10.7.17

O dia da chegada de Guineto ao céu

Ao Sílvio Sales, que é fã do sambista

Em maio deste inominável 2017, Almir Guineto bateu à porta do céu. Durante a triagem habitual, São Pedro comunicou-lhe que um pouco mais tarde Deus o receberia para tratar de um assunto. Guineto, que já deixara o corpo frio para trás, viu a alma gelar. Medo. Medo de Deus. Estranho medo, mas justificável, ninguém chega ao céu com o escore de pecados zerado. Ciente de seus pecadilhos, o sambista do Salgueiro cismou que seria despachado para o inferno. Melhor seria se São Pedro não houvesse cochichado ao pé do seu ouvido, ainda que, por não ter tido som algum, não se escutara exatamente um cochicho, e, além do mais, alma não tem ouvido nem nada que se assemelhe ao corpo.




O sambista foi instalado em seu aposento, uma nuvem imensa, de onde ele conseguia ver a vida, a sua e a de quem quisesse, desde a infância até o derradeiro dia. Depois de matar a saudade de seus dias de criança no morro, riu do futuro do Brasil. Riu de nervoso. Pensou em fazer um samba, mas o som, no céu, não passava de uma sugestão e um samba insonoro não era samba. Será que Deus justificaria sua transferência para o inferno baseado na premissa de que a turma do samba não vive onde não há som? Cartola estaria no inferno? Clementina? Noel? Ou será que Deus, na ditadura do céu, desprezava os negros? Acostumado com o preconceito sofrido ao longo de seus setenta anos, preferia manter um pé atrás, mesmo estando no paraíso. Quis olhar-se no espelho — alma não tem cor? —, mas não havia espelho, havia somente a sombra projetada pelo sol sobre a nuvem, e, na terra ou no céu, do corpo ou da alma, toda sombra é negra. Melhor não se agarrar a teorias espúrias, impossíveis de testar e — melhor ainda, prudente até —, pedir uma força para Iemanjá, Iansã, Xangô. Quer dizer, Nossa Senhora da Conceição, Santa Bárbara, São João. Não era fácil livrar-se dos costumes terrenos, que Deus relevasse a heresia de um recém-chegado.

Visto do céu, o momento de sua morte foi apenas um olho franzido no rosto de um homem alto — um negão que fez sucesso com as mulheres, ah, isso sim —, nem uma expressão a mais. Mais um motivo para um samba. Mais um motivo para se lembrar de como seria duro viver eternamente sem batuques. Quem sabe o inferno? Esticou a alma no macio da nuvem. Já não sentia tanto medo ou, por outra, já não via sentido em ter tanto medo. Era uma alma sob controle.

“Deus te espera”, avisou-lhe o anjo, e, no mesmo instante, o sambista estava diante de Deus. “Guineto! Venha aqui, rapaz.” Almir rasgou o sorrisão de sempre e jogou-se nos braços naquele instante abertos, esperando por ele. “Uma das minhas alegrias, meu filho, foi quando ouvi, ecoando pela imensidão, a voz da Beth cantando ‘Coisinha do pai’. Nesse mundo silencioso aqui do céu, aquela música abrandou um pouco minha solidão.” O compositor não conseguiu segurar a emoção e chorou copiosamente, o que não o impediu de ficar intrigado: se não havia som por ali, como é que Deus ouviu a música? Almir, envergonhado, constatou o óbvio: Ele era Deus.

Deus confessou que o motivo daquele encontro era outro. Guineto suou frio. O Senhor tomou-lhe a mão e pediu-lhe que se acalmasse. Gostaria apenas de agradecer ao moleque do Salgueiro por ter cantado “Saco cheio”. Almir encarou-o com espanto e curiosidade. “Sim, estou cansado, muito cansado e é isso que se diz na música: ‘Deus já deve estar de saco cheio’. Ô, como estou!” O sambista ensaiou um movimento na direção do Pai, mas foi contido. “Não, querido, não se preocupe, é meu fardo”, e continuou: “Você bem tentou dizer aos homens, mas eles, mesmo tendo a faculdade de dialogar, são incapazes de alcançar a verdade. Você não vê? Olhe ali para o futuro: não demora muito, aquele energúmeno lá em Brasília dirá que fui eu quem o colocou num lugar no qual nunca deveria estar. Eu, meu Almir? Eu?” Deus suspirou, passou a mão sobre o corpo imaterial do sambista e aconselhou-o a passear pelo céu. “Logo você encontrará a sua turma: um tal Geraldo Pereira, outro tal Luiz Carlos da Vila, a forte Jovelina Pérola Negra, os seus, você sabe quem são, eu os chamo de as almas levadas do céu. Acredita que, mesmo não sendo possível produzir som nesse cantinho do infinito, continuam a se reunir em rodas de samba e a beber umas cachacinhas que — sabe-se lá outro Deus como — chegam a eles? Faço vista grossa. São os meus mais queridos inquilinos. Vá, vá, eles preparam uma festa para recebê-lo.”

25.6.17

Três leituras

Meu amigo Ricardo me deu “Águas-fortes cariocas” (Rocco), livro de Roberto Arlt, escritor argentino, contemporâneo de Borges, o cego. Águas-fortes era o nome da coluna que o escritor mantinha em um jornal de seu país, na qual escrevia o que se pode chamar de crônicas. Pois bem, em 1930, Arlt veio ao Rio de Janeiro, ficou por aqui uns dois ou três meses, e escreveu bastante sobre sua estadia  a Rocco, muitos anos depois, organizou o livro. Sua visão da cidade é, na perspectiva de hoje, no mínimo chocante. Primeiro, associa o carioca a um povo que não se dedica à alegria, trabalhador obstinado, que dorme cedo — várias vezes, o portenho despeja sua ira contra a cidade que, ao contrário de Buenos Aires, não tem vida depois das vinte e três horas. Mais: se surpreende com o grau de honestidade de nossa gente, incapaz de furtar o leite e o pão que, logo de manhã, são deixados à porta das casas. Nessa linha, sente falta dos malandros de sua terra, gente que lhe era próxima e que estava preocupada em achar formas seguras de assaltar uma casa. No entanto, seu maior espanto se dá quando descobre que muitos daqueles negros com quem eventualmente mantinha contato eram escravos havia menos de cinquenta anos. Escravos trabalhadores e operários incultos – novamente um contraponto com a Argentina, que, bem ou mal, tinha sindicatos e clubes que estimulavam a leitura — faziam do Brasil, na sua opinião, um país submisso. Perdemos nossa honestidade — aquela para argentino ver — nalgum momento, porém, e é aí que o olhar estrangeiro nos ajuda, temos sido um povo manso, excessivamente manso.

Sou velho, constato ao ler Eduardo Sabino, escritor mineiro de uma geração recente, que, se não vive, pelo menos é de Nova Lima. No seu livro de estreia, “Naufrágio entre amigos” (Patuá), ele faz uma espécie de coleção de contos de formação, expurgando a juventude. Minha tenra idade foi tão diferente daquela que escorre pelo livro, apesar de também ter tomado meus porres, ter enfrentado contratempos na escola. A diferença aparece no nome das bandas que os personagens ouvem, na forma como lidam com a internet e, principalmente, com a cultura dos jogos eletrônicos. Por conta dos jogos, aliás, boiei ao ler “Jogo de três”. De todo jeito, há contos menos datados, digamos assim, e um deles se tornou o meu preferido, “Strawberry fields forever”. A história se passa no dia em que morre a avó do narrador, cujo pai é o prefeito da cidade. Eduardo mostra, de um lado, o comportamento estudado e comedido do homem público, em torno do qual desconhecidos se debruçam com uma falsa solidariedade, e, de outro, já longe do teatro, em um ambiente íntimo ainda que inusitado, o seu desmoronamento.

Sou frequentador da livraria Travessa de Botafogo e tenho dois queridos lá: o Bruno e o Leonardo. Ambos são ótimos livreiros, mas, além disso e razão pela qual são tão bons no que fazem, estudam e escrevem. Pois bem, dia desses encontrei-me com eles e, durante o papo, me indicaram a Stela do Patrocínio (“Reino dos bichos e dos animais é o meu nome”, Azougue). Stela foi, assim como Bispo do Rosário, interna da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Se não entendi errado, alguma pesquisadora viu que a fala de Stela era poética e a gravou; Viviane Mosé, em contato com a gravação, transformou a fala em poema escrito. Não vou andar na corda bamba na qual Ivan Cavalcanti Proença se meteu ao dizer que Carolina Maria de Jesus — a escritora pobre e favelada autora do clássico “Quarto de despejo” — não fazia exatamente literatura, nem vou sair em defesa de ninguém, como o fez muito bem, neste caso, a Elisa Lucinda; simplesmente agradecerei a meus amigos livreiros e literatos terem me apresentado à Stela. Ela é capaz de dizer uma coisa assim: “Não deu tempo / Eu estava tomando claridade e luz / Quando a luz apagou / A claridade apagou / Tudo ficou nas trevas / Na madrugada mundial / Sem luz”. Pode ser apenas uma frase proferida por um doido, mas que frase, Deus da Poesia! Salve, Nise da Silveira, a psiquiatra que esteve na gênese de artistas tão fortes como a Stela e o Bispo.

12.6.17

Essas palavras...

... um tanto quanto clichês

Naqueles dias eu matava grito a perros e dormia de olhos deitados e corpo fechado. Sopesava cá com meus bordões jobinianos: o brasileiro não é para princípios claudicantes. Tentado a me distrair, assoviava tocatas e afastava-me da filosofia esbeiçando o pensamento em frase desfeita, por exemplo, uma que assim: não amo tudo que tenho, por sorte não tenho nada. Ai, ai, a caixinha é um futebol de surpresas.

Diabo velho, íntimo da cruz, fazia fé de que o trabalho havia sido criado pelo desleixo de Deus e que a vaca profana nascera com o brejo pra lua, certezas essas que me transformaram num descrente prontinho, prontinho para, não podendo mais, mandar tudo às favas e às fulvas paridas pela cor mais quente.

Voltando àquela sequência de exceções regradas - os fatos, nada mais que eles -, os tropeços dos comandantes foram tantos, mas tantos, que a lamparina do espírito desinstruiu-se de vez e aspergiu escuridão para tudo quanto é lado, a ponto de uma só andorinha obrar e voar pro verão. 

... irônicas

— Moço, onde encontro explicação para a escravidão que não acaba, a corrupção que só faz crescer, a violência arraigada na gente?
— Lá no Grito do Ipiranga!

... marítimas

Nem todo vento venta como deve ventar. Quem inventa inverna; quem inverna inveja. O resto é naufrágio. 

... de morte e de vida

Morri três vezes: de pinote, amor e preguiça. Sempre voltei de costas pelo Aqueronte e de peito pelo Estige e, num caso e no outro, cruzei o caminho de Caronte, a quem duas moedas e um silêncio eu devia e ainda devo, e por ele nunca fui visto. A sorte nadou comigo, por isso nasci três vezes, mas aí já não me lembro como.

29.5.17

O som dos destroços

Totora, Bolívia. Foto do autor. 
Escrevo esta crônica a partir da perda de uma foto, aquela 3 x 4 que o tio Raul me deu. Tinha uma dedicatória: “A mi querido sobrino Alexandre, un abrazo fuerte y apretado de su tío Raulito”. As palavras, se não eram essas, soavam mais ou menos assim e foram escritas em espanhol — nesse espanhol castiço, que não é meu, esclareço, é de meu irmão Gonzalo, a quem pedi socorro enviando-lhe um arremedo da frase em português, na hora transformada por ele nesta tão boliviana.
Tio Raul era, em meados da década de 1980, a única pessoa em Totora, pequeno município boliviano, na região de Cochabamba, que tinha, graças a uma geladeira a gás, cerveja gelada. Depois de um dia inteiro bebendo ora chicha, ora cerveja quente, papai se lembrou do tio Raul. Papai? Na Bolívia? Vejo-me obrigado a recuar um pouco, a soldo da clareza e em seu benefício, leitor.
Eu e Carlos, um amigo chileno, fomos à Bolívia com o propósito de passear por algumas cidades até chegar a La Paz, onde encontraríamos o Gonzy e de lá seguiríamos para o lago Titicaca, na divisa entre a Bolívia e o Peru. Não vem ao caso, a este caso confuso, mas a parte de chegar ao Peru não se concretizou. Tomávamos, a cada noite em La Paz, um porre e, na manhã seguinte, não tínhamos saúde para a viagem. Foram quinze dias de farras alcóolicas memoráveis.
Mal chegados à Bolívia, ainda na estação, encontramos um amigo boliviano que estava com outro boliviano, desconhecido e mais velho que a gente. O “coroa” nos contou que saíra do país havia uns vinte anos, e, desde então, nunca voltara. Ele iria visitar a família. Onde? Em Totora, claro. Ainda na plataforma, eu e Carlos aceitamos o convite para o réveillon da volta do filho pródigo à Bolívia.
Na cidade, aquele que sumira no mundo e cujo nome me escapa, ao nos apresentar ao irmão, na casa de quem ficaríamos hospedados, disse que eu e Carlos éramos seus filhos. (Entenderam por que falei em pai?) Que ator! Que ficcionista! Como eu não falava nada de espanhol, e o Carlos era chileno, papai inventou que Carlos namorava uma chilena, “maldita chilena”, reforçou, mostrando indignação com o fato de um boliviano se envolver com aquela gente que roubara o mar de seu país. Por esse namoro, Carlos falava com desenvoltura e sotaque do inimigo, enquanto eu, o caçula e seu xodó, um brasileirinho típico, não fazia esforço algum para aprender a língua paterna.
A empatia entre mim e tio Raul, tão logo tomei-lhe a bênção, foi tão grande que o velho comerciante, ao contrário do que esperávamos, não cobrou pelas cervejas. E ainda me deu a foto autografada — a foto que perdi. O que é roubar o mar diante de uma encenação como aquela? Maldito fui eu.
O povo de Totora, tio Raul em especial, gabava-se de a cidade ter sido rica, prova disso era que, no início do século XX, havia, espalhados por suas casas, onze pianos. O instrumento figurava como o símbolo de uma ostentação, de uma ostentação sepultada no tempo. O vilarejo (não passava disso) não tinha mais nem os pianos nem nada que lembrasse a antiga riqueza.
Lembrei-me de Totora e consequentemente de tio Raul e da foto enquanto via, desatento, um documentário sobre a Síria. Nele, ao visitar Aleppo, o repórter entra em uma das poucas casas que ainda mantinham a estrutura intacta. Pensei ver, entre os móveis, um piano. Um piano na guerra. O piano entre os destroços. O piano.
Polanski dirigiu “O pianista”, baseado numa história real passada na Polônia tomada pela Alemanha. Quando os russos, já no fim da guerra, começam a expulsar os alemães, o músico judeu, depois de se esconder faminto num edifício em ruínas, é encontrado por um oficial nazista que lhe pergunta qual a sua profissão. Pianista, ele responde. O militar — homem entediado, no qual uma dose de humanismo sobreviveu ou foi revivida naquele momento em que, talvez esperançoso, se vê voltando ao convívio de sua família, em período de paz — pede ao judeu que toque no piano empoeirado que resistiu à guerra. Władysław Szpilman toca a “Balada No. 1 em G Menor, Op. 23”, de Chopin. A música o salva.
Não tenho ideia de como Totora estará hoje, deduzo que tio Raul não está mais entre nós — como não está a foto, que, enganado, me deu como prova de amor. Além disso, arrisco dizer que onde houver um piano, haverá a possibilidade de revitalização. Foi assim em Varsóvia, espero que seja assim em Aleppo. A decadência de Totora foi medida em pianos perdidos.
Totora, Bolívia. Foto do autor.

15.5.17

Treze quilômetros e o que veio depois





Naquele dia, como é meu costume, saí para caminhar. Um aplicativo disse que, ao voltar para casa, eu havia andado justos treze quilômetros, não tenho como negar, mas meu cansaço indicava menos.

Quando me meti, lá pela metade do trajeto, na pista Cláudio Coutinho, além de, logo na entrada, encontrar uma senhora que fazia gestos de acolhimento aos muitos que passavam, vi um sujeito, que se parecia com um amigo meu, amarrar ao redor de uma árvore pequena, de troncos finos, talvez para sustentá-la, uma ráfia ou coisa parecida. Meu amigo seria capaz de cuidar de uma árvore daquele jeito, é condizente com sua personalidade, mas não era ele, conferi mil vezes. Horas mais tarde, ao sair da sessão de cinema, quem eu encontro? Ney, esse amigo. Comento o fato, ele faz questão de dizer que não esteve pela Urca, mas concorda comigo, poderia ter cuidado de uma árvore de rua, tarefa que lhe daria prazer.

Ao longo da caminhada, portanto antes do cinema e do encontro, umas frases foram surgindo na minha cabeça, o que não é raro. Uma delas se fixou de vez e acabou sendo o início do texto que publiquei há quinze dias. Foi sob o sol de outono, entre Botafogo e Urca — ouvindo primeiro a Alice Passos (no emocionante disco no qual ela canta acompanhada exclusivamente por violonistas como Dori Caymmi e Guinga, que se alternam entre as faixas) e, depois, no piano do André Mehmari ou na coisa louca que é o Uakti, os Beatles —, que “ponhá o vestido novo, cosido enquanto cozinhava a vida em pano-maria” surgiu sabe-se lá de que grotão alexandrino. Depois de duas horas e meia, cheguei a minha casa, tomei banho, almocei um senhor risoto feito pela Beleleca e corri para o computador. Se eu disser que em meia hora a tal crônica, cuja primeira frase havia brotado na caminhada, estava pronta, não estarei mentindo. Estarei sim, pois durante vários dias fiquei trocando umas palavrinhas aqui, a posição de uma frase ali, mas o grosso saíra no jato sujo da primeira meia-hora.

É comum o escritor ficar feliz com o que escreveu, mas sou macaco velho, guardo comigo esses momentos, pois sei que são traiçoeiros. No entanto, naquele dia, esnobando a cautela, corri ao Facebook e postei que acabara de escrever um texto fofo, meigo. A linguagem que usei dá esse tom, mas o fato é que, até a publicação, fui vendo como “Passeio na praça” — título da crônica — era triste. Não me parece ensolarada, poderia ter vingado em terra fria, em dias cinza.

No momento do encontro com o Ney, acabara de assistir a “Paterson”, de Jim Jarmusch, peça de beleza mignon, típica do cineasta americano. O filme conta uma semana da vida de um motorista de ônibus que também é poeta, mas não é só isso; aliás, o fato de um motorista de ônibus ser poeta não é tratado como uma excentricidade, é coisa dada. O poeta é um escritor em estado puro, nem um pouco preocupado em chegar ao leitor, pois, ao que parece, nem mesmo a mulher conhece bem seus poemas. Mas, como eu dizia, isso não é tudo, porque o personagem, um motorista chamado Paterson, numa cidade morna chamada Paterson, é casado com Laura, uma mulher... como descrevê-la? Bela, sim, bem bonita, mas o que chama a atenção é a sua personalidade. Ainda que não se diga isso — porque de fato ninguém, muito menos ela, a reconhece como tal —, Laura, mais que Paterson, é uma artista bruta, irrequieta, sem foco. No filme, o dono de um boteco frequentado pelo motorista-poeta chama de Romeu e Julieta um casal que está sempre por ali e sempre em conflito, mas talvez Paterson e Laura coubessem melhor nas personagens, caso toda aquela tragédia shakespeariana não houvesse ocorrido, e o casal tivesse tido a chance de ser feliz pela eternidade afora. 

De dentro de um carro alguém acenou para mim, enquanto eu fazia o trajeto entre o cinema e minha casa, distância pequena que percorro a pé. Quando pude, corri novamente ao Face e, mais uma vez, de chofre, fiz um post na esperança de encontrar o dono ou a dona do adeus. Um monte de gente curtiu, alguns lamentaram não ter passado pela rua naquela hora, outros afirmaram, sem me convencer, que eram eles e houve quem, de galhofa, me perguntasse se eu estava na Bahia ou em Minas. Só mais tarde caí em mim e me perguntei: mas quem garante que era um aceno ou, caso fosse, que era pra mim?

1.5.17

Passeio na praça

Ponhá o vestido novo, cosido enquanto cozinhava a vida em pano-maria. Botá o batom no tom, o esmalte mate, sem esquecê o colar e os brincos, tudo numa harmonia só, dessas de dá dó das dondocas bem-nascidas, mas sem encanto. Suspirá do jeito de uma avó avoada com a cabeça no vai de uma valsa que não foi. Enfiá os pés na rua, como se fosse montá numa quimera, e montá de fato e em pelo.

Passá pelo adolescente e dá de ombro, se perdê com menino, nem na imaginação. Endireitá o corpo na frente do bar dos mal-afamados e ignorá o “vem cá, teteia”, não é disso, dessas, ora! E chegá na praça, sentá no banco, afugentá uns monstros que coisam nela mané de hoje, é dum ontem sem tamanho que emendou todo o antes ao agora. Sentada no banco, protegida pela árvore que viu tudo aqui ganhá existência, te pego. E dô jeito. E desembaraço. Rumina a vingança, já empurrando o corpo pra rua.

Dona Lurdinha, dona Mercê, menina Júlia, elas todas banando a mãozinha de longe. Bana de volta, mulheres que nem ela, hospedeiras de suas desconjunturas, mais que desconfia, pode apostá. Proseá a respeito é que não. O silêncio sabe usufruí da própria sabedoria, então ela se arma é de psiu.

No caminho, afunda na esperança, essa rameira que se desmete com a morte. E da calçada sobe um bafo de otimismo, agora vai, ah, se vai. Batuca os dedos na coxa, espia o anel vermelho e, por ele, manda uma mensagem pra mãe: Num se espante.

Gosta da praça daquele jeito: vazia, vazia, vazia. Vazia, vazia, vazia ela também é. Olha de novo a praça e se pergunta onde é mesmo que aquela árvore não cansa de sombreá. É pra lá que vai caminhá com toda firmeza, a ponto de o vento se escondê do tempo, o calor tropeçá no céu, a cigarra chichiá pra dentro e a tarde nem pensá em anoitecê.

16.4.17

A dor no jornal

Escultura de Sandra Guinle.
Quatro balas se perderam no corpo de Maria Eduarda, uma jovem de treze anos. Temos de mudar a narrativa, isso de “bala perdida” tem limite. Quatro? Francamente. Se não foi massacre — apenas a perversidade justificaria uma coisa dessas, haja vista que uma inocente morta não melhora a imagem da polícia ou do tráfico —, então o Estado, na sua representação militar, está despreparado. 

Defendo minha afirmação mesmo que os tiros não tivessem saído das armas dos policiais (embora contra eles pesasse, desde o início, o fato de, numa imagem reproduzida à exaustão, terem atirado em dois homens caídos, naquele momento, indefesos). Eles trocaram tiro com traficantes no entorno de uma escola. Errado. Porta de escola não é lugar para isso, o Estado, pela vida das crianças, tem de saber se retirar, ser covarde, fugir da briga. Não é com policial valente, incapaz de suportar provocação, que serão resolvidos os problemas relacionados à violência urbana.

Maria Eduarda está morta. João Pedro, o garoto que foi arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro, em 2008, está morto. Aqueles rapazes que estavam num carro alvejado por cento e onze tiros estão mortos. E há outro monte de meninos e meninas cujas vidas foram interrompidas porque se decretou que a questão das drogas se resolve assim, no tiro. Não é um detalhe menor, ao contrário, é fundamental o fato de a maioria dos mortos ser negra. Crianças negras: destino das balas (elas, sim, sempre) perversas e certeiras.

(Como os políticos angariam votos nas áreas ocupadas por traficantes e/ou milicianos? Como as armas chegam ao exército do tráfico ou ao escritório limpo dos milicianos? Se a gente pergunta essas coisas, fica no vácuo, fica a ver navios, até espaçonaves, e a mascar o fel que toma a boca do intrometido.)

Maria Eduarda está morta. Eduardo, menino de dez anos que brincava à porta de sua casa no Complexo do Alemão, está, desde 2015, morto. O Estado, quando muito, banca um enterro digno às vítimas, mesmo se não reconhece ter sido o agente da morte. Os pais dessas crianças, quase todos agarrados à pobreza, maltratados pelo preconceito racial, vão viver ainda em piores condições do que viveram até o trágico dia no qual seus filhos morreram. Leio no jornal que um advogado conseguiu que o Estado pague o tratamento psicológico ou psiquiátrico de um ou outro, e isso já é uma vitória e tanto, pois o Estado, de mãos lavadas, só se preocupa em limpar as armas para matar mais. Mesmo quando não mata, o Estado mata, pois sua política em relação às drogas é a guerra. A guerra às drogas foi uma decisão datada, mas nós, brasileiros, não temos nos debruçado sobre essa questão e revisto nossa estratégia. Se, no início, não foi um erro — o mundo, em particular os Estados Unidos, agia assim, parecia razoável —, agora que sabemos tanto sobre as drogas, agora que o balanço desses anos todos é um número de mortos impensável, agora é.

O governo municipal, responsável pelas escolas, planeja blindá-las, querendo com isso desbloquear o território para as balas, ainda que, como discurso ou até mesmo como boa intenção (de novo), se diga que o intuito é preservar a vida dos alunos. Será que o Estado vai construir túneis blindados para garantir o ir e vir dos alunos? Pensa-se mal, às vezes com açodamento, noutras com desfaçatez e noutras com pressa e sem vergonha na cara.

Hosana Sessassim, 13 anos, está morta. Sim, já é outra, morta dias depois de Maria Eduarda, enquanto andava pelas ruas de seu bairro, Acari. Pelo que se sabe, a polícia não estava por perto, mas Hosana é outra vítima da mesma guerra.

2.4.17

Instituto Estação das Letras: espaço de resistência


No último dia 23, a Estação das Letras (1), espaço esplendoroso que Suzana Vargas e um time pequeno e aguerrido mantêm no Rio de Janeiro, completou 21 anos. Com a maioridade, veio a transformação. A Estação virou um instituto. É uma mudança jurídica, mas também um desafio, haja vista que agora, além das oficinas —entre outras atividades —, a Estação terá flexibilidade para lançar projetos que usufruam das leis de incentivo fiscal e poderá, também, contar com contribuições diretas de pessoas físicas e jurídicas e, com isso, oferecer bolsas de estudos aos que não têm condições financeiras. Enfim, a turma que gravita em torno da Estação está cheia de planos para tocar adiante essa casa de resistência. No dia da festa, um dos colaboradores mais antigos, o Jair Ferreira dos Santos, no discurso feito em nome do corpo docente, chamou a atenção para o fato de que, no mundo atual, encantado pelo virtual e pelo visual, promover a escrita e a leitura, o que a Estação faz, é uma ação política e de resistência. Assino embaixo.

Suzana Vargas e o bolo dos 21 anos da Estação das Letras. Foto do Instituto Estação das Letras.

Numa tarde comovente, na qual encontrei, por exemplo, Flávio Moreira da Costa e Maria Amélia Mello, pessoas importantes na minha aventura literária, Suzana quebrou todos os poucos protocolos planejados e, nas mãos da mais justificada emoção, comandou a festa, que terminou com bolo e espumante. A comemoração teve início com a fala do Cristóvão Tezza, escritor que se mostrou um palestrante seguro, desses que levam seu papo erudito na maior simplicidade. Ele comentou, lá pelas tantas, que não se lembrava de ter falado para um auditório tão lotado quanto aquele. De fato, o público era grande, logo não somos tão poucos os que estamos prontos para resistir — e, de fato, já resistimos.

O instituto está promovendo o cadastramento de escritores residentes no Brasil, podendo, assim, tornar-se referência na organização de um encontro de escritores com leitores, de uma festa literária, enfim, de eventos dessa natureza. Ideia mais que bem-vinda, um jeito de aumentar o leque dos convidados, pois, se é muito bom ouvir um Veríssimo, um Ruffato, presenças quase certas em tudo que gira em torno da literatura, lá no interior de Minas, está um cara, meu chapa, que todos deveriam ouvir (e ler), o Marco Túlio Costa, um prêmio Jabuti que ainda não vi na Flip ou noutras festas. Também lá no interior de Minas, está outro escritor — que conheço exclusivamente por ter lido seu espetacular “as visitas que hoje estamos” (Editora Iluminuras) —, o Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, que eu gostaria muito de ver transitando por aí. Esse cadastro poderá tornar visível, onde alcance a internet, gente assim. Já está no ar (http://www.institutoestacaodasletras.org). Cadastrem-se!

Interessados em fazer leitura voluntária encontram um espaço no instituto, já que se pretende levar esses leitores a hospitais, casas de repouso e outras instituições nas quais muitas pessoas, por uma série de motivos, não têm autonomia para a leitura. Para terminar, cito a “curadoria” que o instituto fará, selecionando mensalmente em seu site livros recém-lançados, de vários gêneros e com destaque para novos autores. Isso, ao final do ano, levará a que determinados livros recebam um selo IEL.

Finda a comemoração, tomado o vinho e comido o bolo, eu e alguns amigos, inclusive o agora importante consultor de gestão do instituto, nos enfiamos num bar e fomos rir da vida, de nós mesmos, essas coisas que não são monopólio de escritores e leitores, mas que sabemos fazer com capricho.

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1) O endereço do Instituto Estação das Letras é: 

Estação das Letras Rua Marquês de Abrantes, 177 LJs 107 e 108 – Flamengo

Rio de Janeiro – RJ, 22230-060


(0xx)21 3237-3947

29.3.17

Tangos de cera







Este poema foi apresentado em uma oficina ministrada por João Gilberto Noll, e ele gostou. Então, mesmo que eu mantenha sérias dúvidas sobre ele, o poema, publico-o como uma homenagem ao Noll, que hoje, dia 28 de março de 2017, faleceu aos 70 anos.

19.3.17

Trouxa não sou e tolo ele não é

Em 1982, Blade Runner estreou nos cinemas brasileiros. Eu tinha vinte e um anos, era um garoto articulado, assistia a filmes incompreensíveis e os entendia muito bem, o que não aconteceu com esse de Ridley Scott. Uns anos depois, fui revê-lo e, aí sim, a ficha caiu. Aquela ficção acerca do futuro — agora muito próximo, pois a história se passa em 2019, na cidade de Los Angeles —, na realidade e de forma muito sintética, falava do atrito entre nossas forças humanas e desumanas. Não vou comentar o filme, minha intenção é falar de um fato não entendido em certo momento, mas que, num futuro próximo ou distante, torna-se claro, transparente, até óbvio.

Eu gostava de uma menina, vivia me insinuando para ela. Na piscina da casa do Zeca, ela me chamou de pateta. Engoli seco, dei umas braçadas na água e achei que, apesar da ferida enorme, seria capaz de levar a vida adiante. (Ah, a intensidade da juventude!) Ainda na mesma tarde, na roda de amigos, a garota comentou que seu personagem de gibi preferido era o Pateta. Tão evidente, não é? Pois eu, amargando o golpe do desprezo, não me dei conta de que ela, se não dizia me amar, pelo menos deixava no ar uma chance, uma maldita chance desperdiçada.

Se cobro um pouco mais da memória, encontro outros momentos feito esses, nos quais precisei de uma segunda chance para me livrar da ignorância (o filme) ou, pior ainda, nem notei a segunda chance (a paquera).

Mais uma história. Encontrei um ambiente hostil numa nova área em que fui trabalhar. Um amigo, antevendo o problema, encorajava-me e apostava na minha personalidade gelatinosa, capaz de fazer com que eu ignorasse as ameaças e as bolas nas costas que receberia. Ele estava errado. Num período de uísque e arrastados serões, vi brotar meus mais perenes e doloridos calos.

Como se diz, o tempo é uma escola e nela aprendemos a cantar fagueiros aquela música do Arnaldo Baptista: “Sou malandro velho, não tenho nada com isso”. Um parêntese. Arnaldo Baptista fez essa canção — “Cê tá pensando que eu sou loki?” — bem jovem. Um tempo depois, se jogou por uma janela e quase não experimentou a velhice. Hoje, por sorte, pela medicina, por um amor que foi cuidar dele no hospital e nunca mais o abandonou, o talentoso mutante beira seus setenta anos. Posso estar enganado, mas a aventura aérea enfiou Arnaldo numa espécie de juventude eterna, bom lugar para quem, com menos de trinta, era malandro velho e não se responsabilizava por nada daquilo.




Saio do parêntese. Sintetizo o que disse até agora: sou bobo, mas trouxa deixei de ser. Alguns mais, outros (como eu) menos, todo mundo passa por essa evolução, como provam as muitas associações feitas entre a velhice e a sabedoria. Mas, cuidado! Há, de um lado, o que não aprende de modo algum (o tolo) e, de outro, o que aprende tudo, mas, por maldade, se faz de incapaz (o tinhoso). Um exemplo? O senhor que, no Dia Internacional da Mulher, bradou valores do século XIX ao saudar a importância da mulher caseira, que, fora do lar, no máximo, ajuda o país economizando na compra do supermercado. Então, tolo ele não é.

2.3.17

Efemérides (quase familiares) de março



Rosa de Luxemburgo nasceu num 5 de março, assim como, citando um dos nossos, Heitor Villa-Lobos (que viria a morrer num 17 de novembro, dois anos antes de eu nascer e no mesmo dia do nascimento de meu amigo Átila). Ambos no século XIX. No século XX, a data trouxe ao mundo Patativa do Assaré, em 1909; e Pasolini, no ano em que o modernismo brasileiro havia mostrado, durante o mês de fevereiro, na Semana de Arte Moderna, a que veio. Listei nomes conhecidos da cultura, mas, nesse mesmo dia, em 1961, nascia, na minha cidade, meu primo Jânio, cujo nome, claro, era uma homenagem ao presidente que, em agosto daquele ano, pediria o boné e deixaria o Brasil naquele fuzuê que descambaria, logo depois, no Golpe de 1964. Cumpre dizer que também num 5 de março morreram Josef Stalin e, como contraponto, nosso invejável Jorginho Guinle.
Datas são datas e, do ponto de vista estatístico, nenhuma é melhor que outra, ou seja, nascem e morrem grandes e pequenas figuras todos os dias. Mesmo assim, dia importante ou não, continuo com este 5 de março. Foi num deles, depois de sair da festa dos 19 anos do Janinho, que embarquei no ônibus das 23 horas com destino a São Paulo. Dentro do veículo estavam três amigos. Juntos fomos o inferno dos outros: cantamos (eu levava o violão), fumamos e bebemos. Coisa de jovem. No meu caso, de um que enfrentaria uma nova cidade em sua vida, o Rio de Janeiro, onde, depois de tomar o Cometão São Paulo-Rio, estou há 37 anos, tendo vivido, nesse período, dois anos na capital paulista. Ergo taça e comemoro.
(Leitor, por favor, pense assim: “Bem, o Xandão está por aí, não sei se venceu, mas está por aí, tem sua mulher, tem seus filhos, enfim, e de novo, está por aí.” Depois, faça uma oração ao pessoal daquele ônibus (não se esqueça do motorista), gente incapaz de reclamar da falta de noção de quatro jovens com a corda toda e prontos a abraçar o mundo.)
Quem nasce em março é marciano? Não sei, mas muitos são do signo de Peixes, tido como de pessoas aéreas, desligadas. Dos nove netos de meus pais, quatro nasceram no terceiro mês do ano gregoriano — um deles, às vésperas do carnaval de 2000, no dia 3, meu filho mais novo —, e a única mulher entre os quatro se casou com um bom rapaz de Lyon do mesmo mês. Um dos netinhos de Joaquim e Haydée veio à luz num 8 de março, Dia das Mulheres, essa data política tão cobiçada pelo comércio. Apenas meu afilhado, na lista anterior, não é de Peixes, é de Áries, signo do qual sei menos que pouco. Deste sobrinho, o que chama a atenção é o fato de ele morar na Austrália, sei lá se tem a ver com a data do nascimento. Para ver como minha família tem compromisso com o mês, dos seis bisnetos, um também é de março.
Avançando sobre os nascidos em março, destaco a bisavó dos meus filhos, a serena Vó Olga, a dona Yedda — que, no alto de seus mais de noventa anos, me disse que fazia questão de comer pepino porque temia que, chegada a velhice, algum médico a proibisse — e três amigas da adolescência. Todas são arianas, mas nenhuma viveu ou vive em nada parecido com Austrália, o que me parece bem razoável, pois ô, país distante. Quase me esqueço de outros marcianos: a Jéssica e o Guilherme da Nilza, jovens bons de uma mãe maravilhosa; a parceira de escrita e leitura Nilma Lacerda; e o terrível Paxá, meu xará e aliado em algumas estripulias nesse mundo meio bossa nova meio rock’n’roll. Tem mais um monte: o Téo; a Andrea Canto; meus primos, os irmãos André e Tiago; a Stella Maris (por seus livros, colecionadora de Jabutis); a Ana Cristina Melo (escritora e editora de sete fôlegos); a Lilibeth; a Maia; o Broa; o Danilo (a quem devo um pandeiro, anotem aí, por favor). A lista é grande.
A última memória do mês de março é daquele maldito “evento” ocorrido em março de 1964. Não deveria figurar em crônica alegre e familiar, ainda que já tenha feito referência a ele ao explicar a razão de meu primo chamar-se Jânio. Assim, não repito, aponto apenas que para alguns o dia D daquele absurdo político brasileiro foi o primeiro de abril, data que, associada à mentira, não seria levada a sério, por isso empurraram o acontecimento para o último dia de março. A seriedade bárbara dos senhores de coturno e seus apoiadores, todavia, não deve ser colocada na conta de março ou de qualquer outro mês. Era coisa dos homens. Sempre é coisa dos homens, “a raiva e a fome é coisa dos home”, como Aldir Blanc, um setembrino, escreveu e João Bosco, um julino, musicou.

19.2.17

A crise

Sempre há os que são capazes de compreender o movimento geral dentro de um contexto histórico. A crise econômica, por exemplo, com a fuga do emprego fabril das economias centrais, explicaria o fortalecimento da direita populista, evidente no caso Trump, mas também visível na Europa. Na Áustria, por pouco esse grupo não assume o poder. Na França, eles andam cercando o poder não é de hoje. A Grã-Bretanha deixou a União Europeia, num processo comandado também pela direita. Em tudo isso, percebe-se como os trabalhadores vão pouco a pouco associando suas perdas à presença do estrangeiro e, passo seguinte, aliando-se aos xenófobos. Somente os insensíveis não percebem que estamos vivendo o pior dos mundos.
O Brasil não está no centro do capitalismo, apesar de ser uma das dez maiores economias do mundo. Por isso, o emprego que não está mais nos Estados Unidos ou na Europa bem pode ter sido em parte transferido para estes trópicos. Portanto, a crise brasileira difere da que se vê nos países ricos e é típica de uma patologia de classe. Nossa elite — oligarquia, a bem da verdade — busca de todas as formas recuperar o espaço do poder, para usufruir de suas benesses de forma exclusiva (por pensar tratar-se de um direito historicamente estabelecido). Se a volta dos que não foram se vestiu de legalidade, apontando-se o dedo para os tropeços do governo Dilma, o passo seguinte foi mostrar que, mais importante que esses deslizes, era a crise provocada por um mau gerenciamento (que levava à inflação, ao desemprego etc.). Nosso desemprego, nessa leitura, se explicava por uma questão de política econômica, nada parecido com aquele que se via e se vê nos Estados Unidos (menos) e na Europa. Lançada a base de uma nova política — que promove ainda mais desemprego por retrair a demanda do Estado —, o governo começou a tropeçar nas suas contradições, haja vista que está quase todo ele imbricado nos mesmos escândalos do governo anterior, nada mais natural porque este pariu o novo, que não tem nada de novo.
Neste processo pelo qual estamos passando, acabamos presos a uma separação radical — nós e eles, nós contra eles. Essa ruptura não dá sinais de arrefecimento, e começo a crer que a saída para tudo isso não virá lustrada pelo verniz de uma capenga democracia. O PMDB governa mais interessado em acomodar seus pares, tirando-os da linha de frente da caçada aos corruptos; o PSDB não faz diferente e aposta que os fatos poderão repetir aqueles da época de Itamar Franco, com o que voltarão, pelo voto, à presidência. Por sua vez, o PT está mais perdido que tudo, suas aparições ocorrem apenas para dizer que Lula e Dilma são pessoas de bem. Uma oposição clara, programática, nem passa pela cabeça do partido. Por fim, a justiça está de certa forma desconfortável por desempenhar o papel que lhe caiu no colo e que, por sua vez, poderá fazer com que ela tenha de tomar decisões que, de fato, ferem o espírito da democracia, como destituir toda a linha sucessória e, de uma hora para outra, pousar no executivo. Tudo isso é uma pena e um retrocesso.
Peço-lhes desculpas por este texto tão sisudo e provavelmente equivocado, mas não haveria outro modo de chegar aonde quero chegar. Eu tenho uma solução (não sou o único, já ouvi outras vozes clamando por isso) menos traumática para essa crise toda: devolver o Brasil a Portugal. Claro, antes de tudo, teremos de demonstrar por a + b que o Cabral que temos agora não é o mesmo que nos descobriu — não são nem parentes distantes —, portanto não estamos tratando mal um herói português ao manter o Cabral contemporâneo e brasileiro preso em Bangu. Feito isso, eu acho, nossos patrícios nos acolherão de braços abertos — talvez vejam como uma oportunidade para reaver o prejuízo recente que sofreram ao se meterem em negócios de telefonia celular por aqui. Ficaremos bem com Portugal ao devolvermos a eles o amor próprio das grandes potências, abrindo-lhes as portas para, quem sabe, tentarem refazer nossa história, dessa vez sem escravos, sem os ciclos da cana, do ouro, sem entradas e bandeiras, sem invasão holandesa ou francesa e sem que a gente coma o bispo Sardinha.
Detalhe do quadro Batalha do Avaí, óleo de Pedro Américo sobre um dos últimos episódios da guerra do Paraguai, ocorrido em 11 de dezembro de 1868 (Foto: Museu de Belas Artes/Reprodução)
É bom que nos apressemos com essa solução uterina antes que nos ocorra algo tão terrível quanto o que está sendo urdido na calada pelo atual governo: um poder absoluto, à custa, quem sabe, de qualquer migalha de liberdade. O que seria igualmente ruim? Vendo-nos tão estarrecidos, o Paraguai resolver vir aqui vingar o que lhe fizemos no longínquo século XIX, o mesmo no qual inventamos, em cima do conflito, um herói moderno, Caxias, e Machado de Assis começou a nos decifrar.

6.2.17

De olho na tela

Gosto das salas de cinema, onde, ao contrário da televisão — mesmo daquelas de tela grande, modernas, de imagem perfeita —, assisto aos filmes com prazer. Em casa, não há o escuro que nos mantém suspensos antes, durante e depois do filme, particularmente do filme bom, e, além disso, os filhos passam conversando na frente da TV, a gente corre à cozinha sem motivo e ao banheiro por coisa pouca.

Nas salas, o filme começa na compra do ingresso, na escolha do assento, no café tomado um pouco antes da sessão. Feito o atleta no aquecimento para entrar na quadra, o espectador se concentra, faz flexões, alongamentos, tira o lixo da cabeça para que ela fique livre para o que vem a seguir, que não é uma disputa pela bola, mas é um embate entre ele e uma história que lhe será contada. O diretor ou a diretora tem de manusear muito bem suas armas, cabe a ele ou a ela e a seu elenco derrotarem o sujeito que pagou o ingresso e entrou naquela espécie de caverna. (Eu sou um dos que jogam duro, entro pra brigar.)



Fazem parte desse longo começo um trailer exibido com ganas de fisgar seu público futuro e uma propaganda de banco que tenta, por meio de facilidades mentirosas, atrair o cara cheio da grana ou o duro, principalmente este, meu igual. O filme já começou quando começa, esse é o ponto. Por isso, fico incomodado, já na preliminar, com os celulares cheios de luzes e sons — e as pipocas. Depois que enfim a história passa a ser contada, se não me seguro (ai, minha úlcera!), me transformo no chato do cinema, o tipo que faz “psiu” o tempo todo. Como não sou um milionário que pode ter uma sala exclusiva, respiro fundo (ai, minha úlcera!), me distraio desse monte de gente que não sai de si e começo a luta com o que me levou até ali. O ringue, naquele espaço de tempo, é a sala, e a glória é sair vencido, por nocaute ou ponto, tanto faz. Estou ali de sparring para o diretor e sua história, desde que não vacilem.

Nas últimas semanas, essa magia aconteceu duas vezes. Ao ver “Eu, Daniel Blake”, do britânico Ken Loach, e “Manchester à beira-mar”, dirigido pelo americano Kenneth Lonergan, de quem eu nunca ouvira falar. As duas histórias têm lá seus pontos comuns (além de ter cenas similares, quando os personagens buscam emprego pelas ruas da cidade), mas suas perspectivas são bem distintas.

O britânico, veterano diretor reconhecido por tratar dos perrengues sociais, não foge da sua temática e mostra como nos dias de hoje Kafka é a realidade. Os governos, apoiados em tecnologias que desumanizam e ao mesmo tempo não estão acessíveis para muita gente, tornam a vida daqueles que precisam de assistência social um inferno, como se já não bastasse o fato de precisarem de assistência social. No filme de Loach — assim como na literatura de Maria Valéria Rezende (a autora acaba de ganhar o prêmio Casa das Américas por seu “Outros cantos”, editado pela Alfaguara) —, o que salta aos olhos é a solidariedade entre pessoas que estão jogadas à margem. É isso que as faz resistir, mesmo que algumas não resistam. Melhor seria dizer: é isso que as faz resistir enquanto resistem. Ou ainda: é isso que as faz resistir um pouco mais.

Já o americano conduz seu filme na linha da trajetória do herói, a caminho da derrota, é bem verdade. Seu grande personagem está aos frangalhos (a gente descobre aos poucos a razão disso, já que o filme alterna o tempo todo o presente com o passado), mas é, de fato, um herói, sua força e sua ruína vêm de dentro dele, da forma como elabora ou deixa de elaborar os reveses da vida. Ele se desfaz, mas, no meu modo de ver as coisas, a cena final deixa no ar que ele terá no afeto um jeito de resistir (ele também resiste ou precisa resistir).

Se no filme inglês a opressão vem do “sistema”, no americano vem da vida íntima e familiar — também do acaso, do azar para ser mais preciso. Como já disse, duas perspectivas distintas, tratadas, em ambos os casos, de forma sofisticada e emocionante. 

Para desfrutar dos filmes, corra a uma sala de cinema, acomode-se na cadeira e deixe-se levar, dando a cara a tapa. Esqueça o celular e as pipocas. Na saída, uma cerveja ajuda a elaborar melhor as coisas, mesmo que se chegue à conclusão de que o mundo não vai nada bem, de que todos nós estamos nele, somos parte dele e temos um pingo que seja de responsabilidade pelo estado das coisas.

22.1.17

Zorro

Lembrei-me do cachorro que tive quando morava em Passos depois de ter postado no Facebook uma montagem com duas fotos nas quais estou de barba — em uma eu tinha uns 20 anos; na outra, a idade atual — e de ter escrito a seguinte legenda: “Volver a los 17 é um chiste.” Um chiste e tanto, convenhamos. Na juventude, se os cabelos eram pretos, a barba não poderia ser de outra cor. Hoje, quase tudo é branco, embora, por conta do quase, o que não é borra o que é. Esse é o lado visível do chiste, dos demais nem falo. Dito isso, resta esclarecer como saltei da piada ao meu vira-lata com um quê nobre de pastor alemão.
Meu amigo e vizinho lá no Beco dos Aflitos, o Paulo Régis Bacil Abreu — conhecido também como Paulo da Yolanda do Jezo da Infantil —, perguntou, em um comentário à publicação, se o cachorro da minha casa se chamava Lobo. Não Paulo, era Zorro. (Que raio de associação é essa entre minhas fotos e o cachorro? Mistérios do mundo.)
A pergunta, motivada seja lá pelo que for, jogou o velho Zorro no meu colo. O nome deve-se ao herói de capa e espada, a cujas aventuras assistíamos nas matinês de domingo e, mais tarde, em forma de seriado de TV. O nome já veio com o cachorro, mas eu o teria escolhido do mesmo modo.
Ao deixar o pensamento solto, comecei a olhar enviesado para minha memória, pois as coisas não teriam sido como eu as registrei. Não tudo. Imaginava, por exemplo, que coubera ao Zorro a tarefa de vigiar o quintal durante uma década e meia. Impossível. Saí de Passos com 15 anos, e ele já estava morto. Acho que confundi o tempo que ele ficou na casa com a idade que teria no final da vida.
Deixo essas incertezas de lado para falar daquilo sobre o qual não resta dúvida. Se não queríamos o Zorro por perto, bastava dizer “água”. Ele zunia. Está certo quem conclui que meu cachorro nunca tomou banho na vida, mas, espante-se se for o caso, nem por isso tinha cheiro forte ou pelo duro. Um milagre — ou, quem sabe, efeito da chuva, já que, por viver no quintal, não conseguia fugir completamente dela.
A falta de banho dava-lhe um ar de maltrapilho, e isso piorava quando sumia por três dias, às vezes por uma semana. Aposto que se enturmava com os colegas da rua e com eles disputava o cio de uma cadela. Não é fácil conquistar uma fêmea nesse mundo cão, por isso, como regra, retornava abatido, até mesmo ferido. Certa vez, os estragos foram assustadoramente grandes, porém, para meu espanto, ele entrou pela porta da frente, cruzou a sala, a copa, a cozinha e foi se deitar em seu quintal, ali onde, na tigela amassada, o angu com carne e osso o esperava. Com essa entrada triunfal, o Zorro nos mostrou sua capacidade de ir à luta e voltar, ainda que capengando, orgulhoso de suas feridas, que, especulo, poderiam ser uma espécie de troféu de sua futura paternidade.
No fim da vida, o velho cão ficou esclerosado — pelo menos assim qualificávamos seu estado. Se dizíamos saia, ele vinha; se venha, saía. Nessa época andou avançando em pessoas próximas, uma investida inconsequente, já que, naquela altura, era banguela ou praticamente banguela.
Lembro-me do dia em que gastava meu tempo no quintal, e meu pai e dois amigos voltaram da rua. Acabavam de sacrificar o Zorro. A tiros. O sacrifício era necessário, a forma... Bem, eram outros tempos. Não guardo mágoas — de meu pai, jamais. Porém, aqui e agora, cheguei à pior parte de toda essa lembrança desencadeada por uma associação estranha feita por um amigo que há muito não vejo.
Numa péssima foto, o querido Zorro, nalgum dia qualquer dos anos de 1970.