12.1.18

10 01 — do ano da graça de 2018

Não acredito em numerologia, nessas coisas, mas ontem, 10 do 01, foi um dia interessante, vai que tem a ver com a data espelhada, não é? Pois bem, o dia começou da seguinte forma: ouvi a conversa entre aqueles que chamei de revoltados da aurora (dois senhores, na primeira hora da manhã, enquanto levavam seus cachorros para as necessidades matinais, ameaçavam destruir a assembleia e o congresso na porrada) e li, num cartaz-propaganda de um leitor de búzios, a promessa de, depois de uma consulta, o cliente “ter êxito em seus problemas”.

Trabalhei, como sempre trabalho. No fim do dia, resolvi ir ao cinema. Seguindo a dica de meu amigo e xará, o poeta Alexandre Marino, fui ver “The Square — a arte da discórdia” (Ruben Östlund). Sobre o filme, digo que é importante, senão fundamental, vê-lo nesse momento. O crítico José Geraldo Couto, na primeira vez que falou do filme (no site do IMS), fez elogios rasgados, na segunda, recuou um pouco, viu certo didatismo no filme, uma tentativa de açambarcar todas as questões pungentes dos dias de hoje. É até possível que ele esteja certo, mas tudo no filme é colocado de forma intensa, verdadeira, então, a meu ver, esse didatismo se perde ou perde a importância.

Comprei o ingresso e dei um pulo na livraria que fica a um quarteirão dali. No caminho, esbarrei em dois escritores numa ilha que separa as calçadas da rua. Brinquei com eles dizendo: “poxa, já somos poucos e vocês ainda ficam aí, expostos ao perigo.” Rimos, e eu tratei de seguir para a livraria, sabia muito bem o que queria lá. Há algum tempo, numa conversa com a Suzana Vargas, ela me disse que havia conhecido e ganhado um livro do Marcelo Maluf. Me aconselhou fortemente a lê-lo. Depois, no Face, o Eugen Weiss, respondendo a uma enquete sobre quais seriam os bons escritores da atualidade, tascou um Marcelo Maluf. Então eu ia à livraria para comprar um Maluf, este, não o outro, aquele. E fui. Lá, o poeta, cantor e livreiro, Leonardo Marona, botou a livraria de cabeça para baixo (exagero) para achar ao “A imensidão íntima dos carneiros” (Editora Reformatório). Eu e Leonardo, antes de qualquer coisa, ficamos embasbacados com o título, e, agora, avançado na leitura, posso dizer que o livro é bom, aliás, bem bom.

Voltei ao cinema, encontrei dois amigos, sentei num cantinho, comecei a ler a minha recente aquisição. Entrei pra sala, fui desligar o celular e, antes, resolvi dar uma espiada no Face. Para minha surpresa, o querido Marco Túlio Costa acabara de publicar um texto sobre o meu “O bichano experimental” (Patuá). Coisa linda. Respondi a ele o seguinte: “Eu aqui esperando o filme começar, numa sala lotada, onde devo ser discreto, e leio isso. Não posso gritar, nem chorar. O que me resta senão sentir-me um bichano feliz, ronronar baixinho e firmar um compromisso de, saindo daqui, tomar um chope e propor um brinde aos deuses? Valeu, grande Marco Túlio Costa." Ao sair da sala, encontro meus amigos Shirley e Átila. Cada um deles carrega uma garrafinha de cerveja. O Átila me dá a dele, já vai entrar no cinema (para assistir ao “The square”) e é com essa garrafa que cumpro o prometido e brindo aos deuses as palavras sobre o livrinho. Depois, fui pra casa comer macarrão com salsicha e, sentado no computador, ficar ouvindo o Catho, esse jovem cantor de quem nunca ouvira falar.

8.1.18

O inadiável

Acorda com a sensação de que está atrasado, de que espera por ele uma urgência não revelada.

Faz o asseio matinal sem apuro. Engole o pão e bebe apenas meia xícara de café. Não arruma a cama. Não troca uma ideia com o porteiro. Enfia-se no carro.

Enfrenta o trânsito com fúria. Faz ultrapassagens pela direita e pela esquerda, avança sobre a pista exclusiva dos ônibus, pouco se importando se, na primeira, na segunda ou na terceira vez, a câmera o flagre e multe seu excesso. Espreme um ciclista contra o meio-fio. Fura sinais e, quando não o faz, buzina — se depende de que outro carro, a sua frente, dê a arrancada — ou, se é o primeiro parado no sinal, engata a marcha e toca ainda que algum pedestre esteja terminando de atravessar a rua. Xinga o pedestre. Lamenta a falta de civilidade dos moradores de sua cidade. E acelera mais ainda.

À entrada do prédio onde trabalha, fura a fila dos automóveis que se encaminham para o estacionamento. Para de forma irregular na primeira vaga que encontra e nem se importa com as advertências do encarregado. Pega o elevador. Sai do elevador. Toma o outro elevador. Lê, no monitor de TV, que são 7h39m. Chegou cedo, a tempo (de quê?).

Dá bom-dia aos poucos que estão no escritório. Recebe, em troca, olhares desconfiados, irônicos talvez. Deve ser a hora, ele nunca chega tão cedo, é da jornada das 10h às 19h. Mas hoje é diferente, precisa se organizar.

Onde estão seus pertences? Suas canetas? Seus papéis de rascunho? A calculadora? O chefe ainda não chegou. A secretária tampouco. Depois se encarregará de saber o que aconteceu. Liga o computador. A senha é recusada. Uma, duas vezes. Se errar a terceira, terá problema, terá de pedir uma nova senha e não conseguirá uma tão cedo, os responsáveis por isso não teriam motivo para estar no escritório antes das 8h. Resolve tirar da bolsa uma caneta, um papel de rascunho, o celular para usar a função calculadora. Suspira.

— E aí, aposentado? Esqueceu o que por aqui? — Eleutério, em tom jocoso, deixa a frase no ar e dirige-se à sua mesa de trabalho, lá na ponta extrema do salão.

Na sexta-feira anterior, havia saído no Diário Oficial, hoje é seu primeiro dia útil de aposentado, ele não se deu conta, ao contrário, acordou com aquela sensação de trabalho por fazer, de rotina a cumprir. Sente vergonha. Recolhe o que espalhara pela mesa, desliga o computador. O que dirá ao chefe? À secretária? A todo mundo?

Acomoda-se na cadeira. Infla o peito de ar. Fecha os olhos. E morre.

25.12.17

Repertório

O editor da Rubem é um jovem, o Henrique Fendrich. Nem bem sei como um dia ele me convidou para escrever em sua revista eletrônica, o fato é que eu aceitei, e minhas crônicas por ali passeiam há mais de cinco anos. Encontrei em Henrique um conhecedor da crônica brasileira, um senhor conhecedor, melhor dizendo. Ele, que também é cronista dos bons, realmente leu tudo, o que deveria garantir-lhe um espaço nas festas literárias, nos saraus do Sesc, em júris de concurso, mas, até onde alcanço do seu dia a dia, isso não acontece. O jornalista Henrique vive de trabalhos avulsos em Curitiba. Oh, Brasil!

A erudição do jovem editor, vez por outra, levanta do pó do esquecimento algum ou alguma cronista. Recentemente foi a vez de Marisa Raja Gabaglia, escritora que escancarava o peito, virava-se do avesso. Não conheço absolutamente nada do que ela escreveu, portanto foi no perfil feito pelo Henrique que encontrei a seguinte frase: “Sonho com a família perdida como se a pudesse recuperar. Sonho com a família como os cegos sonham com a luz.”

Em meados de dezembro, passei uns dias na companhia do meu amigo Marco Túlio Costa — um Escritor, disse noutra oportunidade e repito em quantas julgar necessário. Acontece que o Túlio não é só um escritor, é também um sujeito que vira e mexe arruma um projeto para atuar como voluntário. Seu livro “A árvore do medo” (Editora Formato), por exemplo, foi escrito a partir de suas oficinas com crianças carentes da cidade de Passos, onde vive. Ultimamente, ele trabalha com a Associação dos Deficientes Visuais. Nesses dias que passamos juntos, meu amigo me contou várias histórias da turma que acompanha, histórias divertidas, pois aqueles cegos são alegres e contornam com humor suas limitações. Túlio perguntou a dois cegos de nascença se eles sonhavam e com o que sonhavam. A resposta é que sonhavam com sons e tatos.

Marisa Raja Gabaglia, ao dizer que sonha com a família da mesma forma como os cegos sonham com a luz, está idealizando o sonho dos cegos ou simplesmente está dizendo — ela, que abriu mão da sua — que, na verdade, não sonha com família alguma? A julgar pelo levantamento da vida da escritora, esse do Henrique, a frase está apoiada na ilusão de que os cegos sonham com a luz, pois Marisa era carente do convívio familiar.

Certa vez, ouvi o Túlio (onipresente por aqui) aconselhar algumas professoras do ensino médio a não se preocuparem com o que o escritor quis dizer; como leitores deveríamos nos perguntar o que aquilo escrito sabe-se lá por quem significa para nós. Acabei de dar esse tropeço, mas até certo ponto justifico-o. Não houvesse eu sido alertado para a espécie muito singular de que é feito o sonho de um cego (pelo menos aqueles que nasceram assim), a frase de Gabaglia teria uma única leitura. Tendo ganhado repertório, a leitura se multiplicou e desse modo tornou-se mais interessante. Ah, como isso é bom. E como leva uma vida inteira nosso processo de alfabetização.