O quarto que ocupo há pouco tempo, ao contrário dos dois anteriores, não preza o silêncio. A qualquer hora do dia, posso ouvir aviões se preparando para pousar no Santos Dumont, o aeroporto mais bonito do mundo. Quando passam sobre o prédio, as aeronaves fazem sombra no meu quarto e na sala — com o que os cachorros se assustam e latem — e interferem no funcionamento da antena da televisão comprada para assistir sem delay aos jogos do Brasil. Ouço carros e ônibus circulando na rua, uma novidade para um ex-morador de apartamentos imunes a esses excessos urbanos. Ouço o porteiro do plantão da noite brigar com quem o substituirá. Acho que o primeiro não engoliu a justificativa do atraso do outro, mas, feito a Glória Pires, não sou capaz de opinar. Ouço um pouco distante a manha de uma menina, talvez seja a mesma que logo cedo, na companhia do pai, chamando pela mãe, sai revoltada a caminho da escola. Ah, meu Deus, por que separamos os filhos de suas mães?
Ouço o movimento do vizinho no banheiro, por sorte só o
movimento. Isso me tranquiliza, minha intimidade corpórea não ecoa prédio afora.
Com tanta gente no mundo, viver em edifícios, empilhados uns sobre os outros, é
a única maneira possível, mas, convenhamos, os apartamentos passaram a ter
paredes finas demais, o que me leva a crer que, nesses novos condomínios, uns ouvirão os
outros em momentos de amor, desarranjos e ressaca.
Stefano Mancuso, um botânico italiano, sugere fechar algumas
ruas e naquele espaço plantar árvores. Segundo ele, o Brasil lançou essa ideia,
mais precisamente em Curitiba, quando Jaime Lerner foi prefeito. Já servimos de
exemplo ao mundo, mas isso faz tempo, muito tempo. Seja como for, tenho
simpatia pela ideia do biólogo, embora nada contenha a tendência de construir apartamentos
totalmente devassáveis, cada vez mais promíscuos. Penso aqui numa coisa, vejam
se faz sentido. Essas moradias não mais guardarão nossa vida privada da vista e
do ouvido alheios. Isso de certa forma é um retorno à vida primitiva, período
no qual a ideia de privacidade, se existia, era diferente da atual. Um retorno,
sim, mas, no lugar das florestas, selvas de pedra — apelido de um condomínio carioca
localizado no Leblon, bairro caro até para padrões estrangeiros. Se a ideia de
Mancuso se espalhar, teremos atenuantes ao calor que tudo indica nos matará em
breve. Talvez também diminua a poluição sonora, o que seria um efeito colateral
positivo.
Falando em volta no tempo, li “Os imortais”, de Paulliny
Tort, editado pela Fósforo e ambientado na pré-história. O romance começa com
os neandertais vagueando em busca de alimentos (os cavalos são sua carne preferida),
o que sugere algum deterioramento do meio ambiente. No caminho, encontram os
sapiens, que, apesar de se mostrarem mais organizados, não resistem ao ataque
dos primeiros. Dos sapiens restarão uma mulher, por pouco tempo, e uma bebê,
que crescerá entre os neandertais. Não vou dizer mais que isso, pois esse
aparte, verdadeiro ruído na crônica que parecia tão bem traçada, tem o objetivo
de dizer a você, leitor ou leitora, que há coisas mais prazerosas do que ler estas
minhas bobagens. De toda forma e do alto da capacidade crítica que não tenho,
emendo: “Os imortais” entrará para a lista dos clássicos da literatura
brasileira. Anotem e daqui a cem anos, se eu estiver errado, façam barulho no
meu leito eterno, que não existirá, pois serei cremado, mas pode ser que minhas
cinzas tenham sido jogadas aos pés de uma mangueira. Importunem a árvore, se
for o caso.
Afastado o ruído, volto à questão auditiva, leitmotiv dessa crônica de voz miúda. Semana passada, acordei com tiros e bombas estourando não muito longe de casa. Depois eu soube: a polícia fez uma operação no morro Dona Marta, segundo a justificativa oficial, para prender perigosos bandidos ligados ao Comando Vermelho. O problema dessas ações é que a polícia age praticamente como os próprios bandidos, não raro invade as casas de quem não tem nada a ver com o tráfico e rouba comida, televisão, micro-ondas, tênis, roupa, quando não comete violência sexual. Isso eu não ouvi dizer não, os jornais registram. Há uma guerra no Rio de Janeiro, mas nenhum dos lados é o meu.
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