14.10.19

Geografia fluida

Para Denise, Helena e Nelson

Numa manhã friorenta, uma amiga de infância me escreveu para contar que, num sonho, ela teria vindo ao Rio e passeado ciceroneada por minha filha. O Rio não era bem o Rio, “o Rio se parecia com uma ilha grega, as casas, clubes e prédios pendurados nos morros, as construções todas loucas como as obras de Gaudi em Barcelona”. As duas, depois de se perderem por uma cidade irreconhecível, me encontraram “num quarto, que era o ateliê de um pintor (Carlos Bracher) em Ouro Preto”.

Enquanto ela sonhava essas coisas, eu sonhava que estava com um amigo nos arredores de Brusque, em Santa Catarina. Era um cânion, com um rio miúdo correndo muito lá embaixo — associei-o ao Itaimbezinho. Meu amigo fazia uma reportagem secreta, secreta até para mim, que o acompanhava. Algo ou alguém apareceria no rio, era tudo que eu sabia. Depois de estar no alto, apareci do nada com os pés na água e vi descer pelo riacho, como previsto, uma espécie de jipe-tanque. Nele vinham uns sujeitos armados que se pareciam — o paralelo deixará muito jovem perdido, sem entender a referência, peço perdão caso haja algum passando os olhos por aqui — com os prisioneiros de guerra daquele velho seriado de TV, “Guerra, sombra e água fresca”.

Para além de mostrar que, mesmo não me lembrando com frequência dos sonhos, de alguns me lembro, e, mais importante, que estou em sonho de outras pessoas, relato esses para falar da geografia. Alguém está saracoteando pelo Rio, uma Grécia catalã, e, ao me visitar, me encontra em um quarto em Ouro Preto. No meu caso, andei pelos arredores de uma cidade pela qual nunca nem passei, que bem poderia ser Itaimbezinho, outro lugar que desconheço e que não é muito perto de Brusque.

Não seria interessante se pudéssemos desconstruir e reconstruir os espaços ao bel-prazer? Viver em mundos paralelos, sem ter de recorrer a drogas, rezas, desatinos, sem ter de contar com a sorte e a aleatoriedade dos sonhos? Fosse assim, nos aproximaríamos de Deus, quer dizer, do poder de Deus (Senhor, livrai-nos disso), poder que, pelo menos no meu caso, seria usado apenas em banalidades.

Por exemplo, sem tirar nada de lugar nenhum, trasladaria para uma esquina de Botafogo a Praça da Matriz de Passos, de modo que passear em torno de seu chafariz, sentar-me em seus bancos, tomar a sombra de suas árvores fosse uma possibilidade tanto para o meu irmão quanto para mim. Meu quarto poderia ser o ateliê do Carlos Bracher, em Ouro Preto, um cantinho onde eu desenharia mundos coloridos, mas que, ao deixá-lo, estaria bem na parada de ônibus em que costumo tomar o 409. A oficina e loja do Marquinho Ajeje, a Divinas Gerais, em Tiradentes, continuaria na cidade histórica, sem deixar de estar a dois passos de qualquer lugar em que eu estivesse. Assim, na hora do cafezinho da tarde, eu visitaria meu amigo, apreciaria a poesia — suas mesas, cadeiras, molduras, tudo que faz, são peças, além de funcionais, poéticas — que ele produz com madeira de demolição e desfrutaria de nossa prosa fiada e afiada.
  
Bom seria se a geografia, em vez da rigidez do longe e do perto, nos desse a liberdade de ajeitá-la de acordo com nosso interesse. Os amigos, morassem aqui ou lá, estariam à mão, pois aqui e lá deixariam de existir.

Se penso em dar fluidez à geografia, penso também em dar rigidez à história. Em que sentido? Ora, no sentido de deixar algumas coisas no passado, só no passado. Por exemplo: essa poção de incivilidade que andam resgatando de tempos sombrios deveria constar apenas das páginas dos livros, como um alerta para que a estupidez — violenta, misógina, homofóbica, racista, injusta — não ocorresse nunca mais.

30.9.19

O que fazer?

Na sexta, dia 20 de setembro, no Complexo do Alemão, a menina Ághata Félix, oito anos — oito — foi assassinada, com um tiro de fuzil nas costas, pela força policial do Rio de
Janeiro. A morte de uma criança, de uma criancinha, ainda causa indignação e, no caso, a essa indignação seguiu-se uma dúvida: o que fazer contra essa política a qual o governador do Rio associa à imagem de atirar na cabecinha dos bandidos? Segundo dados divulgados pelo “Fogo Cruzado”, em 2019, 16 crianças foram baleadas, cinco morreram. Quem acompanha, mesmo por alto, os especialistas que estudam a questão de segurança pública sabe que a política tocada pelo governador não chega ao resultado esperado, a redução da violência.

Numa reunião da qual participei como ouvinte, essa dúvida (o que fazer?), que gera certa imobilidade, ficou em evidência. Era um grupo de negros, quase todos nascidos em favelas, um bom número vivendo nelas. Não vou falar muito do que, na realidade, são encontros mensais, porque eu estava ali por ser amigo do organizador, que me disse: venha, vai ser muito bom. E foi, ô, se foi. A voz é deles, eles que falem ou não falem, sou um intruso. Vou comentar apenas aquilo que está ligado à tal pergunta que se repete.

Luís Antônio Simas e Suellen Guariento foram encarregados de fazer a fala inicial. Ele, historiador conhecido por se dedicar ao estudo da dinâmica das ruas da cidade do Rio de Janeiro, ou das cidades que formam a cidade, como ele prefere; ela, jovem negra cientista social com raízes na Zona Oeste e na Baixada Fluminense, cuja parte dos estudos está focada na trajetória das mulheres que perdem seus filhos na guerra que o atual governador não inventou, mas, com sangue nos olhos, adotou como política de Estado.

A reação ao que foi dito inicialmente se deu em forma de testemunhos de vida. De vida de jovens, e bota jovens nisso, gente de 20, 20 e poucos anos, quase ninguém com mais de 30. Ouvi histórias pungentes, baseadas em fortes laços afetivos (família, igreja, vizinhança). As falas invariavelmente terminavam com a dúvida a respeito do que fazer. A ansiedade em pessoas que estão no auge da força física, no caso, não pode estar desassociada do fato de serem negras. Segundo o Atlas da Violência de 2019, em 2017, houve mais de 65 mil homicídios no Brasil. Desse número, 55% foram de jovens de 15 a 29 anos e, nessa população (agora de acordo com o estudo “Democracia racial e homicídios de jovens negros na cidade partida”, de Daniel Cerqueira e Danilo Santa Cruz Coelho), o jovem negro tem uma probabilidade de sofrer homicídio em torno de 25% maior do que o não negro. O Atlas ainda permite observar que, das quase 5 mil mulheres assassinadas em 2017, 66% eram negras. A ansiedade dos que estavam na reunião se explica.

O que fazer? Precisamos construir uma resposta de forma coletiva. Como se faz essa construção? Conversando. Que tipo de conversa? Qualquer uma, todas, desde que feita fora das redes sociais. O dissenso e o consenso, coração de uma boa conversa, se desdobram em choro, em riso, o que requer, por fim, um abraço. Não há abraço (e olhar) sem presença física.

Tudo começa no encontro — nisso aqueles jovens negros têm dado um passo adiante e, embora não o reconheçam totalmente e sofram de ansiedade, já rascunham suas respostas. Que o exemplo se multiplique. É chegada a hora de convites para chopes, reuniões, sessões de cinema, caminhadas.

21.9.19

Aghata Vitória Sales Félix - Morta pela polícia do Rio, em 21/09

Aghata, eu não segurava a arma, não dei o tiro, mas sou seu assassino. Se me calo, torno a matá-la, a ceifar sua vidinha tão miúda, seus oito anos. Não vou depositar aqui, como flores de uma inteligência que a tudo alcança, explicações em relação aos descaminhos tomados por esse Brasil vergonhoso.

Venho apenas confessar meu crime. O crime de quem nunca atirou, de quem não estava no Alemão, ali no Estofador, na hora que uma policial — ela terá filhos? —, talvez de olhos fechados, disparou o fuzil.

Pequena Aghata, fui eu o assassino. Minhas mãos estão limpas, mas minha consciência não. Sabe o que eu fazia mais ou menos na hora que o tiro encontrou suas costinhas em formação? Eu tirava uma selfie para fazer uma brincadeira no Facebook e atiçar a curiosidade de meus amigos ou conhecidos daquela rede sobre a frase que acompanharia a foto: “para o ano”. Eu fiz isso, está lá a foto. Ao fazer isso, eu a matava no Alemão, sem dar um tiro.

Seu nome parece que é nome de uma santa, santa protetora dos seios, veja isso, dos seios, nosso primeiro prato farto, nosso primeiro bibelô, nosso primeiro travesseiro. Será que sua mãe lhe deu o peito? Sua mãe morreu um tanto ontem. Você e ela por minhas mãos. Por minhas mãos limpas.

Se me calo, atiro mais uma vez e mato você, que já está morta. Mato você de novo e, de novo, outras tantas crianças iguais a você, pretas e pobres. Porque a ideia agora é evitar que vocês cresçam, que vocês tomem assento no parlamento, que conquistem seus direitos no grito, na garra. Vocês têm tanta garra, vê se é possível conviver com isso!

Eu a matei, Aghata. Que grande bandido anda grudado nas minhas mãos limpas.

16.9.19

Efeito colateral do sonho

Estava em Tiradentes durante a semana de gastronomia. Cheguei no sábado e, até o dia seguinte, quando meus anfitriões voltaram de uma pequena viagem, fiquei só e gastei o tempo andando e cumprindo com louvor uma tarefa típica dos vagabundos: medir as ruas.

No caminho para o centro histórico, na boca da rua, o supermercado vendia, num preço bem mais convidativo do que aquele praticado lá no bochicho, geladíssimas cervejas. Meu trajeto me impedia de ignorar a promoção. E foi, já no Largo das Forras, sentado ao pé de uma daquelas árvores tão históricas quanto a cidade e tomando uma das cervejas compradas a preço de ocasião, que ouvi uma criança chorar. Em seguida, um menino foi lá tentar acalmá-la. Uma graça, ainda existem gestos solidários.

Eu não estava no centro dos acontecimentos, tudo se passava ali nas minhas barbas, enquanto minha preocupação era com o que eu faria com a garrafa vazia, já que não via uma lixeira disponível. Sei que o choro sumiu, a ajuda do menino foi providencial. Um mundo sem choro é bom, é bem melhor do que aquele com choro, mas quem chora sabe bem como chorar alivia. Do ponto de vista de quem chora, o mundo com choro é muito melhor. Viver é um encanto, quando não é um fardo. Com choro ou sem choro, vai-se levando.

Depois de localizar uma lixeira e deixar uma das garrafinhas lá, vi que o pai levava para perto de outros familiares a criança que antes chorava. Ao chegar, contou o diálogo que teria tido com ela. Reproduzo suas palavras. Ele perguntou: “Acarmou?” Ela respondeu: “Acarmei”. Ele fez outra pergunta: “Por que que ocê tava nervosa?” E ela, definitiva: “Porque eu sonhei”.

No jeito de falar, na entonação, o diálogo carrega Minas inteira e, por isso, alimenta minhas saudades. No entanto não é só Minas que está ali, o Brasil inteiro está. O Brasil no qual, ao sonhar, perdemos a calma. Como vivemos um pesadelo, qualquer imagem idílica que se nos apresente não nos pacifica, nos desacarma. Ao sonhar, as crianças choram. Nós... não posso generalizar, então falo de mim. Eu, diante do breu destes tempos que o grande Veríssimo chamou de guerra (Somos atacados pelo governo, O Globo, 5/9/2019), bebo.

Minto. Além de beber, vou para as ruas; participo dos movimentos críticos da verdadeira barbárie que se escolheu pelo voto; escrevo. Faço o que posso.

Não fico calmo, ou seja, sonho. Sinto-me bem assim.


2.9.19

Oração


Ensaio palpiteiro sobre a crônica


Patinho feio da literatura, a crônica é de leitura leve, ainda que nem sempre o assunto de que ela trata seja ameno. Surgida nos jornais, num cantinho rodeado de notícias sangrentas ou muito importantes, essas que falam dos rumos do país e até do mundo, a crônica, para sobreviver, fez-se sedutora. Conseguir um leitor não é tarefa fácil, daí a opção pela sutileza (contra as certezas brutas dos vizinhos), pela linguagem polida (contra o texto prolixo) e até pelo assobio (em clara tentativa de falar com os pássaros, pelo menos com eles).

Ao contrário da poesia, do romance, do conto ou do ensaio, a crônica busca o leitor em vez de ser procurada por ele. Explica-se assim o seu jeito atirado, mas nem de longe vulgar. A crônica é, por estratégia de sobrevivência, sensual, ainda que não fique claro se sua sensualidade é feminina ou masculina ou, o que parece mais apropriado, masculina e feminina. Digo que é sensual, mas é preciso dizer que é uma sensualidade que não está diretamente ligada ao ato sexual. Em vez da carícia preliminar, a crônica é aquele telefonema no meio da tarde para dizer que vai se atrasar, são as roupas íntimas que, lavadas durante o banho, ficam esquecidas no box, é a mão que toma a outra durante a sessão de cinema.

Talvez por ser tão comezinha, a crônica cuide dos assuntos comezinhos. Ou dê tratamento comezinho a qualquer assunto. Uma superpotência invade um país, a crônica não se mete com as questões geopolíticas, com os interesses econômicos envolvidos. Sua preocupação é com as mães que esperam os filhos enquanto as bombas caem pelo caminho, com o filho que espera o pai, com o pai que espera a mulher. A crônica é guardiã da delicadeza, talvez por isso seja o suprassumo da política.

Apesar de ser aliada dos que estão à margem do poder, a crônica não fala de sua indignação apenas em tom severo e tristonho. É encrenqueira, escrachada, hilária; claro, quando quer, porque não aceita ordens, enquadramentos, leis, horários, limites. Nisso, não se difere da literatura ou das artes de modo geral. Quando a crônica se curva e aceita limites que lhe são impostos, ela não vai além de uma lenga-lenga saída das mãos de um canalha.

19.8.19

Briga de rua

Pela movimentação nas imediações do metrô, logo percebi que era um rolo, o desentendimento imediatamente anterior a uma briga de rua. Na minha cidade, 50 anos atrás, as brigas ficavam restritas a socos, mas hoje tudo está tão a tiro e pó que, cauteloso, procurei me afastar. De soco e até de cadeirada, sei me defender, seja com a ginga de corpo, seja com um revide, mas de bala...

A curiosidade, mórbida, é verdade, não me fez simplesmente deixar o local e ir para casa ou mesmo para um bar distante, onde nenhuma sobra da briga me alcançasse. Me posicionei num longe perto e fiquei de butuca. São as palavras que identificam os grupos confrontantes, também são elas que levam os agressores a agir — não por acaso, a pancadaria começa quando um xinga a mãe do outro. Sabendo disso, pus a orelha lá no meio do bafafá. “Pôr a orelha”, não sei se devo me explicar, é só uma força de expressão, longe perto eu estava e fiquei, e, de lá, mantive-me atento, atentíssimo.

Logo que agarrei as primeiras palavras da roda, vi que as condições da discussão não eram muito claras. Não parecia haver lados distintos, os grupos eram diferenciados pela intensidade com que cada um deles se identificava com o tema em debate. Seria como se torcedores do Flamengo brigassem para saber quem era mais flamenguista. Eu sou flamenguista roxo. Eu sou flamenguista com título de sócio-proprietário. Eu sou um geraldino órfão do velho Maraca. Mas não era sobre o Flamengo. Nem sobre Botafogo, Vasco, Fluminense ou América. Também não era sobre Portela e Mangueira, sobre Zona Norte e Zona Sul ou sobre Nordeste e o resto do país.

A briga era para saber quem estava mais duro. Eu não tenho dinheiro para entrar no metrô, descer na Central e tomar o trem até a Pavuna. Ora, mas você almoçou, não é? Parem com essas coisas de pobre, pior sou eu que devo o ordenado de hoje, o de amanhã e o de depois de amanhã. Veio aqui só pra gozar da nossa cara, seu classe média decadente. Muito bonito! E eu? Não posso parir o filho que carrego para ser mais um faminto na vida e não tenho um tostão para não levar a gravidez adiante. Nessa hora, pensei: vão aparecer os religiosos e dois grupos serão formados, os contra e os a favor do aborto, e, aí sim, tendo dois lados, a guerra começará. Mas não. Outra moça enfrentou a primeira. Você ainda faz por onde engravidar, eu e meu namorado tivemos de empenhar nossa libido na Caixa. Só querem dinheiro para a sem-vergonhice, de cultura ninguém quer saber. Mas eu não vou ao cinema, não vou a museu — nem digo os da Europa — já nem sei há quanto tempo.

Um mendigo correu para o centro do círculo recém-formado e com gestos de quem apresenta uma atração no picadeiro desejou a todos uma boa estadia no inferno. De tornozeleira eletrônica à vista, um arquimilionário jogou o mendigo para fora da roda e começou a dançar, e logo se viu que não era uma dança. O homem que foi obrigado a entregar ao erário três Mercedes, quatro barcos, dezoito aviões, trinta e duas concubinas e um elefante que defecava marfim foi tomado por uma entidade. O preto alto e sorridente fez questão de dizer que não era nenhuma divindade africana naquele corpo branco que, de um instante para outro, passou a emitir um bip-bip interminável. A menina de oito anos, que reclamava um churros prometido havia exatos quatorze meses e vinte e sete dias, apontou o dedo pro possuído e, com medo de que ele explodisse, se escondeu entre as pernas do pai. O pai, indiferente ao temor da filha, garantiu o doce para o próximo mês. Enquanto isso, o arquimilionário, entre aplausos e vaias, encenava, como um canastrão daqueles, uma queda ao chão.

Comecei a achar que me faziam de palhaço. Tudo indicava que o pau ia quebrar, mas nada, só bate-boca, só um querendo fazer de sua desgraça a mais terrível. Pensei na minha pindaíba, maior que umas, menor que outras. Lembrei-me da queda livre de muitos amigos. Seria bom me aproximar daquelas pessoas e explicar a elas que todos sofríamos por conta do governo, com exceção do arquimilionário, um fanfarrão que haveria de se ver com os deuses da África. Dei os primeiros passos e, ao tomar o lugar no centro, não sei o que aconteceu comigo, sei que meti um soco no rosto que me olhava à espera da confissão de meu fracasso. Não era o do milionário.





5.8.19

Bandeira Gullar dos Anjos




Bolha (leia o poema)


Vamos viver na bolha, Anarina. Deixarei aqui meus inimigos, levarei os livros, minha única riqueza. A vergonha vai comigo. Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante: esses que se abraçaram à escuridão e a ela continuam abraçados. Aqui ecoa quente a sandice dos bárbaros, sua truculência. Na bolha pode ser que, em momento de desentendimento, o tom de nossa voz se eleve e nos escapem uma ameaça ou outra, mas lá é a bolha, e os do nosso lado estarão deitados em berço esplêndido de ar. Vamos viver na bolha, Anarina.

Quando dois e dois voltarem
a ser quatro (leia o poema)

Como dois e dois estão sob suspeição e já não se sabe se somam quatro, a vida se equilibra na corda bamba, vale ou não vale a pena? O pão, que era caro, caro está, e a liberdade, pequena que seja, anda acuada num beco sem saída. Teus olhos continuam claros, mas a catarata os tornou opacos, tua pele morena não pode mais com o sol, mesmo que o oceano seja, só de longe, azul e o fedor da lagoa chegue longe. Como um tempo de terror por trás da alegria me acena e a noite carrega o dia estúpido nas suas costas açoitadas, rezo para que dois e dois se acertem e voltem a somar quatro, pois desconfio que a vida vale a pena, esteja o pão a que preço estiver e desde que a pequena liberdade encontre a saída daquele beco.



Assim já nem tão íntimos  (leia o poema)


O formidável enterro de tua última quimera está sendo agorinha, e, como não nos espanta, a ingratidão, tua companheira inseparável, com suas garras de pantera, não terá te deixado só. Não posso desejar que te acostume à lama que te espera, na lama estamos todos, homens que, nesta terra miserável, moramos entre feras e, por inevitabilidade e necessidade, fera nos tornamos. Não te dou cigarro nem fósforo, o escarro é a véspera de outro escarro, o beijo secou, a mão não afaga, tudo agora é na base da pedra — da bala.









22.7.19

Um dia na vida meio besta


Oficina Literária: 4 aulinhas sabáticas


A crônica da falta de assunto: módulo sem noção

Quando estive em Kentucky... Epa, nunca estive em Kentucky. Na América do Norte, fui a Nova Iorque já faz algum tempo. Uma cidade adorável, inclusive, pois é um lugar do mundo, ou pelo menos foi assim que a entendi em minha pequena estadia por lá. Não só há muitos estrangeiros, como, a despeito da profusão de símbolos nacionais espalhados aos quatro cantos, aquela imensidão cujo coração é Manhattan parece ser um espaço para além do espaço. Claro, minhas observações estão feitas à luz daquela visita rápida e da música, da literatura, do cinema e do jornalismo americanos com os quais, a vida toda, mantive contato. Portanto não me leve muito a sério. Ou leve, fica a seu gosto.


Quando não estive em Kentucky, fazia frio, nada parecido com os –38ºC marcados nos termômetros de uma cidade do estado, Shelbyville, em 1994, mas fazia frio. Desestando lá naquele fevereiro friorento, pensei em um punhado de coisas fora do alcance dos Estados Unidos da América, se é que isso é possível, afinal é do Império que estou falando. Mas vamos em frente, nem eu nem você, leitor ocasional ou não, precisamos ser tão rigorosos. Aceite meu ponto de vista: pensei em coisas sem nenhuma relação com as terras que já foram dos Apaches e dos Lenapes, entre outros.

Os Lenapes, faço uma (outra?) digressão, serviram de mote a uma das mais saborosas comédias românticas americanas, “O pecado mora ao lado”, de Billy Wilder, com a estonteante Marilyn Monroe e o espetacular Tom Ewell. No começo do filme, em off, uma voz assegura que os habitantes originais da ilha de Manhattan, justamente os Lenapes, no verão, mandavam as mulheres para as montanhas, ficando, naquele pedaço de terra cercada pelos rios Hudson, Harlen e East, apenas os homens. Essa tradição teria sobrevivido aos séculos. No filme, que se passa nos anos 1950, os nova-iorquinos (ao contrário de um certo presidente, não erro o gentílico) ainda mandavam as esposas para tomar uma fresca nas montanhas. Richard Sherman, o personagem de Tom Ewell, era o senhor casado cuja mulher se ausentara, e “A garota”, Marilyn Monroe, sua vizinha: o tal pecado que morava ao lado. Quem não viu o filme pode imaginar o que acontece. Mas não basta imaginar, é bom acompanhar a trama.

Ai, ai, vamos ver se me acho. Eu dizia que, quando não estive em Kentucky, pensei determinadas coisas não relacionadas aos Estados Unidos da América. Foram muitas, mas pouparei você, leitor, de quase todas, me poupando também de me lembrar delas e, pior, de escrever sobre elas. Cuidarei de uma, a mais importante.

O que eu pensava — agora a cabeça está em Monroe, mas nem vou dar detalhes, já abusei demais, peço-lhe desculpas — era o seguinte: a falta de noção de um cronista pode levá-lo a tal grau de delírio que, diante de um passarinho, ele pia; diante de um cachorro, late; de um burro, zurra. Apesar disso, diante ou não de outro homem, o cronista sonha. O sem noção sonha, o que garante que, na ordem e na desordem natural das coisas, ainda há alguma esperança.

8.7.19

Um assunto menor


A maçã matinal e o fim do mundo




Acordar, passar pelo banheiro para se aliviar das necessidades mais prementes da manhã, coar o café, sentar-se à mesa e então ingerir os venenos produzidos a um custo altíssimo de pesquisa, acrescido de outros que garantem a comercialização e o acesso do produto ao consumidor, no caso, o produtor rural.

Olhar a maçã, conferir se a lavou direitinho e decidir por comê-la sem a casca, os riscos devem ser menores. Mordê-la e, ao contrário do escritor francês que tinha delírios nostálgicos ao comer uns biscoitinhos, não lhe chegar à boca ou ao nariz qualquer lembrança da infância. A maçã mata, não com brevidade, aos poucos. E não sozinha, mas com a ajuda de outras frutas, dos legumes, das verduras, dos cereais e das carnes. Morre-se por comer. Como Deus é irônico!

A maçã é mais letal na outra ponta, não naquela em que está o dono do negócio — por favor, isso nunca —, mas, sim, do lado do sujeito que pulveriza as árvores com o agrotóxico que não deixa nenhum bichinho de maçã, o Cydia pomonella, se engraçar com a fruta responsável por nossa expulsão do paraíso — que, agora, nos dará ao céu, se ao céu formos dados. Aquele homem é, de fato, um esteta e garante a maçã grande, esfera quase perfeita, encontrada nos mercados. Não é raro que os trabalhadores rurais, atingidos diretamente pelo veneno, tenham vida curta, apesar das roupas protetoras; são, portanto, estetas e vítimas.

Come-se para morrer, para morrer lentamente. Ora, ora, não é a vida uma morte lenta? Verdade, mas, não fossem os venenos, morrer-se-ia de coisa menos corrosiva e, mais importante, sem que o mundo morresse junto, ferido pelo desastre ambiental que produzimos.

Como viver sem o aumento de produtividade, já que a terra é pouca para os seus sete bilhões de habitantes? Não está aqui o romântico das hortaliças, longe disso, a revolução verde, que chegou tarde ao Brasil, tem méritos. Mas não raro erra a mão, e é aí que nosso país tem se excedido, aprovando qualquer veneno, mesmo alguns já descartados em outros países.

Morde-se a maçã meio aguadinha. Lê-se o jornal e depara-se com o projeto político de ignorância aviltante, no qual o agrotóxico em uso desmedido é uma parte menor diante do ódio à Floresta Amazônica (responsável, entre outras coisas, pela chuva nas demais regiões do país), do ódio à ideia de um Brasil como peça fundamental no controle ambiental, do ódio à ciência. Odeia-se muito e ama-se um quase nada.

Come-se a maçã e imagina-se uma cena: um assistente aterrorizado (e com razão) entra na sala de um desses magnânimos da ignorância e diz: “Estamos com dificuldade de exportar nossos produtos depois que abrimos a porteira para não sei quantos novos agrotóxicos”. O chefe, que crê no mundo plano, lhe responde: “Ora, nem me venha com primavera”.

As flores murcham.

E nós também.