2.11.26

Um café e nada mais

Não leio. Os livros comprados ou recebidos de amigos ou não estão empilhados ao lado da minha cama. Quer dizer, não leio desde o início da fase mais acirrada da campanha presidencial.

Do mesmo modo, não escrevo. As ideias, as obsessões, a necessidade vital de escrever estão escanteadas em algum lugar entre o cérebro e o coração.

(Me corrijo: escrevo as crônicas quinzenais, o que exige um esforço tremendo, valorizem isso ao ler mais esta.)

Milito. A possibilidade de ter um presidente que celebra tortura e mostra-se disposto a entregar o país a potências internacionais nunca coube na minha cabeça. Não sou bom virador de votos, mas meus dedos se cansaram de tanta militância cibernética, e meus pés doeram de tanto frequentar manifestações. A militância deu resultado, o resto um bom escalda-pés resolve.

Amo. E o amor, pleno e abrangente, repercutiu nesse ambiente que, além da rinha, pedia a delicadeza. Nosso lado, ainda que heterogêneo, tem no amor um princípio.

Rio. Se, no caso da militância, compartilhei muitas falas sérias e taxativas, foram os memes o ponto alto. Reduzir o adversário a uma piada vale mais do que dizer que ele trafega no lado escuro da vida, no corredor fora da lei.

Choro. As histórias vêm à tona e despertam uma mistura de sentimentos.  Empatia: jovens pobres, quase todos pretos, que, graças a políticas públicas, se formaram numa universidade. Impotência: familiares lembrando-se de parentes perdidos no inconsequente enfrentamento da covid por um governo desumano. Revolta: o assassinato da menina Ana Clara cometido por um policial que o candidato derrotado livrou da cadeia. Repito a frase que virou um símbolo da atual campanha eleitoral, estampada, por meu amigo Nuno Rau, num cartaz empunhado em passeata: não votamos só por nós, votamos pelo outro, pelo historicamente excluído. Choro, e aqui de contente, por ver surgir, em um país friccionado desde sempre, pessoas que não aceitam mais a ideia de viver a serviço da elite.

Celebro. Estar perto de amigos, em comunhão com eles, dividindo nossas dores e alegrias, é como reabastecer o carro, é como tomar um banho, é como ver um bom filme, é como almoçar com o pai e a mãe a macarronada de domingo. A celebração é um grito que, além do som, leva os temores para bem longe, ao mesmo tempo que é um chamado ao futuro — hei, baby, venha devagar, com bons modos e boas notícias.

Bebo. Por que não haveria de querer perder um pouco o juízo e sair abraçando meio mundo e anunciando a vinda do impossível? (Me lembro de Itamar Assumpção cantando “Que tal o impossível?”: “Que tal se nós dois pudéssemos / aquilo que desejássemos? / que tal se nós dois cantássemos / tocássemos e nós dois mesmos dançássemos?”.) Por que não haveria de cantar aos quatro ventos e desafinadamente a alegria de viver a história e derrotar o retrocesso? Por que não me curvar ao encantamento de ter participado de alguns momentos históricos deste país — a campanha das Diretas-já, o movimento dos caras pintadas e agora esse tsunâmi da campanha de segundo turno? Só bebendo, crianças, só bebendo.

Faço mais coisas, depois de ter deixado de fazer outras. Mas entre o fazer e o não fazer, paro e tomo um café, um café e nada mais. Às vezes, estou sozinho, às vezes, não. Num caso e no outro, a bebida quente e preta desce garganta adentro e, feito o biscoitinho do Proust, me leva também para o meu mundo de dentro, em que há restos de encontros, perdas e afastamentos. A vida é esse trem misterioso, mas o café, ele mesmo, tomado sozinho, tomado acompanhado, é apenas um conforto que não deixa de ser uma espécie de salvação.