13.5.19

Lista de desejos

Escrever como se lesse.

Chorar para lavar os olhos, lavar os olhos para não cair de vez.

Não aceitar a maçã, voltar ao Paraíso, comer a maçã e ser expulso de lá.

Vender a mãe, entregar a sósia.

Apartar o sujeito de um verbo encrenqueiro com uma corajosa vírgula.

Piar para os passarinhos, miar para os passarinhos, latir para os passarinhos, viver entre eles.

Contar quantas vezes falei com carinho a palavra pai.

Financiar um miliciano que me proteja de mim.

Jogar amanhã na loteria de hoje. Não só acertar como ganhar a grana.

Dormir um pouco ressacado e acordar absolutamente bêbado.

Cortar os cabelos de Rapunzel enquanto, agarrado a eles, subo ao seu quarto.

Pedir exílio ao meu lado solar.

Conversar com estranhos coisas estranhas.

Cantar no chuveiro, ser aplaudido no Municipal.

Andar dez quilômetros, emagrecer cem.

Gerenciar o silêncio no grito.

Reatar a amizade do cravo com a rosa.

Rir daquele dia triste que começou com um riso.

Dirimir a dúvida dos sapos.

Voltar à civilidade.

Ler como se escrevesse.

29.4.19

Roupas e ideias: o eterno retorno

Certa vez, li um comentário do Verissimo sobre moda. Segundo ele, desde sua primeira calça comprida sempre usou o mesmo modelo, e, assim, de vez em quando, estava na moda e, de vez em quando, fora.

O que está por trás da percepção do cronista é que não somos tão criativos, de modo que a novidade de hoje já foi novidade ontem. Nessa passada, não demorará muito e teremos mulheres com perucas de cabelos bem lisos ou com coques esculturais (Winehouse bem que tentou), uma febre dos anos de 1960. Estamos vendo o black power de volta, o que comemoro, pois não é um simples modo de os negros se verem ou se mostrarem bonitos, também é um jeito de serem potentes.

Esta crônica não é um ensaio sobre moda, suas idas e vindas, seus altos e baixos. Quem sou para saber disso? Não saio do jeans com camisa, em dias de trabalho, ou com camiseta, nos fins de semana. Ou seja, tornei-me um conservador à maneira de Verissimo. Se não é isso, o que é então? É essa história de vai e vem.

Se acontece com as roupas, com as ideias não é muito diferente. Quem diria que a castidade resistiria à revolução sexual da segunda metade do século XX? E ela está aí, meio na moita, mas não tanto. Tudo bem, é um exemplo besta, dou outro: a incivilidade. Ao longo da história, nosso país fez um quase completo genocídio dos índios, fez da escravidão, com crueldade, a forma de viabilizar a economia colonial e torturou sem cerimônia em suas ditaduras recorrentes, então nada mais natural que houvéssemos evoluído, entendido nossos erros e, a partir deles, estabelecêssemos novos limites de ação política. Visões de mundo distintas, tudo bem, mas, incensar torturadores, reciclar ideias caducas (por exemplo a de que a homossexualidade é uma doença ou um desvio de caráter ou de que não há o aquecimento global), inverter o sentido de nossa dívida histórica (quem deve é o índio, “com terra demais”, e os negros, “com a mamata das cotas”) já é um descalabro.


Vovô, aquele saudosista, abre o sorriso e balbucia na sala: “Até que enfim”. Quer dizer, balbucia num dia, fala alto e com as paredes no outro, no fim está discursando na mesa do almoço de domingo. Trágico: o neto aplaude e reproduz.

A boçalidade voltou à moda.

15.4.19

Verissimo, nem te conto


Na rua Barão de São Borja, quase esquina da Dias da Cruz, no Méier, vive meu traficante. Calma, meu traficante de títulos. Penso assim: não fosse por um título como “História Universal da Infâmia”, quem leria Borges, o cego? E Ramos, o preciso, sem a força de um sonoro “Vidas Secas”? No início da minha vida literária, por não ser bom de título e imbuído de boas intenções, recorri ao tráfico. Acabei viciado. Acontece.

O importante no parágrafo anterior, verdadeiro nariz de cera, é o Méier, pois, ao sair do encontro com o traficante, vi uma placa anunciando que Doroteia P., médium recém-instalada no bairro, abria as portas para promover o diálogo entre os que aqui estão e os que estão num plano superior. Sempre tenho um probleminha amoroso ou financeiro ou uma pedrinha nos rins, uma insônia, então pensei que um contato dessa dimensão poderia jogar luz sobre o meu futuro, aguçar a minha esperança, ou simplesmente permitir que eu falasse com papai ou mamãe.

Meire, a assistente, me deixou numa saleta com mais duas pessoas. Não tardou muito, ela voltou, pediu um minuto de nossa atenção e contou como fora o processo de desenvolvimento mediúnico de sua mestra. Doroteia P. gostava de fotonovelas e, não raro, passava pelos sebos do Centro à procura de velhas revistas. Sentia-se feliz ao comprar uma Sétimo Céu, uma Capricho, uma Grande Hotel que faltasse a sua coleção. Certa vez, encontrou uma correspondência do Instituto Universal Brasileiro endereçada a um tal Rolando Hole Medonho, que, por algum motivo, não chegou a abri-la. O Instituto era conhecido por promover, no mundo anterior à internet, cursos por correspondência. Como não houvesse nada que lhe interessasse, a fã de fotonovelas levou o pacote. Sem saber, adquirira um curso de mediunidade. Ao descobrir o que era, em vez de se desfazer do material, folheou o primeiro exemplar; em seguida, estudou a coleção. Em linhas tortas, Deus lhe indicara um caminho, na realidade, o caminho.

Meire nos contava aquilo, esclareceu, para mostrar como o acaso interfere magnificamente em nossas vidas. Foi além: naquele exato instante, o mesmo acaso lançava de novo seus dados. Fiquei boquiaberto, a ponto de me esquecer da novela que escrevia, do título comprado, do sofrimento da criação; da vidinha miserável, enfim.

Doroteia P. nos esperava em um cômodo pouco iluminado. Magra e com um longo cabelo solto, fez sinal para que sentássemos e disse que usaria a tábua de Ouija, o jogo do copo, como era conhecido. Justificou a escolha por seu aspecto coletivo, que nos permitiria, sem que um largasse a mão do outro, papear com os do lado de lá. Oramos o pai-nosso. Em seguida, a médium fez a pergunta inicial: “Tem alguém aí?” O copo deslizou para o “sim”. Era o momento de nossas perguntas, mas o espírito quebrou a regra e se adiantou: “Como está o Brasil? Vocês têm cuidado bem das estrebarias e da memória do venerável presidente Figueiredo?” O ambiente ficou tenso, e a voz insistiu: “Não vão me responder?” Doroteia P., tentando manter o controle da sessão, quis saber quem falava conosco. Eu sabia quem era: “É a Velhinha de Taubaté”. “Espertinho”, a alma disse com ironia. A médium, que nunca lera uma linha de como enfrentar uma situação semelhante, ordenou que eu continuasse a conversa. “Depois que a senhora morreu, em 2005, vítima do desencanto com o mensalão, o Brasil foi pra frente, foi pro lado e agora, justo agora, resolveu ir pra trás. Sendo assim, temos um vice que monta cavalos e um presidente que ressuscitou não só seu venerável Figueiredo, mas também Geisel, Médici, Costa e Silva e Castello Branco.” O copo correu pela mesa e indicou que a Velhinha suspirava. Que suspirava, não, que suspirou — “Ufa” — e fechou o bico.

Doroteia P. voltou à cena: “Alguém aí?” Outro espírito nos disse que acabávamos de fazer o bem a uma alma penada. A Velhinha cumpriu sua passagem, feliz da vida por saber que o Brasil resgatou o passado, aquele tempo “imaculado e grandioso”. Ouvi um tímido “mito” sair da boca de um dos que estavam ao redor da mesa e vi o outro fazer uma arminha com os dedos. A médium, aliviada, deu por encerrada a sessão. Cobrou cinquenta mangos de cada um, abusivo no meu modo de entender, mas nem reclamei. Ninguém reclamou.

Fui pro bar e, entre uma cerveja e outra, li o título comprado ao homem do Méier. Me pareceu meio malhado, mas, ainda mexido com a recente experiência sobrenatural, não dei bola para as questões literárias. Tive, isso sim, vontade de ligar pro Veríssimo e açodar sua curiosidade com um “nem te conto”. Não e não, seria uma baita indelicadeza, afinal se os autores não controlam a vida dos personagens — uma verdade inquestionável —, o que dizer da morte. Preferi abandonar a ideia, o cronista do Rio Grande não merecia saber que os personagens também mergulham na vida eterna — alguns acabam presos ao purgatório. Melhor que mantivesse a crença de que, uma vez que não é mais escrito, o personagem deixa de existir. Melhor que não soubesse no que deu sua crédula e inocente Velhinha de Taubaté.

1.4.19

Homens nas ruas do Rio

Com uma das mãos no bolso, coça a perna e respira fundo. A tristeza não mede esforços para se apoderar de seus sentimentos, homem. Ela é assim, sempre assim: dona da festa escura, da face incolor, do sono tolo. Mas o mar está bem ali — o sol também. Crianças correm no pátio das escolas, e gritam, e riem, e não sabem de nada. Respire, a tristeza não passa de uma coceira passageira.


Foto do autor.


Você, com essa pressa toda, já pensou se o pior for justamente chegar a tempo? Digo isso porque, das poucas coisas que me ficaram das lições de escola, uma pode não ter sido uma lição, pelo menos não uma formal. A professora do quarto ano primário (hoje, acho, quinto do ensino básico) disse para a classe que “mais vale perder um minuto na vida do que a vida em um minuto”. Autoajuda fajuta, mas... e se ela estiver certa? Contenha-se, homem, desacelere, o relógio não passa de uma frágil prisão para o tempo.

Passo por um homem que ri desbragadamente. Contagiado, sigo em frente rindo desbragadamente. Esbarro num jovem que me olha e, em vez de rir, veste a cara do espanto.

Encostado no poste, o rapaz de camisa estampada e cabelo grande preso num lenço observa os meninos que correm pelas ruas, todos com uma garrafa de plástico cujo conteúdo aspiram. O jovem — não parece rico, talvez goste de samba e toque bem tocado o tamborim, pode estar no centro para encontrar o pai, a mãe, quem sabe para comprar o material escolar —, bem, ele ao olhar os meninos loucos de solvente, começa a pensar em como tudo isso é triste. O que ele vai fazer com essa constatação ninguém sabe, é possível que se torne indiferente ao nosso fracasso. Mas talvez não.

 O senhor e a senhora conversam à espera da condução. Quer dizer, ele fala, fala muito, conta de fulano que foi traído, de sicrana que está endividada, da vizinhança que já foi sossegada e não é mais. A mulher balança a cabeça, muito raramente deixa que lhe escape um “sim”, um “não”, um “é mesmo?”. Ele acena para o 409 e, antes de entrar no ônibus, diz que foi um prazer conhecê-la. Ela dá um tchauzinho contido, e ele entende que o prazer foi todo dela.

Na rua Voluntários da Pátria, há uma leva de abandonados; são mendigos, muitos com problemas mentais. O senhor que vive na esquina da 19 de Fevereiro varre a calçada o tempo todo. Um rapaz sobe e desce a rua entre os carros e não se abala com buzinas, bicicletas ou freadas. Sentado na calçada estreita e tumultuada, um terceiro pede esmola às mesmas pessoas que obriga a andar pela rua. O que encontro aos sábados desistiu de me pedir dinheiro, mas, educado, não deixa de me cumprimentar. Além desses, a crise despejou pela rua viva e caótica uma verdadeira chuva de desesperados.

O catador de latinhas para diante da sede da Maçonaria da rua do Lavradio. Contempla sem pressa a esfinge metálica que adorna o edifício histórico. Não sei se, como é o senso comum, tenta decifrá-la, se imagina quanto ganharia com a venda da imagem derretida ou se espera por um inaudível grito de ferro que o console.

O senhor nem é tão velho, mas tem jeitão de velho. Ele anda devagar e chupa um picolé. Quando leva a boca ao picolé — e não o picolé à boca, fica vesgo.

O menino com o uniforme de escola pública e seu responsável (não arrisco a dizer que é o pai, parece tão novo) descem do ônibus. O menino diz alguma coisa, parece que externa um medo, mas pode ser que revele a incompreensão sobre um fato qualquer. O responsável larga a mão do garoto, se ajoelha diante dele e o abraça.

O policial bate o cassetete contra a palma da mão, em seguida, fecha e abre os dedos sobre o bastão. Faz isso mais uma vez. Outra. Outras tantas. O tédio usa farda.

Dois bêbados ziguezagueiam pela rua. Dois passos pra frente, dois pro lado, pro lado de cá, pro lado de lá. Pra cá quando é pra lá, pra lá quando é pra cá. Pra frente de novo. Pra trás. Opa, pra frente. Opa, pro lado. De cá? De lá? Por um triz, não caem. O mais alto para e, quase empertigado, brada: “Não disse? A terra é plana”. 

18.3.19

O que tenho para contar


Passeava pelo jardim quando fui fisgado pelo cheiro de uma flor. Olhei atentamente para ela. A flor, rubra, exuberante, no ápice de sua existência, era minha mãe. Minha mãe, intensa e breve! (Para meus irmãos)

Eu o via, aqui e ali, de quando em quando. Ontem, no parque, ele estava visivelmente distraído, mexia os dedos e esfregava as mãos. Parecia não ter se dado conta da minha presença, mas, do nada, olhou para mim e perguntou: "Afinal, tio, o que veio primeiro, a cadeira ou a mesa?" (Para Marco Ajeje)

Se há uma criança peralta no mundo, é ela. E fui eu quem a viu escalando esse prédio altão ali, ó. Sem proteção, subia de gatinhas pela fachada. Quando chegou ao último andar, olhou para a sala daquele apartamento, isso, o da direita. Não sei o que se passou, mas dali levantou voo. Sim, ela tem asas. (Para Vitail Brandão)

"Tião, o que me conforta é que todos nós daquela velha turma de certa forma nos demos bem." Sebastião, homem mais de gesto que de palavra, dessa vez não respondeu apenas com um menear de cabeça ou um sobe e desce de ombros. Estendeu os braços, virou as palmas das mãos para cima e, quase sorridente, disse: "Menos os que continuamos vivos". (Para Atila Roque)

Vamos, vamos, telefone logo, conte a eles a novidade, já não me aguento. (Alô... sou eu... sim... o quê?... pera... fale devagar... melhor mais tarde?...) Ué, você mal abriu a boca, o que foi? (Eles têm novidade também.) Qual? (Não conseguiram contar, estavam muito eufóricos.) (Para Tereza Portugal)

Certa vez deitei-me com uma mulher tão farta que tanto eu quanto ela lamentamos o fato de eu não ter um terceiro braço e outras dezessete mãos. (Para a mulher que, nos meus treze anos, era dona das minhas fantasias)

A luta durava horas senão dias senão anos senão séculos. O soldado do exército inimigo, espada cruzada com a minha, me perguntou: "O que você tem contra mim ou eu contra você?" Sem respostas, baixamos as armas. Os exércitos que nos resguardavam, zelosos de suas responsabilidades, abriram fogo em nossa direção. Tudo leva a crer que estamos mortos. (Para Marielle Franco e Anderson Gomes)

Querem saber sobre a longevidade da esperança. Pois bem, eis a verdade: ela é a primeira que corre. (Para Eduardo Lacerda)

Os dois homens no filme relembravam uma história que, no detalhe do detalhe, era a vida dela, que fazia da ida cotidiana ao cinema seu único luxo — na sala, chorava sem censura de ninguém. Até então e depois de tantos anos, nunca tinha visto na tela alguma coisa que se parecesse com sua vida, com sua vidinha. Prestou ainda mais atenção nos homens. Olha só, acabavam de contar sobre as travessuras de seu pai alcóolatra. Aí já era demais, uma intromissão sem tamanho. Não, ali não ficaria, encontraria outro lugar para chorar em paz. (Para Shirley Villela)

4.3.19

Meu curriculum vitae


Graduado em álbum de figurinhas, com mestrado em perdê-las no bafo.

Pelo assombro, doutor honoris causa em situações de emudecimento.

Aluno ouvinte de ideias furadas, ourives de angústias sem brilho, rábula das causas cabreiras.

Químico apenas teórico na faculdade do amor sem beijo.

Pároco da igreja de um deus ambivalente, metade qualquer coisa, metade coisa nenhuma.

Militante separatista do partido de um homem só, com pós-graduação em ouvir de pé e impassível qualquer sermão de louco.

Na universidade dos contempladores de pôr do sol, bolsista por mérito.

Grão-mestre em ruína alheia, vulgo amigo da onça.

Técnico ferroviário nesses trens lá de Minas, metalúrgico em céu de diamantes, subcoordenador de estados utópicos de exceção.

Síndico em condomínios que não saem do papel.

Preparador de infantocanibais barítonos para coral de descontentes.

Campeiro que anuncia com dez badaladas o passado logo adiante.

Regador de desertos, doxógrafo de filosofia de botequim, copidesque de não escritos.

PhD em dialeto de bêbados maltratados pela lucidez.

Professor emérito de Ignorância III, turma de quarta-feira (sexta, caso chova na quarta).

Todos os títulos podem ser confirmados com um simples pulo em cidades a que nunca fui, Anta Gorda ou Não-Me-Toque, no Rio Grande do Sul, Feliz Deserto, nas Alagoas, ou naquela que vivi por tanto tempo, Passos, a princesa do Sudoeste de Minas ou a cidade que anda. Nesta, não saia perguntando por mim pela rua, procure o Limão, ele guarda meus diplomas, que de fato são as digitais que deixei nos copos em que tomei a primeira dose, a segunda cerveja, o terceiro fogo paulista, enfim, nos copos que me deram verdadeiras aulas de como viver honestamente uma vida à toa.













18.2.19

Lima Barreto e os dias de hoje

Em “Diário do hospício”, primeira parte de “O cemitério dos vivos” (Planeta), Lima Barreto fala de uma das internações que teve, na realidade, a última, dois anos antes de seu falecimento. O problema do homem era a bebida, pelo menos era o que ele mesmo dizia. Tudo bem, ele dizia mais. Reproduzo suas palavras: “De mim para mim, tenho certeza que não sou louco; mas devido ao álcool, misturado com toda a espécie de apreensões que as dificuldades de minha vida material, há seis anos, me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura, deliro.”

Quadro de Wagner Castro, 2009*.
Apesar de todo o campo que se abre para discutir sobre a visão que o escritor tinha de si mesmo, um dos motivos que me levam a falar do livro é que, durante a leitura, encontrei a palavra geena, segundo o Houaiss, “local de suplício eterno pelo fogo, inferno” ou, por extensão de sentido, “sofrimento intenso, tormento, tortura”. Antes de buscar o significado do substantivo, me lembrei da amiga Stella Maris Rezende — escritora, colecionadora de prêmios Jabuti e verdadeira adoradora de palavras esquecidas — e a marquei no Face com a intenção de saber se ela o conhecia. Não, ela não conhecia. Concordamos que a sonoridade era bela, já o significado...

Henrique Fendrich, editor da revista Rubem, comentou que geena “era um vale fora de Jerusalém onde se jogava lixo e cadáveres” e que “Jesus usa muitas vezes a palavra como metáfora para o inferno”. Vera Moll — autora de “Meu adorado Pedro” (Bom-Texto), livro baseado na vida da imperatriz Leopoldina — reforçou a linha do Henrique ao perguntar: “não era desse modo que muitos eram condenados à morte segundo um dos livros da Bíblia? Na Geena.” Geena é uma palavra bíblica, que Lima Barreto usou com precisão ao escrever sobre seu calvário de viver num hospício, esse cemitério de vivos.

A ironia à postagem veio do Marco Túlio Costa — outro colecionador de Jabuti — ao fazer o seguinte comentário: “do modo que as coisas vão, alguém nascido na cidade do Rio de Janeiro poderá dizer ‘sou carioca da geena’”. Trocadilho digno de prêmio, reagiu o Henrique. Faço coro, quanto mais agora — um agora que não é de hoje — que o estado está à deriva. O autor de “O mágico desinventor” (Record), digníssimo Mago Túlio, como o poeta Antonio Barreto o chama, lacrou.

Volto ao diário da terceira internação de Lima Barreto. O interesse em lê-lo ainda hoje está não só no fato de que os “loucos” continuam por aí e são sempre personagens curiosos (quando são apenas personagens e não nossos familiares, sejamos honestos), mas na precisão com que Lima Barreto mostra que uma instituição dessas é a síntese do próprio país. Barreto fala de loucos ricos, com enfermeiros contratados, em contraposição aos despossuídos de juízo e dinheiro. Fala de médicos que não vão além daquilo que apregoa sua ciência, quer dizer, médico que está ali para receitar o mesmo tratamento para qualquer espécie de doente. Mostra enfermeiros pacienciosos, que, vivendo entre os loucos, sem o distanciamento reservado aos médicos, suportam todo tipo de maldição e impropérios.

Olhar arguto, Lima Barreto documentou um país que insiste em manter-se o mesmo. O Brasil, e não só o Rio, está jogado à geena. Ah, sim, e os escritores continuamos, como tem sido desde o início dos tempos, assoberbados pela falta de grana, com o que nos quedamos loucos mesmo sem a bebida e sem o delírio.

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* Wagner Castro, nascido em Franca, foi um importante artista plástico que residiu até a sua morte, perto dos 100 anos, em Passos.

4.2.19

Tragédia e Férias


Aos familiares das vítimas da Vale


Paisagem, de Marcelo Albuquerque*

O rompimento de uma barragem da Vale, outra vez ela, aconteceu quando eu estava de férias, em Tiradentes. O intervalo entre esta tragédia e a anterior (a de Mariana) foi pequeno, sinal de que a mineradora e todo o aparato de fiscalização não se empenharam em evitar uma nova catástrofe. O que aconteceu nos arredores de Brumadinho foi similar à atuação de um psicopata que entra na escola, mata quem vê pela frente e, por fim, se mata. É e não é similar, já que a Vale vai continuar por aí, rachando de ganhar dinheiro com o minério, descarte aqui, descarte lá os rejeitos desse minério. A empresa ressuscita no terceiro dia, embora não se possa associá-la a Cristo.


Muitos apontam a privatização como a razão de tantos rompimentos. Não concordo. A questão, me parece, está mais associada à forma como o capitalismo funciona por aqui: empresas viciadas em dinheiro público; fiscais que fiscalizam mais a própria conta-corrente; legisladores e membros do executivo que atuam com a mão (nem tão) invisível de interesses alheios aos de seus eleitores ou do próprio Estado. Desmontar essa engrenagem é que são elas.

O Ipiranga do novo governo promete fazer e acontecer para oxigenar o capitalismo tropical. Muita coisa que diz me soa bem, mas, claro, o sistema não é altruísta, regras e fiscalização são imprescindíveis. Tenho a impressão de que o homem forte da economia, um liberal puro-sangue, não acredita muito nisso e acha que as forças da economia — alicerçadas no egoísmo nosso de cada dia — nos levarão por si só ao equilíbrio. É aí que a vaca morta na lama, feito a porca, entorta o rabo.

O Brasil tem nós não desatados desde a primeira infância: a escravidão; a elite que não raro toma de assalto o poder e manda às favas os suspiros democráticos; a injustiça econômica e social. Eu pelo menos já não me assusto com essas jabuticabas (coitada das jabuticabas!), em compensação, me entristeço. A tragédia humana e os danos à fauna, à flora, às águas e a tudo mais me deixam na miséria. Somos inconsequentes e ponto.

Em Tiradentes, estava rodeado de amigos, alguns artistas, outros não, mas todos com alma cunhada no amor ao próximo. Sofremos juntos, e, por estarmos juntos, nos fortalecemos. O brinde levantado de forma recorrente na cidade histórica era muito mais que um desejo de saúde particular, era como se, no alegre tim-tim, transferíssemos ao outro uma força, pequena, mas resistente, capaz de fazer cada um de nós acreditar na melhora deste país e, principalmente, acreditar que, escrevendo, executando uma peça musical, talhando a madeira, preparando um bolo, inventando um drinque ou um prato, enfim, trabalhando, seremos protagonistas da mudança. 

Porque é importante, digo que, além da minha, esta crônica ecoa as vozes de uma Beatriz, duas Veras, uma Margarida, um Márcio, um Murilo, um João, um Celso, uma Lilian, uma Maria Helena, uma Fernanda, um Cléber, um Antonio, uma Graça e, como regentes, as vozes de uma Tereza e um Marco. Quando muito somos um bando de saltimbancos ou músicos de Bremen, mas, por isso mesmo, somos fortes no afeto e solidários na dor. No caso, na dor das famílias que viram seus entes tornarem-se vítimas de mais uma irresponsabilidade institucional brasileira.


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* Encontrei essa imagem num post de Antonio Barreto, poeta, conterrâneo e amigo do peito, não resisti e ilustrei minha crônica com ela, uma obra de Marcelo Albuquerque, cujo site pode ser visitado por aqui

21.1.19

Escrever nestes dias


Pro Cássio Zanatta e pro Renato Braz





Escrever é voar num carrinho de rolimã ou de sebo, que eu não sei se vocês sabem o que é, mas, no momento, não cabe explicar. É deixar-se levar pela mão da criança atrevida, dona de uma infância tão velha e caduca que nem em livros encontra registro. É andar amparado por Zanatta, o cronista que, sem saber, fala (só) de mim. É falar por ele ou dele, com vênia, evidentemente. É não alterar a voz nem erguer o punho, mas, com um verbo, dos mais singelos, ser capaz de matar um homem. É, resistente, mostrar-se pronto para dizer o dito, desdizer o dito, dosar o delírio, desbravar a delicadeza.

(Assim e assado escrevo, nestes dias em que os brutos dormem sem apagar o riso do rosto e o gozo do corpo.)

Escrever é comer com a fome pura-memória-dos-homens-velhos e desabrochar com coragem uma flor, úmida (e última) esperança de um bulbo feminino. Não se curvar, não dar as costas, ao contrário, semear o vento nos olhos do mar, do bicho, do não e quiçá. É dar a cara a tapa, meio Cristo, meio Gandhi, meio aquele primo nas brigas de rua. É desconjugar a febre da palavra e deixar boquiaberto o silêncio.

((Assim e assado escrevo, nestes dias em que a devassidão balança sua bem-dotada injúria nas fuças de nosso brio murcho.))

Escrever é enxugar o suor dos falsos adjetivos ou enfrentar o orgulho também falso da dor. É acompanhar com os olhos os carros que não passam. É dar um cavalo de pau em frase dita antes da invenção da roda. É contar centavo, cavar culpa, cintilar. É dar incerteza aos mapas.

(((Assim e assado escrevo, nestes dias, justo neles, mas também nos outros.)))

5.1.19

Do sono não saio: uma crônica insana, mas com sexto sentido


Parece que estou acordando. “Volte a escrever, Xandão”, um fiapo de voz-pensamento ecoa, repetindo-se feito um despertador que não quer ou não sabe calar. “Já vou, só mais um segundo, um mandato, uma vida.” Espreguiço.

Não sou dos que se lembram dos sonhos, mas não me esqueço de um recente. Estou em São Paulo, tento usar um APP para me conectar a uma empresa aérea e não consigo. Caminho descalço, o que me faz comprar umas sandálias. No segundo posterior, na companhia de um irmão e de uma irmã, desço em Orlando. Sinto-me preocupado por não ter passaporte, mas meu irmão, que tem a autoridade de já ter vivido nos Estados Unidos, dá de ombros como quem diz: “Não esquente”. Estamos num parque, num parque de chão batido, e reparo nas sandálias recém-compradas. (Recém-compradas? É um sonho, o tempo dança em torno de si mesmo.) Elas continuam nos meus pés, mas, por mais que me esforce, não distingo sua cor. Já não estou no parque, mas na casa de meu sobrinho, e ali minha sobrinha-neta pula no meu colo e pergunta a minha idade. Ficamos brincando com os números 57 e 58. Eu digo 57, ela diz 58 e, em seguida, me chama de velhinho.

Devo ser mesmo, pois não consigo acordar, acordar de fato. A realidade me empurra para a cama, o travesseiro me segura. Mas, ó, não estou na cama. A preguiça é apenas simbólica. A preguiça é um ato macunaímico-político. “Volte a escrever, Xandão”, martela a voz-não-mais-pensamento-mas-comando.

Sento-me diante do computador e, desatinado, teclo. Um passarinho canta lá fora. Paro tudo para ouvi-lo. O canto, de fato, parece um coaxar, de onde concluo que os sapos criaram asas. Vi num filme americano — não vou procurar o nome — uma chuva de sapos. Então, se os batráquios não estão voando, o coaxar é uma tormenta anfíbia. “Não consigo escrever”, vocifero. Lá da cozinha alguém diz que estou falando sozinho. Quem estará na cozinha se estou sozinho? Presto atenção. Não é voz de ninguém, e sim o pio de um pássaro fajuto e feio. Os pássaros perderam as asas e fofocam sobre nós, os humanos, ou os humanos preguiçosos, ou os humanos aturdidos pela realidade.

Uma expedição da Nasa fotografa o corpo celeste que estaria na fronteira do sistema solar, a seis bilhões de quilômetros da terra. As fotos levarão muitos anos até chegar aos computadores da agência americana. Para os lunáticos — esses cientistas que, é certo, são as mãos de vários interesses, sem que deixem de ser, como os poetas, a voz do delírio, do sonho e da aventura —, a demora é um nada diante do destempo do universo. Enquanto a terra dá trezentas voltas em torno do sol, o planetinha ora em exploração dá apenas uma. Se nele estivesse, eu não teria nem 20% de um ano, queria ver minha sobrinha-neta me chamar de velho. Aliás, os velhinhos de lá, se velhinhos houver, acharão os milenares homens e mulheres bíblicos apenas umas crianças expostas ao infortúnio do calor e do frio. Rirão da ficção que criamos para nos ajudar a lidar com uma vida tão curta.



Atrás de minha sombra, me escondo e não escrevo nem falo coisa com coisa. Depois das férias, sou o mesmo cansado — agora com o talento emperrado ou encarcerado.

Preciso dormir. Só mais um segundo. Só mais um mandato. Só mais uma vida.