19.2.17

A crise

Sempre há os que são capazes de compreender o movimento geral dentro de um contexto histórico. A crise econômica, por exemplo, com a fuga do emprego fabril das economias centrais, explicaria o fortalecimento da direita populista, evidente no caso Trump, mas também visível na Europa. Na Áustria, por pouco esse grupo não assume o poder. Na França, eles andam cercando o poder não é de hoje. A Grã-Bretanha deixou a União Europeia, num processo comandado também pela direita. Em tudo isso, percebe-se como os trabalhadores vão pouco a pouco associando suas perdas à presença do estrangeiro e, passo seguinte, aliando-se aos xenófobos. Somente os insensíveis não percebem que estamos vivendo o pior dos mundos.
O Brasil não está no centro do capitalismo, apesar de ser uma das dez maiores economias do mundo. Por isso, o emprego que não está mais nos Estados Unidos ou na Europa bem pode ter sido em parte transferido para estes trópicos. Portanto, a crise brasileira difere da que se vê nos países ricos e é típica de uma patologia de classe. Nossa elite — oligarquia, a bem da verdade — busca de todas as formas recuperar o espaço do poder, para usufruir de suas benesses de forma exclusiva (por pensar tratar-se de um direito historicamente estabelecido). Se a volta dos que não foram se vestiu de legalidade, apontando-se o dedo para os tropeços do governo Dilma, o passo seguinte foi mostrar que, mais importante que esses deslizes, era a crise provocada por um mau gerenciamento (que levava à inflação, ao desemprego etc.). Nosso desemprego, nessa leitura, se explicava por uma questão de política econômica, nada parecido com aquele que se via e se vê nos Estados Unidos (menos) e na Europa. Lançada a base de uma nova política — que promove ainda mais desemprego por retrair a demanda do Estado —, o governo começou a tropeçar nas suas contradições, haja vista que está quase todo ele imbricado nos mesmos escândalos do governo anterior, nada mais natural porque este pariu o novo, que não tem nada de novo.
Neste processo pelo qual estamos passando, acabamos presos a uma separação radical — nós e eles, nós contra eles. Essa ruptura não dá sinais de arrefecimento, e começo a crer que a saída para tudo isso não virá lustrada pelo verniz de uma capenga democracia. O PMDB governa mais interessado em acomodar seus pares, tirando-os da linha de frente da caçada aos corruptos; o PSDB não faz diferente e aposta que os fatos poderão repetir aqueles da época de Itamar Franco, com o que voltarão, pelo voto, à presidência. Por sua vez, o PT está mais perdido que tudo, suas aparições ocorrem apenas para dizer que Lula e Dilma são pessoas de bem. Uma oposição clara, programática, nem passa pela cabeça do partido. Por fim, a justiça está de certa forma desconfortável por desempenhar o papel que lhe caiu no colo e que, por sua vez, poderá fazer com que ela tenha de tomar decisões que, de fato, ferem o espírito da democracia, como destituir toda a linha sucessória e, de uma hora para outra, pousar no executivo. Tudo isso é uma pena e um retrocesso.
Peço-lhes desculpas por este texto tão sisudo e provavelmente equivocado, mas não haveria outro modo de chegar aonde quero chegar. Eu tenho uma solução (não sou o único, já ouvi outras vozes clamando por isso) menos traumática para essa crise toda: devolver o Brasil a Portugal. Claro, antes de tudo, teremos de demonstrar por a + b que o Cabral que temos agora não é o mesmo que nos descobriu — não são nem parentes distantes —, portanto não estamos tratando mal um herói português ao manter o Cabral contemporâneo e brasileiro preso em Bangu. Feito isso, eu acho, nossos patrícios nos acolherão de braços abertos — talvez vejam como uma oportunidade para reaver o prejuízo recente que sofreram ao se meterem em negócios de telefonia celular por aqui. Ficaremos bem com Portugal ao devolvermos a eles o amor próprio das grandes potências, abrindo-lhes as portas para, quem sabe, tentarem refazer nossa história, dessa vez sem escravos, sem os ciclos da cana, do ouro, sem entradas e bandeiras, sem invasão holandesa ou francesa e sem que a gente coma o bispo Sardinha.
Detalhe do quadro Batalha do Avaí, óleo de Pedro Américo sobre um dos últimos episódios da guerra do Paraguai, ocorrido em 11 de dezembro de 1868 (Foto: Museu de Belas Artes/Reprodução)
É bom que nos apressemos com essa solução uterina antes que nos ocorra algo tão terrível quanto o que está sendo urdido na calada pelo atual governo: um poder absoluto, à custa, quem sabe, de qualquer migalha de liberdade. O que seria igualmente ruim? Vendo-nos tão estarrecidos, o Paraguai resolver vir aqui vingar o que lhe fizemos no longínquo século XIX, o mesmo no qual inventamos, em cima do conflito, um herói moderno, Caxias, e Machado de Assis começou a nos decifrar.

6.2.17

De olho na tela

Gosto das salas de cinema, onde, ao contrário da televisão — mesmo daquelas de tela grande, modernas, de imagem perfeita —, assisto aos filmes com prazer. Em casa, não há o escuro que nos mantém suspensos antes, durante e depois do filme, particularmente do filme bom, e, além disso, os filhos passam conversando na frente da TV, a gente corre à cozinha sem motivo e ao banheiro por coisa pouca.

Nas salas, o filme começa na compra do ingresso, na escolha do assento, no café tomado um pouco antes da sessão. Feito o atleta no aquecimento para entrar na quadra, o espectador se concentra, faz flexões, alongamentos, tira o lixo da cabeça para que ela fique livre para o que vem a seguir, que não é uma disputa pela bola, mas é um embate entre ele e uma história que lhe será contada. O diretor ou a diretora tem de manusear muito bem suas armas, cabe a ele ou a ela e a seu elenco derrotarem o sujeito que pagou o ingresso e entrou naquela espécie de caverna. (Eu sou um dos que jogam duro, entro pra brigar.)



Fazem parte desse longo começo um trailer exibido com ganas de fisgar seu público futuro e uma propaganda de banco que tenta, por meio de facilidades mentirosas, atrair o cara cheio da grana ou o duro, principalmente este, meu igual. O filme já começou quando começa, esse é o ponto. Por isso, fico incomodado, já na preliminar, com os celulares cheios de luzes e sons — e as pipocas. Depois que enfim a história passa a ser contada, se não me seguro (ai, minha úlcera!), me transformo no chato do cinema, o tipo que faz “psiu” o tempo todo. Como não sou um milionário que pode ter uma sala exclusiva, respiro fundo (ai, minha úlcera!), me distraio desse monte de gente que não sai de si e começo a luta com o que me levou até ali. O ringue, naquele espaço de tempo, é a sala, e a glória é sair vencido, por nocaute ou ponto, tanto faz. Estou ali de sparring para o diretor e sua história, desde que não vacilem.

Nas últimas semanas, essa magia aconteceu duas vezes. Ao ver “Eu, Daniel Blake”, do britânico Ken Loach, e “Manchester à beira-mar”, dirigido pelo americano Kenneth Lonergan, de quem eu nunca ouvira falar. As duas histórias têm lá seus pontos comuns (além de ter cenas similares, quando os personagens buscam emprego pelas ruas da cidade), mas suas perspectivas são bem distintas.

O britânico, veterano diretor reconhecido por tratar dos perrengues sociais, não foge da sua temática e mostra como nos dias de hoje Kafka é a realidade. Os governos, apoiados em tecnologias que desumanizam e ao mesmo tempo não estão acessíveis para muita gente, tornam a vida daqueles que precisam de assistência social um inferno, como se já não bastasse o fato de precisarem de assistência social. No filme de Loach — assim como na literatura de Maria Valéria Rezende (a autora acaba de ganhar o prêmio Casa das Américas por seu “Outros cantos”, editado pela Alfaguara) —, o que salta aos olhos é a solidariedade entre pessoas que estão jogadas à margem. É isso que as faz resistir, mesmo que algumas não resistam. Melhor seria dizer: é isso que as faz resistir enquanto resistem. Ou ainda: é isso que as faz resistir um pouco mais.

Já o americano conduz seu filme na linha da trajetória do herói, a caminho da derrota, é bem verdade. Seu grande personagem está aos frangalhos (a gente descobre aos poucos a razão disso, já que o filme alterna o tempo todo o presente com o passado), mas é, de fato, um herói, sua força e sua ruína vêm de dentro dele, da forma como elabora ou deixa de elaborar os reveses da vida. Ele se desfaz, mas, no meu modo de ver as coisas, a cena final deixa no ar que ele terá no afeto um jeito de resistir (ele também resiste ou precisa resistir).

Se no filme inglês a opressão vem do “sistema”, no americano vem da vida íntima e familiar — também do acaso, do azar para ser mais preciso. Como já disse, duas perspectivas distintas, tratadas, em ambos os casos, de forma sofisticada e emocionante. 

Para desfrutar dos filmes, corra a uma sala de cinema, acomode-se na cadeira e deixe-se levar, dando a cara a tapa. Esqueça o celular e as pipocas. Na saída, uma cerveja ajuda a elaborar melhor as coisas, mesmo que se chegue à conclusão de que o mundo não vai nada bem, de que todos nós estamos nele, somos parte dele e temos um pingo que seja de responsabilidade pelo estado das coisas.

22.1.17

Zorro

Lembrei-me do cachorro que tive quando morava em Passos depois de ter postado no Facebook uma montagem com duas fotos nas quais estou de barba — em uma eu tinha uns 20 anos; na outra, a idade atual — e de ter escrito a seguinte legenda: “Volver a los 17 é um chiste.” Um chiste e tanto, convenhamos. Na juventude, se os cabelos eram pretos, a barba não poderia ser de outra cor. Hoje, quase tudo é branco, embora, por conta do quase, o que não é borra o que é. Esse é o lado visível do chiste, dos demais nem falo. Dito isso, resta esclarecer como saltei da piada ao meu vira-lata com um quê nobre de pastor alemão.
Meu amigo e vizinho lá no Beco dos Aflitos, o Paulo Régis Bacil Abreu — conhecido também como Paulo da Yolanda do Jezo da Infantil —, perguntou, em um comentário à publicação, se o cachorro da minha casa se chamava Lobo. Não Paulo, era Zorro. (Que raio de associação é essa entre minhas fotos e o cachorro? Mistérios do mundo.)
A pergunta, motivada seja lá pelo que for, jogou o velho Zorro no meu colo. O nome deve-se ao herói de capa e espada, a cujas aventuras assistíamos nas matinês de domingo e, mais tarde, em forma de seriado de TV. O nome já veio com o cachorro, mas eu o teria escolhido do mesmo modo.
Ao deixar o pensamento solto, comecei a olhar enviesado para minha memória, pois as coisas não teriam sido como eu as registrei. Não tudo. Imaginava, por exemplo, que coubera ao Zorro a tarefa de vigiar o quintal durante uma década e meia. Impossível. Saí de Passos com 15 anos, e ele já estava morto. Acho que confundi o tempo que ele ficou na casa com a idade que teria no final da vida.
Deixo essas incertezas de lado para falar daquilo sobre o qual não resta dúvida. Se não queríamos o Zorro por perto, bastava dizer “água”. Ele zunia. Está certo quem conclui que meu cachorro nunca tomou banho na vida, mas, espante-se se for o caso, nem por isso tinha cheiro forte ou pelo duro. Um milagre — ou, quem sabe, efeito da chuva, já que, por viver no quintal, não conseguia fugir completamente dela.
A falta de banho dava-lhe um ar de maltrapilho, e isso piorava quando sumia por três dias, às vezes por uma semana. Aposto que se enturmava com os colegas da rua e com eles disputava o cio de uma cadela. Não é fácil conquistar uma fêmea nesse mundo cão, por isso, como regra, retornava abatido, até mesmo ferido. Certa vez, os estragos foram assustadoramente grandes, porém, para meu espanto, ele entrou pela porta da frente, cruzou a sala, a copa, a cozinha e foi se deitar em seu quintal, ali onde, na tigela amassada, o angu com carne e osso o esperava. Com essa entrada triunfal, o Zorro nos mostrou sua capacidade de ir à luta e voltar, ainda que capengando, orgulhoso de suas feridas, que, especulo, poderiam ser uma espécie de troféu de sua futura paternidade.
No fim da vida, o velho cão ficou esclerosado — pelo menos assim qualificávamos seu estado. Se dizíamos saia, ele vinha; se venha, saía. Nessa época andou avançando em pessoas próximas, uma investida inconsequente, já que, naquela altura, era banguela ou praticamente banguela.
Lembro-me do dia em que gastava meu tempo no quintal, e meu pai e dois amigos voltaram da rua. Acabavam de sacrificar o Zorro. A tiros. O sacrifício era necessário, a forma... Bem, eram outros tempos. Não guardo mágoas — de meu pai, jamais. Porém, aqui e agora, cheguei à pior parte de toda essa lembrança desencadeada por uma associação estranha feita por um amigo que há muito não vejo.

29.12.16

Sete sonhos na estante

I

É uma bola, vê-se de longe, e cai em minha direção. Há uma tensão clara no olhar dos que estão por perto. Meus pais entre eles. Meus irmãos também. A menina que eu amo larga a minha mão e foge do que está prestes a acontecer. Por que o pânico? Tenho a responsabilidade de fazer como os jogadores: matar a bola no peito e deixar que escorra pelas pernas até alcançar meu pé direito, o bom. Não sou nenhum Pelé, mas posso cumprir essa missão inesperada. Quando a bola chega perto, muito perto, vejo que se trata de uma bomba. Não posso correr, todos confiam em mim, depositaram suas vidas em minhas mãos (no peito, no pé). A bola atinge meu peito, e o impacto é tão grande que o chão se abre e me engole. Quando a bomba quica no buraco e volta ao ar, passo a fazer balõezinhos com ela. O movimento leve que se segue parece o de um balão de gás subindo e descendo. Mas, de repente, a bomba explode.
(O despertador das seis e meia toca.)

II

Os pássaros voam de costas, os cavalos trotam ainda que lhes faltem as patas.
(Um grito, sem origem, perturba a madrugada.)

III

Aquela menina que nunca sequer me notou fixa o olhar no meu. Ficamos uma eternidade assim estáticos, olho no olho. De repente, de suas órbitas oculares começam a sair imensos papiros. O que sai do olho esquerdo é vazio, um papel antigo, grosso e fosco. No da direita, há uma frase que aos poucos vai se revelando. “Agora é tarde”, é o que está escrito. Antes que eu lhe diga alguma coisa, a menina dos meus sonhos se vira e sai correndo. Vou atrás dela, e os dois ficamos presos a uma corrida que não nos tira do lugar. Tenho então uma ideia aparentemente brilhante: estendo os braços para agarrar a garota. No entanto meus braços vão se tornando grandes, elásticos e saem do meu controle. A menina se vira para mim, e vejo que ela não é aquela que nunca sequer me notou.
(Da mesa do almoço, sob censura frouxa da mãe, ouvem-se as piadas picantes do irmão.)

Foto tirada em evento do "Coletivo Entre-Tempos" e trabalhada por mim.


IV

Stela e eu entramos em um abatedouro. Antes que eu estranhe a situação, chifres crescem na minha cabeça. Stela muge. Os homens encarregados de nosso sacrifício se apiedam de nós e começam a rir. Feito Ferdinando, o Touro, esfrego a pata no chão. Cai uma chuva quente. Stela berra que é ácida.
(Sem cobertas, a noite é fria.)

V

Tenho a pele azul, e as pessoas, no Beco dos Aflitos, me comparam a um pelicano.
(Um cutucão para interromper o ronco.)

VI

 Quando vou entrar no palco, as luzes se apagam. Roberto Carlos passa por mim e diz daquele jeito dele: “que coisa, bicho”, depois mete o dedo no interruptor, entra no palco e o mundo acaba.
(Às quatro da tarde, dorme-se a sesta ou a noite sem fim.)

VII

Eu e Deus jogamos porrinha. Ganho. Deus chora.
(O sono dobra o cabo dos dias.)

26.12.16

Natal com Machado

Comecei a escrever crônicas na passagem do século XX para o XXI, convidado pelo amigo e escritor Marco Túlio Costa, que, naquela época, ajudava a reerguer um antigo jornal de Passos. (Portanto, se há um culpado, é ele.) Apesar desses dezessete anos, este é meu primeiro texto que sai justamente no dia do Natal. É verdade que escrevi uma crônica natalina, e nela contei de uma ceia, na casa da tia Yole, quando vi as renas e o Papai Noel cruzarem os céus. Essa visão, ao contrário do que se pudesse esperar, me fez descrer de vez da figura do velhinho de barba branca. Vi para descrer, o que São Tomé diria disso?


Natal singelo numa rua de Botafogo, Rio de Janeiro

Nada dessas coisas importa mais, hoje escrevo para ser lido na mais celebrada festa cristã. Quero fugir das platitudes, do senso comum, o que não é, adianto, fácil. Eventos repetitivos nos levam a buscar repetidas formas de lidar com ele. Feliz Natal! Que Cristo nasça e renasça em seus corações. Que o bom velhinho não se esqueça de você. O meu amigo oculto é vesgo, mas enxerga longe. Tudo isso embalado pela Simone, que, ao cantar a versão traduzida de “Happy Xmas (War is over)” do John Lennon, viu-a transformada em canção para estimular o comércio, destituída da mensagem pacifista. 

Não pretendo seguir o caminho oposto, aquele no qual muita gente procura macular o espírito da festa, trazendo à tona tudo de desumano que brota no meio de nós. 2016 é um ano propício a isso, haja vista o número de pessoas que têm fugido de seus lugares de nascimento para tentar, sem estrutura alguma, a vida em outro país — são sírios, são moçambicanos, a lista é grande. Sem contar nossas tragédias caseiras, muitas evitáveis, como essa que acomete o jovem negro, vítima preferida da guerra contra o tráfico. 

Não quis escrever platitudes, e eis que estão escritas. Não quis escrever sequer duas linhas que borrassem a festa, e eis que estão escritas. Preciso buscar uma compensação a meu deslize e a minha incapacidade de trazer algo novo para sua leitura. Já sei, um poema, um pequeno poema, e pronto. Escolho este de Machado de Assis por identificação, pois me parece que ele também penou para escrever qualquer coisa sobre o Natal. 

Aonde chegamos? A Machado. Ótima companhia.

(Ah, antes que eu me esqueça, feliz 2017. (Se for possível.))





Soneto de Natal
            Machado de Assis

Um homem, — era aquela noite amiga,
noite cristã, berço no Nazareno, —
ao relembrar os dias de pequeno,
e a viva dança, e a lépida cantiga,

quis transportar ao verso doce e ameno
as sensações da sua idade antiga,
naquela mesma velha noite amiga,
noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
a pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”


Ilustração retirada do site de Antonio Miranda.

12.12.16

Os porcos

Apesar de o calendário chinês dizer que 2016 é o ano do macaco, no Brasil estamos quiçá na era do porco. O campeão da primeira divisão do futebol é o Palmeiras, cujo mascote é o porco. Um dos fiéis amigos do homem que ocupa o Palácio do Planalto, o ex-ministro que tentou impor-se a outro ex-ministro e com isso garantir o sucesso de um negócio privado, era chamado pelo Renato Russo, quando ambos eram adolescentes, de porco. E porco também foi como Fidel Castro se referiu a Carlos Lacerda, na época do golpe de 1964, conforme texto compartilhado numa rede social pelo historiador Carlos Fico.

O porco virou mascote do Palmeiras depois de ter sido, durante anos, a forma jocosa com que os adversários destratavam o time. Ou seja, o Palmeiras construiu um castelo com as pedras atiradas contra ele e fez do porco seu símbolo, desenhando-o não como um bicho bonachão e lento, fácil de ser vencido, mas sim como um verdadeiro super-herói, de semblante atlético e guerreiro. Jogada de marketing ou não, o fato é que deu certo, a torcida se reconhece no porco, e o Palmeiras, que andou pela segunda divisão, tornou-se o campeão de 2016, maldito ano estranho, inclusive para o futebol, que termina a temporada chorando a tragédia sofrida pela Chapecoense.

Em torno de Carlos Lacerda, o porco de Fidel, há polêmica de sobra. Governador obreiro (dele são o Aterro e a adutora do Guandu), político golpista (além de protagonista em 1964, havia tentado, anos antes, impedir a posse de Juscelino), administrador autoritário (removeu, na força bruta, várias favelas da zona Sul), foi ainda figura marcante no suicídio de Vargas. Enfim, um sujeito, feito o próprio Fidel Castro, complexo. Perto dele, o não amigo de Renato Russo, agarrado a escândalos desde a época dos anões do congresso, não passa de um porquinho-da-índia, o roedor que não é nem porco nem da Índia e que, mesmo sendo fofo a ponto de Manuel Bandeira declarar que sua primeira namorada havia sido um deles, rói até os alicerces da casa, caso fique solto e sozinho.

Quando penso no porco, porco, lembro-me dos Natais da minha infância. Neles, a leitoa era a peça de resistência, o mais esperado dos pratos. Pois bem, os fornos residenciais não davam conta de assá-la, então recorria-se às padarias, por sua vez com capacidade limitada para atender a demanda. O plano B consistia em levar a leitoa ao Bidu, no restaurante que ficava na zona, lugar que, de repente, deixava de ser não franqueado a senhores casados e pais de família para se transformar na salvação da festa cristã. Quanta senhora de respeito, em alto e bom som, ordenava ao marido que fosse até a zona e pedisse ao Bidu que caprichasse. E os pais, cumpridores de sua tarefa, aumentavam um ponto ao recado: "Bidu, capricha... Mas não tenha pressa”. Os Natais eram festas alegres graças aos porcos, ao Bidu e às putas, que muitos pais só apreciavam com os olhos e outros, com o corpo todo.

Wagner Tiso, Pink Floyd, Hermeto Pascoal fizeram músicas pensando nos porcos. Tiso, em “A morte do porco”, fez uma melodia triste, como é a própria morte desse animal que não se cala diante do abate. “Pigs”, do conjunto inglês, levanta-se contra os homens-porcos, ricos e poderosos, que, ao contrário das aves de Gonçalves Dias, aqui grunhem como grunhem lá. Já Pascoal sapeca uma “Porco na festa” e nela estribilha: “o mocotó tá duro pra danar/vou pedir de novo pra cozinhar”. Os porcos estão na literatura (“Os três porquinhos” e “Porcos com asas”), no cinema (“Montenegro ou porcos e pérolas” e “Babe, o porquinho atrapalhado”). O cofre da poupança miúda tem formato de porquinho. O artista belga, Win Delvoye, tem causado escândalo ao expor porcos tatuados cujas peles são vendidas a preços exorbitantes para grifes famosas. Não estranharia se certos amantes chamassem uns aos outros de porcos.

Porco é um bicho só para muitas coisas.