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14.7.25

Diagnóstico preciso

Leio que uma atriz global publicou em rede social fotos de seu rosto avermelhado e confessou sofrer de rosácea, doença dermatológica que causa esse tipo de marca principalmente na maçã do rosto, mas que, em graus mais graves, pode atingir os olhos. Não é, de todo modo, nada muito sério, e o remédio sugerido é a velha e boa ivermectina, nesse caso indicada pela ciência em sua forma mais rigorosa possível, sem arroubos de presidentes boquirrotos e perigosos.

A rosácea atinge principalmente brancos, mais mulheres que homens e pode piorar por conta de certos alimentos – picantes, queijos, bebidas alcóolicas – e até por exercícios aeróbicos. No entanto, é o estresse que a faz aflorar.

Sem mostrar meu rosto, mesmo porque a coisa está sob controle por aqui, confesso que também sofro desse trem. Nenhum médico me disse para evitar os alimentos e exercícios físicos, de modo que como meu queijinho – ai de quem me proibir de comê-lo – curado da vida, dou minhas caminhadas suadas da vida, tomo minha cervejinha gelada da vida. O que não controlo é o tal do estresse.

A primeira vez que me senti incomodado com meu rostinho que nunca teve espinhas – ou teve muito poucas – aparecer manchado me fez correr para a nossa antiga dermatologista. Conhecedora de toda a família, o início da consulta foi um bate-papo sobre os filhos, como eles estão, se a pele de um melhorou, se a do outro continua aquela beleza. Enfim, papinho camarada. Então ela olhou para mim, escaneou meu rosto e, de longe, sem fazer um exame apurado, disse assim na lata: “Alexandre, você está precisando ganhar mais dinheiro”.

Nunca vi médica tão sábia.

Já com a lupa na mão e depois de investigar não só a danada da mancha, mas também o resto do rosto, o pescoço, a cabeça, o peito, ela deu o diagnóstico: “Isso no rosto é rosácea, no mais nenhum sinal preocupante”. Receitou a pomada à base da droga que esteve no centro político da covid e pediu para eu voltar daí a um tempo.

Voltei.

Estava melhor.

Só não resolvi o problema de fundo: a grana. Contra isso, a médica não pôde nem pode fazer nada. Me consolo pensando que talvez eu não seja o único, vai que a atriz global também esteja no perrengue.

10.4.21

O cronista na pandemia

A crônica, depois de pronta, pede pouco espaço, um cantinho de jornal, se muito um byte de um site, não mais que isso. Sua escrita, no entanto, requer amplidão.

O cronista bate pé pelas ruas e à tarde se senta num boteco fuleiro ou chique, na companhia de gente simples ou daquela meia dúzia de cabeças delirantes que tomam lugar nos círculos mais inteligentes da paróquia. Sai da Zona Sul para subir — ou dizer que subiu — de joelhos as escadas da Penha ou entra num avião no Santos Dumont e, depois de descer em Congonhas, se mete por cantos que não conhece à procura de vestígios do Geraldo Filme. Caminha cabisbaixo pelas ruas de Porto Alegre para ver se detecta os passos do Veríssimo. Leva para Salvador um bilhete para o Caetano Veloso sabendo que o baiano ainda não terminou de estacionar o carro no Leblon. Senta-se à margem do São Francisco, em Petrolina, abre um vinho local e espera por notícias do Zé Coco do Riachão que chegarão num vapor que talvez não mais trafegue pelo rio. Comanda um pingado no Maletta e, espantado, enxerga o Murilo Rubião na careca de um sujeito que anda com um guarda-chuva preso no sovaco, um livro de bolso enfiado no cós da calça e um cigarro apagado na boca. Oferece ivermectina para uma das emas do Palácio do Alvorada e, diante da recusa amedrontada, insiste: “Aceita, boba!”

Mais, eis que de repente, impossibilitado de saracotear por aí, não sabe o que fazer. Inventa de medir a distância entre o banheiro, o quarto, a sala e a cozinha. Encontra Hemingway na barata que o cachorro que se parece com Kafka abocanha. Dança ao som dos repiques da geladeira, de onde tira uma feijoada congelada desde os tempos em que a tia Surica não sabia cozinhar. Sopra a poeira da mesinha de cabeceira e depois corre atrás daquela bolinha voante que o atrai tanto quanto as pernas das musas atraíam Vinícius no início de sua conversão a cancioneiro. Dorme de conchinha com a saudade mais filha da rua do mundo.

Dá de acordar triste.

Chora pela hora do almoço.

Fala mal da primavera.