13.5.19

Lista de desejos

Escrever como se lesse.

Chorar para lavar os olhos, lavar os olhos para não cair de vez.

Não aceitar a maçã, voltar ao Paraíso, comer a maçã e ser expulso de lá.

Vender a mãe, entregar a sósia.

Apartar o sujeito de um verbo encrenqueiro com uma corajosa vírgula.

Piar para os passarinhos, miar para os passarinhos, latir para os passarinhos, viver entre eles.

Contar quantas vezes falei com carinho a palavra pai.

Financiar um miliciano que me proteja de mim.

Jogar amanhã na loteria de hoje. Não só acertar como ganhar a grana.

Dormir um pouco ressacado e acordar absolutamente bêbado.

Cortar os cabelos de Rapunzel enquanto, agarrado a eles, subo ao seu quarto.

Pedir exílio ao meu lado solar.

Conversar com estranhos coisas estranhas.

Cantar no chuveiro, ser aplaudido no Municipal.

Andar dez quilômetros, emagrecer cem.

Gerenciar o silêncio no grito.

Reatar a amizade do cravo com a rosa.

Rir daquele dia triste que começou com um riso.

Dirimir a dúvida dos sapos.

Voltar à civilidade.

Ler como se escrevesse.

29.4.19

Roupas e ideias: o eterno retorno

Certa vez, li um comentário do Verissimo sobre moda. Segundo ele, desde sua primeira calça comprida sempre usou o mesmo modelo, e, assim, de vez em quando, estava na moda e, de vez em quando, fora.

O que está por trás da percepção do cronista é que não somos tão criativos, de modo que a novidade de hoje já foi novidade ontem. Nessa passada, não demorará muito e teremos mulheres com perucas de cabelos bem lisos ou com coques esculturais (Winehouse bem que tentou), uma febre dos anos de 1960. Estamos vendo o black power de volta, o que comemoro, pois não é um simples modo de os negros se verem ou se mostrarem bonitos, também é um jeito de serem potentes.

Esta crônica não é um ensaio sobre moda, suas idas e vindas, seus altos e baixos. Quem sou para saber disso? Não saio do jeans com camisa, em dias de trabalho, ou com camiseta, nos fins de semana. Ou seja, tornei-me um conservador à maneira de Verissimo. Se não é isso, o que é então? É essa história de vai e vem.

Se acontece com as roupas, com as ideias não é muito diferente. Quem diria que a castidade resistiria à revolução sexual da segunda metade do século XX? E ela está aí, meio na moita, mas não tanto. Tudo bem, é um exemplo besta, dou outro: a incivilidade. Ao longo da história, nosso país fez um quase completo genocídio dos índios, fez da escravidão, com crueldade, a forma de viabilizar a economia colonial e torturou sem cerimônia em suas ditaduras recorrentes, então nada mais natural que houvéssemos evoluído, entendido nossos erros e, a partir deles, estabelecêssemos novos limites de ação política. Visões de mundo distintas, tudo bem, mas, incensar torturadores, reciclar ideias caducas (por exemplo a de que a homossexualidade é uma doença ou um desvio de caráter ou de que não há o aquecimento global), inverter o sentido de nossa dívida histórica (quem deve é o índio, “com terra demais”, e os negros, “com a mamata das cotas”) já é um descalabro.


Vovô, aquele saudosista, abre o sorriso e balbucia na sala: “Até que enfim”. Quer dizer, balbucia num dia, fala alto e com as paredes no outro, no fim está discursando na mesa do almoço de domingo. Trágico: o neto aplaude e reproduz.

A boçalidade voltou à moda.