Sou a praça do encontro no qual um fato do final da década
de 1980 faz piquenique com outro, de mais ou menos trinta anos antes.
1987, 1988. Frequento a Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC),
uma das pioneiras no Rio de Janeiro. Lá conheço minhas amigas do futuro Estilingues,
grupo que começa como uma oficina literária permanente, com reuniões às
quartas-feiras na casa da Marilena Moraes, as Quartalenas, adaptação do Sabadoyle.
De tempos em tempos, convidamos alguém para nos acompanhar. Nilma Lacerda é a
última, e ela não demora a saltar o balcão e se juntar a nós, abandonando o
papel de orientadora. Somos então sete; hoje, o que nos dói demais, seis. Trinta
e sete anos depois, os encontros são esporádicos, mais para compartilhar a mesa
de vinho e queijo e darmos notícias de uns aos outros. Todos continuamos no
mundo da literatura ou da fotografia e das artes plásticas.
Antes do Estilingues, ainda na OLAC, nossa orientadora é
Maria Amélia Mello, autora de “Às oito” (Prêmio Afonso Arinos, da Academia
Brasileira de Letras), um pequeno livro de contos, e, já então, uma editora
importante. Além de definir os temas dos contos a serem desenvolvidos e comentar
os escritos, nos orienta com leituras e, aqui e ali, leva alguém para conversar
conosco. Victor Giudice é um deles. Bom de prosa e de rica experiência, nos
deixa excitados com a ideia de pertencer ao mundo da literatura. Como as duas
horas do encontro são insuficientes para satisfazer a nossa curiosidade, em vez
da esticada no boteco de sempre, vamos a minha casa.
Sem a existência dessas entregas cômodas aos ébrios de
ocasião, corremos ao bar da frente e, pedindo uns cascos emprestados, compramos
a meia, a dúzia, a dúzia e meia de cervejas. Para receber troco em dinheiro, pagamos
com cheque de valor superior ao da compra. Resolvida a logística alcoólica e do
tira-gosto, nos espalhamos pela pequena sala, uns no sofá, alguém na cadeira de
balanço, outros nas cadeiras da mesa de jantar e os destemidos largados no
chão. Victor continua o centro das atenções.
No Banco do Brasil, trabalhou no setor de compensação.
Assim, se já não estivesse aposentado, em breve os cheques usados na compra da
cerveja pousariam em sua mesa para conferência do saldo. Estando tudo bem,
transferiria o valor para a conta do botequim. Caso contrário, o cheque reapareceria
no bar, e o dono que lutasse. Era um trabalho braçal, automático, enfadonho. Eis
então que o banco cria o CCBB, local ideal para uma pessoa como ele, uma chance
rara de trocar o trabalho manual pelo intelectual. O paraíso, na visão dele e
dos amigos. Abraçou a oportunidade e se meteu na área de pesquisa, desfrutando das
melhores condições possíveis. Só que... Depois do trabalho, onde encontrar
forças para lidar com a sua literatura, seu real interesse, fonte de lucidez e
fé na vida? Não, arrancarem isso dele, não. Victor deu um cavalo de pau e recuperou
a função de carimbador de cheque.
2024. Leio Ágota Kristóf – não confundi-la com Agatha
Christie, a inglesa das histórias de crime e suspense –, húngara que volta ao
mercado editorial brasileiro pela editora Nós depois de muito tempo fora de
catálogo. Em “A analfabeta” (tradução de Prisca Agustoni), livro de cinquenta e
duas páginas, pequeno e intenso, ela dá um testemunho de como se tornou
escritora. Tudo começa quando, aos quatro anos, se vê tomada pela doença da
leitura.
Nasceu em uma família pobre, num país pobre, um pouco antes da
Segunda Guerra, ao fim da qual viu a Hungria tornar-se um apêndice da União
Soviética. Essa mudança dá início ao processo de analfabetização da menina
prodígio. De uma hora para outra, os professores húngaros tiveram de aprender
russo para ensinar a nova língua a seus compatriotas. Ágota, com vinte e um
anos, o marido e a primeira filha do casal, um bebê, fugiram. Como parte de um
fluxo migratório da Europa Oriental para a Ocidental e com a ajuda de um
coiote, transpuseram a fronteira da Áustria. Ao contrário das experiências
recentes, com africanos ou latino-americanos, os europeus do leste eram bem
recebidos, afinal abandonavam o comunismo. A escritora sofreu muito, mas não
lhe viraram as costas. Depois de finalmente se instalar na Suíça, Ágota enfrentou
a condição de analfabeta plena. Não falava nem lia francês. Como faria sem a
leitura, logo ela? Levaria um tempo até se virar na nova língua inimiga – como
chama a todas não maternas –, que afinal dominaria bem, escrevendo nela,
inclusive.
Durante a sua terceira alfabetização, Ágota empregou-se numa
fábrica em que trabalhavam muitos imigrantes (não é de hoje, não é de hoje). O
trabalho, enfadonho, não lhe roubava o cérebro e lhe dava tempo de escrever, em
húngaro, poemas que enviava a um jornal de seu país ao qual tinha acesso
esporádico. Ela diz: “Para escrever poesia, a fábrica é ótima. O trabalho é
monótono, é possível pensar em outra coisa, e as máquinas têm um ritmo regular
que cadencia os versos.”
Giudice e Kristóf, sentados
num banquinho mixuruca, nessa praça de alma mole em que me vi transformado,
concluem: ser bom escritor requer uma certa vagabundagem. Riem, e eu ligo a
fonte de minhas águas roxas, rindo também.