19.3.17

Trouxa não sou e tolo ele não é

Em 1982, Blade Runner estreou nos cinemas brasileiros. Eu tinha vinte e um anos, era um garoto articulado, assistia a filmes incompreensíveis e os entendia muito bem, o que não aconteceu com esse de Ridley Scott. Uns anos depois, fui revê-lo e, aí sim, a ficha caiu. Aquela ficção acerca do futuro — agora muito próximo, pois a história se passa em 2019, na cidade de Los Angeles —, na realidade e de forma muito sintética, falava do atrito entre nossas forças humanas e desumanas. Não vou comentar o filme, minha intenção é falar de um fato não entendido em certo momento, mas que, num futuro próximo ou distante, torna-se claro, transparente, até óbvio.

Eu gostava de uma menina, vivia me insinuando para ela. Na piscina da casa do Zeca, ela me chamou de pateta. Engoli seco, dei umas braçadas na água e achei que, apesar da ferida enorme, seria capaz de levar a vida adiante. (Ah, a intensidade da juventude!) Ainda na mesma tarde, na roda de amigos, a garota comentou que seu personagem de gibi preferido era o Pateta. Tão evidente, não é? Pois eu, amargando o golpe do desprezo, não me dei conta de que ela, se não dizia me amar, pelo menos deixava no ar uma chance, uma maldita chance desperdiçada.

Se cobro um pouco mais da memória, encontro outros momentos feito esses, nos quais precisei de uma segunda chance para me livrar da ignorância (o filme) ou, pior ainda, nem notei a segunda chance (a paquera).

Mais uma história. Encontrei um ambiente hostil numa nova área em que fui trabalhar. Um amigo, antevendo o problema, encorajava-me e apostava na minha personalidade gelatinosa, capaz de fazer com que eu ignorasse as ameaças e as bolas nas costas que receberia. Ele estava errado. Num período de uísque e arrastados serões, vi brotar meus mais perenes e doloridos calos.

Como se diz, o tempo é uma escola e nela aprendemos a cantar fagueiros aquela música do Arnaldo Baptista: “Sou malandro velho, não tenho nada com isso”. Um parêntese. Arnaldo Baptista fez essa canção — “Cê tá pensando que eu sou loki?” — bem jovem. Um tempo depois, se jogou por uma janela e quase não experimentou a velhice. Hoje, por sorte, pela medicina, por um amor que foi cuidar dele no hospital e nunca mais o abandonou, o talentoso mutante beira seus setenta anos. Posso estar enganado, mas a aventura aérea enfiou Arnaldo numa espécie de juventude eterna, bom lugar para quem, com menos de trinta, era malandro velho e não se responsabilizava por nada daquilo.




Saio do parêntese. Sintetizo o que disse até agora: sou bobo, mas trouxa deixei de ser. Alguns mais, outros (como eu) menos, todo mundo passa por essa evolução, como provam as muitas associações feitas entre a velhice e a sabedoria. Mas, cuidado! Há, de um lado, o que não aprende de modo algum (o tolo) e, de outro, o que aprende tudo, mas, por maldade, se faz de incapaz (o tinhoso). Um exemplo? O senhor que, no Dia Internacional da Mulher, bradou valores do século XIX ao saudar a importância da mulher caseira, que, fora do lar, no máximo, ajuda o país economizando na compra do supermercado. Então, tolo ele não é.

2.3.17

Efemérides (quase familiares) de março



Rosa de Luxemburgo nasceu num 5 de março, assim como, citando um dos nossos, Heitor Villa-Lobos (que viria a morrer num 17 de novembro, dois anos antes de eu nascer e no mesmo dia do nascimento de meu amigo Átila). Ambos no século XIX. No século XX, a data trouxe ao mundo Patativa do Assaré, em 1909; e Pasolini, no ano em que o modernismo brasileiro havia mostrado, durante o mês de fevereiro, na Semana de Arte Moderna, a que veio. Listei nomes conhecidos da cultura, mas, nesse mesmo dia, em 1961, nascia, na minha cidade, meu primo Jânio, cujo nome, claro, era uma homenagem ao presidente que, em agosto daquele ano, pediria o boné e deixaria o Brasil naquele fuzuê que descambaria, logo depois, no Golpe de 1964. Cumpre dizer que também num 5 de março morreram Josef Stalin e, como contraponto, nosso invejável Jorginho Guinle.
Datas são datas e, do ponto de vista estatístico, nenhuma é melhor que outra, ou seja, nascem e morrem grandes e pequenas figuras todos os dias. Mesmo assim, dia importante ou não, continuo com este 5 de março. Foi num deles, depois de sair da festa dos 19 anos do Janinho, que embarquei no ônibus das 23 horas com destino a São Paulo. Dentro do veículo estavam três amigos. Juntos fomos o inferno dos outros: cantamos (eu levava o violão), fumamos e bebemos. Coisa de jovem. No meu caso, de um que enfrentaria uma nova cidade em sua vida, o Rio de Janeiro, onde, depois de tomar o Cometão São Paulo-Rio, estou há 37 anos, tendo vivido, nesse período, dois anos na capital paulista. Ergo taça e comemoro.
(Leitor, por favor, pense assim: “Bem, o Xandão está por aí, não sei se venceu, mas está por aí, tem sua mulher, tem seus filhos, enfim, e de novo, está por aí.” Depois, faça uma oração ao pessoal daquele ônibus (não se esqueça do motorista), gente incapaz de reclamar da falta de noção de quatro jovens com a corda toda e prontos a abraçar o mundo.)
Quem nasce em março é marciano? Não sei, mas muitos são do signo de Peixes, tido como de pessoas aéreas, desligadas. Dos nove netos de meus pais, quatro nasceram no terceiro mês do ano gregoriano — um deles, às vésperas do carnaval de 2000, no dia 3, meu filho mais novo —, e a única mulher entre os quatro se casou com um bom rapaz de Lyon do mesmo mês. Um dos netinhos de Joaquim e Haydée veio à luz num 8 de março, Dia das Mulheres, essa data política tão cobiçada pelo comércio. Apenas meu afilhado, na lista anterior, não é de Peixes, é de Áries, signo do qual sei menos que pouco. Deste sobrinho, o que chama a atenção é o fato de ele morar na Austrália, sei lá se tem a ver com a data do nascimento. Para ver como minha família tem compromisso com o mês, dos seis bisnetos, um também é de março.
Avançando sobre os nascidos em março, destaco a bisavó dos meus filhos, a serena Vó Olga, a dona Yedda — que, no alto de seus mais de noventa anos, me disse que fazia questão de comer pepino porque temia que, chegada a velhice, algum médico a proibisse — e três amigas da adolescência. Todas são arianas, mas nenhuma viveu ou vive em nada parecido com Austrália, o que me parece bem razoável, pois ô, país distante. Quase me esqueço de outros marcianos: a Jéssica e o Guilherme da Nilza, jovens bons de uma mãe maravilhosa; a parceira de escrita e leitura Nilma Lacerda; e o terrível Paxá, meu xará e aliado em algumas estripulias nesse mundo meio bossa nova meio rock’n’roll. Tem mais um monte: o Téo; a Andrea Canto; meus primos, os irmãos André e Tiago; a Stella Maris (por seus livros, colecionadora de Jabutis); a Ana Cristina Melo (escritora e editora de sete fôlegos); a Lilibeth; a Maia; o Broa; o Danilo (a quem devo um pandeiro, anotem aí, por favor). A lista é grande.
A última memória do mês de março é daquele maldito “evento” ocorrido em março de 1964. Não deveria figurar em crônica alegre e familiar, ainda que já tenha feito referência a ele ao explicar a razão de meu primo chamar-se Jânio. Assim, não repito, aponto apenas que para alguns o dia D daquele absurdo político brasileiro foi o primeiro de abril, data que, associada à mentira, não seria levada a sério, por isso empurraram o acontecimento para o último dia de março. A seriedade bárbara dos senhores de coturno e seus apoiadores, todavia, não deve ser colocada na conta de março ou de qualquer outro mês. Era coisa dos homens. Sempre é coisa dos homens, “a raiva e a fome é coisa dos home”, como Aldir Blanc, um setembrino, escreveu e João Bosco, um julino, musicou.

19.2.17

A crise

Sempre há os que são capazes de compreender o movimento geral dentro de um contexto histórico. A crise econômica, por exemplo, com a fuga do emprego fabril das economias centrais, explicaria o fortalecimento da direita populista, evidente no caso Trump, mas também visível na Europa. Na Áustria, por pouco esse grupo não assume o poder. Na França, eles andam cercando o poder não é de hoje. A Grã-Bretanha deixou a União Europeia, num processo comandado também pela direita. Em tudo isso, percebe-se como os trabalhadores vão pouco a pouco associando suas perdas à presença do estrangeiro e, passo seguinte, aliando-se aos xenófobos. Somente os insensíveis não percebem que estamos vivendo o pior dos mundos.
O Brasil não está no centro do capitalismo, apesar de ser uma das dez maiores economias do mundo. Por isso, o emprego que não está mais nos Estados Unidos ou na Europa bem pode ter sido em parte transferido para estes trópicos. Portanto, a crise brasileira difere da que se vê nos países ricos e é típica de uma patologia de classe. Nossa elite — oligarquia, a bem da verdade — busca de todas as formas recuperar o espaço do poder, para usufruir de suas benesses de forma exclusiva (por pensar tratar-se de um direito historicamente estabelecido). Se a volta dos que não foram se vestiu de legalidade, apontando-se o dedo para os tropeços do governo Dilma, o passo seguinte foi mostrar que, mais importante que esses deslizes, era a crise provocada por um mau gerenciamento (que levava à inflação, ao desemprego etc.). Nosso desemprego, nessa leitura, se explicava por uma questão de política econômica, nada parecido com aquele que se via e se vê nos Estados Unidos (menos) e na Europa. Lançada a base de uma nova política — que promove ainda mais desemprego por retrair a demanda do Estado —, o governo começou a tropeçar nas suas contradições, haja vista que está quase todo ele imbricado nos mesmos escândalos do governo anterior, nada mais natural porque este pariu o novo, que não tem nada de novo.
Neste processo pelo qual estamos passando, acabamos presos a uma separação radical — nós e eles, nós contra eles. Essa ruptura não dá sinais de arrefecimento, e começo a crer que a saída para tudo isso não virá lustrada pelo verniz de uma capenga democracia. O PMDB governa mais interessado em acomodar seus pares, tirando-os da linha de frente da caçada aos corruptos; o PSDB não faz diferente e aposta que os fatos poderão repetir aqueles da época de Itamar Franco, com o que voltarão, pelo voto, à presidência. Por sua vez, o PT está mais perdido que tudo, suas aparições ocorrem apenas para dizer que Lula e Dilma são pessoas de bem. Uma oposição clara, programática, nem passa pela cabeça do partido. Por fim, a justiça está de certa forma desconfortável por desempenhar o papel que lhe caiu no colo e que, por sua vez, poderá fazer com que ela tenha de tomar decisões que, de fato, ferem o espírito da democracia, como destituir toda a linha sucessória e, de uma hora para outra, pousar no executivo. Tudo isso é uma pena e um retrocesso.
Peço-lhes desculpas por este texto tão sisudo e provavelmente equivocado, mas não haveria outro modo de chegar aonde quero chegar. Eu tenho uma solução (não sou o único, já ouvi outras vozes clamando por isso) menos traumática para essa crise toda: devolver o Brasil a Portugal. Claro, antes de tudo, teremos de demonstrar por a + b que o Cabral que temos agora não é o mesmo que nos descobriu — não são nem parentes distantes —, portanto não estamos tratando mal um herói português ao manter o Cabral contemporâneo e brasileiro preso em Bangu. Feito isso, eu acho, nossos patrícios nos acolherão de braços abertos — talvez vejam como uma oportunidade para reaver o prejuízo recente que sofreram ao se meterem em negócios de telefonia celular por aqui. Ficaremos bem com Portugal ao devolvermos a eles o amor próprio das grandes potências, abrindo-lhes as portas para, quem sabe, tentarem refazer nossa história, dessa vez sem escravos, sem os ciclos da cana, do ouro, sem entradas e bandeiras, sem invasão holandesa ou francesa e sem que a gente coma o bispo Sardinha.
Detalhe do quadro Batalha do Avaí, óleo de Pedro Américo sobre um dos últimos episódios da guerra do Paraguai, ocorrido em 11 de dezembro de 1868 (Foto: Museu de Belas Artes/Reprodução)
É bom que nos apressemos com essa solução uterina antes que nos ocorra algo tão terrível quanto o que está sendo urdido na calada pelo atual governo: um poder absoluto, à custa, quem sabe, de qualquer migalha de liberdade. O que seria igualmente ruim? Vendo-nos tão estarrecidos, o Paraguai resolver vir aqui vingar o que lhe fizemos no longínquo século XIX, o mesmo no qual inventamos, em cima do conflito, um herói moderno, Caxias, e Machado de Assis começou a nos decifrar.

6.2.17

De olho na tela

Gosto das salas de cinema, onde, ao contrário da televisão — mesmo daquelas de tela grande, modernas, de imagem perfeita —, assisto aos filmes com prazer. Em casa, não há o escuro que nos mantém suspensos antes, durante e depois do filme, particularmente do filme bom, e, além disso, os filhos passam conversando na frente da TV, a gente corre à cozinha sem motivo e ao banheiro por coisa pouca.

Nas salas, o filme começa na compra do ingresso, na escolha do assento, no café tomado um pouco antes da sessão. Feito o atleta no aquecimento para entrar na quadra, o espectador se concentra, faz flexões, alongamentos, tira o lixo da cabeça para que ela fique livre para o que vem a seguir, que não é uma disputa pela bola, mas é um embate entre ele e uma história que lhe será contada. O diretor ou a diretora tem de manusear muito bem suas armas, cabe a ele ou a ela e a seu elenco derrotarem o sujeito que pagou o ingresso e entrou naquela espécie de caverna. (Eu sou um dos que jogam duro, entro pra brigar.)



Fazem parte desse longo começo um trailer exibido com ganas de fisgar seu público futuro e uma propaganda de banco que tenta, por meio de facilidades mentirosas, atrair o cara cheio da grana ou o duro, principalmente este, meu igual. O filme já começou quando começa, esse é o ponto. Por isso, fico incomodado, já na preliminar, com os celulares cheios de luzes e sons — e as pipocas. Depois que enfim a história passa a ser contada, se não me seguro (ai, minha úlcera!), me transformo no chato do cinema, o tipo que faz “psiu” o tempo todo. Como não sou um milionário que pode ter uma sala exclusiva, respiro fundo (ai, minha úlcera!), me distraio desse monte de gente que não sai de si e começo a luta com o que me levou até ali. O ringue, naquele espaço de tempo, é a sala, e a glória é sair vencido, por nocaute ou ponto, tanto faz. Estou ali de sparring para o diretor e sua história, desde que não vacilem.

Nas últimas semanas, essa magia aconteceu duas vezes. Ao ver “Eu, Daniel Blake”, do britânico Ken Loach, e “Manchester à beira-mar”, dirigido pelo americano Kenneth Lonergan, de quem eu nunca ouvira falar. As duas histórias têm lá seus pontos comuns (além de ter cenas similares, quando os personagens buscam emprego pelas ruas da cidade), mas suas perspectivas são bem distintas.

O britânico, veterano diretor reconhecido por tratar dos perrengues sociais, não foge da sua temática e mostra como nos dias de hoje Kafka é a realidade. Os governos, apoiados em tecnologias que desumanizam e ao mesmo tempo não estão acessíveis para muita gente, tornam a vida daqueles que precisam de assistência social um inferno, como se já não bastasse o fato de precisarem de assistência social. No filme de Loach — assim como na literatura de Maria Valéria Rezende (a autora acaba de ganhar o prêmio Casa das Américas por seu “Outros cantos”, editado pela Alfaguara) —, o que salta aos olhos é a solidariedade entre pessoas que estão jogadas à margem. É isso que as faz resistir, mesmo que algumas não resistam. Melhor seria dizer: é isso que as faz resistir enquanto resistem. Ou ainda: é isso que as faz resistir um pouco mais.

Já o americano conduz seu filme na linha da trajetória do herói, a caminho da derrota, é bem verdade. Seu grande personagem está aos frangalhos (a gente descobre aos poucos a razão disso, já que o filme alterna o tempo todo o presente com o passado), mas é, de fato, um herói, sua força e sua ruína vêm de dentro dele, da forma como elabora ou deixa de elaborar os reveses da vida. Ele se desfaz, mas, no meu modo de ver as coisas, a cena final deixa no ar que ele terá no afeto um jeito de resistir (ele também resiste ou precisa resistir).

Se no filme inglês a opressão vem do “sistema”, no americano vem da vida íntima e familiar — também do acaso, do azar para ser mais preciso. Como já disse, duas perspectivas distintas, tratadas, em ambos os casos, de forma sofisticada e emocionante. 

Para desfrutar dos filmes, corra a uma sala de cinema, acomode-se na cadeira e deixe-se levar, dando a cara a tapa. Esqueça o celular e as pipocas. Na saída, uma cerveja ajuda a elaborar melhor as coisas, mesmo que se chegue à conclusão de que o mundo não vai nada bem, de que todos nós estamos nele, somos parte dele e temos um pingo que seja de responsabilidade pelo estado das coisas.

22.1.17

Zorro

Lembrei-me do cachorro que tive quando morava em Passos depois de ter postado no Facebook uma montagem com duas fotos nas quais estou de barba — em uma eu tinha uns 20 anos; na outra, a idade atual — e de ter escrito a seguinte legenda: “Volver a los 17 é um chiste.” Um chiste e tanto, convenhamos. Na juventude, se os cabelos eram pretos, a barba não poderia ser de outra cor. Hoje, quase tudo é branco, embora, por conta do quase, o que não é borra o que é. Esse é o lado visível do chiste, dos demais nem falo. Dito isso, resta esclarecer como saltei da piada ao meu vira-lata com um quê nobre de pastor alemão.
Meu amigo e vizinho lá no Beco dos Aflitos, o Paulo Régis Bacil Abreu — conhecido também como Paulo da Yolanda do Jezo da Infantil —, perguntou, em um comentário à publicação, se o cachorro da minha casa se chamava Lobo. Não Paulo, era Zorro. (Que raio de associação é essa entre minhas fotos e o cachorro? Mistérios do mundo.)
A pergunta, motivada seja lá pelo que for, jogou o velho Zorro no meu colo. O nome deve-se ao herói de capa e espada, a cujas aventuras assistíamos nas matinês de domingo e, mais tarde, em forma de seriado de TV. O nome já veio com o cachorro, mas eu o teria escolhido do mesmo modo.
Ao deixar o pensamento solto, comecei a olhar enviesado para minha memória, pois as coisas não teriam sido como eu as registrei. Não tudo. Imaginava, por exemplo, que coubera ao Zorro a tarefa de vigiar o quintal durante uma década e meia. Impossível. Saí de Passos com 15 anos, e ele já estava morto. Acho que confundi o tempo que ele ficou na casa com a idade que teria no final da vida.
Deixo essas incertezas de lado para falar daquilo sobre o qual não resta dúvida. Se não queríamos o Zorro por perto, bastava dizer “água”. Ele zunia. Está certo quem conclui que meu cachorro nunca tomou banho na vida, mas, espante-se se for o caso, nem por isso tinha cheiro forte ou pelo duro. Um milagre — ou, quem sabe, efeito da chuva, já que, por viver no quintal, não conseguia fugir completamente dela.
A falta de banho dava-lhe um ar de maltrapilho, e isso piorava quando sumia por três dias, às vezes por uma semana. Aposto que se enturmava com os colegas da rua e com eles disputava o cio de uma cadela. Não é fácil conquistar uma fêmea nesse mundo cão, por isso, como regra, retornava abatido, até mesmo ferido. Certa vez, os estragos foram assustadoramente grandes, porém, para meu espanto, ele entrou pela porta da frente, cruzou a sala, a copa, a cozinha e foi se deitar em seu quintal, ali onde, na tigela amassada, o angu com carne e osso o esperava. Com essa entrada triunfal, o Zorro nos mostrou sua capacidade de ir à luta e voltar, ainda que capengando, orgulhoso de suas feridas, que, especulo, poderiam ser uma espécie de troféu de sua futura paternidade.
No fim da vida, o velho cão ficou esclerosado — pelo menos assim qualificávamos seu estado. Se dizíamos saia, ele vinha; se venha, saía. Nessa época andou avançando em pessoas próximas, uma investida inconsequente, já que, naquela altura, era banguela ou praticamente banguela.
Lembro-me do dia em que gastava meu tempo no quintal, e meu pai e dois amigos voltaram da rua. Acabavam de sacrificar o Zorro. A tiros. O sacrifício era necessário, a forma... Bem, eram outros tempos. Não guardo mágoas — de meu pai, jamais. Porém, aqui e agora, cheguei à pior parte de toda essa lembrança desencadeada por uma associação estranha feita por um amigo que há muito não vejo.

29.12.16

Sete sonhos na estante

I

É uma bola, vê-se de longe, e cai em minha direção. Há uma tensão clara no olhar dos que estão por perto. Meus pais entre eles. Meus irmãos também. A menina que eu amo larga a minha mão e foge do que está prestes a acontecer. Por que o pânico? Tenho a responsabilidade de fazer como os jogadores: matar a bola no peito e deixar que escorra pelas pernas até alcançar meu pé direito, o bom. Não sou nenhum Pelé, mas posso cumprir essa missão inesperada. Quando a bola chega perto, muito perto, vejo que se trata de uma bomba. Não posso correr, todos confiam em mim, depositaram suas vidas em minhas mãos (no peito, no pé). A bola atinge meu peito, e o impacto é tão grande que o chão se abre e me engole. Quando a bomba quica no buraco e volta ao ar, passo a fazer balõezinhos com ela. O movimento leve que se segue parece o de um balão de gás subindo e descendo. Mas, de repente, a bomba explode.
(O despertador das seis e meia toca.)

II

Os pássaros voam de costas, os cavalos trotam ainda que lhes faltem as patas.
(Um grito, sem origem, perturba a madrugada.)

III

Aquela menina que nunca sequer me notou fixa o olhar no meu. Ficamos uma eternidade assim estáticos, olho no olho. De repente, de suas órbitas oculares começam a sair imensos papiros. O que sai do olho esquerdo é vazio, um papel antigo, grosso e fosco. No da direita, há uma frase que aos poucos vai se revelando. “Agora é tarde”, é o que está escrito. Antes que eu lhe diga alguma coisa, a menina dos meus sonhos se vira e sai correndo. Vou atrás dela, e os dois ficamos presos a uma corrida que não nos tira do lugar. Tenho então uma ideia aparentemente brilhante: estendo os braços para agarrar a garota. No entanto meus braços vão se tornando grandes, elásticos e saem do meu controle. A menina se vira para mim, e vejo que ela não é aquela que nunca sequer me notou.
(Da mesa do almoço, sob censura frouxa da mãe, ouvem-se as piadas picantes do irmão.)

Foto tirada em evento do "Coletivo Entre-Tempos" e trabalhada por mim.


IV

Stela e eu entramos em um abatedouro. Antes que eu estranhe a situação, chifres crescem na minha cabeça. Stela muge. Os homens encarregados de nosso sacrifício se apiedam de nós e começam a rir. Feito Ferdinando, o Touro, esfrego a pata no chão. Cai uma chuva quente. Stela berra que é ácida.
(Sem cobertas, a noite é fria.)

V

Tenho a pele azul, e as pessoas, no Beco dos Aflitos, me comparam a um pelicano.
(Um cutucão para interromper o ronco.)

VI

 Quando vou entrar no palco, as luzes se apagam. Roberto Carlos passa por mim e diz daquele jeito dele: “que coisa, bicho”, depois mete o dedo no interruptor, entra no palco e o mundo acaba.
(Às quatro da tarde, dorme-se a sesta ou a noite sem fim.)

VII

Eu e Deus jogamos porrinha. Ganho. Deus chora.
(O sono dobra o cabo dos dias.)

26.12.16

Natal com Machado

Comecei a escrever crônicas na passagem do século XX para o XXI, convidado pelo amigo e escritor Marco Túlio Costa, que, naquela época, ajudava a reerguer um antigo jornal de Passos. (Portanto, se há um culpado, é ele.) Apesar desses dezessete anos, este é meu primeiro texto que sai justamente no dia do Natal. É verdade que escrevi uma crônica natalina, e nela contei de uma ceia, na casa da tia Yole, quando vi as renas e o Papai Noel cruzarem os céus. Essa visão, ao contrário do que se pudesse esperar, me fez descrer de vez da figura do velhinho de barba branca. Vi para descrer, o que São Tomé diria disso?


Natal singelo numa rua de Botafogo, Rio de Janeiro

Nada dessas coisas importa mais, hoje escrevo para ser lido na mais celebrada festa cristã. Quero fugir das platitudes, do senso comum, o que não é, adianto, fácil. Eventos repetitivos nos levam a buscar repetidas formas de lidar com ele. Feliz Natal! Que Cristo nasça e renasça em seus corações. Que o bom velhinho não se esqueça de você. O meu amigo oculto é vesgo, mas enxerga longe. Tudo isso embalado pela Simone, que, ao cantar a versão traduzida de “Happy Xmas (War is over)” do John Lennon, viu-a transformada em canção para estimular o comércio, destituída da mensagem pacifista. 

Não pretendo seguir o caminho oposto, aquele no qual muita gente procura macular o espírito da festa, trazendo à tona tudo de desumano que brota no meio de nós. 2016 é um ano propício a isso, haja vista o número de pessoas que têm fugido de seus lugares de nascimento para tentar, sem estrutura alguma, a vida em outro país — são sírios, são moçambicanos, a lista é grande. Sem contar nossas tragédias caseiras, muitas evitáveis, como essa que acomete o jovem negro, vítima preferida da guerra contra o tráfico. 

Não quis escrever platitudes, e eis que estão escritas. Não quis escrever sequer duas linhas que borrassem a festa, e eis que estão escritas. Preciso buscar uma compensação a meu deslize e a minha incapacidade de trazer algo novo para sua leitura. Já sei, um poema, um pequeno poema, e pronto. Escolho este de Machado de Assis por identificação, pois me parece que ele também penou para escrever qualquer coisa sobre o Natal. 

Aonde chegamos? A Machado. Ótima companhia.

(Ah, antes que eu me esqueça, feliz 2017. (Se for possível.))





Soneto de Natal
            Machado de Assis

Um homem, — era aquela noite amiga,
noite cristã, berço no Nazareno, —
ao relembrar os dias de pequeno,
e a viva dança, e a lépida cantiga,

quis transportar ao verso doce e ameno
as sensações da sua idade antiga,
naquela mesma velha noite amiga,
noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
a pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”


Ilustração retirada do site de Antonio Miranda.