13.11.17

Na rua

Fui conversar com o sujeito na rua. Ele me olhou com aquela cara de que pior do que estava poderia ficar, acabava de ficar. Pedi a ele que me perdoasse, não ia incomodá-lo, ou pelo menos não ia incomodá-lo muito. Ele disse que não conhecia bem o bairro, se fosse, então, para obter informação talvez não pudesse me ajudar. Melhor seria se eu falasse com a moça da banca de jornal, com o vendedor de frutas na esquina.

Toquei em seu ombro. Ele deu dois passos para trás, levantou as mãos, deixou claro que não queria esse tipo de intimidade. Bisei minhas desculpas. Ele me mandou desembuchar logo, tinha pressa. Acrescentara certo pavor à cara de poucos amigos. Achei melhor tranquilizá-lo, eu não era um assaltante. Contestou em tom irônico, eu não precisava ter feito esse esclarecimento, via-se logo que eu seria incapaz de um gesto desses. Emendou com todas as letras: “Tu é um bunda-mole.”

Nesse instante, me enfezei, afinal de contas por que tamanha violência? Apontei-lhe o dedo, cocei a garganta e soltei um “pera lá, pô”. Ele quase riu, mas novamente ergueu as mãos e fez um gesto de que estava tudo bem, que eu deveria desconsiderar suas palavras. Chamei a atenção para o fato de que a conversa, que seria breve, estava se arrastando à toa por culpa dele. Fez não com os indicadores da mão direita e da esquerda. Era uma figura ridícula, afetada com aqueles dedos tremelicando ao deus-dará, à moda do presidentinho canalha, mas sem imunidade, desprotegido e largado na rua do meu ou do nosso bairro. 

Diante de quadro tão hilário, caí na risada. Ri de me curvar, mostrando-me igualmente ridículo. Dessa vez, foi ele quem tocou meu ombro. Eu me afastei, estendi as mãos e o retive. Ele me olhou bem no fundo dos olhos. Se não fôssemos dois desconhecidos, diria que o amor nos envolvia. Alguma fraternidade.

Numa rua movimentada e barulhenta, nem eu nem ele demos muita importância ao silêncio que estava ali entre nós dois e que servia de base ao olhar afetuoso que trocávamos. Foi um menino quem, agarrado à mãe, perguntou a ela por que estávamos assim, quietos e olhando um para o outro. A mãe deu-lhe um puxão, uma espécie de cala-boca, uma lição de que não é bom se meter na vida alheia. Eles passaram, e eu voltei à tona, reclamei de que já estávamos servindo de chacota aos outros, que precisávamos acabar logo com aquilo. Quis saber se poderia fazer a pergunta que tanto queria. Ele disse não.

Não? Como não? Já havíamos perdido um tempo razoável ali parados na rua, e agora ele vinha com esse papo de não? Deu de ombro, não era problema dele. Fiquei furioso, a que ponto as relações humanas estavam chegando. A maldita rede social separava as pessoas umas das outras, ninguém mais sabia como manter uma boa convivência. Nervoso — cuspia, bem sei —, eu não admitia ser tratado daquele jeito. Ele cruzou os braços, fez pose desses brutamontes que se miram antes da luta. Imediatamente fiz o mesmo. O menino e a mãe passaram por nós mais uma vez. O menino, desatento à lição dada havia pouco pela mãe, não resistiu e riu da nossa cara, com um dos dedos fez rodinha em torno da orelha. Doidos, era isso que éramos para ele.

Não me importei muito com o menino, mas o sujeito que não queria conversa ficou uma arara. Despejou sobre mim um monte de impropérios. O que eu provocara havia nos levado àquela situação vexatória. Exigia que eu lhe pedisse desculpas, mais até, que eu, em alto e bom som, fizesse chegar o pedido ao menino, à mãe, ao vendedor de frutas, à moça da banca de jornal, ao motorista de ônibus que passava por ali naquele instante, ao taxista que pegava um velhinho com dificuldade para entrar no carro, ao mendigo que caminhava bem no meio da rua, indiferente a tudo e a todos. À medida que ele falava, fui sendo tomado por uma espécie de culpa, quase entro no jogo, quase me desculpo com o mundo. Buscando reencontrar meu caminho, um acerto de contas com as minhas reais intenções, respirei fundo.
O autor no bar Ouro Preto, Itaim Bibi, São Paulo.

Eu havia puxado assunto com aquele homem apenas para falar com alguém. Não tinha dúvida de nada, não tinha questões a levantar. Sabia todos os caminhos, conhecia todas as lojas, botequins, padarias. Mas estava só, absolutamente só. Tudo que acontecera a mim e ao desconhecido, aquela série de mal-entendidos, abrandara meu estado insular, deixara-me satisfeito, devolvera-me à vida.

Falei bem baixo que não me desculparia, também não lhe faria pergunta alguma. Que ele ficasse bem. Já seguia adiante quando ele me chamou e, quase aos gritos, assim pelo menos me pareceu, quis saber se eu era feliz. Fez a pergunta, mas não esperou a resposta, virou-se e foi embora. Caminhei em direção oposta. Vi, do outro lado da rua, o menino no colo da mãe. Ele me apontava. É possível que dissesse: “Mãe, lá vai o moço feliz.”

29.10.17

Aprendido, reaprendido, por aprender


Nos últimos dias, aprendi que as estrelas se formam por meio de gases, o que não é novidade para ninguém, mas para mim era até bater os olhos naquela tela de TV existente no elevador do prédio no qual trabalho. Nem bem li o enunciado, e o texto em si era apenas o enunciado, pensei: meu deus, nossos puns de hoje serão as estrelas de amanhã. Ao mesmo tempo, me lembrei de que o metano é um dos maiores responsáveis pelo efeito estufa. Qual o balanço afinal: mais estrelas ou mais buraco na camada de ozônio? Incapaz de responder, resta-me rogar aos céus para que caiba na cozinha do universo algum espaço para o delírio dos incautos.

Não que eu não soubesse, sabia e sei faz tempo, mas nos últimos dias reaprendi, a duras penas, sempre é a duras penas, que uma ideia se esvai facilmente. Havia fechado o livro que estava lendo ("Tirza", de Arnon Grunberg, publicado pela Rádio Londres) e me ajeitava para dormir quando uma insinuação de verso me tirou o sono. Poderia ser o início de um poema. O verso ligava o silêncio à imagem de um cão sem lua. A questão é que, sem ter me levantado e anotado a ideia, do possível verso só guardei essa ligação tênue entre o silêncio e um cão sem lua. O verso em si, se houve, foi perdido, um poema que poderia ter sido escrito foi abortado, ou melhor, nem foi concebido — ah, Onã, deus da infertilidade! Se minha ignorância permite até fazer piada com essa evidência de os gases formarem as estrelas, no caso da perda de um verso, eu — esse escritor calejado (ah, Onã!) e preguiçoso, colecionador de versos perdidos — transito além da lamentação e me puno. De que maneira? Não conto, não quero que alguns leitores sintam alegria por isso.

Dados o aprendido e o reaprendido, o que ainda pode aprender um burro velho feito eu? Ganhar dinheiro. Vestir-me bem. Arrumar o cabelo. Cortejar uma dama. Rir sem motivo. Engraxar os sapatos. Falar inglês e/ou javanês. De todo modo, falar pouco e na hora certa. Pescar. Ter espírito crítico. Aderir a uma causa. Cantar no tom e sem errar a letra. Piscar um olho só. Chutar de canhota. Chutar no gol. Dançar de olhos fechados. Beijar de olhos abertos. Ler Ulysses.

Caramba, faltam muitas coisas, vou precisar de mais umas três vidas. Filho de mascate, mascatinho, portanto, proponho uma barganha: aceito morrer no espaço desta vidinha mesmo, mas, em troca, exijo que os ratos que roem os nossos queijos, sapatos, calcanhares, calças, que roem as nossas vergonhas, cuecas, barrigas, camisetas, que roem os nossos queixos, brincos, cabelos, chapéus, que roem nossa decência, enfim, roam uns aos outros até se consumirem. Como isso não acontece assim, de graça, cada um que arme sua ratoeira, recolha seus ratos e os envie para aquela gaiola, o xilindró. O voto (ou o não voto) bem pode fazer esse papel de armadilha 



16.10.17

Tomates e liberdade

É metafórico: um grupo que defende a devolução do poder aos militares jogou tomates num senhor que parece determinado a não deixar o presente cumprir sua sina de vir a ser futuro. Em permanente embate, o Brasil lançou ao ringue dois adversários que carregam em si o pior deste país cheio de piores. Vendo-me obrigado a torcer nas várias porrinhas do nosso dia a dia, dou de ombros, mas não lavo as mãos, e saio para caçar alguma esperança.

Encontro na Maré um pouco dela. Um pouco, eu disse. A solução não está inteiramente ali, claro que não, mas na Maré (nas favelas) há uma juventude que resiste sem fuzis e lamentações a isso que temos chamado de guerra às drogas. Essa juventude busca, por meio da palavra, da música, das artes plásticas, se meter entre o tráfico e o Estado para dizer que não aceita o papel que reservam a ela. Há ali uma força descomunal que, por sorte, encontra espaços de acolhida, como o Observatório das Favelas e o Centro de Artes da Maré (para ficar restrito à Maré). Aquela turma não vai se calar e vai cobrar seu espaço. Os passadistas e os que não querem perder o status quo serão engolidos por movimentos desse tipo, pois há um país novo brotando deles. Um país que é jovem, negro, feminino e elegante. O “Poetas Favelados” é a síntese disso tudo.
Silvana Mezenes, do site do Mulherio.


O Mulherio das Letras, cujo primeiro encontro se deu nesta semana em João Pessoa, é mais que um grupo de escritoras que busca chamar a atenção para o fato de que a presença das mulheres na literatura — e não só nela — tem relevância diminuída. Ao acontecer num estado do Nordeste e ao adotar um modelo no qual não há exatamente palestras, o encontro questiona várias coisas ao mesmo tempo, entre elas, a centralidade Rio-São Paulo e a verticalização num mundo — o da literatura e das artes de modo geral — no qual os artistas devem se posicionar a favor da igualdade e da proximidade.

Perspectiva da exposição "Faça você mesmo sua Capela Sistina"
A reação que os artistas — e não só eles — têm tido aos ensaios (em alguns casos, bem mais que ensaio) de censura é outro canto de esperança. Ouvi relato de uma mulher que, diante da manifestação ruidosa de alguns religiosos inconformados com a exposição “Faça você mesmo sua Capela Sistina” — de Pedro Moraleida, um artista plástico que morreu muito jovem —, resistiu à presença ameaçadora percorrendo, ainda que assustada, a sala do Palácio das Artes de Belo Horizonte de cabo a rabo. Logo depois, grupos faziam ato de protesto em defesa da exposição e, claro, da própria liberdade. Outros movimentos, com adesão de artistas conhecidos, têm se organizado para fazer frente aos censores.

Termino contando o que li em Frei Beto — num artigo n’O Globo, em 9 de outubro. O religioso diz que no século XVI a inquisição obrigou Daniele de Volterra a cobrir todos os nus que Michelangelo, seu mestre, havia pintado na Capela Sistina. João Paulo II mandou restaurar os originais uns quinhentos anos depois. Não sejamos os novos inquisidores. Não precisamos concordar com tudo, é até bom que não, mas vamos exigir que uma coisa só seja respeitada: a liberdade.