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20.9.26

À margem

O momento em que o leitor abre o livro e perde o chão perdido antes pelo escritor é forte, mas raro, a despeito da qualidade do livro ou do leitor. É raro porque o ato de ler sofre a influência de uma série de coisas, entre elas, o estado emocional. Pode acontecer de se abrir um, sei lá, Dostoiévski, Drummond, Lispector, Woolf e não se sentir tocado, abismado, sequestrado de si mesmo. É o dia, é a noite, são os perrengues da vida, são paixões. Tudo pode distrair um leitor e torná-lo resistente ao que vem de fora, ou melhor, ao que vem de dentro de um outro.

Mas, quando acontece, não ofereça um café ao leitor, não lhe diga que está frio ou o faça lembrar-se do almoço do próximo domingo na casa dos vizinhos. Deixe a figura quieta, isolada no seu canto. A leitura é sempre amorosa e erótica, no molde de “Felicidade Clandestina”, conto publicado por dona Clarice lá no terceiro quarto do século XX. Enfim, o escritor numa ponta e o leitor na outra se dão em um relacionamento silencioso, não necessariamente sereno.

Se já me amasiei com a obra dos autores antes citados, noutras tantas e às cegas agarrei um achado meu como o amor mais precioso. Ainda jovem, caiu em minhas mãos — está na minha biblioteca, embora sem releitura — “Tantubá” (Global Editora), de Luiz P. Cardoso. A história é simples: durante o velório, o morto reflete sobre a vida em diálogo com seu cachorro. Outro, esse não tão desconhecido, “O Túnel”, de Ernesto Sábato, tumultuou minhas ideias de rapazola de vinte anos, ainda que, depois de o ter lido mil vezes, dei uns passos atrás em minha idolatria. Aquela fixação apaixonada, quase violenta, do artista pela mulher ultrapassou os limites da minha empatia.

“O Grande Caderno”, de Ágota Kristóf, escritora húngara exilada na Suíça, agora reeditado pela Dublinense, foi uma recomendação feita nos anos de 1990 por dois grandes amigos, desses que não chegaram a passeio. Com a nova edição, tive acesso aos outros dois volumes que formam a “Trilogia dos Gêmeos”. A leitura do conjunto reforçou a boa impressão mantida em silêncio por uns trinta anos. A primeira novela, contada por um narrador na primeira pessoa do plural, opção pouco comum, acompanha a história dos gêmeos deixados pela mãe na casa da avó para protegê-los da guerra na capital. Os gêmeos, pela opção narrativa, não se desassociam, são um só — os demais volumes são dedicados a cada um deles, embora verdade e mentira nas mãos da húngara sejam apenas um jogo. Recentemente, ao ler “Sorriso Sorvete de Cereja”, de Giovanna Ramundo (Cambucá), deparei de novo com esse narrador plural e não muito usual, mas são dois casos distintos. A jovem escritora brasileira criou uma personagem, a menina Rio, que encontra nos nós de seus cabelos uma outra. Com isso, a narração pode estar na primeira do singular, na primeira do plural ou num misto de ambas, no caso cometendo um “erro” de coesão textual. Seja como for, outras coisas aproximam “O Grande Caderno” do “Sorriso Sorvete de Cereja”, talvez uma certa crueldade infantil. Se me espantei no contato inicial com Kristóf — li, além da trilogia, o autobiográfico “Ontem” (Nós), que me apresentou uma mulher forte e corajosa —, o mesmo aconteceu com a nossa brasileira.

Seguindo o caminho de autores fora do eixo Estados Unidos-Europa Ocidental, vou ao outro lado do mundo. Da Estação Liberdade, li a pequena novela “Terra e Cinza”, de Atiq Rahimi, escritor e cineasta do Afeganistão exilado na França. A história é comovente: o avô e o neto vão ao encontro do filho do primeiro e pai do segundo — trabalhador em uma mina longe de casa — para avisá-lo das bombas despejadas sobre a aldeia, responsáveis pela morte de toda a família a exceção dos dois. A criança está surda por conta de um estrondo ocorrido bem ao seu lado. A escrita do autor, lidando principalmente com o silêncio, é sóbria, poética na medida, o que nos leva a aproximar, em vez de fugir, da tristeza.

Há duas consequências quando dá match entre mim e o livro. A primeira é me perguntar por que razão insisto em escrever, não vale a pena, tudo está tão bem escrito. A segunda, em resposta quase imediata à primeira, é correr até a mesinha, ligar o computador e dar início a alguma aventura que oxalá um dia alcance um leitor atento e disponível.

16.6.25

Mil nomes nenhum

Eu não vejo a Janaína há tanto tempo que não posso dizer se continua com aquele sorriso acolhedor e olhar curioso. Já o Bão, com quem me encontro cotidianamente, não mudou nadinha e acha tudo maravilhoso. Mas, rapaz – eu o cutuco –, e essas guerras, essa carnificina infantil, esses donos do mundo destrambelhados da vida? Ele dá de ombro e responde categórico: “Bão, isso está fora do meu alcance”. Assim é ele, e talvez por isso eu o veja, finja que não o vejo e nunca dou publicidade de seu nome.

Quando falo em Janaína, sim, ela existe, é minha prima, mas seu nome é outro – sei bem qual é, mas não vou dizê-lo. O sorriso e o olhar dela são daquele jeitinho mesmo, ou eram há uns vinte, trinta anos, última vez que a vi. O mundo é cruel. Já o Bão, esse não existe, é uma mistura de figuras que encontro por aí. Para o sucesso dos doidos extremistas, é preciso que haja os que batem palmas para eles. O Bão – também chamado de Isentão, embora de isento não tenha nada – é o sumo dessa turma.

Vou ser bem sincero: acredito nas coisas e pessoas inexistentes. Personagem de livro, desse fico amigo. Feito aquele menino do “Tia Julia e o escrevinhador”, do Vargas Llosa. Cara legal, pô. Quer ser escritor e, como é comum aos dezoito anos, se apaixona por uma mulher mais velha – não tem quarenta e é tratada pelos familiares como um estorvo, um absurdo –, que também se apaixona por ele. Além disso, tem um bom amigo, é bem aceito pelos tios e pelos avós (até o surgimento da tia, que não é exatamente tia), vira e mexe bota panos quentes em conflitos na rádio em que trabalha, inclusive naqueles nos quais os patrões estão envolvidos. Não é um garoto legal? Aos dezoito eu era um pouco assim, é verdade que com umas doses a mais de canjebrina. E aquela mulher do “Syngué sabour –– Pedra de Paciência”, do escritor afegão Atiq Rahimi? Numa das intermináveis guerras internas no país, o marido se feriu, requerendo assim todo o tempo da esposa. Ao lado do homem sem nenhum sinal vital além de respirar e se sujar, ela vai se soltando, falando – será ouvida? – tudo aquilo que a gente imagina não ser comum a uma afegã falar: conta de sua insatisfação sexual ou de como idolatra a tia que se tornou prostituta. Não que eu tenha me apaixonado por ela, mas, puxa vida, que mulher espetacular.Agora vou contar uma vantagem. Um amigo meu – milagre sem santo, fato sem nome – me escreveu dia desses uma mensagem enigmática. “E a Elisa”? Meu Deus, quem seria? Não demorou tanto assim para a ficha cair: é uma personagem de meu conto “Chorão”, escrito recentemente. Meu amigo caiu de amores por ela. Não fosse o compromisso de escrever minhas crônicas quinzenais para a Rubem, eu aposentava o escritor que sou, pois fui laureado com um Nobel particular. O dicionário agradece a minha boa vontade com palavras esquecidas. Canjebrina, laureado: regozijai!

Há um ponto nisso tudo que não sei se vocês estão percebendo. Não guardo nomes de personagens. Nem dos meus. Conto outro caso similar ao da Elisa. Uma de minhas irmãs (não digo como foi registrada ao nascer, embora haja uma história interessante em seu batismo) me liga – não havia essas modernidades de zap e zup e sei lá mais quê – e diz as mesmas palavras do meu amigo: “E o ...?” Ela falou a alcunha (dicionário, festejai!), eu não sabia de quem se tratava, até que fui severamente repreendido: “É o seu personagem do ‘Todas as fichas’, ora essa”. Agradeci e me desculpei. Vejam que terrível, voltei a me esquecer do nome ou do apelido dele (razão das reticências um pouco acima), um sujeito legal e, não por isso nem apesar disso, viciado em jogo e prostitutas. Conheço uma pessoa parecida. Ela, além dessas características, às três da manhã, recém-chegada da rua, fritava um bife que muitas vezes me arrancou da cama e me fez descer as escadas para filar a boia. Sei bem como se chama, mas não digo como é nem lhe faço um outro batismo.

18.10.15

Outubro


Não consigo pegar o pulso da crônica que começo a escrever, o que não quer dizer que eu não tenha assunto. É tão somente uma advertência que faço levando em conta que a crônica da falta de assunto, em algum momento, foi, é ou será escrita por todo cronista, bom ou não. Eu diria até que, feito os temas clássicos do jazz, valorizados pelos improvisos dos músicos, a crônica da falta de assunto é um clássico que se apresenta ora num improviso de Rubem Braga, ora noutro de Clarice Lispector e até mesmo no improviso “preso à pauta” de um AB qualquer.

O que não falta a minha crônica é assunto — triste, de uma tristeza mais triste que a tristeza comezinha presente em alguma outra, por exemplo, a de quando minha mãe morreu, na qual eu comentava o abandono de seus cachorros e a coincidência de sua morte com a tragédia do voo da TAM ao pousar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

É difícil dosar a tristeza e, de resto, qualquer estado de espírito. O lado de lá da tristeza, a alegria e suas imediações, também não se dá à crônica com mansidão. Se em torno do arco da tristeza estão, doces, o recolhimento e a introspecção e, ásperos, o melodrama e o sentimentalismo rasteiro, na beira do arco da alegria cabem a parcimônia da ironia e a devassidão da comicidade. É árduo equacionar os sentimentos, o que beira ao tormento quando está se falando de um lá depois da tristeza. E o que pode haver nesse tão longe? Uma dor não exatamente nossa, do nosso íntimo, mas que reverbera nele de forma aguda, impiedosa.

Tomo as rédeas da crônica e, com ou sem pulso, digo logo o que tenho (e não gostaria) de dizer.

Outubro, no Brasil, é o mês das crianças. Essa data não surgiu de uma ação do comércio — ainda que bem aproveitada por ele. Foi, ao contrário, uma recomendação, no âmbito da ONU, de 1954 — esforço que culminou, em 1959, na “Declaração Universal dos Direitos da Criança” e, em 1989, na “Convenção sobre os Direitos da Criança”. A intenção de todos esses documentos está, a meu ver, sintetizada no de 1959. Nele são listados dez princípios que deveriam ser seguidos em qualquer lugar. O primeiro é a igualdade, o que significa não haver discriminação por raça, religião ou nacionalidade, e o último o de “crescer dentro de um espírito de solidariedade, compreensão, amizade e justiça entre os povos”. Entre os dois, o direito ao amor, à educação gratuita, ao socorro prioritário em caso de catástrofe.

Tudo faria crer que uma preocupação política dessas, sexagenária, já deveria ter revertido o quadro de sofrimento de nossos meninos, mas sabemos que isso não aconteceu. As crianças morrem vítimas da violência policial (veja o recente relatório da Anistia Internacional, com foco no Brasil), morrem de doenças insignificantes, têm dificuldade de entrar na escola e, quando entram, de permanecer nela. Em nosso país, segundo a Unicef, 25% das crianças de 4 a 6 anos não frequentam a escola e 64% das pobres não o fazem durante a primeira infância. E mais: o Brasil ainda tem 535 mil crianças de 7 a 14 anos — faixa na qual 98% delas estão matriculadas — longe da sala de aula, das quais 60% são negras. Sobre os jovens negros e pobres, no Brasil ou não, o relho da inação bate mais forte.

Não bastasse esse quadro de desamparo, as guerras que não cessam tornam o grave um ponto alocado no meio de uma escala que alcança o trágico. Debruce sobre as notícias da Síria, de onde a família de Aylan Kurdi, o garoto encontrado emborcado numa praia turca, tentava fugir. Imagine a situação do Afeganistão. Se o leitor não tem uma referência sobre o país, sugiro a leitura de “Terra e cinzas” (Estação Liberdade), de Atiq Rahimi, romance no qual é contada a história de uma longa jornada em que avô e neto buscam avisar ao filho do primeiro e pai do segundo que a vila em que viviam foi destruída por um bombardeio e, da família, apenas os dois sobreviveram. O menino é surdo, melhor, ficou surdo pelos bombardeios. A guerra era a dos anos 1980, e pelo Afeganistão de hoje passa outra guerra no lugar daquela. Como estarão as crianças, que insistem em nascer? A mesma preocupação se aplica às palestinas e, de outra maneira, às israelenses.


Se a África, em regiões conflagradas ou não, fez alguma coisa para suas crianças tendo em vista a lista da ONU, baseou-se apenas no rascunho do que ali era intenção. Sabemos da penúria de povos que sofrem, ao lado da pobreza, a violência de estados corruptos e a insanidade de grupos radicais como o Boko Haram, que, não por acaso, elegem como alvo preferencial de ataque as crianças, em especial as meninas. Ferir a inocência e apressar seu fim é uma orquestração bem pensada, cujo intuito é melhor não compreender.

Eu erraria a mão ao escrever a crônica, sabia disso desde a primeira frase. Todavia, neste ano da graça de nosso Senhor, ano que faz questão de não jogar o pó da maldade para baixo do tapete, não posso me dar ao luxo de cantarolar por aí o leve refrão de Michael Sullivan e Paulo Massadas: “Hoje é o seu dia / que dia mais feliz”.  A felicidade tem passado longe.