhos marejados de minhas irmãs, no abraço com que me receberam
na plataforma. Elas e meu cunhado não tiveram uma noite boa, pois souberam da
morte do velho na madrugada, talvez na mesma hora em que eu, sentado no ônibus,
supunha que ele já estivesse morto. Cansados ou não, partimos para uma viagem —
sempre uma viagem — de trezentos e sessenta quilômetros.
Nesse dia, do qual recordo todos os
minutos, uma lacuna: não sei como foi meu encontro com minha mãe. Lembro-me do que
ocorreu depois do impacto de entrar no recinto do velório: eu olhava atento o
rosto de meu pai e observava sem pressa seus traços — fino no trato
interpessoal, fino no desenho do rosto: um bom homem bonito. No que recupero o
fio da meada, encontro minha mãe ao lado do caixão, de onde não se levantou. Quando nos vimos a sós, já em casa, ela me disse: “Amei muito seu pai, mas
não vou com ele”. E aqui ficou por mais 11 anos, uma prova de amor a ele, a nós, seus
filhos, e a nossas famílias.
Fiz piada com o Ezinho Joele. Fui e
voltei da rua para ver se a família do meu irmão e minha mulher haviam chegado do
Rio. Aceitei o convite da Neide e do Guido, preocupados comigo, para ir à
padaria fazer um lanche. Devo ter comido uma bobagem qualquer, mas era a
companhia íntima de meus amigos o que me interessava, era a confiança de saber
que, no meio deles, eu poderia chorar. Não chorei nem
ali nem quando o corpo de papai desceu à sepultura. As lágrimas vieram noutro momento de
intimidade, minha com minha mulher, uns dez dias depois, quando toda a família
se reuniu para o Natal. Choro curto, excesso de um homem seco.
A vida de Mondrian continuava na
televisão. Um sujeito obsessivo. Seu ateliê reproduzia, nos móveis, os
quadrados coloridos, os retângulos coloridos e o vazio (branco) que cobriam
suas telas. Era rigoroso, gostava de jazz; vivia só, saía para dançar de par
com alguma mulher tomada emprestada de um de seus amigos. Idoso, Mondrian
mudou-se para os Estados Unidos, país no qual, finalmente, obteve
reconhecimento e dinheiro. Ali sua pintura mudou, mas seus traços continuaram fiéis
a figuras geométricas básicas.
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Mondrian |
Se meu pai fosse artista, não seria Mondrian.
Tampouco Picasso ou Dali ou Schiele. Praticaria um realismo sóbrio e acadêmico,
pintando seu mundo rural, seus bois, animais cujas qualidades ele reconhecia de
longe, num primeiro e breve olhar. Nisso era uma autoridade. Disso não soube
tirar proveito financeiro. Para ele, não houve um Estados Unidos.
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