4.9.17

Meia dúzia e gordura

Para o Raul Drewnick, à sua moda e com menos brilho 


Um
Morreu meu amigo que dizia “ô, maluco!” e, logo depois, o Wilson das Neves, que repetia “ô, sorte!”. Sei lá se com eles está findando nossa capacidade de exclamar, que é a mesma de espantar-se. Seria o fim.

Dois
Esse chope mal tirado, esse silêncio do qual não me desgrudo, aquelas contas por pagar botam a gente petrificado como o diabo.

Três
No meu jardim de inveja, as flores do vizinho não fedem nem cheiram.

Quatro
Com o tempo, a saudade — sem motivo — vinga feito doença crônica.

Cinco
Li há pouco numa tabuleta de rua: “Fé nas cria”. Achei minha igreja.

Seis
Naquela noite de inverno, sem ninguém que pudesse me aquecer, descobri do vinho o fogo e o mistério e, imodesto, nem no frio ousei crer.

Gordura
O problema é o regime.
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