19.2.18

Estive de férias

Alguém me disse que foi Carnaval. Não precisava, eu vi, quer dizer, ao sair de casa e ir ao cinema, vi aquele monte de gente fantasiada circulando pela rua. Nessa época, se um desavisado aportar no Rio de Janeiro, mas não só nele, sem saber disso de Carnaval, achará tudo muito estranho. De fato, é, mas também não é. Dane-se o desavisado, a festa serve para pequenos ultrajes, e andar de índio, pirata, noiva ou sei lá mais o que faz parte da magia.

Não brinco mais, os senões (além dos meus quilos a mais, muita gente, muito calor, muita bebida) gritam mais alto. Então, leio. Vou ao cinema. Bebo minha cerveja em casa. Aqui e ali vejo TV. Me inteiro dos assaltos — as redes de televisão parecem ter um certo prazer em mostrar o pior. Passo os olhos nos desfiles das escolas de samba. Dessa vez, vi a Portela e digo: não fosse a pobreza da comissão de frente, poderia ter terminado mais bem classificada do que o quarto lugar. Digo isso sem entender bulhufas. Mas quem é que entende de Carnaval? E para que entender?

No Rio, a crítica foi a grande vencedora. Beija-flor e Tuiuti jogaram pedra na nossa dura realidade. A primeira atirando nos escândalos que salpicam dia sim, dia não. A segunda, mais profunda, mirando o sistema. É o povão dizendo que está atento. Será que é mesmo o povão? Tenho minhas dúvidas. O fato é que o Brasil não é mesmo trivial. Veja o caso da Beija-flor: comandada por um notório contraventor, a escola veio cantando um samba certeiro contra a corrupção. É hipocrisia? É, mas tem sua beleza. Esse é o país que temos, e os bicheiros, tornados bandidos pela tolice de uma ex-primeira dama, estão sempre em evidência. Ora bancam times de futebol ou escolas de samba, ora estão presos; isso quando não estão matando uns aos outros.

Esqueço a grandiosidade da festa e falo do meu mundinho. No Carnaval, li “Pedaços de amor”, de Ronaldo Guimarães, lançado pela Miguilim. Eu e o também mineiro — ele morador do Prado, em Belo Horizonte, onde viveu Belmiro, o amanuense de Ciro dos Anjos, um escritor machadiano dos melhores e meio esquecido — nos conhecemos de um jeito interessante. Ronaldo ouvia do meu primo Lucas, dono do Agosto (um senhor bar de BH), que nossa literatura tinha algo em comum. Trocamos livros, ele leu alguma coisa minha, e eu mastiguei esse “Pedaços de amor”. Chegamos à conclusão de que o Lucas está completamente equivocado, mas daremos a ele, em breve, o direito de defesa. O fato é que o livro do Ronaldo é muito bom e, entre tantas coisas que possa dizer a respeito dele, chama a atenção a musicalidade de suas frases. É, assim, uma leitura agradável, mesmo que as histórias não sejam lá muito felizes.

Vi filmes. Todos, eu acho, candidatos ao Oscar. Quem diria! Houve época em que eu fugia dos filmes que estavam na lista do prêmio, era trauma de um tempo no qual, entrava ano, saía ano, as tragédias eram o tema de Hollywood. E tome câncer! E tome criança em sofrimento desmedido! Isso parece ter sido deixado para trás, mas pouco importa esse papo todo, fui ao cinema, ponto. Os candidatos ao Oscar são bons, pelo menos os que vi. “The Post” é um filme que deve ser visto, pois suscita muitas questões, que vão desde os limites de um segredo de estado até a tão discutida liberdade de imprensa. Os americanos são zelosos de sua democracia, mas o caso tratado no filme vai além de uma autopromoção. Todavia, lindo, mas lindo no sentido mais puro que possa existir, é “Visages, Villages”, dirigido por Agnès Varda e JR. Uma velha senhora do cinema e um jovem artista plástico andam pela França, fazem uns projetos com fotos enormes, que são sobrepostas em ruínas. Tudo muito simples, mas, quem já viu talvez concorde comigo, não é apenas um filme ou um documentário, é, isso sim, um filme-poema.

Antes do carnaval, houve Arraial d’Ajuda. Houve o loft de minha amiga Rosaly Senra e sua hospitalidade. Houve o mar, uma lua cheia de tirar o fôlego, mas também a chuva. Houve um cachorro de rua que se sentou ao meu lado. Houve o amor de mais de trinta anos, que continua havendo. Mas nada disso eu digo, guardo para mim, é o saldo de minhas férias e, afinal de contas, não estou no primário, portanto não tenho de escrever aquela redação manjada sobre como foram meus dias longe da escola.


Em Arraial d'Ajuda, Bahia.


7.2.18

Mais uma curva fechada

Minha amiga me disse que, sentada no metrô, enquanto se deslocava do trabalho para a livraria, onde afinal nos encontramos, observou que as pessoas estavam tristes. Reforçou: “As pessoas estão tristes até a raiz.” Mesmo o Chico Buarque, a quem assistira uns dias antes, lhe pareceu abatido, sem energia.
Sei que estamos sob pressão e a um passo de jogar a toalha e dizer: não dá mais. O sinal está fechado para nós, que não somos nem tão jovens assim, quiçá para os jovens. Ah, Belchior, você não teve tempo de presenciar nossa deblace. Só nós assistimos a sua derrota de homem triturado pela máquina, isso que se vê todos os dias e nos leva a dar de ombros e seguir adiante.
A queda coletiva está acontecendo e não parece ser a soma das individuais. É um processo. Adoniran Barbosa viu situação semelhante a isso, miúda, é verdade, no desmanche do Bexiga, no ocaso do seu mundo. Ecoa agora o que o Sargento Oliveira, de “Um samba no Bexiga”, fala, com intenção de acalmar as pessoas: “Num tem importância / Foi chamada as ambulância / Carma pessoal / A situação aqui está muito cínica / Os mais pior vai pras Clínica.” A dimensão das “tragédias” tem distintas implicações: no fracasso de um país Brasil, não há clínica que suporte tantos e tantas que precisam de socorro. Não haverá toque de silêncio em cornetas ou bumbos, simplesmente chegará o fim.
Eu e minha amiga fomos ouvir o papo de Rogério Reis, o fotógrafo responsável pela foto que serviu de modelo à estátua de Carlos Drummond de Andrade em Copacabana. A história do encontro dos dois é ótima. Antes da foto emblemática, Rogério fez outras, também muito conhecidas: Drummond, com um livro indecifrável na mão, ora está sentado, ora levemente deitado num tapete persa do chão de sua casa. Rogério tinha uns vinte anos nas duas oportunidades que teve de fazer as fotografias. Alguém na plateia comentou que, para tirar fotos como aquelas, o fotógrafo deveria ter uma grande empatia com o fotografado, rara capacidade principalmente em um jovem. Verdade. Que moleque era aquele e que poeta — um velho que completava oitenta anos — era aquele?
Falo da década de 1980. O Brasil também capotava na curva, mas conseguimos um alívio, desse modo torto com o qual historicamente avançamos. E Drummond estava vivo. E Rogério, hoje com sessenta anos, um pouco mais, um pouco menos, apostava todas as suas fichas na vida que mal começava. Apostávamos nossas fichas, eis a diferença para os dias atuais. Reunimos um milhão de pessoas em várias praças para ouvir um palanque com oligarcas, democratas históricos e exilados recém-chegados levantando as mesmas bandeiras. Alguma coisa nos unia. Hoje mais nada.
Uns querem a mão dura para enquadrar os meninos levados e as meninas levadas que nos tornamos aos olhos reacionários. Solução infantil, que não encontra adeptos nem na psicologia mais velha e/ou velhaca. Outros acreditam que o erro foi só do lado de lá, que há um homem bom capaz de dar jeito em tudo. Não, não há um homem bom. Ou por outra: não há um homem bom para além do que eu e você possamos ser.
Esse caso do apartamento no Guarujá, a um leigo feito eu, parece pouco substantivo, difícil de, a partir dele, levar uma pessoa à condenação. Apesar disso, Lula tem culpa pela conjuntura esfacelada. Tem sim. Culpa política. Não só ele, diga-se, e nomeiem-se mais alguns: Fernando Henrique e Aécio, um MDB de cabo a rabo e mais inúmeros entre políticos anões e religiosos devotos do cifrão. Conseguiram, em certos momentos com mérito, levar o carro para além da curva. Seguros de si, trocando a direção uns com os outros, pisaram fundo no acelerador logo em seguida. Estamos de novo no meio de outra curva. Os pneus são os mesmos de quarenta anos atrás, e o farol está queimado. A direção está e estará nas mãos de um político, e é bom que seja assim, apesar dos pesares. Os passageiros, que já tememos a velocidade, agarramo-nos à mão do destino. Somos bois abatidos, que ainda mugem (baixo).
A situação está cínica. Cínica e meia.

22.1.18

As muitas infâncias


Para o Daniel Ribas

Dia desses, fui convidado para um bate-papo com crianças, mas, infelizmente, a conversa foi cancelada. Deveria falar como me aproximei da literatura, acrescentando como a questão da violência interfere na relação livro-infância. Fiz umas anotações-guia, e são elas que, de modo geral, divido com vocês. Ah, sim, a linguagem é adulta, na hora do vamos ver, manteria outro nível, mas jamais, em hipótese alguma, falaria como se estivesse diante de animais, gorjeando onomatopeias para bebê dormir.

Cresci num mundo muito diferente do de hoje. Não havia internet nem celular; havia televisão, mas, durante muito tempo, não na minha casa. A primeira TV que tivemos foi em 1970, um pouco antes da conquista da Copa. Eu tinha nove anos.

O que fazia uma criança sem TV, internet e celular? Fora de sala de aula — o número de crianças que não frequentava a escola era grande —, a molecada brincava na rua, nos quintais. Brincava de pique esconde, de mamãe da rua, de balança caixeta, de bolinha de gude; jogava futebol; fazia guerra de mamona; pulava córrego com vara de bambu; roubava fruta dos vizinhos. Nos domingos, ia à matinê e, no fim de todos os dias, cansada, dormia cedo.

Poucas faziam um trenzinho a mais: liam um livro na hora de dormir. Liam espontaneamente, porque ajudava a desacelerar dos dias de tanto corre-corre e pula-pula. Eu lia? Só por volta dos doze anos, a leitura foi se tornando uma atividade corriqueira, que eu buscava. O que, muito cedo, eu fazia era imaginar coisas, fazer versinhos, músicas. Bolava números de circo (acrobacia, palhaçada) e convidava os vizinhos para ver. Na porta de casa, armava um jogo de argola, que muita gente parava para jogar. Investia o lucro em sorvete e figurinhas. Colecionar figurinhas era a coisa mais importante do mundo, e, graças a elas, uma vez ganhei um fogão. E o que uma criança fazia com um fogão? Nada, ué, dava pra mãe, e a mãe vendia.



O querido Carabolante mandou a turma de doze anos ler um livro de gente grande: “Capitães de areia”, de Jorge Amado, que conta a história de uns meninos de rua, muito diferentes do que eu era, ainda que fossem da minha idade. Putz, como aquilo me fez bem! O livro me acompanhou pelos dois ou três meses que gastei para lê-lo e depois fazer o trabalho. A partir de então, ler passou a ser uma atividade que se encaixava perfeitamente nas demais. É verdade que, entrando na adolescência, uma novidade — forte concorrente da rotina estabelecida — apareceu na minha vida: as meninas, quer dizer, a atração por elas.

Brincando até não poder mais, lendo livros que contavam histórias ao mesmo tempo diferentes e parecidas com as minhas e metido em paqueras, acabei, entre uma pelada e um mamãe da rua, entre “O escaravelho do Diabo” e “Lucíola”, rascunhando uns versos, uns versinhos de amor, feitos para impressionar.

Encontrei na leitura — e na escrita — terreno para alimentar a minha já robusta imaginação. Por que fui assim? Por que a fantasia sempre me atraiu? Não sei explicar, mas quem é que sabe tudo de si?

O mundo é violento desde sempre. Às vezes, a violência está mais distante, às vezes mais próxima. Na minha infância, numa cidade pequena, violência era briga de rua, eram os meninos mais fortes se impondo. Eram os meninos da periferia fazendo valer seu destemor contra a boa vida dos bem-nascidos. Era isso e mais algum crime raro, quase sempre de fundo passional, restrito ao mundo adulto. Violência, violência mesmo estava lá no Oriente Médio, eu via na TV. Estava também nos porões da ditadura, mas eu não via na TV. Hoje a violência é na esquina — de grandes ou de pequenas cidades —, por isso a infância foge da rua. Poderia ser um estímulo à leitura, mas parece que os jogos eletrônicos têm falado mais alto.