18.9.17

Aquela moça daquele dia

O que transformou aquele dia comunzinho foi o fato de ter ido ao cinema com um casal de amigos ou mais que amigos — somos benditos pelos astros e nascidos os três num 17 de novembro, ele o mais velho, ela a mais nova. Fomos ver “Como nossos pais”, dirigido por Laís Bodanzky, filme que está dando o que falar.
Entre os mais próximos, só ouvi elogios: amigas mostrando-se identificadas com as mulheres do filme, quase todos elogiando a atuação esplendorosa de Clarice Abujamra e Maria Ribeiro, atrizes que interpretam mãe (Clarice) e filha (Rosa). De pessoas distantes escutei alguns senões. No site do Instituto Moreira Sales, José Geraldo Couto pontua que o filme tem muito de defesa de uma tese, no caso o papel da mulher nos dias de hoje, dando pouco espaço a enquadramentos e outras sutilezas da arte cinematográfica. Uma escritora que acompanho no Facebook achou que as questões diziam respeito à mulher do século XIX, um tanto quanto ultrapassadas, portanto. Bial, em seu programa de televisão, tachou o personagem do marido de Rosa (Paulo Vilhena) como meio banana. Na reação irônica da Maria Ribeiro, os homens são sempre e de fato uns bananas.
O argumento do crítico me parece interessante, o da escritora, nem tanto, uma vez que as mulheres com quem tenho conversado se identificam profundamente com as dores de Rosa e/ou com as de Clarice. De minha parte, acho — com o que meu companheiro de sessão concordou — o personagem masculino, além de banana, bem caricato. Para minha mulher, na realidade, os homens não estão acostumados a desempenhar um papel secundário, por isso o incômodo. Faz sentido.
Terminada a sessão, lá fomos eu e o casal tomar um chope. Não sei se senti falta da minha mulher naquela hora ou se agradeci o fato de ela ter visto o filme antes e não estar ali conosco. Não há como casais saírem do filme e não promoverem uma pequena DR. Pois bem, eu estive ali entre o casal e, sim, as diferenças entre homens e mulheres sobre os papéis de cada um no dia a dia da família vieram à tona. Claro, nada foi desestabilizador, meus amigos se amam, e nós três temos intimidade até para alguma confissão. De todo modo, os três litros de chope transformaram tudo num momento de confraternização e, por que não?, de troça contra a vida muito séria. Certa hora, ao voltar do banheiro, escutei o resto de frase que ele dirigia a ela: “vocês são impenetráveis.” Sem saber o contexto, me espantei e reagi: “como assim?” O garçom, ali na lida de encher os copos, talvez testemunha de uma conversa maior, não se aguentou e riu. Rimos. Rir fora de hora não tem preço, assegura nosso cartão de afeto.

Encaminhávamos para o final da noite quando aquela jovem apareceu. Veio pelo meio do bar já falando conosco, que não a conhecíamos. Ela nos disse que estava usando uma calça difícil de tirar, feita para dificultar a vida de um possível estuprador e, naquele momento de ir ao banheiro, pagava o preço. Depois de alguma troca de palavras engraçadas entre nós e ela, a moça foi e voltou do banheiro. A calça era mesmo tão complicada que minha amiga teve de ajudá-la a dar o nó naquela espécie de cinto que passava aqui, ali e lá. Não sei o que meus amigos pensam a respeito, mas a jovem era dona de uma nova palavra. Seus dramas podem ou não ser os de Rosa e Clarice, mas ela parecia querer nos dar conta de que há outras mulheres no caldeirão dos dias atuais, aquelas que, apesar das dificuldades — como a de lidar com a realidade ameaçadora de um estupro —, vivem com pés e mãos no futuro.

4.9.17

Meia dúzia e gordura

Para o Raul Drewnick, à sua moda e com menos brilho 


Um
Morreu meu amigo que dizia “ô, maluco!” e, logo depois, o Wilson das Neves, que repetia “ô, sorte!”. Sei lá se com eles está findando nossa capacidade de exclamar, que é a mesma de espantar-se. Seria o fim.

Dois
Esse chope mal tirado, esse silêncio do qual não me desgrudo, aquelas contas por pagar botam a gente petrificado como o diabo.

Três
No meu jardim de inveja, as flores do vizinho não fedem nem cheiram.

Quatro
Com o tempo, a saudade — sem motivo — vinga feito doença crônica.

Cinco
Li há pouco numa tabuleta de rua: “Fé nas cria”. Achei minha igreja.

Seis
Naquela noite de inverno, sem ninguém que pudesse me aquecer, descobri do vinho o fogo e o mistério e, imodesto, nem no frio ousei crer.

Gordura
O problema é o regime.

20.8.17

A ciência cansada




A moça que vai descer do ônibus antes de mim leva o celular no bolso de trás da calça. Eu me pergunto a razão disso, não me parece natural, muito menos seguro, haja vista que o aparelho fica metade para fora. No bolso de trás, totalmente protegida, os homens, principalmente eles, levam a carteira, sempre foi assim. Não, não e não. Meu pai, agora me lembrei nitidamente, levava a carteira no bolso da frente, no da direita. Ele usava daquelas calças cujos bolsos frontais são fundos, bem fundos, logo uma carteira solta ali está seguríssima. Esse modelo é o mesmo que o Veríssimo disse em crônica usar a vida toda e, por conta dessa fidelidade ter estado, em determinados períodos, na moda e noutros fora. Veríssimo, mestre, você não passa de um démodé, a calça com bolsos mais rasos está na crista da onda pelo menos desde os anos de 1980. O Whatsapp demanda ter rapidamente à mão o celular, por isso a vitória da calça atual. De novo cometo uma inverdade, o bolso curto existe, acabei de dizer, antes das redes sociais, logo a causalidade é outra: não fosse o bolso raso, não haveria a rede social, em particular o Whatsapp.

Todo casamento é um equilíbrio precário, seja o casal de que espécie for: negro casado com negro, negro casado com branco, branco com branco, europeu com asiático, velho com novo, homem com homem e mulher com mulher — sem esquecer os poliamorosos e os transgêneros. Enfim, é da natureza dos casais conviver com um perigo à espreita, não percebido, capaz de fazer com que todos se equilibrem na corda bamba; sem sombrinha, acrescento. Sendo assim, os casais vão, ao longo do tempo, criando suas defesas, quer dizer, aqueles que não chutam o balde e voltam à doce vida de solteiro, essa falácia que inventamos, uma vez que estar solteiro é um equilíbrio igualmente precário estabelecido numa casa quase sempre suja, com a cama desfeita e a geladeira vazia. Deixo as tergiversações de lado e vou ao que interessa, no caso o que os números dizem sobre o casamento. A evidência, todos sabem, é que o curso de dança é a última etapa do casamento. É tiro e queda: o casal se matriculou na dança, o casamento chegou ao fim. Nada mais lógico: dançar na corda bamba, e aí com ou sem sombrinha, é impossível, não se vê nem em circo.

O pão cai sempre com a manteiga virada para baixo. Assertivas como essa vieram importadas de países que não sabem o que é pobreza, digo baseado em uma razão muito simples: o pão cai não só da mão daqueles que têm dinheiro para comprar manteiga, cai também de quem come pão com pão.

É dando que se recebe. Esqueçam, essa frase faz parte da oração de São Francisco, este homem bom, mas ruim de prognóstico. O que mais se vê é muita gente dando (ou sendo roubada) sem receber nada em troca. Descarto a frase não por suas questões intrínsecas, simplesmente não serve ao meu propósito. Busco outra então. O preguiçoso fica pobre, mas quem se esforça no trabalho enriquece. Veja que esta é parecida com a outra, mas não escorre de boca de santo, tem mais a ver com os senhores do mercado, esses que nos fazem crer nisso e, por isso, nos fazem perder nossas vidas. Ó, céus, aponte aquele que ficou rico trabalhando.

Apresentei, amigos, quatro teorias. As duas primeiras científicas até a raiz, as outras, como demonstrado, pura balela, coisa de ciência cansada. Em tempos de falsas notícias, tenhamos cuidado, principalmente quando falamos de verdade científica, que se estabelece depois de cumpridas várias etapas, que vão da hipótese ao teste e, em seguida, à crítica. Enfim, ciência exige protocolos. Então, amigos, agarrados à ciência ou desagarrados da ciência cansada me ajudem a responder à questão inicial: como justificar o celular no bolso de trás?