25.9.19
22.9.19
21.9.19
Aghata Vitória Sales Félix - Morta pela polícia do Rio, em 21/09
Aghata, eu não
segurava a arma, não dei o tiro, mas sou seu assassino. Se me calo, torno a
matá-la, a ceifar sua vidinha tão miúda, seus oito anos. Não vou depositar
aqui, como flores de uma inteligência que a tudo alcança, explicações em
relação aos descaminhos tomados por esse Brasil vergonhoso.
Venho apenas
confessar meu crime. O crime de quem nunca atirou, de quem não estava no
Alemão, ali no Estofador, na hora que uma policial — ela terá filhos? —, talvez
de olhos fechados, disparou o fuzil.
Pequena Aghata,
fui eu o assassino. Minhas mãos estão limpas, mas minha consciência não. Sabe o
que eu fazia mais ou menos na hora que o tiro encontrou suas costinhas em
formação? Eu tirava uma selfie para fazer uma brincadeira no Facebook e atiçar
a curiosidade de meus amigos ou conhecidos daquela rede sobre a frase que
acompanharia a foto: “para o ano”. Eu fiz isso, está lá a foto. Ao fazer isso,
eu a matava no Alemão, sem dar um tiro.
Seu nome parece
que é nome de uma santa, santa protetora dos seios, veja isso, dos seios, nosso
primeiro prato farto, nosso primeiro bibelô, nosso primeiro travesseiro. Será
que sua mãe lhe deu o peito? Sua mãe morreu um tanto ontem. Você e ela por
minhas mãos. Por minhas mãos limpas.
Se me calo,
atiro mais uma vez e mato você, que já está morta. Mato você de novo e, de
novo, outras tantas crianças iguais a você, pretas e pobres. Porque a ideia
agora é evitar que vocês cresçam, que vocês tomem assento no parlamento, que
conquistem seus direitos no grito, na garra. Vocês têm tanta garra, vê se é
possível conviver com isso!
Eu a matei, Aghata.
Que grande bandido anda grudado nas minhas mãos limpas.
16.9.19
Efeito colateral do sonho
Estava em Tiradentes durante a semana de gastronomia. Cheguei no sábado e, até o dia seguinte, quando meus anfitriões voltaram de uma pequena viagem, fiquei só e gastei o tempo andando e cumprindo com louvor uma tarefa típica dos vagabundos: medir as ruas.
No caminho para o centro histórico, na boca da rua, o supermercado vendia, num preço bem mais convidativo do que aquele praticado lá no bochicho, geladíssimas cervejas. Meu trajeto me impedia de ignorar a promoção. E foi, já no Largo das Forras, sentado ao pé de uma daquelas árvores tão históricas quanto a cidade e tomando uma das cervejas compradas a preço de ocasião, que ouvi uma criança chorar. Em seguida, um menino foi lá tentar acalmá-la. Uma graça, ainda existem gestos solidários.
Eu não estava no centro dos acontecimentos, tudo se passava ali nas minhas barbas, enquanto minha preocupação era com o que eu faria com a garrafa vazia, já que não via uma lixeira disponível. Sei que o choro sumiu, a ajuda do menino foi providencial. Um mundo sem choro é bom, é bem melhor do que aquele com choro, mas quem chora sabe bem como chorar alivia. Do ponto de vista de quem chora, o mundo com choro é muito melhor. Viver é um encanto, quando não é um fardo. Com choro ou sem choro, vai-se levando.
Depois de localizar uma lixeira e deixar uma das garrafinhas lá, vi que o pai levava para perto de outros familiares a criança que antes chorava. Ao chegar, contou o diálogo que teria tido com ela. Reproduzo suas palavras. Ele perguntou: “Acarmou?” Ela respondeu: “Acarmei”. Ele fez outra pergunta: “Por que que ocê tava nervosa?” E ela, definitiva: “Porque eu sonhei”.
No jeito de falar, na entonação, o diálogo carrega Minas inteira e, por isso, alimenta minhas saudades. No entanto não é só Minas que está ali, o Brasil inteiro está. O Brasil no qual, ao sonhar, perdemos a calma. Como vivemos um pesadelo, qualquer imagem idílica que se nos apresente não nos pacifica, nos desacarma. Ao sonhar, as crianças choram. Nós... não posso generalizar, então falo de mim. Eu, diante do breu destes tempos que o grande Veríssimo chamou de guerra (Somos atacados pelo governo, O Globo, 5/9/2019), bebo.
Minto. Além de beber, vou para as ruas; participo dos movimentos críticos da verdadeira barbárie que se escolheu pelo voto; escrevo. Faço o que posso.
13.9.19
7.9.19
2.9.19
Ensaio palpiteiro sobre a crônica
Patinho feio da literatura, a crônica é de leitura leve,
ainda que nem sempre o assunto de que ela trata seja ameno. Surgida nos
jornais, num cantinho rodeado de notícias sangrentas ou muito importantes,
essas que falam dos rumos do país e até do mundo, a crônica, para sobreviver, fez-se
sedutora. Conseguir um leitor não é tarefa fácil, daí a opção pela sutileza
(contra as certezas brutas dos vizinhos), pela linguagem polida (contra o texto
prolixo) e até pelo assobio (em clara tentativa de falar com os pássaros, pelo
menos com eles).
Ao contrário da poesia, do romance, do conto ou do ensaio, a
crônica busca o leitor em vez de ser procurada por ele. Explica-se assim o seu
jeito atirado, mas nem de longe vulgar. A crônica é, por estratégia de
sobrevivência, sensual, ainda que não fique claro se sua sensualidade é feminina
ou masculina ou, o que parece mais apropriado, masculina e feminina. Digo que é
sensual, mas é preciso dizer que é uma sensualidade que não está diretamente ligada
ao ato sexual. Em vez da carícia preliminar, a crônica é aquele telefonema no
meio da tarde para dizer que vai se atrasar, são as roupas íntimas que, lavadas
durante o banho, ficam esquecidas no box, é a mão que toma a outra durante a
sessão de cinema.
Talvez por ser tão comezinha, a crônica cuide dos assuntos
comezinhos. Ou dê tratamento comezinho a qualquer assunto. Uma superpotência
invade um país, a crônica não se mete com as questões geopolíticas, com os
interesses econômicos envolvidos. Sua preocupação é com as mães que esperam os
filhos enquanto as bombas caem pelo caminho, com o filho que espera o pai, com
o pai que espera a mulher. A crônica é guardiã da delicadeza, talvez por isso
seja o suprassumo da política.
Apesar de ser aliada dos que estão à margem do poder, a
crônica não fala de sua indignação apenas em tom severo e tristonho. É
encrenqueira, escrachada, hilária; claro, quando quer, porque não aceita
ordens, enquadramentos, leis, horários, limites. Nisso, não se difere da
literatura ou das artes de modo geral. Quando a crônica se curva e aceita
limites que lhe são impostos, ela não vai além de uma lenga-lenga saída das mãos
de um canalha.
22.8.19
20.8.19
19.8.19
Briga de rua
Pela movimentação nas imediações do metrô, logo percebi que era um rolo, o desentendimento imediatamente anterior a uma briga de rua. Na minha cidade, 50 anos atrás, as brigas ficavam restritas a socos, mas hoje tudo está tão a tiro e pó que, cauteloso, procurei me afastar. De soco e até de cadeirada, sei me defender, seja com a ginga de corpo, seja com um revide, mas de bala...
A curiosidade, mórbida, é verdade, não me fez simplesmente deixar o local e ir para casa ou mesmo para um bar distante, onde nenhuma sobra da briga me alcançasse. Me posicionei num longe perto e fiquei de butuca. São as palavras que identificam os grupos confrontantes, também são elas que levam os agressores a agir — não por acaso, a pancadaria começa quando um xinga a mãe do outro. Sabendo disso, pus a orelha lá no meio do bafafá. “Pôr a orelha”, não sei se devo me explicar, é só uma força de expressão, longe perto eu estava e fiquei, e, de lá, mantive-me atento, atentíssimo.
Logo que agarrei as primeiras palavras da roda, vi que as condições da discussão não eram muito claras. Não parecia haver lados distintos, os grupos eram diferenciados pela intensidade com que cada um deles se identificava com o tema em debate. Seria como se torcedores do Flamengo brigassem para saber quem era mais flamenguista. Eu sou flamenguista roxo. Eu sou flamenguista com título de sócio-proprietário. Eu sou um geraldino órfão do velho Maraca. Mas não era sobre o Flamengo. Nem sobre Botafogo, Vasco, Fluminense ou América. Também não era sobre Portela e Mangueira, sobre Zona Norte e Zona Sul ou sobre Nordeste e o resto do país.
A briga era para saber quem estava mais duro. Eu não tenho dinheiro para entrar no metrô, descer na Central e tomar o trem até a Pavuna. Ora, mas você almoçou, não é? Parem com essas coisas de pobre, pior sou eu que devo o ordenado de hoje, o de amanhã e o de depois de amanhã. Veio aqui só pra gozar da nossa cara, seu classe média decadente. Muito bonito! E eu? Não posso parir o filho que carrego para ser mais um faminto na vida e não tenho um tostão para não levar a gravidez adiante. Nessa hora, pensei: vão aparecer os religiosos e dois grupos serão formados, os contra e os a favor do aborto, e, aí sim, tendo dois lados, a guerra começará. Mas não. Outra moça enfrentou a primeira. Você ainda faz por onde engravidar, eu e meu namorado tivemos de empenhar nossa libido na Caixa. Só querem dinheiro para a sem-vergonhice, de cultura ninguém quer saber. Mas eu não vou ao cinema, não vou a museu — nem digo os da Europa — já nem sei há quanto tempo.
Um mendigo correu para o centro do círculo recém-formado e com gestos de quem apresenta uma atração no picadeiro desejou a todos uma boa estadia no inferno. De tornozeleira eletrônica à vista, um arquimilionário jogou o mendigo para fora da roda e começou a dançar, e logo se viu que não era uma dança. O homem que foi obrigado a entregar ao erário três Mercedes, quatro barcos, dezoito aviões, trinta e duas concubinas e um elefante que defecava marfim foi tomado por uma entidade. O preto alto e sorridente fez questão de dizer que não era nenhuma divindade africana naquele corpo branco que, de um instante para outro, passou a emitir um bip-bip interminável. A menina de oito anos, que reclamava um churros prometido havia exatos quatorze meses e vinte e sete dias, apontou o dedo pro possuído e, com medo de que ele explodisse, se escondeu entre as pernas do pai. O pai, indiferente ao temor da filha, garantiu o doce para o próximo mês. Enquanto isso, o arquimilionário, entre aplausos e vaias, encenava, como um canastrão daqueles, uma queda ao chão.
Comecei a achar que me faziam de palhaço. Tudo indicava que o pau ia quebrar, mas nada, só bate-boca, só um querendo fazer de sua desgraça a mais terrível. Pensei na minha pindaíba, maior que umas, menor que outras. Lembrei-me da queda livre de muitos amigos. Seria bom me aproximar daquelas pessoas e explicar a elas que todos sofríamos por conta do governo, com exceção do arquimilionário, um fanfarrão que haveria de se ver com os deuses da África. Dei os primeiros passos e, ao tomar o lugar no centro, não sei o que aconteceu comigo, sei que meti um soco no rosto que me olhava à espera da confissão de meu fracasso. Não era o do milionário.
11.8.19
9.8.19
5.8.19
Bandeira Gullar dos Anjos
Vamos viver na bolha, Anarina. Deixarei aqui meus inimigos,
levarei os livros, minha única riqueza. A vergonha vai comigo. Deixarás aqui
tua filha, tua avó, teu marido, teu amante: esses que se abraçaram à escuridão
e a ela continuam abraçados. Aqui ecoa quente a sandice dos bárbaros, sua
truculência. Na bolha pode ser que, em momento de desentendimento, o tom de
nossa voz se eleve e nos escapem uma ameaça ou outra, mas lá é a bolha, e os do
nosso lado estarão deitados em berço esplêndido de ar. Vamos viver na bolha, Anarina.
Quando dois e dois voltarem
Como dois e dois estão sob suspeição e já não se sabe se
somam quatro, a vida se equilibra na corda bamba, vale ou não vale a pena? O
pão, que era caro, caro está, e a liberdade, pequena que seja, anda acuada num
beco sem saída. Teus olhos continuam claros, mas a catarata os tornou opacos,
tua pele morena não pode mais com o sol, mesmo que o oceano seja, só de longe,
azul e o fedor da lagoa chegue longe. Como um tempo de terror por trás da
alegria me acena e a noite carrega o dia estúpido nas suas costas açoitadas,
rezo para que dois e dois se acertem e voltem a somar quatro, pois desconfio
que a vida vale a pena, esteja o pão a que preço estiver e desde que a pequena liberdade
encontre a saída daquele beco.

Assim já nem tão íntimos (leia o poema)
O formidável enterro de tua última quimera está sendo
agorinha, e, como não nos espanta, a ingratidão, tua companheira inseparável,
com suas garras de pantera, não terá te deixado só. Não posso desejar que te acostume
à lama que te espera, na lama estamos todos, homens que, nesta terra miserável,
moramos entre feras e, por inevitabilidade e necessidade, fera nos tornamos.
Não te dou cigarro nem fósforo, o escarro é a véspera de outro escarro, o beijo
secou, a mão não afaga, tudo agora é na base da pedra — da bala.
28.7.19
22.7.19
A crônica da falta de assunto: módulo sem noção
Quando estive em Kentucky... Epa, nunca estive em Kentucky. Na América do Norte, fui a Nova Iorque já faz algum tempo. Uma cidade adorável, inclusive, pois é um lugar do mundo, ou pelo menos foi assim que a entendi em minha pequena estadia por lá. Não só há muitos estrangeiros, como, a despeito da profusão de símbolos nacionais espalhados aos quatro cantos, aquela imensidão cujo coração é Manhattan parece ser um espaço para além do espaço. Claro, minhas observações estão feitas à luz daquela visita rápida e da música, da literatura, do cinema e do jornalismo americanos com os quais, a vida toda, mantive contato. Portanto não me leve muito a sério. Ou leve, fica a seu gosto.
Quando não estive em Kentucky, fazia frio, nada parecido com os –38ºC marcados nos termômetros de uma cidade do estado, Shelbyville, em 1994, mas fazia frio. Desestando lá naquele fevereiro friorento, pensei em um punhado de coisas fora do alcance dos Estados Unidos da América, se é que isso é possível, afinal é do Império que estou falando. Mas vamos em frente, nem eu nem você, leitor ocasional ou não, precisamos ser tão rigorosos. Aceite meu ponto de vista: pensei em coisas sem nenhuma relação com as terras que já foram dos Apaches e dos Lenapes, entre outros.
Os Lenapes, faço uma (outra?) digressão, serviram de mote a uma das mais saborosas comédias românticas americanas, “O pecado mora ao lado”, de Billy Wilder, com a estonteante Marilyn Monroe e o espetacular Tom Ewell. No começo do filme, em off, uma voz assegura que os habitantes originais da ilha de Manhattan, justamente os Lenapes, no verão, mandavam as mulheres para as montanhas, ficando, naquele pedaço de terra cercada pelos rios Hudson, Harlen e East, apenas os homens. Essa tradição teria sobrevivido aos séculos. No filme, que se passa nos anos 1950, os nova-iorquinos (ao contrário de um certo presidente, não erro o gentílico) ainda mandavam as esposas para tomar uma fresca nas montanhas. Richard Sherman, o personagem de Tom Ewell, era o senhor casado cuja mulher se ausentara, e “A garota”, Marilyn Monroe, sua vizinha: o tal pecado que morava ao lado. Quem não viu o filme pode imaginar o que acontece. Mas não basta imaginar, é bom acompanhar a trama.
Ai, ai, vamos ver se me acho. Eu dizia que, quando não estive em Kentucky, pensei determinadas coisas não relacionadas aos Estados Unidos da América. Foram muitas, mas pouparei você, leitor, de quase todas, me poupando também de me lembrar delas e, pior, de escrever sobre elas. Cuidarei de uma, a mais importante.
O que eu pensava — agora a cabeça está em Monroe, mas nem vou dar detalhes, já abusei demais, peço-lhe desculpas — era o seguinte: a falta de noção de um cronista pode levá-lo a tal grau de delírio que, diante de um passarinho, ele pia; diante de um cachorro, late; de um burro, zurra. Apesar disso, diante ou não de outro homem, o cronista sonha. O sem noção sonha, o que garante que, na ordem e na desordem natural das coisas, ainda há alguma esperança.
20.7.19
18.7.19
17.7.19
16.7.19
14.7.19
12.7.19
11.7.19
10.7.19
9.7.19
8.7.19
A maçã matinal e o fim do mundo
Acordar, passar pelo banheiro para se aliviar das
necessidades mais prementes da manhã, coar o café, sentar-se à mesa e então
ingerir os venenos produzidos a um custo altíssimo de pesquisa, acrescido de
outros que garantem a comercialização e o acesso do produto ao consumidor, no
caso, o produtor rural.
Olhar a maçã, conferir se a lavou direitinho e decidir por
comê-la sem a casca, os riscos devem ser menores. Mordê-la e, ao contrário do
escritor francês que tinha delírios nostálgicos ao comer uns biscoitinhos, não lhe
chegar à boca ou ao nariz qualquer lembrança da infância. A maçã mata, não com
brevidade, aos poucos. E não sozinha, mas com a ajuda de outras frutas, dos
legumes, das verduras, dos cereais e das carnes. Morre-se por comer. Como Deus
é irônico!
A maçã é mais letal na outra ponta, não naquela em que está
o dono do negócio — por favor, isso nunca —, mas, sim, do lado do sujeito que
pulveriza as árvores com o agrotóxico que não deixa nenhum bichinho de maçã, o Cydia pomonella, se engraçar com a fruta
responsável por nossa expulsão do paraíso — que, agora, nos dará ao céu, se ao
céu formos dados. Aquele homem é, de fato, um esteta e garante a maçã grande, esfera
quase perfeita, encontrada nos mercados. Não é raro que os trabalhadores rurais,
atingidos diretamente pelo veneno, tenham vida curta, apesar das roupas
protetoras; são, portanto, estetas e vítimas.
Come-se para morrer, para morrer lentamente. Ora, ora, não é
a vida uma morte lenta? Verdade, mas, não fossem os venenos, morrer-se-ia de
coisa menos corrosiva e, mais importante, sem que o mundo morresse junto, ferido
pelo desastre ambiental que produzimos.
Como viver sem o aumento de produtividade, já que a terra é
pouca para os seus sete bilhões de habitantes? Não está aqui o romântico das
hortaliças, longe disso, a revolução verde, que chegou tarde ao Brasil, tem
méritos. Mas não raro erra a mão, e é aí que nosso país tem se excedido,
aprovando qualquer veneno, mesmo alguns já descartados em outros países.
Morde-se a maçã meio aguadinha. Lê-se o jornal e depara-se
com o projeto político de ignorância aviltante, no qual o agrotóxico em uso
desmedido é uma parte menor diante do ódio à Floresta Amazônica (responsável,
entre outras coisas, pela chuva nas demais regiões do país), do ódio à ideia de
um Brasil como peça fundamental no controle ambiental, do ódio à ciência. Odeia-se
muito e ama-se um quase nada.
Come-se a maçã e imagina-se uma cena: um assistente
aterrorizado (e com razão) entra na sala de um desses magnânimos da ignorância
e diz: “Estamos com dificuldade de exportar nossos produtos depois que abrimos
a porteira para não sei quantos novos agrotóxicos”. O chefe, que crê no mundo
plano, lhe responde: “Ora, nem me venha com primavera”.
As flores murcham.
E nós também.
7.7.19
6.7.19
2.7.19
1.7.19
30.6.19
28.6.19
24.6.19
Burocratas contra o encanto
Começo com uma história. Eu estudava na USP e tinha um
colega de Pernambuco, um funcionário público licenciado que viveria em São
Paulo enquanto durasse o mestrado. Ao tomar uma carona com ele, vi que seu
carro tinha placa de Recife. Imaginei sua viagem para São Paulo. Saíra numa
manhã de sábado, dirigira uns 800 quilômetros, parara para descansar em Feira
de Santana, na Bahia, e seguira viagem no domingo ainda de madrugada, quando,
lutando contra o cansaço, percorrera os quase 1.900 quilômetros restantes até
São Paulo. Ou, o que parecia mais sensato, fizera outra parada em Belo
Horizonte, 1.300 e tantos quilômetros de Feira de Santana. Ou viajara sem tanta
pressa pelo litoral, curtindo praia, conquistando amores.
Quando perguntei ao colega sobre a viagem, constatei que minhas
especulações passaram longe da verdade, ele despachara o carro num navio. Sim, embarcara
o carro no bem-bom de um navio em Recife para resgatá-lo em Santos. É uma
história menor? Não, não é, só é um pouco mais fria, um carro no navio, seu
dono no avião.
Na época dessa história, o padrão das placas dos automóveis
era o de duas letras e quatro algarismos. (Meu pai tinha um KT 0108, que eu
chamava de “Catoio 8” — mas isso não tem importância.) Pouco depois, as placas
passaram a ter três letras seguidas de quatro algarismos. No mais antigo e no
que o substituiu, deveriam estar impressos o estado e o município.
No momento, está em processo a implementação de um novo
padrão, agora com três letras seguidas por um algarismo, outra letra e mais
dois algarismos. Não há mais a indicação do estado ou do município, somente a
do país. Assim, atende-se ao propósito de dar unidade aos países que formam o
Mercosul, já que segue as diretrizes indicadas por ele. Nada contra.
Nada contra, mas há um problema: ao abandonar o modelo ainda
em vigor, perdemos uma fonte primorosa de devaneios e inspiração. Coloquem-se na
Praça JK de Cássia, Minas Gerais, por onde passa um carro de Desterro, Paraíba,
com a placa GKL 0229. Não captou a questão?
Serei didático. Nas placas que estão sendo deixadas de lado,
as letras iniciais indicam o estado do primeiro emplacamento. Quando esse
modelo entrou em vigor, o Paraná serviu como teste. Por isso, carro com placa
que se inicia com a letra “A” foi necessariamente registrado lá. Pavimentei a
estrada aonde quero chegar. Continuo.
Uma placa GKL teve origem em Minas Gerais. Na do carro que
passou por Cássia, terra de tantos parentes e onde Antonio Candido passou a
infância, a cidade indicada é da Paraíba. Um cassiense, morador da Paraíba, terá
comprado o carro na cidade natal e, como vivia na outra cidade, fez o certo e o
transferiu para o local de moradia? Ou o carro teve origem em outro ponto de
Minas e o sujeito da Paraíba passava ali por Cássia por acaso, talvez com o
objetivo de, tomando a estrada para Delfinópolis, chegar à Serra da Canastra
para curtir uns dias com seu novo amor?
Perguntas sem resposta. Pergunta sem resposta se parece com poesia:
ambas alimentam os sentidos, e só (só?). A mudança ora em processo nos tira
essa desciência tão cara à imaginação. Os burocratas agem contra o encanto; é
birra deles.
As novas placas nos impedem de devanear, de imaginar a
possível história de amor que carrega um carro emplacado no Rio Grande do Sul e
transferido para Roraima estar circulando por Maceió. Alguns dirão, ora, amplia
o foco, pense num carro do Brasil nas ruas da Bolívia ou do Chile. O que não esconderá?
É verdade, mas, nesse caso, o certo é pensar em viagens turísticas — a família
ou os amigos realizando um sonho antigo —, ou, desculpem-me a dureza e o
possível preconceito, em roubo. Podem até ser histórias bonitas ou aventureiras,
mas previsíveis e menos românticas do que aquelas insinuadas pelas placas gravadas
com estado e município.
19.6.19
16.6.19
15.6.19
Reaparece o professor
Escrito em junho de 2019 para a 19a. Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que homenageou Gilberto Abreu, escritor, professor e político de Passos que vive em Ribeirão Preto.
Uma pequena confissão:
estar aqui entre estes quatro é uma alegria sem tamanho. Quando comecei a
escrever, jamais imaginei que um dia estaria na condição de colega desses
escritores, sentado à mesma mesa. É muito para o Xandão da dona Haydée e do seu
Joaquim.
A satisfação
pessoal não termina aí, ao contrário, aí é o seu início. Estou aqui porque o
homenageado de evento tão importante apontou a mim e aos demais passenses como
parceiros de sua trajetória. Estou aqui pelo nosso Gilberto. Nosso, digo, de
seus familiares, de seus leitores, de seus alunos, de seus amigos, de seus
conterrâneos. Agradeço ao Gilberto e à Feira Nacional do Livro de Ribeirão
Preto pela oportunidade de participar dessa comunhão.
Devo esclarecer
que as minhas lembranças do homenageado estão embaladas em névoa. Um pouco
porque sou desmemoriado, outro pouco porque há vazios e rupturas em nosso
convívio. Portanto tudo que será dito aqui pode ser um delírio meu.
Nosso convívio
começou em sala de aula. Gilberto foi meu professor de História no Colégio
Polivalente, em Passos. Essa afirmação é incontestável. A que deveria vir
colada a ela, se foi um bom professor, já me remete à zona cinzenta. Será que
não me lembro, simplesmente não me lembro? Isso não é possível, pois me recordo
de tantos outros professores. Cito alguns: Carabolante, Zé Leite, Leonor,
Osvaldo, Marlene, Teresa, Faria, Martinha, Piruá, Marcão, Reinaldo. De cada um
deles posso contar uma história, duas, falar de nossas rotinas. Do Gilberto,
não. Por quê? Porque ele sumiu. Simplesmente sumiu. Um dia estava, no outro dia
não estava. Sabendo-se que estávamos na década de 1970, em pleno governo
Médici, é possível supor, sem grande esforço, o que teria ocorrido. Não posso
afirmar nada categoricamente, nem mesmo com o querido Gilberto conversei sobre aqueles
dias, mas, ora, ora... A época em que o professor que estava deixou de estar
coincide com a mudança dele para Ribeirão Preto, aqui onde, não sei se na
flauta, e imagino que não, ele foi abraçado, tornou-se um professor de
prestígio, um político de prestígio e, por fim, consolidou-se como um escritor
do andar de cima da literatura brasileira.
Bem, mas, do
meu ponto de vista, nosso convívio tem outras incertezas. Um dia eu estava na
porta de minha casa em Passos, ao lado de onde um pouco depois iriam morar os
pais do Gilberto e seus 832 irmãos, e não sei se ele, se minha mãe — não sei,
efetivamente não sei —, alguém fez com que seu primeiro livro caísse em minhas
mãos de menino desinteressado por literatura. Aposto que era aquele livro. Aqui
nem mesmo o contexto histórico me ajuda. Sou eu, eu mesmo e um livro — e é tudo.
O primeiro livro do Gilberto, bem sei, é “Feto Outonal”, e foi ele que minha desmemória
colocou em minhas mãos lá em 1975, 1976. Se me lembro do livro? Não. Apenas — e
agora é a hora da verdade, pois o querido Gilberto poderá dizer, “Xandão, o que
você fumava na sua adolescência? Nada disso é real, você misturou histórias, se
é que não fez coisa pior” — que ele era ilustrado por outro artista passense, o
multitalentoso Gustavo Lemos (já falecido). Ao lado de uma das ilustrações — da
qual não me recordo, claro —, havia um versinho, desses que são anteriores a
nossa existência: “Zé prequeté tira bicho do pé pra bebê com café”*. Do versinho
nunca me esqueci. Do livro não lido nunca me esqueci. A literatura entra na
vida da gente até quando não entra.
O que há de
mais forte na figura do mestre, uma das vigas que sustentam esta festa do livro,
é a imagem borrada, espectral, enfim, poética que mantenho dele.
Mas eu, homem
de quase 60 anos, não poderia ficar apenas nisso. Então, ao me preparar para
esta participação, corri atrás de alguns de seus livros. Não encontrei em minha
casa o “Feto Outonal”, ainda que seja provável que esteja lá, que o tenha
ganhado de minha mãe. Mas estavam lá “Lorca Balada Louca” e “Beijos a Gardel”.
Na leitura
recente, o Xandão quase maduro poderia ter sepultado o outro que guarda apenas
brumas e devaneios de um poeta que admira. Não, isso não aconteceu. Ao ler
esses livros, vieram outras tantas especulações. Como é que esse cara conjuga
Borges com Lorca ou Passos com o mundo? Qual é o alfabeto que só ele domina?
É um homem da
utopia de uma América grande e integrada. É um homem que cultua Maiakóvski. É
um homem que agregou ao vermelho o verde, arrisco a dizer que de forma
pioneira.
Muitas dessas coisas
estão presentes nos livros citados. O romance, uma escrito-leitura de “A morte
e a bússola”, de Borges, mereceu o prêmio Guimarães Rosa, de 1990, e merece
reedição. Os poemas são uma mistura de nostalgia com semeadura do futuro, o que
se vê no seguinte verso de “Pelas ruas do mundo”: “Findos os meus ócios, deixe
/ em Passos os meus ossos. // Lá me tornarei adubo fecundo: / onde passam as
ruas do Mundo.”
Por intermédio
da literatura, o mistério, se não se resolve, se insinua: aquele professor que
estava e deixou de estar da noite (e que noite!) para o dia (nublado por muitos
anos e, agora, novamente nublado, se é que não voltamos à noite) é uma usina de
humanismo. Isso me consola, me anima, me faz ter certeza de que Gilberto foi um
dos meus melhores professores e, com certeza, aquele cujos distraídos e pouco
estruturados ensinamentos continuam a fazer eco neste meu coração de poeta.
![]() |
| Como eu suspeitava, o livro existe e eu o ganhei. |
* Texto adicionado depois do encontro em Ribeirão Preto: Gilberto Abreu me deu um exemplar do livro. Confirmei a autoria das ilustrações e que existe mesmo a página citada. Fiquei sabendo que Antonio Barreto é o autor do prefácio do livro, uma novidade e tanto para mim.
10.6.19
O que é então, moço?
Sonhava com uma fazenda, um pedaço de terra onde pudesse plantar umas poucas frutas e legumes. Para comer de quando em quando pamonha e curau, uma plantação igualmente modesta de milho. A felicidade, que nunca é plena e permanente, pousa de leve num mundo assim, ou assim com o acréscimo de um cavalo cujo nome poderia ser Equinócio, uma graça tola, mas, ora, as graças tolas eram a própria razão de seus devaneios.
Uma queda d’água. Árvores generosas em sombra. Galinhas poedeiras e um galo bom de bico. Um rádio de pilha e seus programas da hora da alvorada. Botinas e sela penduradas numa parede escanteada. Durante as noites, um gambá e um morcego disputando o forro da casa. Isso tudo já como excesso.
O futuro imaginado é um passado já vivido nas terras da avó, onde cavalgava um tal Segredo. Só falta ser sem luz, sem água quente, com mugido de vacas leiteiras antes mesmo do bom-dia do rádio.
Algo está errado. Esse sonhador preza a multiplicidade urbana, caótica e perigosa. De onde veio essa maldita nostalgia? (Nostalgia não; outra coisa: ilusão.) Melhor perguntar a ele.
O que há contigo, moço?
Um amor que chega ao fim? Sim, um amor nesse ponto.
Um retrocesso político? Sim, esse que se vê.
Pessimismo com o futuro do universo? Sim, a natureza não vai dar conta.
Nós, leitores de Paulo Mendes Campos, não sabemos que o amor sempre está a ponto de acabar? Quando é que a política não nos cobra atenção? Quando é que não destruímos a natureza?
Hein, moço?
Os quase sessenta anos já pesam? Sim, esse peso.
Os filhos feitos? Sim, a independência deles.
A falta de grana? Nem me diga.
Ora, antes chegar aos sessenta do que não. Que bom que os filhos vão à luta. A grana vem e vai, pense nos seus pais, pense nos amigos.
O que é então, moço? Vamos, me responda, pois eu também ando fugindo da realidade, se não sonho com a vida rural, sonho com Marte, com outra galáxia. O que está acontecendo? Não pensamos mais em mudar o mundo?
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| Bansky. |
9.6.19
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