8.7.19

A maçã matinal e o fim do mundo




Acordar, passar pelo banheiro para se aliviar das necessidades mais prementes da manhã, coar o café, sentar-se à mesa e então ingerir os venenos produzidos a um custo altíssimo de pesquisa, acrescido de outros que garantem a comercialização e o acesso do produto ao consumidor, no caso, o produtor rural.

Olhar a maçã, conferir se a lavou direitinho e decidir por comê-la sem a casca, os riscos devem ser menores. Mordê-la e, ao contrário do escritor francês que tinha delírios nostálgicos ao comer uns biscoitinhos, não lhe chegar à boca ou ao nariz qualquer lembrança da infância. A maçã mata, não com brevidade, aos poucos. E não sozinha, mas com a ajuda de outras frutas, dos legumes, das verduras, dos cereais e das carnes. Morre-se por comer. Como Deus é irônico!

A maçã é mais letal na outra ponta, não naquela em que está o dono do negócio — por favor, isso nunca —, mas, sim, do lado do sujeito que pulveriza as árvores com o agrotóxico que não deixa nenhum bichinho de maçã, o Cydia pomonella, se engraçar com a fruta responsável por nossa expulsão do paraíso — que, agora, nos dará ao céu, se ao céu formos dados. Aquele homem é, de fato, um esteta e garante a maçã grande, esfera quase perfeita, encontrada nos mercados. Não é raro que os trabalhadores rurais, atingidos diretamente pelo veneno, tenham vida curta, apesar das roupas protetoras; são, portanto, estetas e vítimas.

Come-se para morrer, para morrer lentamente. Ora, ora, não é a vida uma morte lenta? Verdade, mas, não fossem os venenos, morrer-se-ia de coisa menos corrosiva e, mais importante, sem que o mundo morresse junto, ferido pelo desastre ambiental que produzimos.

Como viver sem o aumento de produtividade, já que a terra é pouca para os seus sete bilhões de habitantes? Não está aqui o romântico das hortaliças, longe disso, a revolução verde, que chegou tarde ao Brasil, tem méritos. Mas não raro erra a mão, e é aí que nosso país tem se excedido, aprovando qualquer veneno, mesmo alguns já descartados em outros países.

Morde-se a maçã meio aguadinha. Lê-se o jornal e depara-se com o projeto político de ignorância aviltante, no qual o agrotóxico em uso desmedido é uma parte menor diante do ódio à Floresta Amazônica (responsável, entre outras coisas, pela chuva nas demais regiões do país), do ódio à ideia de um Brasil como peça fundamental no controle ambiental, do ódio à ciência. Odeia-se muito e ama-se um quase nada.

Come-se a maçã e imagina-se uma cena: um assistente aterrorizado (e com razão) entra na sala de um desses magnânimos da ignorância e diz: “Estamos com dificuldade de exportar nossos produtos depois que abrimos a porteira para não sei quantos novos agrotóxicos”. O chefe, que crê no mundo plano, lhe responde: “Ora, nem me venha com primavera”.

As flores murcham.

E nós também.

4 comentários:

Ricardo - Cueca - Lemos disse...

Faltou colocar sal, na maçã verde....hehehehe...
PARABÉNS! Abraços.

Jacqueline disse...

Muito bom seu texto, Alexandre. Só um aparte, se me permite: na verdade, produzimos mais comida do que precisamos. Infelizmente, se há sobra na produção, há também extrema desigualdade na distribuição, fazendo parecer que falta comida. Assim, o argumento de que é preciso aumentar a produção e, para isso, utilizar agrotóxicos, é absolutamente equivocado e mal intencionado. Essa é uma informação muito pouco difundida. Quem sabe vira mote para outra crônica? Beijos, adoro seus textos!

No Osso disse...

Cueca, querido, maça com sal eu nunca comi. Com sal, só aquela velha e boa manga de vez.

Jaqueline, obrigado pela visita. Não sei se vou tão longe quanto ao não uso de agrotóxicos, mas imagino que você conheça mais o assunto que eu. Seja como for, estamos além do razoáv

Ana Zanandrea disse...

Gostei do tema e do texto! Posso repassar e usar trechos nas minhas apresentações?