9.12.19

Minha filha, eu e uns bichos estranhos


Um besouro desses comuns, o escaravelho, quando cai de pernas para o ar, é um deus nos acuda. Imagino que todos já viram uma cena dessas. Eu pelo menos vi muitas, primeiro, na fazenda de minha avó, depois, já crescido, na de meu irmão. Na verdade, até mesmo em casa, quando a cidade em que cresci era menos urbana do que é hoje. Confesso que nem sempre salvei os pobres coitados.

Parto do princípio de que um besouro naquela situação não é capaz de se virar, de “pôr-se de pé” e, enfim, levantar voo a caminho de seus afazeres. O afazer que garante a sobrevivência de um escaravelho é formar uma bola com bosta de cavalo para enfiar num buraco na terra e, então, protegido, se alimentar da iguaria. Diga-se que os besourinhos que saem dos ovos deixados numa bola dessas nascem com o alimento garantido. Espertos os besouros. Sábios.




Sábios ou não, de pernas para cima tornam-se indefesos. O interessante é que aqueles que não ajudei, na manhã seguinte, nunca estavam na varanda ou no quintal onde os encontrara na noite anterior. Eles acabam se virando? São devorados por cachorros, gatos, ratos, lagartixas e até por tartarugas? Sinceramente não sei, mas imagino que sempre ocorra o pior. Se há uma imagem que associo ao desespero, à derrota inglória, é a de um besouro de pernas para cima.

Eu estou assim, um besouro desses — agonizando.

A que ponto cheguei! Percorria as ruas dessa crônica com um pé na ciência, particularmente na entomologia, e outro na lembrança da infância e fui bater no poste da minha fervura privada. Por favor, leitor, não me abandone, juro que não vou confessar minhas ansiedades ou coisas do gênero. Então o que farei?

Ora, dizer que não estou sozinho, hoje formamos um país de besouros com as pernas para cima. Eis a metáfora do Brasil. Ó, céus! Quer dizer que estamos assim: comendo bosta e, incapazes de nos desvirar, a mercê da fome de outros bichos?

Que triste.

Lá pelos seus quatro anos, minha filha andava encafifada com lobos, com o Lobo Mau para dizer a verdade. Eu e ela fomos ao zoológico para ver um guará, a espécie brasileira. Custamos a achar o local em que ficavam e mais ainda a vê-los, pois estavam metidos no fundo da jaula, deitados em algum lugar, enfim, indisponíveis. De repente, apareceu um, um só. Ao avistá-lo, coloquei minha filha no colo, apontei com o dedo e disse: “Olha o lobo”. Ela, frustrada com o que via, em nada parecido com o Lobo Mau, respondeu: “Isso não é um lobo, pai, isso é uma tartaruga”.

Alguns lobos não passam de tartarugas, mas os besouros, coitados, são comidos por um e por outro. Se é que não se desviram e alçam voos. Se é... quero acreditar nisso.

5.12.19

O orientador


Até aquele momento, a oficina transcorria dentro do que se pode considerar normal. Levávamos nossos exercícios, e o orientador fazia aquilo pelo qual nós o pagávamos: orientava. Apontava um personagem incoerente aqui, uma frase que soava como um ruído ali, uma história sem muito sentido.



Foi exatamente a partir da história avaliada por ele como inverossímil que o clima esquentou. O conto de Deluz era bem engraçado, mas o orientador cismou com uma passagem na qual o personagem comprava uma besteira numa grande loja de magazine e pagava com uma nota falsa. Para o orientador, ninguém conseguiria passar uma nota falsa numa loja com tamanha estrutura. A discussão ficou boa, tendo-se formado dois grupos. De um lado, os que reconheciam a impossibilidade de aquilo ocorrer, mas também não viam no fato a menor importância para o desenrolar do conto. Além do mais, havia o maldito “quase”, nessa perspectiva, tudo pode acontecer, a vida imita a arte, essas coisas batidas. O outro grupo, encabeçado pelo orientador, era irredutível. Se o conto é realista, a realidade tem de caber nele. O conto de Deluz seria realista até a medula, então que a realidade coubesse nele.

Gerônimo, o caladão de poucos contos e de poucas opiniões sobre nossos trabalhos, pediu a palavra para dizer que o orientador estava mostrando um lado terrível, a ignorância. Antes que alguém reagisse, ele continuou com seu argumento. Citou dois livros da primeira estante da literatura mundial. Na obra de Proust, há um molecote de uns sete anos que, ao andar pelo campo, reconhece cada uma das florezinhas encontradas pelo caminho, cada miosótis, cada isso, cada aquilo, Gerônimo se lembrava da cena mais geral, não dos detalhes. No entanto, era algo sem realismo algum, nenhuma criança daquela idade conheceria a natureza tão a fundo.

O orientador ficou emudecido, seu olhar embaçou.

Gerônimo, indiferente, continuou argumentando. Victor Hugo, no monumental Os miseráveis, criara uma situação na qual Jean Valjean ficou horas dentro de um caixão quase todo fechado, depois foi jogado na cova e saiu da situação só um pouco tonto. E mais, ele só foi salvo porque seu aliado e protetor conseguiu tirar do bolso da camisa do coveiro um papel importante, sem o qual o coveiro não sairia do cemitério depois das cinco da tarde. Foi uma artimanha para fazer o coveiro largar tudo e correr para a casa atrás do documento e o amigo de Jean ter tempo de abrir o caixão e tirá-lo de lá. Ou seja, zero de verossimilhança.

O orientador suspirou fundo, ficou de costas para nós e deu uns bons murros no quadro negro. Zilda e Lúcio saíram da sala às pressas. O ar ficou carregado. Deluz olhou com raiva para o Gerônimo. Gerônimo deu de ombros. Uma ansiedade coletiva fez o ar carregado ganhar corpo e escurecer a sala.

Um vento leve, mas barulhento, denunciou um movimento abrupto do orientador. Ele rodopiava e, quando pudemos ver novamente seu rosto, o orientador não era mais o orientador. Ao começar a andar em nossa direção, percebi que quem se aproximava era um minotauro, um minotauro dilacerado e faminto. O monstro parou diante da cadeira do Gerônimo, tomou-o pelo cabelo e o devorou.

Retornando a seu lugar, rodopiou outra vez e voltou a ser o baixinho e estridente de sempre. Esfregou as mãos e nos mandou embora. No próximo encontro, fez questão de enfatizar, retornaríamos àquela profícua discussão.


Achei tudo um pouco contraditório, o defensor da verossimilhança fazer o que havia feito, mas quem sou eu se não um reles aprendiz. Meus colegas, em particular o Deluz, ficaram como que petrificados em seus assentos. Para mim, ordem dada, ordem cumprida: caí fora. Carreguei a impressão de ter participado da melhor aula de todos os tempos.

4.12.19

História curta



Conto uma história curta. Na realidade, um crime. Um crime passional. Fim de uma paixão cujo início foi igual a todo início de uma paixão.

O casal se conheceu no carnaval, deitou-se nas cinzas, foi morar junto num maio esplendoroso, mais esplendoroso do que qualquer outro. Maio do amor. Maio da fúria. Maio único. E único maio.

Em setembro, ele, ao abrir a porta de casa, encontrou a mulher encolhida no sofá. Os dois se olharam. O olhar dele carregava o brilho do primeiro dia. O dela continha uma bruma, o amor fugira dali.

Foi o suficiente. Ou melhor: é o que se pode supor.

Ao arrombarem a porta, o que havia? Ela e ele mortos. Ela morta por ele. Ele morto por ele. Não se sabe nada além disso.

A vizinha do lado emprestara-lhes, no início de julho, uma cumbuca de açúcar. Considerava-os simpáticos, mas não os encontrara mais de duas vezes.