27.7.26

Fumaça sem fogo

Quando você estiver lendo essa crônica, se é que a lerá, se é que alguém a lerá, estarei arrumando minhas coisas para voltar de Paraty, da Flip. É possível que eu esteja, então, feliz ou pelo menos alegre. Mas pode ser que esteja chateado por uma fala besta, por uma timidez na hora errada, por ter pagado a mais uma conta que não era só minha. Da perspectiva do passado, o futuro é apenas um quadro, um prego e uma parede ainda não manufaturados. Sou uma incógnita nesse domingo, 26 de julho.

Certo é que no dia 22, no ônibus — a passagem já está comprada, mas há uma possibilidade de eu ir de carro, até mesmo dirigindo um veículo alugado, o que não muda o que direi —, a caminho de Paraty, me lembrarei de minha mãe. Seria o aniversário dela, seus cento e três anos, dos quais esteve conosco até quase os oitenta e quatro.

Na semana passada, depois de eu, minha filha e meu genro voltarmos de Passos, cidade na qual nasci, Helena compartilhou fotos da viagem com o resto da família. Os netos de minha mãe — espalhados pela Europa, América do Norte, Oceania, Belo Horizonte e Rio — começaram a trocar lembranças da velhinha. Como era querida, como cada testemunho revelava a marca de uma influência. Dona Haydée era esplêndida.

Não sei se já contei alguma vez, mas me lembro de minha mãe toda vez que compro laranjas. No mercado, ela pegava, alisava e balançava uma antes de decidir se colocava ou não na sacola. Depois da escolha, a explicação: o ideal é optar pelas de cascas finas e não muito leves. Não é incrível que, entre tantas lembranças, conviva amiúde com essa? O afeto é rasteiro mesmo, e ser ou não ser é conversa de bardo inglês.

Em Paraty, se tudo tiver dado certo — quer dizer, se eu não sofrer um piriri ou tomar um porre antes da hora —, terei participado de uma mesa sobre crônica. Não sei agora o que falarei, nem saberei depois o que falei. Não sou muito de teorias sobre nada e escrevo crônicas ora olhando a rua, ora o beco sem saída que sou. É certo que aprenderei com meus colegas de mesa, é certo também que acharei um horror estar ali, eu tão ignorante. Mas estarei, dona Haydée me deu um mapa dos abismos. As mães, como a terapia, não nos protegem das enrascadas, mas nos indicam quais são os sinais. O que posso afirmar, enquanto escrevo, é que estou de olho na fumaça do futuro, produzida por um fogo ainda não aceso.

Então, leitor, leitora, caso ainda estejam aqui, ao me preparar para voltar ao Rio, é possível que lute desesperadamente para distribuir os livros adquiridos pela mala pequena. Não só eles, ela terá de acomodar ainda um cobertor, as toalhas de banho e rosto, além das roupas — no fim da viagem, sujas e amarfanhadas; ao contrário da ida, limpas e dobradas. Não recebi lição de como armar esse quebra-cabeça, quer seja de minha mãe, quer seja de meu pai, com quem viajei muitas vezes.

Joaquim — agora teria cento e sete anos e faleceu há trinta — nunca foi de ensinar as coisas práticas da vida, como escolher laranjas ou dobrar roupa. Com ele aprendi a caçoar da vida e a fazer as pessoas rirem. Além disso, como meu irmão escreveu na lápide, o velho sempre soube levantar-se depois dos tombos — ainda estou pelejando nessa cartilha.

Enfim, além das lições domésticas, minha mãe me deu a arte. Já meu pai, mestre na diplomacia, me ensinou também a dar o nó no cadarço do sapato.

 Um domingo harmonioso para vocês, se possível me desejem uma boa viagem. 

13.7.26

Viagens à Terrinha

Em 2025, depois de seis anos, voltei a minha cidade natal, Passos, interior de Minas. Daquela vez, passei por experiências incríveis, a começar pela recepção surpresa que meus amigos da vida inteira me fizeram. Os abraços e brindes reforçaram a amizade em momento em que a política nos separa de forma até violenta. Isso para mim foi um aprendizado e uma reconexão com uma parte minha agradável e humana.

Naqueles dias, convidando meu amigo Rodrigo Leste, escritor e ator belo-horizontino, organizei uma Felifitá — Festa Literária de Fim de Tarde. O evento ocorreu num local que eu desconhecia, o Instituto Motirõ, uma instância político-cultural tocada na força e na coragem por Márcio Carvalho e Betânia Marques, dois professores. No Motirõ, juntou-se a nós o grupo Vastafala — reunião de amantes do teatro e da poesia cuja história é semente de tudo que veio depois.

Também esteve conosco o cronista da cidade, Sebastião Wenceslau Borges. Ele contou a história da "língua do sapateiro", dialeto criado pelos artesãos (como ele) para conversas veladas — às vezes para falar mal de clientes que cobravam rapidez no serviço e pechinchavam, noutras para erotizar as mulheres do high society. Meu mestre Gilberto Abreu, poeta e romancista de mão cheia, também marcou presença. Ele foi meu professor de história antes de deixar a cidade por questões políticas para se tornar um grande docente, vereador e secretário municipal em Ribeirão Preto. Por fim, e tão importante quanto os demais, a poeta Marise Pacheco, integrante do revolucionário grupo de estudantes secundaristas que, em plena ditadura, produziu a Protótipo, revista mimeografada que circulou pelo Brasil. Reunimos umas cinquenta pessoas e fizemos um sarau inesquecível. Minha emoção circulou, então, nesse eixo afetivo-cultural.

Acabo de voltar de Passos, de uma outra viagem igualmente mágica. Fomos eu, minha filha (que não voltava lá há uns dez anos) e, pela primeira vez, meu genro. Antes de chegar a Passos, paramos na Estância dos Lagos, um condomínio bonito à beira da represa de Furnas, para o casamento da Jéssica e do Thales — ela, filha dos meus primos-irmãos, Rosa e Jânio.


Escarpas do Lago, Capitólio, Minas Gerais


Que festa! Não me lembro de ter ido a outra igual, e não digo apenas pela grandiosidade. O lugar é maravilhoso e os convidados estavam de fato irmanados. Ali, revi pessoas que passaram pela minha vida, mas que não eram do grupo mais próximo. Eram homens e mulheres com os quais não mantive contato desde a adolescência. Brinquei com alguns, chamando-os pelo nome de seus pais. É isto: vamos ficando iguais aos nossos velhos, o que é uma coisa bonita. Esses reencontros não trouxeram nostalgia, mas me fizeram ver como a vida é realmente um sopro. Um sopro às vezes com cisco, às vezes apenas uma lufada mansa, incapaz de levantar um fio de cabelo, e refrescante.

A viagem com minha filha e meu genro foi ótima, tanto pelas estradas atravessadas ao som de boa música, quanto por tudo que vivemos lá. Helena já havia avisado ao Luan para não se assustar, pois vários conhecidos diriam que ela é a cara da minha mãe. Não deu outra. Só no casamento, contei uns vinte comentários desses. A figura de minha mãe no rosto de minha filha é forte para mim e para ela, que sempre teve uma relação profunda com a avó.

Fomos visitar o túmulo de meus pais, que custamos a encontrar. Uma vez lá, Helena depositou sobre ele lírios brancos. Ela não sabia, mas nos santinhos de primeira comunhão dos filhos de dona Haydée vinha escrito: “Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; e eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles” — versículos de Mateus e de Lucas.

Nós três ainda mergulhamos nas cachoeiras ao redor do Lago de Furnas. Nesta época do ano, a água é gelada, mas não há o risco de trombas d’água e o sol é forte. O corpo ainda agora agradece por essa limpeza.

Por fim, houve o lançamento de “Os verbos estão cansados” (Editora Patuá), meu mais recente livro de contos. Outra festa, na qual velhos e novos amigos, parentes e pessoas da cultura — inclusive a diretora municipal — me prestigiaram. O local, um bar com espetinhos maravilhosos, foi perfeito para o encontro.

Registro, em letras maiúsculas, a presença do escritor belo-horizontino Ronaldo Guimarães, responsável pela orelha do meu livro. Esse admirável amigo saiu cedo de BH e venceu quase quatrocentos quilômetros de estrada só para tomar uma cerveja comigo. Ao ser apresentado ao Ronaldo, o escritor Marco Túlio Costa, morador de Passos e colecionador de prêmios literários, inclusive o Jabuti, brincou dizendo que estava ali a pessoa certa para "puxar a minha orelha". Não discordo, mas a presença de meu orelhista me mostrou o verdadeiro significado da amizade.