31.8.22
“O SOL PELO BASCULANTE” (Urutau, 2022), poemas de Alexandre Brandão
27.8.22
De última hora
A caminho da mesa no fundo do bar, o cronista comanda um chope e uma porção de amendoim ou azeitona, o que for mais fácil. Senta-se de frente para a porta, pois não quer perder um só acontecimento. O garçom deixa seu pedido e volta para perto do outro garçom. Ambos se colocam bem na entrada, um à direita, o outro, cotovelo apoiado no balcão, à esquerda. O da direita mexe no celular, o outro olha a rua. O cronista pensa no distanciamento, na incomunicabilidade. Sorve um bom gole do chope, que está bem tirado e na temperatura ideal. Ele gostaria de desejar muita coisa na vida, mas, no fundo, o chope é o máximo a que chega. Fora isso, cultiva um nada de vaidade, que é uma espécie de desejo insaciável.
Bate o dedo indicador na mesa, mas, sem produzir som para
não chamar a atenção do garçom, não precisa dele. O dedo, obedecendo a uma
música que só toca dentro do cronista, dança. O garçom do celular se aproxima
do outro, mostra qualquer coisa na tela e os dois riem. Quer dizer, o que não
se desgruda do aparelho ri desbragadamente, o outro, aquele que deixou o chope
e a azeitona na mesa, é mais contido, talvez tenha sido apenas educado.
De vez em quando, ao passar pela calçada, alguém cumprimenta
os garçons ou o atendente de balcão. Uma jovem senhora avisa que virá mais
tarde, tem uma amiga do interior em sua casa e faz questão de que ela experimente
as pataniscas de caranguejo. O cronista se dá conta de que, apesar de frequentador
assíduo, jamais comeu daquela iguaria. Quando vai além da azeitona e do amendoim,
repete o peixe à milanesa, acompanhado de arroz não com brócolis, mas de
brócolis — uma licença poética, uma delícia culinária. No bar, estão ele, os dois
garçons — um distraído com o celular, o outro retraído, talvez pensando em boletos,
problemas familiares ou cultivando nostalgias —, o atendente do balcão e a
turma da cozinha, gente que a despeito do pouco movimento tem muito trabalho; cortam
cebola, descascam e amassam alho, limpam carne, preparam a massa do bolinho de
bacalhau, fazem sabe-se lá o que com o caranguejo, recheiam pastel, amolam facas,
cantarolam. Da mesa, é possível ouvir um pouco da comportada algazarra.
Ainda hoje deverá enviar a crônica à revista. Não tem ideia
do que escrever. O bar vazio vezes o vazio daqueles poucos homens à espera dos
clientes vezes o vazio do próprio cronista resulta em nada. Pede mais um chope
e um novo potinho de azeitona. Chega a pensar em beber uma dose, uma cachaça
mineira, mas desiste, afinal, há uma crônica a ser escrita. Uma crônica a ser
escrita e nada a dizer. Ou por outra: há o que dizer. O governo continua
péssimo. O amor não se cansa de bater com a cara na porta. A comédia toma conta
das ruas, das mesmas ruas que servem de cenário à decadência. Sim, não falta
assunto, mas o cronista não quer lidar com eles. Sua pretensão é observar e falar
do que pouco se revela.
Dado o prazo apertado e a delícia do chope que o deixará
mais tempo no bar às moscas, talvez não lhe reste outra saída a não ser a de
escrever a crônica da falta de assunto. Chegar a esse ponto é a derrota, pelo
menos a dele, que não é nenhum Braga ou Mendes Campos; nenhum Pelé das letras.
Pede o terceiro chope e, vá lá, um chorinho de uma daquelas
de Salinas. Antes de a cachaça descer goela adentro, deixa-a descansar na boca
e formigar a língua. Poderia escrever sobre os pequenos prazeres, mas quem está
para pequenos prazeres? Os garçons se aproximaram um do outro e, claro,
acompanham um grande acontecimento que se passa na tela do celular. Quando nada
acontece, alguma coisa acontece, ainda que de forma mentirosa, no mundo
virtual.
Morde com força a azeitona. No impacto dos dentes com o caroço, uma obturação leva a pior. O cronista a recolhe e embrulha-a num guardanapo de papel. Antes de enfiar no bolso aquela bolota branca, passa a língua no buraco do dente e sente o gosto do fracasso, prato mal cozido e sem tempero. Apesar disso ou exatamente por isso, pensa ter encontrado uma crônica. A tarefa será escrevê-la com humor, um mínimo de humor.
Encosta-se no balcão a fim de pagar a despesa, mas resolve pedir, para tomar em pé, outra dose e mais um chope. A saideira. O garçom do celular se aproxima e lhe mostra aquilo que o fez rir tanto, o tempo todo. O cronista pega o aparelho, firma-o bem na mão, afasta o braço e, aos primeiros segundos do vídeo, chora.
13.8.22
Joaquim
Hoje é Dia dos Pais, e eu, cronista que foge das efemérides como o diabo se regozija com o fogo, lembro-me do meu e dele conto, com afeto, algumas historietas.
Quando saiu “A
palavra em construção”, primeiro livro no qual aparecem alguns continhos meus, mandei
um exemplar para meus pais. Ao encontrá-los, perguntei ao velho se havia
gostado. Sua resposta foi não, que parou a leitura na primeira frase. Ele se
referia a “Encontro na madrugada sem lua”, que começa assim: “Meu pai morreu”.
Tenho várias maneiras de entender a resposta, mas, tocado pelo humor que ele nutria,
escolho a da graça. O fato é que não posso afirmar se leu ou não. Se gostou ou
não.
Joaquim viajava
o Brasil vendendo tourinhos e novilhas. Na juventude, em um país ainda
ruralíssimo, no lombo de cavalo, em comitivas cheias de histórias. Mais tarde,
enfiando a boiada num caminhão e indo logo ali, ó, no Pará, ou bem aqui, no
interior do Rio de Janeiro. Em Santo Antônio de Pádua, deram-lhe o título de
cidadão honorário em reconhecimento ao que fizera pela pecuária local. Se
hospedava no hotel do Bidinho, que lhe reservava o mesmo quarto, de onde se
ouvia o barulho do rio. Só ficava ali, comentou comigo, para ouvir aquela
música.
Nesse hotel, no
fim da tarde, juntavam-se os fazendeiros que iam fechar um negócio e amigos que
Joaquim fez na cidade, como o inseparável Edmundo do Banco do Brasil. Um juiz
de direito aposentado, morador do hotel, era presença certa. Ele, iracundo, e
meu pai, moleque que só, não se entendiam. Joaquim gastava noites e noites
amolando o senhor. Certa época, inventaram que meu velho tinha um caso com a
única fazendeira do grupo, e o juiz, que conhecia minha mãe, não se conformou e
passou a soltar os cachorros pra cima daquele “vendedor de boiada de uma figa”.
A noite passava, os homens e a única mulher (ou as duas, quando minha mãe
estava lá) se divertiam. O mal-humorado, em permanente revolta, ainda que ameaçasse
meu pai, o devasso, com violência ou delação, nunca cumpriu a promessa
nem faltou às reuniões nem as abandonou nos momentos de maior exaltação. O fato
de estar sempre ali é sinal de que se divertia tanto quanto os demais. Aliás,
fora daquele momento, ele e meu pai eram pura delicadeza um com o outro. Às
vezes, tomavam café juntos e elogiavam a coalhada preparada na cozinha do hotel.
Eu e meu pai
não tivemos grandes diálogos, não lhe pedi conselho nem ele achou por bem me
dar algum. De todo jeito, alimentávamos cumplicidades. Com quatorze anos, eu
dirigia pelas rodovias, enquanto ele, no banco do carona, dormia pesado. Pai,
se nos param? Não tem problema, filho, eu também não tenho carteira de
motorista.
O velho leu
poucos poemas em sua vida, mas, à medida que o tempo passa, eu o decifro poeta.
Fazia contas de cabeça de forma impressionante, porém nunca soube ganhar dinheiro.
Apesar de ser uma autoridade na arte de reconhecer de longe a potencialidade de
uma bezerra ou de um garrote, não cobrava pela ajuda prestada a compradores
inseguros ou novatos. Apartava animais como se distribuísse palavras em um
soneto, ora buscando a rima, ora preocupado apenas em encaixar tudo num quatro,
quatro, três, três.
Ah, se o velho
se soubesse poeta!
Ah, se eu houvesse percebido a tempo!
(Ele me chamava de Xandão, e eu o chamava de Joaquim, intimidade de amigos.)
31.7.22
Semana do escritor
Dia 25 de julho é o Dia Nacional do Escritor
(celebro todos, mas não poupo nenhum, a começar por mim)
Dois escritores se encontram num bar. Se encontram por acaso,
jamais se fariam companhia, pois se odeiam. Um finge que não vê o outro, numa
reciprocidade comovente. O que chegou primeiro chama o garçom e, em tom de quem
quer ser ouvido por todos, particularmente por aquele, pede uma caipirinha à Quixote. O outro ri nas entranhas,
discreto, onde já se viu tamanha estupidez. O drinque chega e é reluzente,
incrivelmente bonito. O primeiro escritor dá um gole, e o segundo sente uma
pontada que não consegue localizar bem onde é. Ao segundo gole do escritor de
fala alta e ostensiva, o que achou a tal da caipirinha à Quixote não só um
péssimo nome, mas também absurdo histórico e desrespeito literário, sente mais
que uma pontada. Ele começa a ver estrelas. Quanto mais o outro bebe, mais
estrelas cobrem sua visão e, logo depois, não são mais estrelas, são moinhos de
vento. Então o escritor que, sem beber, se embebedava, levanta-se e começa a
combater os moinhos de vento. Só no outro dia, Dulcinéia, a enfermeira roliça,
lhe confidencia a razão de ele estar amarrado ao leito de um hospício.
**
— E o que você faz?
— Sou escritora.
— Jura?
— Por são Machado e santa Meireles.
— Você não é cristã, certo?
— Como assim?
— Esses santos não são da bíblia.
**
No dia em que seu amado livrinho atingiu a marca de um
milhão de exemplares vendidos, ele ficou eufórico. Bote eufórico nisso. Um
milhão? Pensa no que é isso. Vende-se um livro, depois um segundo, um leitor
comenta e, em seguida, vendem-se dez de uma vez. Uma livraria encomenda mil e,
não demora muito, mais mil e depois mais mil e enfim cinco mil. Que loucura, um
milhão. Me belisca que vou ter um troço.
Ah, tremenda alegria. Alegria é pouco. Tremenda felicidade! Uma coisa dessas
deveria ser desfrutada, o que faria descendo à rua e experimentando a
notoriedade. Mal posou o pé na calçada, recebeu uma livrada na cabeça. Nem teve
tempo de olhar de onde partia o ataque, que livro era, caíram sobre seus ombros
mais dois e, no próximo segundo, outros três e quatro. Saiu correndo, enquanto novos
o atingiam feito bala. Conseguiu olhar de relance a capa de um deles, e era o
seu. O seu! Dobrou a esquina e, quando se achava salvo, levou uma saraivada de tiros,
uma biblioteca inteira saída de uma baioneta adaptada. Disparou em fuga feito
um doido. De vez em quando, olhava para trás e via que a pilha de livros só
fazia crescer, logo tomando a calçada e o asfalto. No barato, eram cem mil, dez
por cento de sua venda. Que diabos teria ocorrido? De repente, o ataque cessou,
e ele, ao chegar esbaforido a um novo cruzamento, viu uma senhora velha,
encarquilhada e encurvada, apoiando-se, com a mesma mão com que segurava uma
sacola de mercado, numa bengala. Resolveu ajudá-la a atravessar a rua.
Estendeu-lhe o braço. Davam passos lentos, no ritmo dela. No meio do caminho, o
sinal abriu, e os carros começaram a buzinar. Foi então que a mulher olhou para
ele. Olhou, desviou o olhar na direção dos automóveis. A buzina não se
intimidou, tampouco ela, que, enfim, encarou seu guia.
— Você não é o autor deste livro aqui? — parou (carros em
ponto morto aceleraram, buzinas blateraram, motoristas xingaram) e, com um
grande esforço, tirou da sacolinha o exemplar do best-seller.
— Sim, sou eu.
Ela então, com movimento surpreendentemente rápido, levantou
a bengala e acertou a testa do escritor. Motoristas e caronas aplaudiram, passantes
uivaram, moradores jogaram páginas picotadas do livro pela janela. Depois, tudo
perdeu a pressa. A senhorinha poderia terminar de atravessar a rua, a cidade
estava salva.
**
— Mãe?
— O que foi?
— O livro...
— O que tem ele?
— Bem, sabe, ele me deu uma vontade danada de continuar
viva.
16.7.22
Parque de distração
No Brasil, todo mundo está precisando dar um descanso à cabeça. Para isso, existe um parque cheio de possibilidades que vão do joguinho eletrônico ao carteado, passando por uma leitura leve. Há, meio intrusa, uma opção que me agrada muito: brincar de caçar palavras que sumiram das ruas.
Na minha
infância, em casa com duas moças que demandavam intensamente a máquina de
costura, chulear era palavra usual. Para quem não sabe, seu significado é dar
uns pontinhos na beira do tecido para ele não desfiar. Eu ignorava, mas o Houaiss
me conta que chulear também é, ou foi, “ficar na
expectativa de obter algo muito desejado”. Chuleei a manhã toda o encontro com Geralda.
Ah, até os nomes se perdem pelo caminho. Segundo o IBGE, na década de 1950, havia
umas vinte mil Geraldas no Brasil; sessenta anos depois, não chegavam a mil.
A
distração por meio de palavras mortas é uma coisa meio sofisticada, cerebral. Ora,
então, é melhor agarrar-se a coisa mais trivial: sair à rua em busca de um
refúgio, o que não falta no Rio de Janeiro.
Me sentei na mureta da Urca. À minha frente, num dia azul de inverno, o mar, o Cristo Redentor, lá longe o Dedo de Deus. Enfim, uma paisagem exuberante, capaz de restituir o fôlego ao mais estressado entre os estressados. Acontece que, um pouco adiante, havia uma moça linda, mas linda mesmo. Ela também contemplava a beleza do Rio de Janeiro. Ela lá, eu cá: só isso. Homem educado em velhos tempos, se eu não houvesse aprendido tanto com as mulheres desde então, teria sido inconveniente. Talvez a ficasse olhando descaradamente ou a importunasse puxando assunto. Mas sei que não é assim, é preciso respeitar, e eu respeito. Para controlar o impulso, os barcos no mar, os aviões passando rente ao Cristo a caminho do Santos Dumont.
O grupo Rumo tem uma composição chamada “Minha cabeça”. Ela diz: “Eu vou pensar um assunto, certo? / um assunto que eu escolho, é claro / então eu faço força, força, força / e olha o que acontece / não adianta ter cabeça / ela pensa o que quer / para, cabeça / assim você me enlouquece / não cansa você?” Sempre cantei essa música para crianças, primeiro meus sobrinhos, depois meus filhos e agora meus sobrinhos-netos. Elas se interessam, a meu ver por começarem a entender que a relação com a cabeça é complexa. Mas, nesse momento, penso na música porque, naquele dia na Urca, ao olhar a montanha, os barcos, os aviões, não consegui me distrair da moça linda e chuleei um encontro com ela, que, aposto, não se chama Geralda. Mas nada foi além da fantasia, isso que é uma espécie de carrinho de trombada sozinho na pista, sem bater em ninguém, sem bater em nada, rodando em torno de si mesmo.
2.7.22
Ternura
Eu matutava sobre a enrascada na qual estamos metidos, a violência que tomou o país. Convenhamos, a violência não é de hoje, mas nunca havíamos visto o Estado ao lado dela, seu cúmplice. Quer dizer, vimos, e nem faz tanto tempo assim, no entanto tudo levava a crer que era página virada ou página que, com o empenho de todos, ia sendo virada. Todos, todos, não é verdade, uma maioria, quem sabe. Nesse torvelinho, cavava desesperançado o chão duro dos dias.
Foi quando, entre
a meditação, o sonho e o delírio, no meio do silêncio, brotou a palavra ternura.
Ternura, ternura, ternura. Se assentou ruidosa, relâmpago e trovão. Sou uma
deusa. Sou a razão da existência. Sou a única saída. Subservientes, todos os ecos
da razão correram em busca daquilo que fizesse jus aos preceitos da ternura. O
carinho de mãe. O sorriso de criança. A cumplicidade de um olhar. O amor. A ternura
disse, como se fosse o oposto de si mesma, não basta, é preciso mais. Mais? Um
fato, um fato, a ternura clamou por um fato.
Sinapses em
curto-circuito, memórias atabalhoadas, escrutínio catatônico em cada um dos
mais de trinta milhões de segundos vividos, e tudo que conseguia retribuir ao pedido
da ternura era a repetição. O carinho de mãe. O sorriso de criança. A cumplicidade
de um olhar. O amor. Mas a demanda da ternura exigia o agora. Agora, justo
agora, quando, a ferro e fogo, nos aliamos à incompreensão, nos confundimos com
ela, fazemos dela nossa razão de ser?
Uma imagem pousou
em minha cabeça, esse espaço infinito e compacto. Um homem na mata. Ele está sentado
e canta. Ele gira a cabeça, olha para trás, volta com a cabeça para a posição
inicial. Ele canta em uma língua nativa. Ele carrega um sorriso. Pura ternura.
É Bruno (1).
Bruno Pereira,
aquele que fez da luta com e pelos indígenas sua grande missão, primeiro como
agente do Estado e, depois de perseguido por este mesmo Estado — que abriu mão
de proteger os indígenas —, trabalhando para a Univaja (União dos Povos Indígenas
do Vale do Javari). Bruno Pereira, assassinado na mesma emboscada que deu fim à
vida do jornalista inglês Dom Phillips.
A partir do
próximo ano, teremos de reconstruir um país arruinado por forças retrógadas, obscuras,
violentas, portanto teremos de resgatar a ternura. Aquela que se encontra além
do carinho de mãe, do sorriso de criança, da cumplicidade de um olhar, do amor;
a que nutre os que lutam pelos desassistidos; a que anima quem se propõe a garantir aos
primeiros habitantes dessa terra o que é deles de direito. Regaremos com essa ternura
transformadora cada canto do país, quem sabe, assim, descolonizando-o de si
mesmo, de sua elite.
É um longo processo, e Bruno, o terno, é a fonte.
_______________________________________________________________________
(1) O vídeo no qual Bruno Pereira canta pode ser visto aqui.
20.6.22
Bom dia
Devo esta crônica a Cortázar, pois foi escrita depois de ler “Retorno de la noche”, um conto de 1941 que só veio a público após a morte do escritor, em 1984.
Acorda e, de
pronto, dá-se conta de que está vivo. Não é pouca coisa, ainda que seja o tipo
de constatação que não se compartilha com ninguém. “Hoje acordei e estava
vivo.” “Ora — reagirá o interlocutor —, que tremenda coincidência, eu também.”
É difícil encontrar a diferença naquilo que é comum a todos, mas a verdade é
que uns têm bunda grande, outros, nariz adunco e há os que possuem mãos menores
que as tão pequenas da chuva (uso a imagem de E. E. Cummings, na tradução de
Augusto de Campos).
Existem, enfim,
aqueles que se surpreendem por acordar vivos. Os tristes? Talvez sim, e é provável
que alguns deles se decepcionem com isso. Os que foram dormir depois de um
instante único de felicidade (no amor, no trabalho)? Podem temer o dia à frente,
pois há um passado radiante, com alta chance de não se repetir.
A vida lhe tem
sido boa e ruim, deprimente e excitante. Portanto, ao se beliscar para ter
certeza de que está vivo (no mínimo acordado), age como o homem que, ao se olhar
no espelho, se pergunta por que aquele nariz tão grande não sendo nem lobo para
cheirar a netinha destemida, que enfrenta o bosque. “Estou vivo.” Levanta e
dança? Continua deitado e adia chegar ao cotidiano que, pela manhã, o quer de
dentes escovados, banho tomado e disposto a trabalhar e não deixar a engrenagem
do lucro e da produção emperrar?
Na noite
anterior, dormiu na sala, diante de uma televisão fastidiosa, e nem sabe como
foi para o quarto. Na casa não existe nenhum cachorro, que, numa hora dessas,
poderia acordar, levantar as orelhas e, num suspiro, voltar ao sono. (Os
cachorros se admiram por acordar vivos?) Bem, foi uma noite como um monte de
outras na sua vida de anos que, para serem contados, demandam vários dedos a
mais que os vinte de seu corpo. Tem vontade de dançar não para celebrar alguma alegria,
algum prazer. Dançar para chamar a chuva (e agarrar-se às suas mãos) e, com ela,
limpar o quintal de sua memória da infância.
Apesar da vontade, não se levanta, nem mesmo requebra sobre o colchão. Se tivesse um cão, o bichinho já o teria tirado de suas cismas, exigido uma água limpa, a ração matinal, o passeio. Eis a percepção exata do tamanho de sua solidão. Solitário, mas com ganas de dançar. Bate palmas. Primeiro na cadência de um partido alto. Logo se perde, atravessando o samba. Tenta outro ritmo. Novo desacerto. Bate então palmas como se, à porta da casa de alguém, se anunciasse. “Olha, vim trazer essa encomenda que o papai mandou.” “Eita, menino vivo esse do Bandolim.” Guarda de um tempo nem tão delicado a delicadeza. Descobre então que será ela a sua parceira de dança. E isso o faz pular da cama.
Coloca um dos braços sobre a barriga, estica o outro no ar. Sai, de manso, dançando uma valsinha. “Não vá pisar no pé de sua parceira!” “Tranquilo, as sombras não têm pé.” Capricha, solta o corpo. Troca a música. Michael Jackson. James Brown. Jorge Benjor. Saracoteia, afinal acordou vivo. Tira a mão da barriga, abre os dois braços, olha para cima (para o céu, se estivesse ao ar livre) e dança solto e sorrindo. O horror está lá fora; lá fora com seus algozes e energúmenos, com aqueles que só se sentem vivos ao arrancar a vida de alguém. Não é nenhum desses.
4.6.22
A menina me chamou de poeta
Sempre achei estranho ser chamado de poeta e já explico o porquê. Antes, recorro à memória e encontro o rosto de uma moça bonita, mais velha que eu, portanto fora das minhas possibilidades de conquista. Ela me chamou de poeta, e não me lembro o motivo. Talvez fosse por conta de alguma bebedeira na qual, exibido, eu tenha recitado um poema – na adolescência, a cada porre, declamava, compungido, a introdução de “O Ébrio” (“Nasci artista, fui cantor...”).
Aquela moça era mesmo mais velha? Talvez fosse uns meses, um
ano, vá lá. Na juventude, essa diferença é suficiente para separar mulheres de
meninos. Hoje, pode ser que ela esteja com a minha idade, se não estiver mais
nova. Como nunca mais a vi e não soube de seus caminhos pelo mundo, ela, de
quem nem o nome guardei, continua com seus dezessete anos.
Confesso que experimentei uma alegria danada ao ser chamado
de poeta. Depois, bem, depois caí em mim, eu não era poeta coisa nenhuma. Naquela
época, compunha umas musiquinhas, portanto era exagero ser chamado assim. E
agora, com dois livros de poesias lançados, mantenho a desconfiança de que essa
roupa não me veste.
Poeta é um negócio grande demais. Poeta é aquele francês,
gênio aos dezessete. Poeta é o português de sete faces. Poeta é aquela polonesa
cujo nome já é uma odisseia. Poeta é o moço de Itabira ou a moça que, em
versos, romanceou a inconfidência. Enfim, poeta é imensidão. E eu — peço vênia
ao poeta da delicadeza —, eu sou imensidinho. Mas tem mais: poeta é sensível, e
eu não sou. Quer dizer, não era.
Tenho me tornado sensível até demais. Telespectador acidental, me vejo chorando (mas disfarço) ao ver as crianças cantando num programa de calouros sofisticado, com grife, e fico bambo (sorte estar sentado) ao assistir à cena na qual Zé Leôncio (Marcos Palmeira) se descobre pai de Zé Lucas de Nada (Irandhir Santos). Não é sensibilidade, é sentimentalismo, e a pequena distância que separa o sensível do sentimental transforma o poeta num nada.
Até parece que estou preocupado com essa história de ser poeta ou não. Longe disso, meu ponto é outro, é o de ficar abismado em saber que já me contentei com pouco, com uma palavra dita por uma menina linda e inalcançável. Ah, mas, se me alegrei com algo assim tão básico, acho que sempre tive alma de poeta.
23.5.22
Aviõezinhos de papel
À Leny e à Yara,
minhas primeiras professoras
A crônica nos ensinou a perseguir o rodapé dos jornais. Não
só ela está lá, como é de lá que extrai seu intento. Num jornal cheio das notícias
tumultuadas do mundo, Rubem Braga descobriu, num cantinho, que a flor de maio
havia resplandecido no Jardim Botânico e aconselhou os leitores a visitá-la com
urgência, pois seria breve aquela vida.
No dia em que outro caso (em 2021, foram quase dois mil) de
pessoa escravizada — uma senhora por setenta e dois anos — em lares impolutos
vem à tona. No dia em que o mandatário do país se mostra mais uma vez racista e
continua com sua estratégia de esgarçar a democracia, certo de que poderá
simplesmente sufocá-la, destruí-la e, como déspota, manter-se no poder,
desfrutando de toda a proteção contra seus crimes diários. No dia em que a
crise econômica deixa de ser uma frase escrita em jornal ou discutida em textos
acadêmicos e toma a vida das pessoas. No dia em que se revelam assassinatos
bárbaros de civis ucranianos por soldados russos.
Bem, nesse dia, três brasileiros estavam em Salzburgo, na
Áustria, para participar do “Campeonato Mundial de Aviãozinho de Papel”. Dois
homens e uma mulher disputaram as provas de maior distância, maior tempo de voo
e acrobacias. Assim como a flor de maio não perdura muito, os aviõezinhos não voam
por um longo tempo (nosso “atleta” da prova de tempo de voo se classificou para
a etapa final mantendo seu engenho no ar por 7s61, bem abaixo do recorde
mundial, de 27s9). Da brevidade se alimenta o cronista? Não. A beleza, essa
sim, sua matéria bruta, é que costuma ser breve. Flor, borboleta, chuva, voo de
aviõezinhos de papel, tudo nasce e morre num piscar de olhos.
Torcem o nariz os leitores capturados pela urgência. Maldita
alienação. Aqueles em busca de um refúgio aproveitam a crônica e tomam fôlego.
Bendita sorte! O cronista não se importa com o julgamento, ele, agora, diante do
campeonato mundial, voou para a própria infância, em cujos dias fez aviõezinhos
de voos curtíssimos. Aliás, sempre cumpriu mal as tarefas que exigissem habilidade
manual e, por isso, em toda sua vida escolar, só foi reprovado uma única vez,
justamente no pré-primário, quando se aprendia a cortar e colar, a sentar em
roda, a cantar e dançar. Uma vez, esteve com uma de suas professoras daquela
fase e, irônico, insinuou que ela era responsável por sua reprovação. Ela riu,
mas, passados uns dias, o procurou para dizer que não, não o havia reprovado. Mas
deveria. Os aviões do cronista sempre embicaram mal saídos das mãos; seus
desenhos foram repetidamente uma casinha com chaminé, uma estradinha e um
pequeno lago, tudo sem perspectiva e mal colorido. Verdade seja dita, tinha
alguma graça em dançar. Inábil com as mãos, inábil no trato: o cronista, boquirroto
e metido a engraçadinho, faria bem se pedisse desculpas à professora pela
brincadeira de mau gosto, afinal de contas, ele não foi reprovado. Tendo entrado
um ano antes do previsto na escola, esperou mais um ano até completar a idade
de ser alfabetizado.
Infância é quando não existem boletos, repete o povo. Mas
também é quando não se tem consciência do desejo e não se sabe muito bem o que
é a morte. Isso é verdade até o cronista se deparar com imagens de crianças
fugindo da Ucrânia. Ou de crianças assustadas na Síria, no Iraque, no Afeganistão,
nas favelas do Rio de Janeiro, nas reservas indígenas sob ataque de garimpeiros.
Seria bom se, em aviõezinhos de papel, as pessoas chegadas a luares e flores de
maio invadissem o coração das bestas à frente das batalhas e lhes devolvessem a
infância. Por que não passam o campeonato de Salzburgo no horário nobre das televisões
do mundo todo?
Os vencedores, é bom informar, foram um sérvio (distância), um paquistanês (tempo de voo) e um sul-coreano (acrobacias) — este, professor de ciências, aproveitou o palco e pediu a namorada em casamento.
7.5.22
Enquanto caminho
Esta semana foi infame para a História do Brasil, pois não reagimos. (Dorrit Harazim,“Consciência”, O Globo, 1º/5/22)
Escolho o álbum e, com a música no fone de ouvido, desço à
rua. É comum, quando caminho, ter uns pequenos delírios, desta vez não é diferente.
O que é um clássico, me perguntaria alguém, talvez em mesa de bar ou na
preguiça que nos toma depois do almoço de domingo. Não saberia, e não sei,
explicar. Como resposta botaria as músicas que ouço para tocar na eletrola, na
vitrola, no CD player, num streaming
da vida, de repente até dando uma ordem àquele robô com nome de mulher (um
ultraje inventar uma máquina de receber ordens e nomeá-la assim): “Moça, toque
o disco Cartola, de 1976”. Gosto da frase-clichê: não sei o que é um clássico (serve
para outras ignorâncias), mas sei reconhecê-lo.
Passa por mim um sujeito numa corrida estranha, um
trotezinho meio desarticulado, e fico com medo de que ele caia de si. Houve uma
época em que eu, em vez de caminhar, corria. Um amigo me viu e caçoou do meu
jeito, decerto pensou que era um trotezinho desarticulado e que eu poderia cair
de mim. De mim, não sei, mas um dia caí. Fui a uma emergência, tirei chapa,
estava um coquinho. Coquinho ou não, não corro mais.
Duas mulheres andam em minha direção, e, quando se
aproximam, apesar de meu fone de ouvido, eu as ouço perfeitamente. Uma delas
leva o dedo indicador da mão direita à têmpora e diz: tem de cuidar do
psicólogo. (Lógico, dos cronistas também, baby!)
Um casal cruza à minha frente. Ele leva o cachorro, ela empurra o carrinho com
o bebê e chora. É tão difícil ver aquela moça chorando. Tento encontrar uma
justificativa branda. É dia de vacinação (contra gripe e sarampo), estamos
perto de um posto de saúde, então concluo que a mãe se recupera do sofrimento
da criança. Tomara seja só isso. De todo modo, invejo quem chora, invejo mais
ainda quem chora por coisas pequenas.
O streaming emenda
ao clássico Cartola músicas que julga parecidas. Dorival Caymmi com sua voz
entre terrena e etérea canta “é doce morrer no mar”. Nelson Gonçalves toma posse
de Carinhoso. Um inesperado Itamar Assumpção insurge entre compositores que
decerto o influenciaram e me surpreende e me deixa feliz. No meio de saltos
previstos e imprevistos, um violão tímido vai num crescendo só. Paulinho
Nogueira toca sua “Bachianinha número um”. Ao contrário daquela mãe, não tenho um
carrinho para empurrar e, desse modo, também não tenho como dar a um homem
estúpido qualquer que passe pela rua uma justificativa para as lágrimas que
correrão dos meus olhos. Homem estúpido sou eu, que seguro o choro. Minto, encharco
as vísceras, chorando do olho para dentro. Naquele instante, estaria incapaz de
responder ao bom-dia que, um pouco antes, a moça da limpeza havia me dado.
Choro um tantinho por mim e um tantão por nós. A que ponto chegamos! Que desfaçatez é essa que nos governa, ameaça com golpe (já não é mais ameaça, discute-se apenas a data: se antes ou depois da eleição, caso o atual governo perca nas urnas) e é aplaudida e adorada? Luiz Eduardo Soares defende a ideia de que parte dos nossos problemas, ancorados naquele ainda incompreendido 2013, está na melhoria de vida dos mais pobres ocorrida nos governos do PT (me adianto, ele não nega os problemas tão conhecidos). Enfio uma metáfora no pensamento do cientista social: enfrentam-se “a gente não quer só comida”, voz relativamente nova e titânica, e o sempiterno e patético “tem muita doméstica na Disney”. Seja como for, agora tudo parece perdido. Se dançássemos uma quadrilha, o narrador diria “a ponte quebrou” e, em seguida, não desmentiria. Impossibilitados de atravessar o rio e avançar, voltaríamos ao país da fome (estamos quase lá). Nossa elite pouco se importaria (nunca se importa), pois não precisa de pontes, cruza o rio de navio, de avião. Na realidade, ela já está do outro lado, nasceu lá, e permanece feliz quando não encontra doméstica nos aeroportos e parques de diversão dos Estados Unidos, que, claro, estão do outro lado do rio.
Num primeiro momento, confundo Paulinho Nogueira com Baden Powell, e isso me faz constatar quantos gênios a música popular brasileira produz. Meu choro cessa. É preciso me agarrar ao que não é uma esperança, mas um fato: o artista brasileiro é inventivo e sensível. Seremos salvos pelo Cartola, ou pelo Emicida.
25.4.22
Fim do armistício
Blandina não se conformou. Leu, releu, treleu. Por que condenar a compra de remédios para disfunção erétil, próteses penianas e lubrificantes íntimos feita pelas forças armadas? Manter a tropa cheia de vigor garantiria que, quando o país necessitasse de seus homens, eles estariam lá fortes e plenos. Tudo pela Pátria, portanto, despesa justificadíssima. Só que, naquele cantinho de Copacabana, coabitado por ela e seu adorável generalzinho, não havia chegado nem uma mísera amostra grátis da pílula milagrosa.
Resolveu ligar
para umas amigas. Cuidadosa, daria voltas até tocar em assunto tão delicado. No
meio da conversa, especularia se elas viam aquela aquisição como um escândalo
ou se era mais uma violência da imprensa antipatriótica.
— Alô, querida
Dinah. Quanto tempo!
— Pois é,
Blandina, essa gripezinha tá custando a passar, não é? Ninguém mais promove um
baile, uma reunião, uma biriba.
— Uma tristeza.
Como se não bastasse, tem essa imprensa maldosa, caluniadora. Viu essa história
dos remedinhos azuis?
— Pecado, isso
é pecado.
— Pecado?
— Mentir é pecado,
Blandina. Veja se nossos soldados precisariam disso! A julgar pelo meu, é
tiroteio todos os dias — um risinho maroto foi o ponto final de Dinah.
— Claro. Aqui
também é uma guerra sem fim.
Gargalharam com
gosto.
Ligação
terminada, Blandina caiu no choro. Se Dinah, 70 aninhos, cinco mais velha que
ela, se fartava da compra, ela... Ou a amiga estaria mentindo? Fossem os papéis
invertidos, tinha dúvidas se contaria a verdade.
— Ih, Dinah,
nem posso dizer que a bandeira branca aqui está fincada, porque o verbo fincar
foi por nós esquecido.
Seria o fim do
prestígio de seu cinco estrelas. Nem pensar numa humilhação dessas. Concluiu
então que Dinah, no alto de sua experiência, mentiu. Mentiu e, ligação
encerrada, pintou uma péssima imagem da esposa do venerável general P. Flácido.
Que vergonha.
Como um
verdadeiro SNI, Blandina deu uma geral nas coisas do marido. Revirou gavetas,
pastas de documento, bolsos das fardas, arquivos no computador, declaração de
imposto de renda. Fora uns rascunhos de golpe aqui e ali, nada havia digno de
nota. Uma vida de marasmo. Nem amante o danado parecia ter.
Decidiu ir à
farmácia do exército. Lá diria que sofria de problemas pulmonares — razão pela
qual a “pílula celeste” (poderia chamá-la assim?) teria sido comprada — e
exigiria uma boa quantidade do tal levanta defunto. Tomou um banho caprichado,
maquiou-se com esmero, espalhou talco no pescoço e gotas de um francês nos
pulsos. Se enfiou num vestidinho não muito chique, mas formal, meteu os óculos
escuros comprados em Miami e chamou um táxi.
Ao chegar a Triagem,
estranhou a fila imensa e só de mulheres, a maioria conhecida, inclusive Dinah.
O que estaria acontecendo? Passara a manhã encafifada com a polêmica em torno
da compra e se esquecera de olhar a televisão. Não demorou a concluir, com
absoluta certeza, que nada de grave acontecera, todas estavam ali pelos seus
mesmos motivos. Perfilou-se ereta, convencida de ter escolhido muito bem a
roupa, os óculos, o perfume. Ali estava uma mulher de vida sexual invejável.
Ao dar
adeusinho a Dinah, lá na frente, a dois passos do balcão de atendimento,
Blandina pensou nas mentiras da amiga e quase foi lá rir da cara dela ou tirar
satisfação, mas achou melhor puxar assunto com quem estava a seu lado, Cândida,
a mulher do general C. Langoroso. Falaram sobre o clima, sobre como a vida era
melhor com os militares de volta ao poder; contaram de seus filhos, de seus
cachorros; lamentaram a falta do joguinho das quartas-feiras; por fim, trocaram
receitas, se fizeram elogios. Podia-se adiar, mas evitar saber a razão de a outra
estar ali era impossível. Blandina se adiantou para não ser pega de surpresa.
— Ora, Blandina, é cada pergunta.
Cândida gaguejou e, sem responder, fugiu para uma segunda fila que se formava. Diante de fuga tão evidente, Blandina transformou suas suspeitas em certeza: cada mulher daquelas buscava festim para dar fim à trégua. Se as outras tiveram coragem de fazer o pedido, ela não soube, mas supôs que não. À Blandina faltou confiança e, em vez do azulzinho, pediu cloroquina, remédio que não servia para Covid e menos ainda para dar fim ao armistício e reiniciar a saudosa guerra, uma batalha que fosse.
9.4.22
Domingo sem sol
ao Anthony
Almeida
A crônica não reserva
espaço para o pessimismo. Que uma melancolia débil ou uma tristeza perplexa a
visitem com cerimônia, aceita-se, mas não a queiram viva no pântano, no
inferno, na escuridão. A crônica é a voz espantada das cigarras, a presença inquieta
do sanhaço na jabuticabeira, o olhar baço da senhora que não sabe dar
informação na rua. “Dona, onde fica a loja de material de construção?” “Ah, meu
filho, tudo muda tão depressa.”
A crônica não
pode deter os guerreiros, mas faria bem ao mundo se lida pelos imbecis comandantes
de armas. Ela não tem força para reverter o conflito dos casais, porém, se
pudesse, sopraria em seus ouvidos um dos Noturnos de Chopin e a consciência de
que a vida, em potência, é um convite a amar sem interesse. A crônica não se
atreve a invadir os celulares e pedir a atenção de seus donos, mas, ora, se ganhasse
deles uma escuta pequena e fugaz, os devolveria aos mesmos celulares, só que amparados
e livres dessa espécie de busca eletrônica por salvação.
A crônica não
canta muito bem. Não dança nada bem. Gagueja. Baixa os olhos se está em evidência.
Por ser dotada de tantas inabilidades, ao falar, está certa de que suas
palavras são como as cores que habitam as efêmeras borboletas. Pretensiosa, sim.
A crônica almeja, nos minutos arrancados dos homens e das mulheres em sua
leitura, fazê-los esquecer a própria existência. Quem é, é o outro, aquele de quem
ela fala. Não pretende, com isso, tornar-se poderosa, ao contrário, sua ambição
é devolver a vida aos vivos.
A crônica é parente
das brincadeiras hoje esquecidas. Prima da amarelinha, meia-irmã da cabra-cega,
confidente do passa-anel, carrega a infância de todos, inclusive ou principalmente
daqueles dos quais ela foi subtraída. Por isso, comunica-se pelo coração e, de
leve, toca o leitor durante a conversa.
Falo das crônicas de um domingo sem sol. Mas talvez fale de qualquer uma: noturna, luminosa, pletórica, seca, de rua, de salão, ébria, careta. No fundo, todas sonham despertar no leitor o riso — o sorriso, na verdade.
27.3.22
Cenas de resistência
O fato é que nem ele nem ela dançam muito bem a valsa. Por sorte, a valsa anda sumida dos salões, e eles disfarçam a inaptidão sacolejando-se em outros ritmos, sem chegar, verdade seja dita, ao funk. Ela por achar que lhe faltam os atributos buzanfânicos, ele por uma certa recusa ao novo. Mas, entre a valsa e o funk, dançam tudo aquilo que é sincopado e que, em certos momentos, os faz até colar o rosto um no outro. De rostinhos colados, o mundo é aquele trem lá fora, complexo, violento, nada musical. O mundo é o que se esquece.
Em pleno século XXI, dois meninos resolvem brincar de cowboy. Ninguém entende muito bem, nem
mesmo o pai, nascido no último vicênio do século XX, nunca havia brincado
daquele modo. Nos tempos do coroa, as aventuras eram extraplanetárias ou
vividas por uma coisa entre bicho e avatar, desenho japonês. Como aqueles dois,
soltos no quintal, sem celular ou algum controle remoto na mão, brincam daquele
jeito? Onde arranjaram os revólveres? E as espoletas?
Um dos meninos cai ao chão. O outro pula, grita, parece
feliz. Sopra o cano do revólver, dá meia-volta e sai correndo. O morto se
levanta, ri da morte e sai atrás do outro. O bandido virou mocinho e
vice-versa. Eles estão brincando é disso, de perpetuar a vida.
Na hora da parolagem, levantam uma possível traição da
Melina, mulher de Expedito. Alguém lembra que a recíproca também é verdadeira,
Expedito não é flor que se cheire. Enquanto o tititi fofocante aumenta e
diminui, Melina e Expedito fazem do colchão palco do amor mais sublime e
sincero.
A velha senhora não é muito chegada a olhar a vida e ter
saudade, nostalgia. Vive o dia das seis da manhã, quando se levanta, às dez da
noite, quando se deita. Viver está ligado a fazer uma leitura, uma visita, um
passeio, um crochê ou mesmo a preparar um prato para receber amigos ou alguém
da família. O fato é que, como sempre fez, toca a vida pra frente, não
empurrando com a barriga, mas dando um passo atrás do outro, pra frente, sempre
pra frente, isso é o que importa. Mas, entre as dez da noite e as seis da
manhã, entre deitar-se, dormir, acordar e levantar-se, a velha senhora pensa e
sonha. Uma dessas coisas, que é pensamento e, em seguida, sonho, lhe coloca o
mundo nas mãos, e ela, sem grande esforço, joga sobre ele três pitadas de delicadeza,
o suficiente para o mundo seguir em frente, sempre em frente. A delicadeza faria
do mundo um bom lugar para viver, ler um livro, fazer um crochê, um passeio, uma
visita, preparar um prato para receber amigos ou familiares sem que fosse
preciso modificá-lo.
As meninas jogaram suas bonecas no quarto dos meninos. Eles se
surpreenderam com aquilo, mas, uma vez recuperados do susto, ninaram as bonecas
com todo o amor que guardavam.
O trânsito estava horrível. Fazia mais de hora que nenhum carro saía do lugar. Os mais ansiosos haviam recorrido à buzina, mas caíram em si e perceberam que isso não fazia o trânsito avançar. A moça do carro popular desligou o motor. O senhor cujo carro estava emparelhado ao dela fez o mesmo. Os dois logo atrás foram na onda. De repente, a rua era um monte de carros parados e silenciosos. Uma mulher de turbante vermelho e vestido rosa desceu do ônibus, abriu os braços e começou a cantar “Aquarela do Brasil”. Todo mundo saiu de seus carros e acompanhou a afinada passageira do Gávea-Tijuca. Sorrisos, abraços e danças arrancaram do transtorno uma dose de felicidade.
Como todo assaltante, aquele chegou sorrateiro atrás da vítima, que assistia na tela do celular às mais recentes informações sobre a guerra. As imagens o fizeram se lembrar das histórias da fuga de seu avô da Europa durante a grande guerra e seu pensamento saiu em espanto pela boca: outra guerra? Sim, respondeu o desavisado a um passo de perder o celular, outra entre inúmeras espalhadas, naquele instante, mundo afora. O assaltante, com as mãos sobre o rosto, gaguejante, mas dono da voz, lamentou a índole má e corruptível do ser humano.
12.3.22
Heróis
Você acorda, Petrópolis foi destruída pela chuva. Mais de duzentos mortos, um monte de gente sem ter para onde ir. Você dorme e, no dia seguinte, a Rússia invadiu a Ucrânia. Você começa a ter medo de dormir, mesmo não estando em área de risco, mesmo não estando em zona de guerra. Você está no mundo, e o mundo é um desacerto com belas paisagens e poucos encontros.
Na televisão,
as imagens dão a dimensão da catástrofe, enquanto mostram aqueles que, dilacerados,
transformam-se em heróis. No Morro da Oficina, um pedreiro, ó, meu Deus, qual é
o seu nome? Jefferson? Não sei. Meu esquecimento já mostra como esse heroísmo é
efêmero. Mas vamos adiante. Jefferson perdeu mulher e filhos e cavucava o chão
atrás da família. Naquele momento, os bombeiros não o ajudavam, e ele usava o
que tinha: mãos, unhas, pá e picareta. Seu sonho era dar um enterro digno a
cada um dos seus. Jefferson é um herói com todo caráter.
Na Europa, uma brasileira,
Clara (dela guardei muito bem o nome), saiu da Alemanha e, dirigindo por mais
de dez horas, foi até a fronteira da Polônia com a Ucrânia. Seu objetivo era
simplesmente colocar brasileiros em seu carro e levá-los a uma cidade estruturada
e capaz de abrigá-los. Depois eu soube que ela não era a única, vários
brasileiros, saindo de outros pontos da Europa, faziam o mesmo. Essa carona
acabou servindo não apenas a nossos compatriotas e enfrentou problemas adicionais,
uma vez que eram impostos bloqueios nas estradas, tornando necessário tomar
caminhos alternativos, cruzar outros países. Clara e os demais voluntários também
são heróis plenos de caráter.
Jefferson e
Clara serão esquecidos.
Einstein teria dito que não sabia como seria a terceira guerra, mas, na quarta, as armas seriam tacapes e braços, uma tremenda briga de rua. Sem rua. Se o conflito entre Rússia e Ucrânia não se difundir e o mundo não se acabar, ao fim da guerra, como sempre acontece, os heróis da morte serão eternizados em estátuas, nomes de rua, de praças etc.
Já em Petrópolis, nenhum monumento exaltando os heróis ou homenageando as vítimas será levantado. Os que sofreram perdas estarão marcados para o resto da vida, e os que podem mudar a situação permanente de risco, depois de discursos e promessas, voltarão a não gastar a verba nas obras de prevenção, se é que não a excluirão do orçamento. Até que nova chuva caia e eles chorem, em alguns casos até arregacem as mangas e se misturem aos despossuídos como se fossem um deles. Não são. Nunca foram. Eles acham que a culpa da tragédia é de quem construiu a casa lá na ribanceira.
Guerra, 1942
Lasar Segall
Óleo sobre tela, c.i.e.
270,00 cm x 185,00 cm
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (SP)
26.2.22
Pra não dizer que não deixei de não falar dos horrores
Uma de minhas irmãs confessou que anda gostando de gim, mas que é para não nos preocuparmos, toma um drinque muito de vez em quando. Não me preocupo, mas cantarolo o conselho do velho Vinícius de Moraes, uma autoridade no assunto: “o gim é um veneno, cuidado, benzinho, não beba demais”.
A pandemia me transformou em sonhador. Quer dizer, uma vez acordado, a sensação dos sonhos sai da cama comigo, mesmo que eu não me lembre exatamente deles. Às vezes, acordo angustiado, mas, como não registro os sonhos — o que, numa mesa de bar, uma psicanalista considerou um pecado —, as imagens logo se dissipam. Volto a dormir, ou não. Dia desses sonhei que espalhava uns brinquedinhos de plástico ou umas bijuterias, não consegui definir se uma coisa ou outra, sobre o capô de um Ford Rabudo. Foi como uma volta a minha infância nos anos 1960, quando os táxis de minha cidade eram velhos automóveis dos anos 1940.
| Ford rabudo |
A piada criaria
uma empatia imediata entre nós dois, e ele sentaria ao meu lado. Falaríamos de
Minas, de nossas vidas em Passos e Três Pontas, cidades próximas. Quando ele
descobrisse que eu escrevia umas bobaginhas, pediria uma letra, que eu rascunharia
ali mesmo, e ele, ali mesmo, delinearia a melodia. A gente se transformaria em
parceiro, emendando um sucesso atrás do outro. Algum tempo depois, alguém faria
uma brincadeira com ele dizendo que o conhecia muito bem, ele não era o Xandão
da Haydée e do Joaquim?
Sonho bom é
sonho acordado.
Ao ver uma foto
antiga, de pessoas desconhecidas, tive muita vontade de ser uma delas. Talvez pelos
sorrisos. Ou pelo bolo, branco, semelhante à torta de abacaxi com coco que
minha mãe fazia, mas nem sempre. Ela tinha disso. Uma das primeiras vezes que meu
cunhado almoçou lá em casa, mamãe preparou um coq au vin, um trem
chique. Bem, durante os demais trinta e quatro anos vividos por ela, meu
cunhado pediu o franguinho francês. Não logrou sucesso.
Quando dona Haydée
queria, em casa se fazia doce com a casca da melancia; também com a casca, no
caso do abacaxi, se fazia o aluá, bebida, segundo ela, muito apreciada por Dom Pedro
I. Quando a senhora que comia jabuticaba com garfo e faca queria, essas coisas
de preparo delicado eram feitas. Mas só quando ela queria.
Na Copa do
Mundo de 1974, ouvi a partida entre Brasil e Polônia dentro do Fusca vermelho,
ano 1966, do meu irmão. Atravessávamos a Serra da Mantiqueira, indo do Rio a
Passos. O rádio não ficava sintonizado o tempo todo, assim, até hoje não sei se
ganhamos ou perdemos. Mas, também, era decisão de terceiro lugar, quem se preocupa
com isso?
Outra viagem entre
Rio e Passos. Dessa vez, eu dirigia, meu pai acompanhava. Fomos parados por
excesso (não muito) de velocidade. Desci do carro, meu pai desceu também e, ao chegar
perto de onde o militar anotava os dados da multa, me deu uma bronquinha, já havia
me avisado para ir devagar etc. e tal. Voltando ao carro, ele olhou o relógio e,
fazendo-se ouvir por todos, lamentou o nosso atraso, teríamos de correr.
O velho não demonstrava
interesse por uma comida específica, a não ser, talvez, pelo pudim de pão. Mas,
se o doce — feito quando mamãe queria — fosse servido na sobremesa, ele, magro
e nem um pouco guloso, comeria um pedaço pequeno. Sóbrio no gostar, impiedoso
no não gostar: naquela casa no Beco dos Aflitos, nem quando mamãe quis, se
comeu bacalhau.
14.2.22
A felicidade deu adeus
Nada anda muito bem, e não é segredo. O Brasil já foi considerado o lugar do mundo no qual a felicidade batia ponto. O sol, a alegria e a miscigenação eram fatores que levavam àquela ideia.
Há algum tempo,
um grupo de pesquisadores, levando em conta motivações subjetivas, levantadas em
entrevistas, e objetivas, os indicadores socioeconômicos, começou a “medir” a
felicidade. Segundo a pesquisa, em 2020 e em 2021, a Finlândia foi o país mais
feliz do mundo.
Já estive em Helsinque,
uma cidade sombria, cheia de bêbados caídos na rua, mas extremamente
organizada. Na época (já se vão trinta anos), conheci alguns brasileiros ou
filhos de brasileiros que viviam lá, todos com nível de vida bem razoável,
ainda que se ocupando de funções pouco valorizadas. Um deles, que cuidava dos
casacos deixados à entrada de um bar, me disse que, trabalhando também como
pintor de paredes, conseguia ter um carro desses supercaros, ainda que não o
modelo mais recente. Um país com um inverno tão rigoroso, clima que associamos
a isolamento e tristeza, surpreende ao encabeçar a lista da pesquisa, ainda
mais sendo acompanhado por Islândia e Dinamarca, segundo e terceiro lugares no ranking
da felicidade. A despeito de toda crítica que se possa fazer a uma medida dessas,
ela não parece encantada com o Brasil tropical, onde em se plantando tudo dá, mas
também onde a fome só faz crescer. O modelo socioeconômico monstruoso adotado
no país não deixa ninguém mais se enganar com a nossa alegria carnavalesca, que
é, de fato, uma alegria — um, e apenas um, dos fatores que compõem a felicidade.
Entre os dias 24
de janeiro e 2 de fevereiro, uma face da atrocidade brasileira foi mostrada ao
mundo. Assistimos na televisão a três homens matando a paulada Moïse Mugenyi Kabagambe,
um congolês de vinte e quatro anos. A paulada. Matar assim exige
perseverança, o que não combina com uma raiva momentânea. Aqueles assassinos estavam
tomados por uma premeditação bestial. A família de Moïse havia saído do Congo
treze anos antes dessa tragédia que a acometeu. Fugiam de outras tragédias,
inúmeras num país rico em minerais e, mesmo depois de se tornarem independentes
da Bélgica, massacrado por interesses externos que se misturam às lutas locais de
poder. Luiz Antonio Simas, pesquisador da vida de rua carioca, afirmou o
seguinte: “O melhor que existe nessa cidade terrível e bela, filha da morte e
da chibata, veio do Congo: samba”. O crime contra Moïse afirma a voz dos que
não se conformam nem com o fim da escravidão nem com o fato de uma de nossas
manifestações mais criativas, pérola na lama de nossa história, ser obra dos
negros. Acrescentem-se a isso doses de xenofobia.
No dia 2 de
fevereiro, enquanto havia festa no mar, Iemanjá celebrada, um militar viu um
negro, Durval Teófilo Filho, trinta e oito anos, mexer em uma pasta e achou que
seria assaltado. O que fez? Atirou contra a possível ameaça. O assassino e a
vítima eram vizinhos em um condomínio no Colubandê, bairro de São Gonçalo. No
início, a polícia chegou a defender a tese de que o assassino não tinha a
intenção de matar. Qual seria então a intenção? Comemorar o gol do time? Usar a
arma por usar? Testar a mira? Com a reação da sociedade, o militar da Marinha foi
qualificado como assassino doloso. O que ele é, e não é o único, e não será o
único à medida que armar a população tem sido a política de segurança do atual
governo.
A morte de
Moïse e a de Durval infelizmente não são um acidente. Matam-se negros aos
montes. A polícia entra em favelas e, quase sempre, deixa um saldo escandaloso de
mortos. Negros na maioria, muitos inocentes, sem envolvimento com o tráfico ou
outra forma de crime. Como soldados do tráfico, negros também se matam uns aos
outros. Negros são mortos na porta de casa como foi o caso de Durval e de outros
tantos, crianças inclusive, que podemos puxar da memória. Na imagem que mais
nos aproxima da chibata dos tempos da escravidão, negros levam pauladas até a
morte.
No Marrocos,
Rayam Awram, um menino de cinco anos, foi tragado por um buraco de trinta e
oito metros. O drama de seu resgate durou dias, e os marroquinos, mas não só
eles, acompanharam diuturnamente o esforço da equipe de socorro. No quarto dia,
o pequeno Rayam foi resgatado, mas não resistiu. Marrocos transformou essa
tragédia em uma dor coletiva.
Dor coletiva deveria ser a nossa diante da morte de Moïse e Durval. Mas o fato é que esses crimes não encontram o repúdio de todos, em particular daqueles que podem mudar as leis e fazer cumpri-las. Ao contrário, quando mataram Marielle, em ações coordenadas pela milícia digital, trataram de associar caluniosamente a vereadora a criminosos. Agora, dizem, Moïse seria um drogado inoportuno. E que absurdo foi esse de Durval mexer em uma bolsa em uma região considerada violenta? Em 2018, Rodrigo Serrano, um garçom negro, desceu ao pé do Chapéu Mangueira para esperar a mulher e a filha. Chovia, e ele abriu o guarda-chuva. Foi o suficiente para a polícia deduzir que ele estava armado de um fuzil. Atiraram sem pena nem dó. Muitos batem palma para a polícia e vão à loucura quando se estuda uma mudança na lei que dê a ela licença para matar, o tal “excludente de ilicitude”.
Nada anda muito bem? Corrijo-me: tudo anda mal. Demos adeus à felicidade.
29.1.22
Na floresta de pedra
Em Itatiaia, na casa de campo de um amigo, gravei um depoimento para o canal “Acontece nos Livros” (do Youtube), de Whisner Fraga. Minha conversinha fiada e a leitura de uns poemas enfrentaram a concorrência de passarinhos e galinhas, em particular do galo e sua barulhenta forma de querer se impor como dono do terreiro. Seja como for, a trilha sonora aviária foi um simpático complemento a meu pequeno testemunho.
Quando o vídeo foi a público, além de estar longe daquele paraíso, eu adiava minha volta à rua, esperando que a mais nova onda da pandemia regredisse. É um sem-fim essa tormenta. Mais eis que um passarinho começou a piar aqui nas redondezas da verdadeira floresta de pedra que é Botafogo. Não é raro que algum cante. Às vezes, no início da manhã, um grupo de maritacas — com destino ao Aterro, onde promove verdadeiros encontros, com debate, degustação de sementes e voos coreográficos — passa apressado e ruidoso diante da janela do meu quarto. Que liberdade gozam os não molestados pelo vírus. É comum ouvir também o trinado de um bem-te-vi. Digo um bem-te-vi, pois, apesar de nunca o ter visto, sua voz não me engana. Bem, se é único, melhor nomeá-lo. Te batizo, em nome de ninguém, deus ou mortal, de Pafúncio.
A Bia percebeu logo que o tal passarinho não era nem uma das maritacas nem o Pafúncio, e aquele mavioso gorjeio, ininterrupto, não demorou a nos chatear. Esse bichinho não voava, não se juntava aos seus em tertúlias sob árvores? O porteiro esclareceu o mistério: um dos apartamentos havia sido alugado por temporada — pequena, ele garantiu —, e o locatário tinha um trinca-ferro engaiolado. Ó, meu Deus, como é melancólico (e maçante) o pio de pássaros presos.
Uma escritora andou desabafando no Facebook: está cansada do confinamento. Quem não está? Se cantássemos, agora que estamos encarcerados por um vírus que vivia quieto nas florestas chinesas até o homem ir lá e cutucá-lo, seríamos esse trinca-ferro incansável, triste, tedioso e torturado. Ele canta? Não, lamenta.
Vídeos e entrevistas recentes
No início de janeiro foi divulgada a entrevista que dei ao canal do Youtube, Acontece nos Livros, do escritor Whisner Fraga. Em depoimento de 13 minutos, falei um pouco de minha relação com a poesia e declamei alguns poemas. Meu depoimento pode ser visto aqui. Fica, de todo modo, para que acompanhem o Acontece nos Livros, pois é muito bom. Além do depoimento de outros poetas, Whisner comenta muitos livros, a maioria, senão todos, publicados por editoras pequenas.
É recente também a entrevista que dei ao blog Diários do Arrabalde, do professor Wilson Luques. Um papo rápido no qual falo de livros e autores que me marcaram e marcam, além de falar de frustrações e alegrias literárias. Para ler, clique aqui.
15.1.22
Um quase Brasil
Em uma foto que viralizou, Tawy Zo’é, um jovem indígena, carrega nas costas Wahu Zo’é, seu pai. O médico Erik Jennings, sob o impacto da imagem, tratou de registrá-la sem saber ainda que o filho carregara o pai durante uma caminhada, floresta adentro, de seis horas. O motivo de tamanho sacrifício? Vacinar o idoso contra a Covid-19. O fato ocorreu no norte do Pará, onde vive a etnia Zo’é, que, segundo o médico, não teve nenhum dos seus infectado pelo vírus.
Em seu livro mais
recente, “As doenças do Brasil” (Biblioteca Azul), o português Valter Hugo Mãe narra
uma história que se passa em um território indígena à época em que os
portugueses começaram a explorar o interior. A grande sacada de Mãe é a de
promover a aliança entre um indígena mestiço (mãe indígena estuprada por um
branco), de nome Honra, e um negro, o Meio da Noite. Até se chegar ao pacto que
levará os dois a lutarem contra os brancos em defesa dos “abaeté”, muitas
arestas são aparadas: Honra tem de se sentir indígena, perder a culpa de ser
também branco; Meio da Noite, que havia sido capturado e poupado da morte, tem
de ser reconhecido como humano pelos indígenas. Além disso, um deve confiar no
outro, uma dificuldade quando a língua que serve aos dois não é a de nenhum deles,
mas a do homem branco. No romance, a linguagem é radical (me faz pensar em
Guimarães Rosa), e serve ao propósito de Mãe escrever a partir dos valores e
modos de ver o mundo dos autóctones. Assim, diálogos entre eles e os rios ou os
animais é uma coisa dada, natural, não é magia, nada disso. Leio o livro como
se ele viesse nos dizer que, se respeitados os habitantes originais ou se as alianças entre indígenas e negros houvessem se transformado em vitórias expressivas, o Brasil seria outro.
Talvez o mundo fosse outro.
Havia lido, antes
de Mãe, “Viva o povo brasileiro” (Nova Fronteira), de João Ubaldo Ribeiro. Ora
com ironia, ora em delírio, sempre com senso estético apurado, Ribeiro pincela
caminhos que poderiam dar em um Brasil diferente do que temos. Pessimista, ele deixa
claro que o que vinga em nossa história é um país cujo futuro é o paredão da
rua sem saída. O livro foi lançado na década de 1980, ainda na ditadura,
momento que justificava o pessimismo. Mas a abertura já acontecia, algum lume
de otimismo estava aceso, o que não foi suficiente para o livro ser alegre,
apesar de divertido (sabemos rir de nossas mazelas). De todo modo, se, com suas
revoltas, os negros houvessem forjado mudanças de fato, se lideranças femininas
multiplicassem-se história afora, se tivéssemos respeitado as religiões de
matriz africana, se os dissidentes brancos — ou seja, aqueles que entendem que
desfrutam de privilégios inimagináveis e estão dispostos a abrir mão deles — fossem
em número, o Brasil agônico não teria triunfado.
Assisti aos
cinco episódios de “O canto livre de Nara Leão” (Globoplay), de Renato Terra. Com
seus 13, 14 anos, Nara se enturmou com uma moçada de Copacabana que tinha
talento especial para a música. Ela e aquela turma, na casa da futura cantora,
“inventaram” a bossa nova. Quando seu namorado Ronaldo Bôscoli a trocou por Maysa,
Nara abandonou a turma e voltou os olhos para o samba. Ela conta então que, aos
15 anos, descobriu que havia favela, pobre e fome no Brasil, começando assim a sua
conscientização política. De voz mansa, mas assertiva, Nara não deixou de se
posicionar. Quando em entrevista disse que o exército (já no poder) não servia
para nada — ela já estava na mira por protagonizar, com Zé Keti e João do Vale,
o espetáculo “Opinião” —, passou a ser perseguida. Então casada com Cacá Diegues,
mudou-se para a França. Na volta, aproximou-se da turma do Ceará que chegava ao
Rio no começo da década de 1970 e, em seu disco “... e que tudo mais vá pro
inferno”, gravou Roberto e Erasmo, o que irritou antigos parceiros, como Dori
Caymmi e Edu Lobo. A diversidade e a independência a ajudaram a construir uma
carreira sólida, de qualidade e curta (Nara morreu aos 47 anos, em 1989). O
documentário joga luz num momento terrível, a ditadura, e mostra como sempre
houve, da parte dos artistas, resistência. Nara foi uma liderança entre os que
resistiram.
O indígena carregando o pai horas a fio para se vacinar é fiapo de um Brasil potente. Os livros de Mãe e Ubaldo, a vida de Nara (e o documentário de Terra) estão cheios de outros fiapos de potência.
Mas o Brasil não existe, o que existe é um quase Brasil.


