18.1.21

Leitores reclamam de falta de limpeza no Terminal Rodoviário

Joca precisava chegar a Guaxupé no final do dia. Haviam dito para ele que não existia viagem direta, que deveria tomar um ônibus até Ribeirão Preto ou Alfenas e de lá ir para Guaxupé. Uma viagem que de carro levaria uma hora e meia, por aí, de ônibus se transformaria sabe-se lá em quanto tempo. Oito horas? Joca tocou na mochila para ter certeza de que o livro estava lá. O livro.
Renatinho, por sua vez, iria a Belo Horizonte. Comprara passagem para o meio-dia, seu compromisso era na próxima manhã. Viajaria com tempo. De todo modo, precavido, chegou à rodoviária bem cedo, com duas horas de antecedência. Renatinho tocou na mochila para ter certeza de que o livro estava lá. O livro.
O terminal rodoviário não é muito grande, e em um dia de movimento inesperado, Joca e Renatinho acabaram se sentando no mesmo banco.
Joca tirou o livro da mochila.
Renatinho tirou o livro da mochila.
O livro de Joca era de um autor europeu.
O livro de Renatinho era de uma autora nacional.
Procurando ser discreto, Joca esticou os olhos para ler o título do livro de Renatinho.
Como Renatinho fazia o mesmo, os olhares se encontraram. Ficaram um pouco encabulados. Um e outro ficaram bem encabulados.
Joca lia um livro de Ian McEwan, Na Praia.
Renatinho lia um livro de Raquel de Queiroz, O Quinze.
Joca não conseguiu ver que livro era que Renatinho lia.
Renatinho não conseguiu ver que livro era que Joca lia.
No entanto, o encontro do olhar de um com o outro não deixava margem para que não se dissesse alguma coisa. Era inevitável, era obrigatório até.
Foi Joca que se adiantou. Ele disse:
— Como está sujo o terminal. E Renatinho quase repetiu a frase:
— Sim, como tudo está tão sujo.
Joca levantou-se, foi ao banheiro. Renatinho levantou-se, foi à lanchonete.
Depois, sentaram-se em bancos diferentes e foram ler seus livros.

Joca não chegou a tempo a Guaxupé. Renatinho chegou com tempo de sobra a Belo Horizonte, mas, ao sair para o compromisso, desistiu dele.

Três meninos de Belfort Roxo

Acordei em mais um dia quente na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A cidade é um caos. O estado é um caos. O país, se não é, está um caos.

Reagi cantarolando “Fantasia”, de Chico Buarque. A música convida para uma pequena utopia ao dizer: “Se de repente / a gente distraísse / o ferro do suplício / ao som de uma canção”. Estribilha: “canta, canta uma esperança / canta, canta uma alegria / canta mais”. E completa: “Preparando a tinta / enfeitando a praça / canta, canta, canta, canta / canta a canção de glória / canta a santa melodia.” Ouvi muitas vezes, repetindo a dose como se fosse uma seringa de heroína, uma talagada de cachaça, um cigarro, de maconha ou não, tragado no limite dos pulmões.

Não que eu tivesse esperança de que o calor diminuísse, mas, como o viciado, gostaria de, por algum instante, me ver livre dessa sensação de que o caos irá nos cozinhar, nos estorricar, nos tornar inviáveis. Nós, os seres humanos. A nossa vidinha passageira.

Fora a ira que me acomete aqui e ali, o que sinto é equilibrado e político. O calor e o caos irão passar, o primeiro temporiamente, pelo menos por enquanto, antes da efetiva catástrofe ambiental; o segundo para sempre, custe o que custar — e custará muito.

Para os familiares, em particular as mães e avós de Lucas Matheus, de oito anos, Alexandre da Silva, de dez, e Fernando Henrique, de onze, — três meninos que saíram, no dia 27 de dezembro, para brincar na quadra perto de onde vivem em Belfort Roxo, no Castelar, e estão desaparecidos até hoje —, pode ser que o calor e o caos não passem. Na busca das crianças, três homens foram mortos pela polícia; um, levado pelas famílias dos garotos à delegacia, foi acusado de ser o responsável, o que não se confirmou; um ônibus foi incendiado; a avó dos primos Lucas e Alexandre, depois de correr atrás de uma pista do paradeiro deles, se envolveu em um acidente automobilístico de consequências leves. O caos, além do calor.

Não se descarta que essas famílias venham a vestir o luto absoluto, que já cobre inúmeras moradoras das áreas mais desassistidas, aquelas em que o tráfico e a milícia acham por bem coabitar, aquelas em que a polícia não vê problema algum em entrar atirando e matando inocentes em prol do combate ao crime.

A estatística da violência — e outras igualmente indignas — engorda no Brasil. Por aqui, o ferro do suplício não se distrai com nenhuma canção.


_______________________________________

Se quiser, ouça a música do Chico aqui.

4.1.21

2001: Uma odara no terraço

Caetano Veloso terminou sua segunda e última live de 2020 desejando ao público um excelente 2001.

Caetano está velho? Velho, com certeza; gagá, nem um pouco. Um homem de 78 anos tropeça física e mentalmente, ora essa! O velho cantou quase trinta canções sem titubear. Sua voz é ainda cristalina, e ele dá conta de um repertório de um compositor pleno e compromissado com o tempo em que está, e quem está por tanto tempo no tempo em que está, sem se tornar um nostálgico empedernido, é, como o tempo, atemporal. Caetano é.

Seu violão não é nenhuma maravilha, soa bonitinho e, em Terra — a música, que está no coração do documentário “Narciso em férias” (Renato Terra e Ricardo Calil), amarra as pontas do que o baiano tem falado recentemente — esteve abaixo de todo o resto. Caetano sempre disse que não é músico; músico é o Gil. O irmão de Bethânia é, segundo ele mesmo, um amador, o que não o impede de ter feito melodias extraordinárias (não falo do letrista, pois o assunto é o músico), de as ter cantado e tocado extraordinariamente. Caetano é um gênio.

Gênio controverso, que numa hora diz odiar o socialismo e noutra diz estar muito interessado em teóricos marxistas atuais. É um intelectual talvez igualmente amador, que transita pela avenida de suas paixões e, indiferente a nosso julgamento sobre ele e suas ideias, trabalha as inquietudes que o movem. Ser amador, no caso do pai dos três meninos, areja todo o seu trabalho, na música, na escrita, no cinema.

Por que esse velho, “rei dos animais” que deixou “a vida e a morte pra trás”, nos desejou um ano bom por nós já vivido e enterrado e que hoje não passa de uma mancha de alegria e tristeza na memória?

Em 2001, o país dava pinta de que assinara um documento de compromisso duradouro com a democracia e deixaria apenas no registro histórico as exceções autoritárias. A partir de então, traria à cena o enfrentamento das questões realmente prementes, entre elas e talvez as mais importantes, a disparidade e a concentração de renda. O PSDB, na época um partido de centro-direita, civilizado e com boas cabeças, conseguiu deter a inflação, esse desacerto da economia que atinge com mais força os pobres — para os economistas, a inflação é um imposto regressivo, portanto pesa mais sobre os pobres do que sobre os ricos. O PT — que, para ocupar o poder em seguida, teve de caminhar da esquerda para o centro —, apoiado também em boas cabeças, radicalizaria as políticas públicas visando a justamente reduzir as desigualdades. Enfim, os extremos eram ocupados por dois partidos próximos do centro (e, por conta do pragmatismo político, também do Centrão) e nem tão distantes um do outro. Esse “arranjo” da democracia durou pouco, e o impeachment de Dilma Rousseff, estimulado por um PSDB cada vez mais à direita, foi seu velório e cremação. Das cinzas a democracia não tem renascido.

Iniciado numa sexta-feira, 2001, com suas trezentas e cinquenta e cinco manhãs e noites, foi um ano de sufoco mundial, parecido com o atual, embora não estivéssemos acossados por um vírus, mas pelas mãos desumanas da cobiça — foi o ano do ataque às Torres Gêmeas e da eleição do little Bush, presidente que deu voz e arma para a diplomacia da vingança. Mas também, como todo e qualquer ano, 2001 foi cheio de acontecimentos da vida: nele morreram Jorge Amado, Cássia Eller e o titânico Marcelo Fromer; prenderam, na Colômbia, Fernandinho Beira-Mar; o Brasil entrou no mundo do racionamento de energia, um sinal do desequilíbrio ecológico. 

Em 1968, jogando-nos para a frente, Kubrick — o cineasta apontado por alguns como responsável pelo truque cinematográfico que nos faz acreditar na chegada do homem à lua — fez “2001 - uma odisseia no espaço”. No filme, em 2001, buscar-se-ia o monolito primordial, a pedra filosofal, navegando no espaço da mesma forma como os gregos navegavam no mar. Caetano, jogando-nos para trás, quer menos, quer, ao refazer o caminho dos últimos vinte anos, evitar os erros cometidos e nos dar um 2021 diferente deste que nos avizinha. Como o espaço é grande demais, Caetano talvez pense que no redivivo 2001 se possa ficar odara no terraço. E que o terraço entusiasme a praça; a praça, a cidade; a cidade, o estado; o estado, o país. Enfim, depois de recuar até 2001, 2021, um ano também com início numa sexta-feira, seria o momento de “ficar tudo joia rara, qualquer coisa que se sonhara”. 

Bem que merecíamos.


PS: Ouça Odara.

21.12.20

Bafo de esperança

 

“Antes que a crueldade faça / de vítima as crianças” (Murilo Antunes)



As últimas três crônicas falaram de minhas leituras nos primeiros oito meses de confinamento. Escrever sobre os livros foi um exercício de memória para o miolo mole aqui. Ainda que não tenha feito resenha, crítica, qualquer coisa parecida com isso, ao escrever sobre tantas e tantas páginas, quis mostrar como me relaciono com elas. Mas escrever sobre livros foi também um jeito de me manter um pouco fora do assunto que domina o país: seu descaminho.

Ao fazer isso, não detive os acontecimentos, o que é uma pena.

Nesse período:

O assassinato de Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes completou mil dias, e ainda há muito (tudo?) por descobrir sobre essa pistolagem política. Quem mandou matar Marielle e de enfiada ceifou a vida de Anderson?

As primas Emilly, quatro anos, e Rebecca, sete, crianças inocentes e, não por coincidência, negras foram mortas na porta de suas casas no início de dezembro. Juntam-se a outras dez que, no estado do Rio de Janeiro, morreram só neste ano e em circunstâncias parecidas: Anna Carolina, João Vitor, Douglas Enzo, Luiz Antônio, João Pedro, Kauã Vitor, Rayanne, Ítalo Augusto, Maria Alice e Leônidas. Em muitos desses casos, a morte ocorreu por tiro desferido por um policial.

Em uma cena de horror, dentro de uma loja da rede Carrefour, dois homens que faziam a segurança do estabelecimento mataram João Alberto, um negro. João teve uma morte semelhante à de George Floyd, americano também negro que foi asfixiado pela perna de um policial. No caso brasileiro, uma senhora, de celular na mão, acompanhava de perto os dois seguranças — era a coordenadora deles, soube-se depois — e outros funcionários do mercado auxiliaram no assassinato, por exemplo impedindo a mulher de João Alberto de se aproximar dele. A coordenadora e esses outros foram indiciados.

(Não custa lembrar que, segundo o Atlas da Violência, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no Brasil, em 2018, 75,7% das vítimas de homicídio eram negras. Mais do que isso: entre 2008 e 2018, a cada 100 mil habitantes, o número de negros mortos saltou de 34,0 para 37,8, ou seja, um aumento de 11,5%, número menor do que a redução dos assassinatos entre não negros, que saiu de 15,9 para 13,9 a cada cem mil, redução, portanto, de 12,9%.)

Enquanto escrevia sobre minhas leituras: inventaram a não-queimada amazônica para estrangeiro ver; não renovaram o contrato do teste de genotipagem dos vírus da Aids e da hepatite C, o que impacta a escolha do tratamento; usaram a Abin, órgão público, para auxiliar um dos filhos do presidente a se safar da suspeita de fazer rachadinhas quando foi deputado estadual no Rio de Janeiro; chamaram a China para a briga — quer dizer, um inconsequente fez uma lambança diplomática.

A Covid-19, que havia diminuído, recrudesceu. Claro que não foi pelos ajuntamentos em praias, em festas. Não foi pela falta de máscaras. O negacionismo e a incompetência administrativa dos mandatários da república não têm um dedo de responsabilidade sobre a situação, óbvio que não, foram os inimigos do país que, durante o nosso sono, espalharam o vírus em nossas casas. Para completar, a vacina, que já se aplica lá nas estranjas, aqui é apenas uma palavra na boca da pior política.

Durante vinte e dois dias, um apagão tomou o Amapá. Estando tudo às escuras, o governo federal não viu o estado e empurrou com a barriga a solução, mesmo uma provisória. A população, além de sofrer todas as consequências da falta de luz (conservação de alimentos, comunicação, abastecimento de água e por aí afora), se viu acuada por criminosos.

Para tentar reverter o baixo astral da crônica, cito dois ou três fatos que podem servir de alento.

Trump foi despejado do poder.

Existe a vacina.

Mais uma boa-nova? 

Em 2019, Emicida lançou AmarElo, um disco que serve como ponto de confluência da cultura negra brasileira — que passa, em termos musicais, pelo samba, pelo funk, pelo hip hop, pelo rap — e de onde ecoam a música banhada em toda essa influência e o grito de resistência da gente negra, que não aceita mais tudo isso que temos visto: assassinato de Marielle, Emilly, Rebecca, João Alfredo, discriminação no mercado de trabalho, impedimento de acesso às universidades, exclusão da política, perseguição religiosa etc. E bem agora, enquanto eu falava de minhas leituras, um documentário em volta de um show que Emicida fez no Municipal de São Paulo (no Municipal, sim) foi disponibilizado na Netflix. Disco e documentário fazem de Emicida o bafo de esperança que nos ajuda a atravessar esses dias imerecidos.


6.12.20

O que fiz das minhas leituras de confinamento: final

 Para encerrar os comentários sobre minhas leituras em tempo de confinamento, faço mais alguns e, se não estou errado, feito isso, terei dado conta dos livros de prosa lidos entre março — quando terminei, ainda antes do confinamento, “Os miseráveis”, de Victor Hugo — e novembro.

Pais e filhos” (Cosacnaify), de Ivan Turguêniev, uma história que, situada num momento de transição na Rússia, quando se dá o fim da servidão, popularizou o termo niilista. No romance, o tal niilista é o sujeito frio, científico e, por ironia e o grande achado do autor russo, incapaz de se manter em pé diante do amor. “O caminho de San Giovanni” (Companhia das Letras) é uma série de ensaios memorialísticos, que têm como pano de fundo a cidade natal de Ítalo Calvino. O papel do cinema, a plantação do pai, aspectos da cidade pequena se juntam na cabeça desse escritor tão peculiar que, por meio da escrita, nos conduz pela geografia de seu pensamento.

Numa blitz à estante, encontrei “O corpo e outras histórias” (Companhia das Letras), de Hanif Kureishi, livro com uma novela — “O corpo”, que é (estamos num momento em que se é possível nos transferir para outro corpo) e não é (a questão da técnica e a consequência social não são muito exploradas) ficção científica — e uma série de contos, eu diria que bem estranhos, desses que dão uma chacoalhada no leitor. Ainda assim, nada parecido em intensidade e risco ao que faz Sam Shepard no romance “Aqui de dentro” (Estação Liberdade). O múltiplo autor, ao mesmo tempo que escreve um romance, o desestrutura. Talvez por isso, Patti Smith, ex-companheira de Shepard, diz que, ao ler os originais, navegou “por um mosaico de ecos de conversas, perspectivas alteradas, lembranças claras e impressões alucinatórias”.

A visita de João Gilberto aos Novos Baianos” (Companhia das Letras), de Sérgio Rodrigues, usa como tema o futebol (é do autor “O drible”, um dos romances contemporâneos que resistirão ao tempo), a música e o mundo da literatura. Se Sérgio Sant’anna escreveu, nos anos de 1980, “O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro” (Companhia das Letras), cujo conto-título mostra como toda a cidade se mobilizou pelo show de João Gilberto, cancelado na última hora, Sérgio Rodrigues narra a visita do cantor (um artista reconhecido, já um pouco senhor) aos Novos Baianos (aquela turma jovem, que vivia em comunidade e sobre a qual recaíam todos os tipos de suspeita: amor livre, uso de drogas). Os dois contos ajudam a entender como o pai da bossa nova transformou-se em “mito”. No caso do livro de Rodrigues, seus contos sobre o mundo da literatura são um achado, deliciosamente irônicos.

Procurando dar conta de leituras atrasadas, li “Ensaio para o adeus”, de Eliezer Moreira (Editora Patuá), um romance de suspense, baseado em uma história muito peculiar, a de um repórter que, ao cobrir um assassinato, vê que o morto é a sua cara e com ele passa a ser confundido. Eliezer foi finalista do Jabuti de 2019, com outro livro, pelo que li a respeito, na linha desse primeiro, “Olhos bruxos” (Penalux).

Destaco duas leituras de mulheres, Lívia Garcia-Roza, “Meus queridos estranhos” (Record), e Andressa Barichello, “Ter a escrita” (Editora Patuá). Lívia escreve sobre uma mulher transitando entre os quarenta e os cinquenta anos abandonada pelo marido. Apesar de ele falecer logo em seguida e a viúva não tardar a casar-se de novo, a dor de ter sido abandonada perdura. O fato de ter uma filha adolescente, caprichosamente adolescente, não consegue ocupar esse vazio, se é que não o aumente. A mulher burguesa, educada, sem grandes limitações financeiras, enfim, moderna, caminha pelo livro percorrendo um arco muito bem (d)escrito de nuances. O livro de Andressa é de crônica. Sou cronista e não consigo fugir de comparar o meu mundo ao de Andressa. Começo pelo óbvio: eu um homem, ela uma mulher. Eu nos últimos passos da minha quinta década de vida, ela na força da juventude. Eu cada dia mais enfrentando o mundo de fora para dentro, ela, de dentro para fora. Gosto dessas diferenças. Seja como for, o talento da escritora foi reconhecido pelo Jabuti, que incluiu seu livro entre os semifinalistas do prêmio de 2019.

O último livro do período é realmente uma charada, pode ser um livro de ensaio ou um metarromance, um livro de humor ou, o que não descarta o humor, de reflexão profunda sobre a escrita. O título dá uma pista sobre o “mistério” alimentado por Marcel Bénabou, “Por que não escrevi nenhum de meus livros” (Tabla). O autor era, ao lado de Calvino e outros, membro do Oulipo — Ouvroir de Littérature Potentielle —, grupo que se impõe, na construção de uma história, regras limitantes, por exemplo, escrever sem usar a vogal “e”, o que fez Georges Perec em “O sumiço”. No livro que comento, a primeira discussão de Bénabou é como alguém pode não escrever nenhum de seus livros. A partir daí, há um embate intenso entre o leitor e o escritor, entre o escritor que tem pressa em publicar e o que não tem nenhuma, entre o escritor e o sujeito que deseja apenas um banho de sol. Como minhas crônicas foram sobre leitura, logo, um campo largo para meu esquecimento mostrar toda sua força, cito do livro: “Hoje, quando por exemplo arrumando caem-me às mãos certos folhetos em que anotara os títulos e as datas de minhas leituras de então, fixo-os longamente, incrédulo e consternado que absurda bulimia foi essa que me fez devorar tantas obras cuja lembrança não guardei, nem mesmo de tê-las manuseado?”

Matemática Bufa (publicado em Contos de homem, livro de 1995)

Veja, por exemplo, o Zé.

Biscateiro, faz ponto a uns trinta quilômetros de casa, assalariado mínimo. Só na condução ele gasta em torno de 20% da propina. Somando os outros gastos, inclusive a indispensável birita do dia-a-dia, chega-se a um déficit fácil.

Surpresa: Zé tem duas mulheres, Neide e Fátima.

Neide é esposa, papel passado em cartório, com testemunha, terno, vestido branco e tudo. O tudo incluindo uma saborosa sidra gelada, estourada sob os aplausos dos parentes mais próximos e o olhar amistoso e contente dos sogros.

Sim. e lua-de-mel. Perfume de Neide parecendo fugir do quarto do hotel. A vontade de Zé fugindo mesmo pela porta afora, voltando ao quarto, doendo. O encontro? Desculpe, uma foda ótima.

Fátima apareceu depois, e não há qualquer explicação baseada em crise de Zé e Neide, pileques inconsequentes do biscateiro ou pura peruagem. Sei lá, foi um flerte. Foi uma coisa tão forte, querendo e empurrando um para o outro, que não teve jeito.

No início, Zé quis guardá-las em compartimentos separados da sua afeição. Escondeu da Neide a Fátima e da Fátima a Neide. Mas ...

Um salário mínimo já é quase nada, é conta a pagar no próximo mês. Sabe, é o capricho de uma pedindo, e o não-querer nada da outra pedindo mais ainda. A grana não dava. E mais: era uma dor na consciência tão grande, que meteu duas caninhas na goela, um chiclete no bafo, colocou Neide no colo e falou de supetão.

Imagine Neide. Moça talhada para isso mesmo, não poder tomar a sopa sozinha, dividir o leite condensado com os nove irmãos etc. e tal. Sua resposta foi um silêncio manso, canto de passarinho. E um pedido: conhecer a outra.

Mesma coisa fez Fátima. Disse não se espantar, mas fazia questão de dizer à primeira que a respeitava, dali por diante, mais que à própria mãe.

 

O triângulo se fechou na sala da casa de Zé e Neide, tomando as seguintes decisões:

i) Fátima se mudaria para alguma casa ali perto;

ií) Os três trabalhariam para conseguir mais grana;

iii) Estavam felizes.

O que veio depois foi glória, glória, o além da glória. Juntando os três salários mínimos, descobriram que a cada um cabia mais que um salário. Fazendo de suas despesas uma coisa única, pouparam e compraram uma televisão, fizeram roupas bonitas para os fins de semana. Milagre: geladeira, cerveja gelada e Zé chegando sempre cedo em casa.

Ali pelas dez horas em um leilão velado, uma delas arrematava o companheiro e levava-o para exibir seu vigor sereno e incessante.

Esse era mais um lado dessa matemática. Cada uma delas, mesmo tendo apenas metade, tinha um inteiro. Na lógica do quando está comigo é meu, tinham o desejo saciado, e o olho nem pensava em futuro ou martelava saudade do passado.

Havia, contudo, nisso tudo, um sistema sem solução: a cobiça. Zé, baseado em sua experiência recente, imaginou que uma terceira mulher talvez lhe possibilitasse um carro. Não queria, é verdade, nenhum carro do ano, modelo esportivo, roda talalarga. Um Fusca antigo, uma Rural, Chevette, Gordini, TL, Corcel, o que fosse, ia diminuir a distância entre o biscate e a casa, ia aumentar o tempo de Zé para suas meninas.

Deixa de voltar mais cedo para casa um dia, adentra o bar da dona Sara e, sob os vivas dos camaradas antigos, aquece o espírito de cana, a coragem começa a dar pulinhos e o olho gruda em Neusa.

Neide e Fátima estão em casa, não têm nenhum pensamento ruim ou expectativa frustrada. Sabem que mais cedo ou mais tarde o Zé chega. Estão um pouco ansiosas porque querem contar a ele dos filhos que vêm. E tricotam, das receitas aprendidas juntas, os primeiros sapatinhos.

Agora é esperar. Se ele trouxer notícias de Neusa ou a própria, em carne e osso, será que o brim do ciúme esgarça?

Antes que ele se adiante, soltando a língua, recebe a notícia. Mal absorve a emoção, pensa no dinheiro. Não será pouco? Elas ouvem o plano, Neusa incluída, e sorriem esperança. Zé procura a vizinha proprietária de um cômodo e o aluga.

Neusa chega no dia seguinte, distribuindo uma alegria imensa, escancarando à toa o riso fácil. Em instantes já é convidada para ser madrinha das duas crianças. Apenas um detalhe gostaria de esclarecer: vai contribuir para aquela cooperativa com mais de um salário; em compensação se ausentará de noite. Portanto, Zé é dela pelas manhãs: café, pão e, sic, pau. 

E a creche? Sabe quanto custa? Uma fortuna. Solução: a quarta mulher. Esta já nem é propriamente escolhida nem se amiga para valer das outras. A quinta mulher, Neide não a conhece. Nem progressão geométrica daria conta da velocidade com que Zé se amasia com novas mulheres.

Mais importante, contudo, é saber se Zé, um dividido por entre infinitas, quase zero, dançava ainda apenas a dança do amante infalível ou se planejava o próximo sonho de consumo. 

Zé, bem, o velho Zé rodava em círculo, grana pede mais grana. Já não trabalhava. Tinha casa própria. Tinha carro, moto, lancha. Tinha cavalo correndo no Jóquei. Filho estudando na PUC. Filha atriz. E, pasme, uma amante. Sim, uma amante tradicional, escondida das outras, trancafiada em um pequeno apartamento do subúrbio, com direito a frequentar desfiles de moda, lugares da moda, e tudo o mais.

E o que ele não faria por ela, moça de seus vinte anos no máximo? Faria gatos e lagartos. Se grana pede mais grana, ele estava disposto ao pior: ao roubo.

Quando ela lhe pediu um apartamento na Zona Sul, raspou o dinheiro do banco, vendeu a casa, os carros, a filha. Banana para as esposas.

Surpresa: conseguiu ficar com menos de um salário. Na verdade, meio. Menos, 25%. Quase nada, 1% de um salário mínimo.

A realidade nua e crua e a matemática pura quando se juntam, é o que digo, não há como escapulir. Zé é Zé sempre. No máximo, na opulência da quinta dose, permite fingir-se milionário para o espelho sujo do banheiro, no bar de décima categoria. Prova do não-teorema.

Traços (publicado em Contos de homem, livro de 1995)

 Às vezes sai perdida pela cidade. Procura uma apuirana de onde possa sugar toda a estricnina. Noutras, tranca-se em casa, esperando ser capturada e salva por algo, alguém, pai, mãe, o além.

Resistiu a tudo. Até a um amor.

. . . o amor foi como uma rosa nascendo no concreto: belo, mas inútil.

Não é bonita. Um metro e sessenta, cinquenta e quatro quilos, mãos compridas, unhas grandes de fundo rosado, sobrancelhas finas e cílios espessos. Pés magros de veias salientes, a tez muito branca. Os pelos crespos, vermelhos e abundantes. Nádegas pequenas.

Tampouco é feia. Olho preto de jabuticaba, nariz torneado, boca tímida, carmim. Dentes sempre brancos, sem nicotina. Cabelos muito longos.

Ano passado recebeu um assobio na rua. Chorou. Estoica por fora, não se sabia como por dentro. Que tinha células sabia. Também, que tinha os aparelhos digestivo e reprodutivo. Rins, pulmão. Mas e que mais?

No dia em que acordou com o sexo umedecido e as mãos nele, atirou-se violentamente contra a parede, pousou o ferro quente pelo corpo. Sorriu por se sentir tão bem.

Quebrou os espelhos da casa porque achava que a imagem refletida não era a sua. Era triste assim? Aquelas olheiras dilaceravam mesmo o seu rosto? E as espinhas? Espelho algum dia foi feito para mostrar a dor?

Foi morar dentro do guarda-roupa, fitando a lembrança do espelho. Aí recordou o dia. O pai morto, a mãe chorando, e ela querendo que ele acordasse.

Ela é a Maria José do José e da Maria. A síntese. Não é a princesa que o pai inventaria. Não é a mulher que a mãe desejou.

Quando vai ao bar, diz ao garçom que espera nove amigos. Os outros são meras possibilidades de amizade. Sai antes de a bebida chegar.

Em um domingo de missa, ganhou um beijo. Ainda hoje sabe de cor seu gosto e, quando quer, sente.

Já deu um beijo. No vento.

Conhecia Cecília Meireles. Pegava o telefone, discava um número qualquer e recitava: "Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo". Como ninguém a ouvia até o final, deixou de conhecer a poeta.

O banho quente a tranquiliza. Dentro d’água, mesmo fria, sorri sem culpa ou medo. Batizou essa sensação de amor. 

Agora ela está lá, no alto da ponte, namorando o mar.


A caça (publicado em Contos de homem, livro de 1995)

A mata é hermética. O sol, quando consegue penetrá-la, é um fio, um frio facho de luz.

O que faço aqui? Caço. Comigo levo meu cão, minha arma, o saco para depositar a caça.

Lá vem um bicho. Tum, tum ...

Guardo o elefante.

Minha mãe chega, senta-se na cadeira, perto da mesa, perto da churrasqueira, perto de meu pai. Aproximo-me deles, sirvo-lhes, em bandeja de prata, o elefante temperado. Com o susto, infartam.

Pais ...

A mata cada vez mais fechada, um breu. Os morcegos tentam atacar-me. Primmm ...

Minha mulher chega do cabeleireiro. Está linda, o cabelo como um bolo de festa. Dou-lhe um beijo, prendo-a em meus braços, solto em suas costas os morcegos. Descabelando-se, atira-se pela janela. Plaft seco e buzinas fanhas engarrafam o trânsito.

Mulher ...

No meio da selva, assusto-me com um rio. Lanço nele rede, isca, vara, anzol. Pesco um tubarão.

As crianças acordam ansiosas pelo aquário novo. Enquanto se distraem com os peixinhos, desfaço a armadilha, cai do teto o tubarão. Como a água corre para o ralo, as crianças se jogam nos dentes da fera, que em um último impulso as devora,

Crianças ...

Morreu o cão. Perdi a arma.

Para lá ou para cá. Mata sem fim. 

Caçador...

5.12.20

Circense (publicado em Contos de homem, livro de 1995)

A Egberto Gismonti

 

O lápis traça a maquiagem no rosto do palhaço. A ponta arranha a carne por dentro. Já não há nenhum prazer em representar, em enfrentar a ansiedade das crianças, em proporcionar-lhes o riso. Mas ele terá de fazê-lo, mais uma vez e outras tantas. Para um homem de quarenta anos, recomeçar é um verbo inconjugável, é derrota.

Olha-se no espelho, tudo perfeito. Abre o armário, veste a peça que falta, a alegria que irradiará para a plateia. Trago seco.

A entrada em cena é triunfal. Cumprimenta a criançada, dirige-se para o centro, abre os braços e inesperadamente dá um salto mortal. Seus pés tocam o chão, mas tropeçam. O corpo rola como um aro, batendo nas laterais do círculo. Ao erguer-se, suas calças caem e, ao apanhá-las, deixa escapulir um peido alto. Finge envergonhado, senta-se; levanta-se surpreso com as fezes coloridas, de plástico.

Outro salto leva--o para outro canto do circo e assim sucessivamente, até que todos o tenham visto mais de perto, até que todos, como cúmplices, tenham testemunhado seus blefes, que desencadeiam risos compulsivos. As tábuas da arquibancada zunem.

No próximo pulo, o imprevisto. Ao rolar pelo chão, o palhaço mete o rosto na bosta do elefante. As palmas e as gargalhadas atingem níveis estrondosos, quase silenciam e retornam a toda, num vaivém interminável.

Para quem tem a carne talhada por dentro, o golpe fere as células, deixa o desejo exangue.

 

Émerson sente que seu riso mexe com os órgãos, incha o fígado, comprime o pulmão. Escorrem lágrimas em sua face. O palhaço havia planejado o melhor dos truques: insinuar que o chocolate na cara era bosta de elefante, que o cheiro do doce era o podre fedor da merda.

O rapaz sai do circo repleto. Naquelas duas horas, não pensou no mundo lá fora. Mas, em pouco tempo, está às voltas com uma rua que tem de ser atravessada, com a falta de grana para comprar um refrigerante. O desconforto da arquibancada era agora dor nas costas.

Um movimento brusco, como se pedisse de volta os minutos vividos sob a lona. Abraça-se a um poste, fecha os olhos e sonha com o mundo do circo. Fugirá na companhia para atuar como trapezista, contorcionista, macaco, leão, qualquer coisa.

E é assim, vivendo tudo isso, que Émerson tropeça na calçada e cai, metendo o rosto na bosta de um cachorro.

0 mesmo riso da lona explode ao lado de Émerson. São as crianças vindas do circo, vendo na cena de rua a repetição da trapaça do palhaço. Mas ele sabe que não há truque, nem o gosto nem o cheiro daquela merda se parecem em nada com o chocolate. Levanta-se, xingando todos os que o olham, fazendo os piores gestos possíveis. Vai-se arrastando para casa, para o quarto, para as roupas, para a mala. Para o circo.

 

Os trailers formam o círculo. Os animais nas jaulas cuidam de empestar o ar. As crianças correm por entre as tendas metálicas. A bailarina esfrega suas roupas e lava outras para o mágico. O trapezista sai para procurar mulher.

Alonso cerrou as cortinas. Tira a roupa de palhaço e toma a primeira talagada de cachaça. Em breve, a segunda, a terceira, e outras tantas. Em breve, o nariz de bola de pingue--pongue é amassado pelas suas mãos; o lápis da maquiagem (faca?), quebrado; as roupas, rasgadas.

 

O passo de Émerson é determinado. A bolsa, com suas roupas, é pequena e cinza. Sua vontade brada. Fecha a mão e toca a porta.

 

 Afonso ouve a batida e não sabe se o barulho é luz ou tiro de bala--morte.

Trocam olhares e dizem muito. Entram. Trancam a porta. Lá estão.

 

O próximo espetáculo é amanhã. Ou nunca.


_________________________________

Certamente foi ouvindo Palhaço, do disco Circense, que escrevi o conto. Se quiser ouvi-la, clique aqui.