25.6.17

Três leituras

Meu amigo Ricardo me deu “Águas-fortes cariocas” (Rocco), livro de Roberto Arlt, escritor argentino, contemporâneo de Borges, o cego. Águas-fortes era o nome da coluna que o escritor mantinha em um jornal de seu país, na qual escrevia o que se pode chamar de crônicas. Pois bem, em 1930, Arlt veio ao Rio de Janeiro, ficou por aqui uns dois ou três meses, e escreveu bastante sobre sua estadia  a Rocco, muitos anos depois, organizou o livro. Sua visão da cidade é, na perspectiva de hoje, no mínimo chocante. Primeiro, associa o carioca a um povo que não se dedica à alegria, trabalhador obstinado, que dorme cedo — várias vezes, o portenho despeja sua ira contra a cidade que, ao contrário de Buenos Aires, não tem vida depois das vinte e três horas. Mais: se surpreende com o grau de honestidade de nossa gente, incapaz de furtar o leite e o pão que, logo de manhã, são deixados à porta das casas. Nessa linha, sente falta dos malandros de sua terra, gente que lhe era próxima e que estava preocupada em achar formas seguras de assaltar uma casa. No entanto, seu maior espanto se dá quando descobre que muitos daqueles negros com quem eventualmente mantinha contato eram escravos havia menos de cinquenta anos. Escravos trabalhadores e operários incultos – novamente um contraponto com a Argentina, que, bem ou mal, tinha sindicatos e clubes que estimulavam a leitura — faziam do Brasil, na sua opinião, um país submisso. Perdemos nossa honestidade — aquela para argentino ver — nalgum momento, porém, e é aí que o olhar estrangeiro nos ajuda, temos sido um povo manso, excessivamente manso.

Sou velho, constato ao ler Eduardo Sabino, escritor mineiro de uma geração recente, que, se não vive, pelo menos é de Nova Lima. No seu livro de estreia, “Naufrágio entre amigos” (Patuá), ele faz uma espécie de coleção de contos de formação, expurgando a juventude. Minha tenra idade foi tão diferente daquela que escorre pelo livro, apesar de também ter tomado meus porres, ter enfrentado contratempos na escola. A diferença aparece no nome das bandas que os personagens ouvem, na forma como lidam com a internet e, principalmente, com a cultura dos jogos eletrônicos. Por conta dos jogos, aliás, boiei ao ler “Jogo de três”. De todo jeito, há contos menos datados, digamos assim, e um deles se tornou o meu preferido, “Strawberry fields forever”. A história se passa no dia em que morre a avó do narrador, cujo pai é o prefeito da cidade. Eduardo mostra, de um lado, o comportamento estudado e comedido do homem público, em torno do qual desconhecidos se debruçam com uma falsa solidariedade, e, de outro, já longe do teatro, em um ambiente íntimo ainda que inusitado, o seu desmoronamento.

Sou frequentador da livraria Travessa de Botafogo e tenho dois queridos lá: o Bruno e o Leonardo. Ambos são ótimos livreiros, mas, além disso e razão pela qual são tão bons no que fazem, estudam e escrevem. Pois bem, dia desses encontrei-me com eles e, durante o papo, me indicaram a Stela do Patrocínio (“Reino dos bichos e dos animais é o meu nome”, Azougue). Stela foi, assim como Bispo do Rosário, interna da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Se não entendi errado, alguma pesquisadora viu que a fala de Stela era poética e a gravou; Viviane Mosé, em contato com a gravação, transformou a fala em poema escrito. Não vou andar na corda bamba na qual Ivan Cavalcanti Proença se meteu ao dizer que Carolina Maria de Jesus — a escritora pobre e favelada autora do clássico “Quarto de despejo” — não fazia exatamente literatura, nem vou sair em defesa de ninguém, como o fez muito bem, neste caso, a Elisa Lucinda; simplesmente agradecerei a meus amigos livreiros e literatos terem me apresentado à Stela. Ela é capaz de dizer uma coisa assim: “Não deu tempo / Eu estava tomando claridade e luz / Quando a luz apagou / A claridade apagou / Tudo ficou nas trevas / Na madrugada mundial / Sem luz”. Pode ser apenas uma frase proferida por um doido, mas que frase, Deus da Poesia! Salve, Nise da Silveira, a psiquiatra que esteve na gênese de artistas tão fortes como a Stela e o Bispo.

12.6.17

Essas palavras...

... um tanto quanto clichês

Naqueles dias eu matava grito a perros e dormia de olhos deitados e corpo fechado. Sopesava cá com meus bordões jobinianos: o brasileiro não é para princípios claudicantes. Tentado a me distrair, assoviava tocatas e afastava-me da filosofia esbeiçando o pensamento em frase desfeita, por exemplo, uma que assim: não amo tudo que tenho, por sorte não tenho nada. Ai, ai, a caixinha é um futebol de surpresas.

Diabo velho, íntimo da cruz, fazia fé de que o trabalho havia sido criado pelo desleixo de Deus e que a vaca profana nascera com o brejo pra lua, certezas essas que me transformaram num descrente prontinho, prontinho para, não podendo mais, mandar tudo às favas e às fulvas paridas pela cor mais quente.

Voltando àquela sequência de exceções regradas - os fatos, nada mais que eles -, os tropeços dos comandantes foram tantos, mas tantos, que a lamparina do espírito desinstruiu-se de vez e aspergiu escuridão para tudo quanto é lado, a ponto de uma só andorinha obrar e voar pro verão. 

... irônicas

— Moço, onde encontro explicação para a escravidão que não acaba, a corrupção que só faz crescer, a violência arraigada na gente?
— Lá no Grito do Ipiranga!

... marítimas

Nem todo vento venta como deve ventar. Quem inventa inverna; quem inverna inveja. O resto é naufrágio. 

... de morte e de vida

Morri três vezes: de pinote, amor e preguiça. Sempre voltei de costas pelo Aqueronte e de peito pelo Estige e, num caso e no outro, cruzei o caminho de Caronte, a quem duas moedas e um silêncio eu devia e ainda devo, e por ele nunca fui visto. A sorte nadou comigo, por isso nasci três vezes, mas aí já não me lembro como.

29.5.17

O som dos destroços

Totora, Bolívia. Foto do autor. 
Escrevo esta crônica a partir da perda de uma foto, aquela 3 x 4 que o tio Raul me deu. Tinha uma dedicatória: “A mi querido sobrino Alexandre, un abrazo fuerte y apretado de su tío Raulito”. As palavras, se não eram essas, soavam mais ou menos assim e foram escritas em espanhol — nesse espanhol castiço, que não é meu, esclareço, é de meu irmão Gonzalo, a quem pedi socorro enviando-lhe um arremedo da frase em português, na hora transformada por ele nesta tão boliviana.
Tio Raul era, em meados da década de 1980, a única pessoa em Totora, pequeno município boliviano, na região de Cochabamba, que tinha, graças a uma geladeira a gás, cerveja gelada. Depois de um dia inteiro bebendo ora chicha, ora cerveja quente, papai se lembrou do tio Raul. Papai? Na Bolívia? Vejo-me obrigado a recuar um pouco, a soldo da clareza e em seu benefício, leitor.
Eu e Carlos, um amigo chileno, fomos à Bolívia com o propósito de passear por algumas cidades até chegar a La Paz, onde encontraríamos o Gonzy e de lá seguiríamos para o lago Titicaca, na divisa entre a Bolívia e o Peru. Não vem ao caso, a este caso confuso, mas a parte de chegar ao Peru não se concretizou. Tomávamos, a cada noite em La Paz, um porre e, na manhã seguinte, não tínhamos saúde para a viagem. Foram quinze dias de farras alcóolicas memoráveis.
Mal chegados à Bolívia, ainda na estação, encontramos um amigo boliviano que estava com outro boliviano, desconhecido e mais velho que a gente. O “coroa” nos contou que saíra do país havia uns vinte anos, e, desde então, nunca voltara. Ele iria visitar a família. Onde? Em Totora, claro. Ainda na plataforma, eu e Carlos aceitamos o convite para o réveillon da volta do filho pródigo à Bolívia.
Na cidade, aquele que sumira no mundo e cujo nome me escapa, ao nos apresentar ao irmão, na casa de quem ficaríamos hospedados, disse que eu e Carlos éramos seus filhos. (Entenderam por que falei em pai?) Que ator! Que ficcionista! Como eu não falava nada de espanhol, e o Carlos era chileno, papai inventou que Carlos namorava uma chilena, “maldita chilena”, reforçou, mostrando indignação com o fato de um boliviano se envolver com aquela gente que roubara o mar de seu país. Por esse namoro, Carlos falava com desenvoltura e sotaque do inimigo, enquanto eu, o caçula e seu xodó, um brasileirinho típico, não fazia esforço algum para aprender a língua paterna.
A empatia entre mim e tio Raul, tão logo tomei-lhe a bênção, foi tão grande que o velho comerciante, ao contrário do que esperávamos, não cobrou pelas cervejas. E ainda me deu a foto autografada — a foto que perdi. O que é roubar o mar diante de uma encenação como aquela? Maldito fui eu.
O povo de Totora, tio Raul em especial, gabava-se de a cidade ter sido rica, prova disso era que, no início do século XX, havia, espalhados por suas casas, onze pianos. O instrumento figurava como o símbolo de uma ostentação, de uma ostentação sepultada no tempo. O vilarejo (não passava disso) não tinha mais nem os pianos nem nada que lembrasse a antiga riqueza.
Lembrei-me de Totora e consequentemente de tio Raul e da foto enquanto via, desatento, um documentário sobre a Síria. Nele, ao visitar Aleppo, o repórter entra em uma das poucas casas que ainda mantinham a estrutura intacta. Pensei ver, entre os móveis, um piano. Um piano na guerra. O piano entre os destroços. O piano.
Polanski dirigiu “O pianista”, baseado numa história real passada na Polônia tomada pela Alemanha. Quando os russos, já no fim da guerra, começam a expulsar os alemães, o músico judeu, depois de se esconder faminto num edifício em ruínas, é encontrado por um oficial nazista que lhe pergunta qual a sua profissão. Pianista, ele responde. O militar — homem entediado, no qual uma dose de humanismo sobreviveu ou foi revivida naquele momento em que, talvez esperançoso, se vê voltando ao convívio de sua família, em período de paz — pede ao judeu que toque no piano empoeirado que resistiu à guerra. Władysław Szpilman toca a “Balada No. 1 em G Menor, Op. 23”, de Chopin. A música o salva.
Não tenho ideia de como Totora estará hoje, deduzo que tio Raul não está mais entre nós — como não está a foto, que, enganado, me deu como prova de amor. Além disso, arrisco dizer que onde houver um piano, haverá a possibilidade de revitalização. Foi assim em Varsóvia, espero que seja assim em Aleppo. A decadência de Totora foi medida em pianos perdidos.
Totora, Bolívia. Foto do autor.