6.5.13

Decisões de um fim de domingo


Amanhã, logo cedo, vou escrever uma carta nos moldes antigos — colocarei no envelope e, depois de selada, levarei aos correios — para a Perpétua, antiga auxiliar de minha mãe no Lactário. Direi a ela que sempre gostei do seu jeito calmo e, do mesmo modo, do seu nome. Se eu me chamasse Perpétuo seria um fiasco paternal sem rima alguma, mas nela o nome tomou feições de sublime, artístico.

A Pair of Shoes, Van Gogh

Fugindo de um dos meus princípios, o de não engraxar sapatos para não tirar deles sua história, é provável que, depois dos Correios, eu entre na engraxataria da Rua da Assembleia e encomende o básico: graxa, sem tinta. O sapato é velho, não nego, mas nada de apuro exagerado. Lá — sei porque já fui outras vezes — o engraxate nos convida a subir numa banqueta alta, da qual se vê o mundo de cima. Confesso que fico um pouco constrangido, tanto por me ver em destaque, mas principalmente por ter alguém a meu serviço em posição tão subalterna. Mais uma razão para odiar engraxar sapatos. Mas, é fim de domingo, bom momento para quebrar ao meio certezas arraigadas.
Com os sapatos limpos — ou seja: sem as digitais de minha história recente (os sapatos duram pouco e guardam, quando muito, um cisco de nada de nossas vidas) —, sentarei numa praça. Uma mulher bonita há de passar por ali, então, planejo de antemão, olharei para ela com todo o respeito possível. Nas suas formas caberão tão bem as minhas! Mas evitarei esse caminho do desejo e trilharei outros. Se ela tiver pedigree de moça bem-sucedida, cujos estudos em boas escolas deram-lhe o emprego cobiçado por um a cada dez jovens no mundo, pedirei a Deus na sua infinita bondade que a poupe de despautérios, que não a faça viver momentos de decisões amargas, muitas vezes cruéis. Que não se coloque em sua vida, por exemplo, financiamento de guerras, maracutaias empresariais, canalhices dessa ordem.
Posso evitar a praça. Sair do engraxate, tomar o rumo do antigo Cais Pharoux, ali embarcar numa balsa para Niterói e, lá, encostar-me a um balcão de um bar qualquer. Provocarei o atendente, dizendo-lhe que consigo lamber o cotovelo enquanto pulo num pé só. Decerto ele estará cansado de fregueses tão sem-noção e, automaticamente, se debruçará sobre o balcão a fim de ver o espetáculo. Eu, que desconheço quem tenha essa dupla habilidade, recorrerei a um escancarado blefe para forçar uma simulação. Quando terminar, raciocinarei que cometi um ato vil, desrespeitoso, mas será tarde, restando apenas o consolo de culpar o domingo por decisão tão disparatada. Como forma de compensar o rapaz, disposto a pagar o dobro do preço registrado no cardápio, pedirei um caldo de cana e um joelho. O joelho fará com que me lembre do cotovelo e acabarei rindo, o que poderá deixar o balconista severamente chateado.
Se sair ileso de Niterói, terá chegado o momento de trabalhar. Ou já até terá passado. Neste caso, farei uso do banco de horas, essa invenção das empresas para cobrar nossos atrasos e não pagar nosso excesso de horas trabalhadas. No escritório, não sei se notarão o lustre de meus sapatos. É possível que um ou outro brinque com o fato, insinue que estou de olho em alguma moça nova, coisa ridícula e corriqueira que acomete homens de meia-idade. Darei de ombros, mais interessado em contar da Perpétua à turma. “Foi uma paixão?”, perguntarão curiosos. Quando lhes disser que não, Perpétua é apenas um nome bonito para identificar uma moça amável que trabalhou com minha mãe há uns quarenta anos, ficarão decepcionados. Não me restará alternativa a não ser a de confessar-lhes que, não faz muito tempo, assisti a um milagre. “Verdade?”
Sim, vi uma senhora na casa dos oitenta anos cair de uma altura de dois metros, dar uma cambalhota no ar e cair no chão sem sofrer nada além de uns pequenos arranhões. Não é um milagre? Na segunda-feira, contarei isso aos que não creem nas leis da física.

3.5.13

De volta ao miojo


Numa prova do Enem, um rapaz, não de todo bobo, ao escrever sua redação sobre a questão da imigração tascou, entre raciocínios que capengavam com sujeitos separados de verbos por minúsculas vírgulas, uma receita de miojo. Ferva a água, jogue a massa e o tempero, espere três minutos e pronto! Assim mesmo. O encarregado de corrigir a redação não achou nada de outro mundo e deu ao rapaz uma nota razoável.
Mal começou a circular a notícia, os batalhões dos apaixonados por todas as causas começaram a duelar. De um lado, os que viram no fato o fim do mundo. De outro, os que contemporizaram e disseram que, numa perspectiva menos rígida, a coisa não seria tão terrível assim. Poetas, como o meu xará Alexandre Marino, consideraram poética a atitude do rapaz — de fato, é.
Alphabet Soup Talk

Parei de acompanhar o bafafá quando os linguístas saíram da toca e entraram na luta. Ao prender-me a questões eruditas, perco horas que podem ser gastas na vagabundagem, tempo suficiente, por exemplo, para fazer uns quinze miojos e umas três redações sem grandes erros. A gula e a pretensão são meus pecados interioranos.
Bem, não posso ficar aqui dourando a pílula, que, aliás, nem sei se teria uma receita própria para ser dourada. Sou A? Sou B? Sou da laia dos poetas? Respondo assim: grã, foi engraçado, mas é triste.
Foi engraçado o bafafá todo, a inteligência daqueles que, diante da jogada arriscada do candidato, saíram em defesa da lógica menos cartesiana, a mesma que rege o texto literário. No limite, seguindo esse raciocínio, o garoto tirou uma nota baixa.  
É triste, e cozinha meus miolos, o fato de o Enem, que está sob a supervisão do MEC, colecionar mais um desacerto. Não bastou o vazamento das provas na época em que Haddad era o ministro. Agora não é a redação do rapaz, nem seus erros, muito menos sua nota, mas o fato de o MEC não sair em defesa dos critérios das provas que aplica, preferindo acenar para a mudança deles, que passariam a não permitir brincadeiras como as do miojo ou a do hino do Palmeiras, incluído em outra redação.
Ou seja, se o rapaz não é um alienado e ignorante, mas um cáustico humorista, a vida para ingressar na faculdade não será fácil. O governo decidiu, numa canetada e atônito diante da pressão da mídia e das redes sociais — e sem ouvir os poetas, aliados do momento—, sangrar o bom humor. Não adianta ter simpatia pelo Haddad e pelo Mercadante, os fatos jogam contra eles.
O jovem no futuro chorará no ombro da história, nostálgico do tempo em que quem sabia uma receita de miojo era douto. E como de douto pra doutor falta um errezinho de nada, coisa que sempre se acha nessa sopa de letrinhas que é viver no país da bagunça cotidiana, ele, coitado, terá chegado atrasado à festa. Aí não adianta bom humor. Nem chorar sobre o leite derramado.

12.4.13

Que fevereiro foi esse?


Do ponto de vista do universo, dos universos, melhor dizendo, caiu um pedregulho na Terra, logo ali na Rússia. Um pedregulho, e todo aquele estrago. Como somos pequenos!
Duas estagiárias do Senado Federal foram demitidas por terem postado no Facebook a foto de uma ratazana encontrada na gráfica do próprio Senado ao lado de um comentário do tipo: “Renan Calheiros não é o único problema.” Abandono a discussão importante a propósito de se as meninas deveriam ou não ser demitidas, se as empresas deveriam ou não bisbilhotar a vida virtual de seus funcionários etc. e tal. Prefiro dizer que essa história mostra bem como o Renan está “pedindo”. Não só ele, claro, todos os senadores que o recolocaram como presidente da casa em que nem deveria entrar.
Há uns vinte anos, o médico que trouxe à luz meus filhos mais velhos mudou-se do Rio para Santa Catarina. Fugia da violência. O mundo dá voltas, camará.
Não entendo dos meandros do poder do Vaticano, sei avaliar, quando muito, como Bento XVI tem-se mostrado conservador em muitos assuntos. Logo, não reajo nem com alívio nem com apreensão a sua renúncia. Por outro lado, ri com algumas tiradas em torno desse assunto. No Facebook, além de lançarem Sarney, Lula e Malafaia como candidatos à sucessão, fizeram uma charge na qual o Papa incentiva a renúncia do Renan, pois, se ele, que é Papa, renunciou, o que impediria o senador de fazer o mesmo? Tenho amigos sérios e que entendem de política de modo geral, a do Vaticano em particular. Eles me disseram que alguns possíveis substitutos do Papa podem fazer com que consideremos light o conservadorismo do que se despediu em fevereiro.
Um acidente na Avenida Brasil envolvendo um ônibus não é raro, mas acidente provocado por conta de um passageiro indignado ter agredido o motorista que não quis parar fora do ponto já não é assim tão comum. O passageiro é um desequilibrado, não resta dúvida, e, se hoje ele agride por motivo tão banal, amanhã poderá fazer coisa pior por outros vãos motivos. Não conheço o desfecho da história, mas aproveito o incidente para refletir sobre o seguinte: ponto de ônibus no Rio de Janeiro é mais uma ideia do que um lugar onde as linhas A e B param e a C não. Sim, os motoristas fazem o que querem. Não só eles, nós, os passageiros, igualmente. É um tal de pedir ao “motô” — somos sempre transgressores gente boa — para abrir a porta um minutinho. Além disso, acho incrível uma coisa: em frente a minha casa, há um recuo para os ônibus pararem para embarque e desembarque. Com isso, saem um pouco da rua, e o trânsito flui normalmente. O que acontece? Os passageiros ocupam esse lugar, e os ônibus param no meio da rua, e a rua vira o caos. Somos miúdos, mas nossa estupidez não.
Vaticinei há um tempo: Yoani Sánchez não viria ao Brasil. Naquela época, não viria por não conseguir o visto para deixar Cuba. Pois bem, minha “profecia” se concretizou, só que agora, apesar de ter estado por aqui, ela continuou não vindo, pois não a deixamos circular livremente, lançar seu livro, participar do debate sobre um filme no qual dera um depoimento. Cerceamos a moça que, se não tivesse sido constrangida, poderia ter respondido a muitas perguntas que esclarecessem exatamente quem ela é. Qualifico essa passagem da blogueira por aqui como um vexame nacional. 

Fevereiro não foi um mês como outro qualquer. Nunca é, por causa do carnaval, essa coisa toda. Mas a renúncia do Papa, a queda de um meteoro e a vinda/não vinda da Yoani Sánchez ao Brasil tornaram o esquisitão fevereiro mais esquisitão ainda. Que doideira! 

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E veio março. Um Papa Argentino: de um lado, mais piadas e, de outro, uma esperança política na sua figura controversa. E outra briga num ônibus municipal no Rio de Janeiro vitimou 7 pessoas. E três homens, enlouquecidos e reincidentes, estupraram na van (deveria ser apenas mais uma possibilidade de transporte público) uma turista francesa. Esperamos por abril ou já jogamos a toalha e ficamos na expectativa de 2014?

30.3.13

O passado é azul coisa nenhuma


Mamãe ralhava comigo só de pensar nos possíveis amigos mais velhos que eu pudesse ter. Tinha medo de que, inocente, eu aceitasse uma proposta para fazer bobagem com eles. Fazer bobagem era alusão ao sexo, portanto mamãe tinha medo de que os meninos mais velhos (nunca as meninas) abusassem de mim, seu caçula. Naquela época não vinham à tona os casos de pedofilia, mas Dona Haydée era ciosa de sua prole e temerosa de que algo de ruim atingisse os filhos. Nada diferente de outras mães, a não ser o fato de a minha ter sido um pouco mais medrosa que a maioria delas.
Os meninos “grandes” não me fizeram nenhum mal, e pela vida afora, sem trauma, sempre tive amigos mais velhos. Ainda os tenho, apesar de um ou outro já não estarem entre nós. Fazem-me falta, mas morrer é desígnio da vida e conformar-se é imperativo.
O convívio com os mais velhos — não na infância e adolescência, quando, de fato, a diferença de idade não passava de dois, três anos, mas agora, na aurora dos meus cinquenta anos — coloca dois mundos em confronto. O meu, de rapaz do interior de Minas, da década de 1960; o deles, de nascidos em torno de 1940, vindos ou não do interior. No espaço de vinte anos, menos até, o Brasil sofreu uma tremenda mudança, e isso fica patente se me comparo àqueles que vieram à luz durante a II Guerra Mundial, por exemplo. Eles estudaram latim no primário, viveram na pele a ditadura militar e, para não ser exaustivo, sofreram um bocado para transar com a namorada. Nunca estudei latim; a ditadura estava dada quando “virei gente”, portanto sofri suas consequências — uma delas a de ter uma escola menos crítica, mais tecnicista —, mas não fui submetido aos constrangimentos físicos pelos quais passaram aqueles que se voltaram contra ela; e as namoradas da minha geração, nem todas, claro, mas uma grande parte delas, foram mais liberais.
Matuto a respeito de manter amizades como essas. Acho que perduram em grande parte pelo fato de nenhum dos meus amigos “velhos” serem nostálgicos. Deles não ouço nunca, ou quase nunca, a afirmação de que o passado era melhor que o presente. O presente tem o rabo preso com o passado, e eles sabem disso. Acertos e erros atuais foram semeados ontem.

Otto Lara Resende dizia que tudo visto de longe — seja em termos de distância (a terra, pelos astronautas), seja em termos de tempo (o passado longínquo) — é azul. Bela imagem do escritor mineiro, mas, na realidade, o passado é bom porque nele fomos jovens. E, quando se é jovem, tudo é fulgurante. Amamos com intensidade. Não somos moderados ao comer e principalmente ao beber. Como dizia o Renato Russo, vivemos como se não houvesse amanhã.
Os medos de minha mãe foram infundados, e hoje ela se espantaria ao saber que seu caçula passou a ser o amigo mais velho de muita gente por aí. Nessa condição, espero não perder de vista que o azul do passado é apenas o reflexo dos tempos em que fui senhor do mundo.

1.3.13

Rir e chorar


Meu caçula diz que pela primeira vez me viu rindo, rindo pra valer, agora à porta de seus treze anos. O riso fora provocado por uma matéria de Felipe Marra, publicada na Piauí de dezembro de 2012, sobre o comportamento das torcidas de futebol no Reino Unido. Bem, o grave disso tudo foi eu não ter rido durante treze anos. Como pode? Como pude?
Devo explicar a meu Pedro que não comungo de extremos. Quase nada me mata de rir. Tampouco me leva às lágrimas. Coisa de homem desconfiado, cético, sempre com um pé atrás. Homem também (principalmente) ignorante. Sim, sou um ignorante incapaz de rir a rodo. Ou de chorar baldes de lágrimas.
Aqui levo tudo ao pé da letra. Rir é gargalhar, abrir a boca, fechar os olhos, tremer-se todo. Chorar, contorcer-se, fungar, desidratar-se até. Nos dois casos, sair de si. Difícil que eu chegue ali ou lá. Falei em ceticismo, mas talvez seja insensibilidade, incapacidade de me matar (de rir) na piada e/ou de morrer (de chorar) numa possibilidade de tragédia. Burrice emocional.
Preciso dizer a meu filho que não veja em mim um homem duro e pessimista. Ao contrário, acho a vida boa, apesar de tantas coisas estranhas que acontecem por conta de nossa irresponsabilidade. Por exemplo, a morte dos jovens que dançavam na boate em Santa Maria.
A maldição é como me apego com unhas e dentes à razão, ancorado no mar sem eira nem beira da minha ignorância. É grave, gravíssimo. Mas é assim, sou refém desse meu traço.
Dou um cavalo de pau nesta crônica e, à procura de um exemplo que me ajude na explicação ao meu filho, falo do livro do Keith Richards (“Vida”, Editora Globo). O cara é um doidão, todo mundo sabe. Ao longo do livro, ele descreve coisas do arco da velha, algumas devem ser hilárias. São, de fato são, eu que não consigo me entregar simplesmente ao riso. Todos os excessos do cara me deixam um pingo e meio amargo.
E Amor (“Amour”, de Michael Haneke)? Uma amiga, escorpiana como eu, afirmou que somos dos poucos que conseguem ver um filme desses sem abandonar o barco. Ele é duro. A linguagem é dura. Não há, aparentemente, uma linha de escape, os velhinhos estão mais pra lá do que pra cá. (Mas com que elegância percorrem o último caminho!) A atuação dos atores, Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, não deixa meia-brecha para pensarmos que estão apenas encenando. Está ali a verdade. (Mas é arte, não é vida; é imitação da vida, como se diz por aí.) Não sucumbi à decadência. Vi todo o esplendor do amor semeado naquele casal de velhos, vi, por exemplo, que eles tiveram uma vida sexual boa e saudável. Não me perguntem como vi, mas eu vi. Não dei banana para a tristeza que há na história contada pelo diretor austríaco, mas encontrei motivos para não chorar.




29.1.13

Coisas da prima


Filha da tia Expedita e do tio Tonico, Rita é a prima que inspira esta crônica. Morava na Primeira Chapada antes de sair de Passos, há tempos. Casou-se em Ribeirão Preto com um bom Edson e, mesmo naquele calor medonho, ela e ele trouxeram à luz André e Thiago.
Rita é a maior contadora de casos do mundo. Ela memoriza as histórias, sabe encontrar o lado jocoso de cada uma delas e, quando se dispõe a contá-las, tem a manha de como segurar a plateia. Quem a conhece talvez concorde comigo; os outros, principalmente os muito jovens, terão de botar fé na minha afirmação — ou acompanhar esta crônica e tirar as próprias conclusões.
Sem o charme da prima, conto uma das inúmeras que ouvi dela. Eu a conto porque, neste mundo de urgências e importâncias superlativas, essa história é, como a maioria do repertório da Rita, sem importância alguma. É apenas caseira... e deliciosa. Com ela, o mundo fica assim também: caseiro e delicioso. Por alguns momentos. Que seja!
Ocorreu em Passos entre os anos de 1950 e 1960. Época festiva, de muitos bailes, acabou, sem querer, fissurando a felicidade de um casal bom de dança. Quem olha de fora os dramas alheios tende a achá-los miúdos, coisa de somenos. Não sejamos assim, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” (Caetano Veloso). O casal com problema dançava o fino, poucos chegavam a seus pés, mas, e aí estava o busílis, entrava mudo e saía calado da pista.
Certa vez, por exemplo, bem ao lado do casal, uma dupla desengonçada, tropeçando nos próprios pés, vagava alegre e falante música adentro. A moça ria, o rapaz falava. O rapaz ria, a moça falava. Outro casal mais adiante nem sequer dançava, isso mesmo, nem sequer dançava. Ficava parado no salão, jogando os ombros para um lado e para o outro sem sair do lugar. Em compensação, quanto assunto! Ela se afastava, tirava uma das mãos do rapaz e acrescentava gestos a um assunto infindável. Ele franzia a testa, muito concentrado naquelas palavras. Educado, quando encontrava uma brecha, falava baixinho, olhando bem nos olhos da parceira. E balanga pra cá, balanga pra lá. E tititi, tititi, blablablá, blablablá. O casal com problemas saiu da pista arrasado, apesar de ter dado, como de costume, um show no foxtrote, na valsa, em tudo que a orquestra soprou.
Baile na Roça - Di Cavalcanti.

Outro dia, antes do baile, a mulher chamou o companheiro a um canto e espetou-o com o tridente de sua diabólica inveja.
Ele não reagiu com menosprezo, ao contrário, concordou com ela, pois sentia-se desmoralizado socialmente. Onde já se viu aquele silêncio? O que achariam deles? Um casal com problemas de relacionamento? Casamento de fachada? Tomassem uma decisão.
Decisão... Essa estava dada, bastava falar um com o outro. Mas o quê? Falar, a bem da verdade, poderia atrapalhar o casal, perturbar o entrosamento rítmico cobrado pela dança. Diante da possibilidade de dançar mal, abateu sobre cada um o silêncio dos silêncios. Nem música, nem nada ali entre eles. A solução acabou assaltando, de estalo, a cabecinha inteligente da mulher.
No baile daquela noite, o casal dançou e falou exultante. Para ser sincero, não foi exatamente uma fala. Eu conto.
Mal colocaram os pés no salão, ela disse: “1, 2, 3”, e ele emendou: “4, 5, 6”. Daí, ela: “7, 8, 9”.
Numa animação de dar inveja, contando de três em três, vararam a noite sem arredar os pés do salão.

11.1.13

Outra pedra no caminho


“Nunca me esquecerei desse acontecimento/na vida de minhas retinas tão fatigadas./Nunca me esquecerei que no meio do caminho/tinha uma pedra...”


No início pedra era uma parte solta ou o todo de matéria rochosa. Ou coisa correlata; o granizo, por exemplo, ainda que este dure pouco na condição de pedra. Pedro, homem pétreo, por associação. Não faz muito tempo, chegou Drummond com o enigma da pedra no caminho. Era ainda a pedra, e não era mais a pedra. Não mais a dura expressão da natureza, mas a síntese do que, na vida, nos leva ao tropeço. Os problemas, as dúvidas; por aí.
É recente a pedra entorpecente, aquela para a qual se corre na esperança de dar um cala a boca na dor. A pedra que, ao contrário da pedra, se transforma em fumaça com um pouco de fogo nos seus fundilhos. A pedra que amealha destruição em doses alopáticas.
O poema de Drummond ganhou nova leitura. A pedra agora é essa sem vínculo direto com a natureza. A pedra química. Joãozinho, o eterno personagem das piadas, analisaria o poema dizendo que a pedra no caminho do poeta é o crack. No caminho de Drummond! A piada fincando o dedo na ilibada poesia, na pretensão filosófica do homem de Itabira, cidade cujas flores são pedras e das pedras vive. A rua invade o santuário da literatura.
(Não consegui descobrir de quem é a imagem. Tirei deste site)

Tudo muda. As palavras ganham novos sentidos. Não poderia ser diferente com a poesia, soma de palavras. A piada sopra aos nossos ouvidos uma leitura contemporânea possível ao poema-enigma de Drummond. Correta até. Presa às suas linhas.
Podemos reclamar de que subtraímos de Drummond sua magia, o seu alcance. É que os dias de hoje são assim. São? Não são? Muita calma nessa hora. É uma leitura de muitas à mesa. Aquelas enraizadas, clássicas por assim dizer; também outras que se apegam à imensidão de significados possíveis da pedra no poema. E esta, piada ou não.
Poema inclusivo, “No meio do caminho” é aberto de tal maneira que traduz o presente tanto do século XX, morto e sepultado, quanto o de agora, em fraldas, aprendendo a engatinhar. Se o mundo não se acabar, dirá alguma coisa para o XXII.
Logo, a pedra bem pode ser um tijolinho de crack. Encontrá-la nunca mais saiu das retinas do viciado, ainda que a lembrança, esta e qualquer outra, não passe, no caso dos noias, de um lampejo de uma efêmera e fantasmagórica lucidez.