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13.7.26

Viagens à Terrinha

Em 2025, depois de seis anos, voltei a minha cidade natal, Passos, interior de Minas. Daquela vez, passei por experiências incríveis, a começar pela recepção surpresa que meus amigos da vida inteira me fizeram. Os abraços e brindes reforçaram a amizade em momento em que a política nos separa de forma até violenta. Isso para mim foi um aprendizado e uma reconexão com uma parte minha agradável e humana.

Naqueles dias, convidando meu amigo Rodrigo Leste, escritor e ator belo-horizontino, organizei uma Felifitá — Festa Literária de Fim de Tarde. O evento ocorreu num local que eu desconhecia, o Instituto Motirõ, uma instância político-cultural tocada na força e na coragem por Márcio Carvalho e Betânia Marques, dois professores. No Motirõ, juntou-se a nós o grupo Vastafala — reunião de amantes do teatro e da poesia cuja história é semente de tudo que veio depois.

Também esteve conosco o cronista da cidade, Sebastião Wenceslau Borges. Ele contou a história da "língua do sapateiro", dialeto criado pelos artesãos (como ele) para conversas veladas — às vezes para falar mal de clientes que cobravam rapidez no serviço e pechinchavam, noutras para erotizar as mulheres do high society. Meu mestre Gilberto Abreu, poeta e romancista de mão cheia, também marcou presença. Ele foi meu professor de história antes de deixar a cidade por questões políticas para se tornar um grande docente, vereador e secretário municipal em Ribeirão Preto. Por fim, e tão importante quanto os demais, a poeta Marise Pacheco, integrante do revolucionário grupo de estudantes secundaristas que, em plena ditadura, produziu a Protótipo, revista mimeografada que circulou pelo Brasil. Reunimos umas cinquenta pessoas e fizemos um sarau inesquecível. Minha emoção circulou, então, nesse eixo afetivo-cultural.

Acabo de voltar de Passos, de uma outra viagem igualmente mágica. Fomos eu, minha filha (que não voltava lá há uns dez anos) e, pela primeira vez, meu genro. Antes de chegar a Passos, paramos na Estância dos Lagos, um condomínio bonito à beira da represa de Furnas, para o casamento da Jéssica e do Thales — ela, filha dos meus primos-irmãos, Rosa e Jânio.


Escarpas do Lago, Capitólio, Minas Gerais


Que festa! Não me lembro de ter ido a outra igual, e não digo apenas pela grandiosidade. O lugar é maravilhoso e os convidados estavam de fato irmanados. Ali, revi pessoas que passaram pela minha vida, mas que não eram do grupo mais próximo. Eram homens e mulheres com os quais não mantive contato desde a adolescência. Brinquei com alguns, chamando-os pelo nome de seus pais. É isto: vamos ficando iguais aos nossos velhos, o que é uma coisa bonita. Esses reencontros não trouxeram nostalgia, mas me fizeram ver como a vida é realmente um sopro. Um sopro às vezes com cisco, às vezes apenas uma lufada mansa, incapaz de levantar um fio de cabelo, e refrescante.

A viagem com minha filha e meu genro foi ótima, tanto pelas estradas atravessadas ao som de boa música, quanto por tudo que vivemos lá. Helena já havia avisado ao Luan para não se assustar, pois vários conhecidos diriam que ela é a cara da minha mãe. Não deu outra. Só no casamento, contei uns vinte comentários desses. A figura de minha mãe no rosto de minha filha é forte para mim e para ela, que sempre teve uma relação profunda com a avó.

Fomos visitar o túmulo de meus pais, que custamos a encontrar. Uma vez lá, Helena depositou sobre ele lírios brancos. Ela não sabia, mas nos santinhos de primeira comunhão dos filhos de dona Haydée vinha escrito: “Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; e eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles” — versículos de Mateus e de Lucas.

Nós três ainda mergulhamos nas cachoeiras ao redor do Lago de Furnas. Nesta época do ano, a água é gelada, mas não há o risco de trombas d’água e o sol é forte. O corpo ainda agora agradece por essa limpeza.

Por fim, houve o lançamento de “Os verbos estão cansados” (Editora Patuá), meu mais recente livro de contos. Outra festa, na qual velhos e novos amigos, parentes e pessoas da cultura — inclusive a diretora municipal — me prestigiaram. O local, um bar com espetinhos maravilhosos, foi perfeito para o encontro.

Registro, em letras maiúsculas, a presença do escritor belo-horizontino Ronaldo Guimarães, responsável pela orelha do meu livro. Esse admirável amigo saiu cedo de BH e venceu quase quatrocentos quilômetros de estrada só para tomar uma cerveja comigo. Ao ser apresentado ao Ronaldo, o escritor Marco Túlio Costa, morador de Passos e colecionador de prêmios literários, inclusive o Jabuti, brincou dizendo que estava ali a pessoa certa para "puxar a minha orelha". Não discordo, mas a presença de meu orelhista me mostrou o verdadeiro significado da amizade.

27.2.23

Encontro de escritores

 

A C.J.M. e S.F.

Não sei o que vocês imaginam quando veem uma foto de um grupo de escritores. Eu penso em diálogos profundos, reflexões, críticas que se fazem uns aos outros, além de alguns arranca-rabos. Mas, de fato, não é bem assim, ou, quando um dos escritores sou eu, certamente não é bem assim. Se um dia vier a circular uma foto em que eu e dois escritores mineiros estamos no quase carnaval de fevereiro de 2023, vocês verão que jogávamos botão. A imagem não serve como metáfora sobre a reflexão literária ou o fazer literário, ainda que seja poética, afinal os atletas tinham entre sessenta e setenta anos.

Antes desse encontro, havia jogado botão pela última vez com meu filho mais velho, agora com trinta e três anos. Digamos que ele tivesse dez na época, portanto fiquei mais de duas décadas fora dos gramados de madeira. Isso talvez explique o meu último lugar no campeonato recente. Não foi um vexame, joguei até bem, entretanto, não sei se me elogiando ou me criticando — ou se elogiando e criticando —, o dono dos times e do estádio e anfitrião desse encontro me disse que poeta já sou, mas que, no botão, eu tenho de me esforçar bastante. Preferi me agarrar à parte ligada à poesia, porém, cá com meus botões, não os de acrílico e sim os mentais, já planejo um treinamento forte. Quero voltar lá e, além de me encantar com a variedade de borboletas que circulam pelo jardim, dar uma surra em ambos. Uma surra tão forte que os leve a escrever poemas como aqueles feitos por quem perde um amor.





26.9.22

Sobrevoo em Poços de Caldas

 Aos poucos, vou dando meus passinhos fora de casa. Ainda uso máscara e mantenho os braços prontinhos para uma nova dose da vacina contra esse vírus furibundo. Venha quando quiser, garota. Montado nessa coragem contida, fui à décima-sétima edição da Flipoços (Feira Literária de Poços de Caldas), cujo patrono foi, no aniversário de 50 anos do antológico Clube da Esquina, Milton Nascimento.

Gosto de ver os ônibus escolares desembarcarem meninos e meninas pequenos e outros já adolescentes e acompanhar a sua movimentação. Falam muito e se encantam com tudo. Em Poços, com um vale-livro nas mãos, eles foram à compra. Sem me apoiar em nenhuma ciência, acho que a moçada correu para os livros de fantasia e cards de não sei quê. Ah, não vou reclamar de suas escolhas, exigir que prestigiem a alta literatura, prefiro deixá-los na deles. Se são picados pelos livros, hoje leem isso, amanhã aquilo.

Festas e feiras literárias se fortalecem com mesas pensantes, convocações e compartilhamento de beleza. Na Flipoços, houve encontros importantes, como aquele que reuniu os responsáveis por eventos similares espalhados pelo Brasil. A Fli do Xingu, a de Pernambuco, a do Cerrado de Minas, o Fórum das Letras de Ouro Preto, a (quase septuagenária) Feira do Livro de Porto Alegre e a Bienal de Minas estavam lá na companhia de Gisele Ferreira, a idealizadora da feira anfitriã. Levantaram como proposta criar uma espécie de federação e, assim, ganhar força política para pressionar as várias instâncias do Estado e se aproximar da iniciativa privada.

Na Flipoços, tive notícias do Polígono Sul-Mineiro do Livro, esse entrelaçamento de pessoas e instituições que, naquele espaço de Minas, a minha Minas, faz um esforço tremendo em prol da leitura. O Polígono armou mesas para pensar a leitura e premiar leitores da região que se destacaram ao longo do ano. Acompanho o que essa turma faz, é espetacular.

A grande estrela da feira em ano musical foi Ney Matogrosso. Ele participou, num dia, da mesa de lançamento de sua biografia e, no outro, acompanhou a exibição do documentário sobre sua trajetória, feito por Felipe Nepomuceno, e respondeu a algumas manifestações da plateia. Diante de uma figura que, mais que um ídolo, parece um farol, sobrou emoção, e muita gente não conteve as lágrimas. Alguns, como eu, estavam assim porque esse senhor de oitenta anos carrega uma ideia de país pela qual lutamos e que, hoje, está ameaçada. Outros tinham em Ney a força que lhes deu ar e coragem. Um homem, no meio do caminho entre a juventude e a velhice, pediu a palavra. Não queria dizer nada, apenas que Ney o autorizasse a se aproximar (de máscara, porque Ney anda de máscara) do palco e beijar sua mão. Naquele beijo, de um, o beijo de todos.

Em feiras e festas, os bastidores são tão importantes quanto os eventos. Na secretaria, onde tomávamos um bom expresso e beliscávamos um delicioso docinho de leite, trocávamos ideias e livros, firmávamos amizades, prometíamos encontros. Não há como não registrar como as responsáveis (equipe feminina, o que é digno de registro) pela organização do evento nos acolhiam de forma eficiente e amorosa. Coisas de Minas, posso garantir.

Tive encontros com gente não ligada diretamente à feira. Procurei o Pedro César, músico e ativista de Poços, que eu havia conhecido no ano passado no Rio. Tomamos algumas cervejas, e ele me apresentou a outros jovens – à Carol, por exemplo, que papeou comigo enquanto eu tomava um chope num dia e, no outro, papeou comigo também tomando um chope  – e me aproximou da esperança, esse sentimento que nos estão sequestrando. A intermediação da mesa de que participei foi feita pela Cacá D’Arcadia, outra jovem bem preparada e que disputa, pelo PT, uma vaga na Assembleia de Minas.

Todos os encontros foram precedidos por um não previsto. Cheguei à cidade às cinco da manhã, e Danilo estava na rodoviária para me levar ao hotel. Conversador, ele logo disse que não era da cidade, havia nascido não muito longe dali. Perguntei onde. Em Passos. Minha cidade, ora! Ele então perguntou de que Brandão eu era, já que na terrinha há pelo menos dois ramos (meu pai era de um, minha mãe do outro). Antes que eu respondesse, ele quis saber o nome de minha mãe. Naquela altura, Danilo apostava em quem ela poderia ser. Quando falei Haydée, ele disse que era filho da Dionésia. Ah, a Dionésia! Ela começou a frequentar nossa casa para fazer as mãos e os pés de dona Haydée e, nos feriados e férias, de não sei mais quantas mulheres. Mas Dionésia ultrapassou essa função e ajudou minha mãe no joguinho de loteria, no pagamento dos boletos, nisso e naquilo. Muitas vezes, fazia companhia à minha mãe, almoçava com ela, papeava. Enfim, Dionésia doou parte de seu afeto a nossa família, e nunca conseguiremos agradecer tamanha generosidade. Esse encontro com o Danilo e, de quebra, com meu passado anunciava dias lindos, exatamente como foram.

24.6.19

Burocratas contra o encanto


Começo com uma história. Eu estudava na USP e tinha um colega de Pernambuco, um funcionário público licenciado que viveria em São Paulo enquanto durasse o mestrado. Ao tomar uma carona com ele, vi que seu carro tinha placa de Recife. Imaginei sua viagem para São Paulo. Saíra numa manhã de sábado, dirigira uns 800 quilômetros, parara para descansar em Feira de Santana, na Bahia, e seguira viagem no domingo ainda de madrugada, quando, lutando contra o cansaço, percorrera os quase 1.900 quilômetros restantes até São Paulo. Ou, o que parecia mais sensato, fizera outra parada em Belo Horizonte, 1.300 e tantos quilômetros de Feira de Santana. Ou viajara sem tanta pressa pelo litoral, curtindo praia, conquistando amores.

Quando perguntei ao colega sobre a viagem, constatei que minhas especulações passaram longe da verdade, ele despachara o carro num navio. Sim, embarcara o carro no bem-bom de um navio em Recife para resgatá-lo em Santos. É uma história menor? Não, não é, só é um pouco mais fria, um carro no navio, seu dono no avião.

Na época dessa história, o padrão das placas dos automóveis era o de duas letras e quatro algarismos. (Meu pai tinha um KT 0108, que eu chamava de “Catoio 8” — mas isso não tem importância.) Pouco depois, as placas passaram a ter três letras seguidas de quatro algarismos. No mais antigo e no que o substituiu, deveriam estar impressos o estado e o município.

No momento, está em processo a implementação de um novo padrão, agora com três letras seguidas por um algarismo, outra letra e mais dois algarismos. Não há mais a indicação do estado ou do município, somente a do país. Assim, atende-se ao propósito de dar unidade aos países que formam o Mercosul, já que segue as diretrizes indicadas por ele. Nada contra.

Nada contra, mas há um problema: ao abandonar o modelo ainda em vigor, perdemos uma fonte primorosa de devaneios e inspiração. Coloquem-se na Praça JK de Cássia, Minas Gerais, por onde passa um carro de Desterro, Paraíba, com a placa GKL 0229. Não captou a questão?




Serei didático. Nas placas que estão sendo deixadas de lado, as letras iniciais indicam o estado do primeiro emplacamento. Quando esse modelo entrou em vigor, o Paraná serviu como teste. Por isso, carro com placa que se inicia com a letra “A” foi necessariamente registrado lá. Pavimentei a estrada aonde quero chegar. Continuo.

Uma placa GKL teve origem em Minas Gerais. Na do carro que passou por Cássia, terra de tantos parentes e onde Antonio Candido passou a infância, a cidade indicada é da Paraíba. Um cassiense, morador da Paraíba, terá comprado o carro na cidade natal e, como vivia na outra cidade, fez o certo e o transferiu para o local de moradia? Ou o carro teve origem em outro ponto de Minas e o sujeito da Paraíba passava ali por Cássia por acaso, talvez com o objetivo de, tomando a estrada para Delfinópolis, chegar à Serra da Canastra para curtir uns dias com seu novo amor?

Perguntas sem resposta. Pergunta sem resposta se parece com poesia: ambas alimentam os sentidos, e só (só?). A mudança ora em processo nos tira essa desciência tão cara à imaginação. Os burocratas agem contra o encanto; é birra deles.

As novas placas nos impedem de devanear, de imaginar a possível história de amor que carrega um carro emplacado no Rio Grande do Sul e transferido para Roraima estar circulando por Maceió. Alguns dirão, ora, amplia o foco, pense num carro do Brasil nas ruas da Bolívia ou do Chile. O que não esconderá? É verdade, mas, nesse caso, o certo é pensar em viagens turísticas — a família ou os amigos realizando um sonho antigo —, ou, desculpem-me a dureza e o possível preconceito, em roubo. Podem até ser histórias bonitas ou aventureiras, mas previsíveis e menos românticas do que aquelas insinuadas pelas placas gravadas com estado e município.

29.1.13

Coisas da prima


Filha da tia Expedita e do tio Tonico, Rita é a prima que inspira esta crônica. Morava na Primeira Chapada antes de sair de Passos, há tempos. Casou-se em Ribeirão Preto com um bom Edson e, mesmo naquele calor medonho, ela e ele trouxeram à luz André e Thiago.
Rita é a maior contadora de casos do mundo. Ela memoriza as histórias, sabe encontrar o lado jocoso de cada uma delas e, quando se dispõe a contá-las, tem a manha de como segurar a plateia. Quem a conhece talvez concorde comigo; os outros, principalmente os muito jovens, terão de botar fé na minha afirmação — ou acompanhar esta crônica e tirar as próprias conclusões.
Sem o charme da prima, conto uma das inúmeras que ouvi dela. Eu a conto porque, neste mundo de urgências e importâncias superlativas, essa história é, como a maioria do repertório da Rita, sem importância alguma. É apenas caseira... e deliciosa. Com ela, o mundo fica assim também: caseiro e delicioso. Por alguns momentos. Que seja!
Ocorreu em Passos entre os anos de 1950 e 1960. Época festiva, de muitos bailes, acabou, sem querer, fissurando a felicidade de um casal bom de dança. Quem olha de fora os dramas alheios tende a achá-los miúdos, coisa de somenos. Não sejamos assim, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” (Caetano Veloso). O casal com problema dançava o fino, poucos chegavam a seus pés, mas, e aí estava o busílis, entrava mudo e saía calado da pista.
Certa vez, por exemplo, bem ao lado do casal, uma dupla desengonçada, tropeçando nos próprios pés, vagava alegre e falante música adentro. A moça ria, o rapaz falava. O rapaz ria, a moça falava. Outro casal mais adiante nem sequer dançava, isso mesmo, nem sequer dançava. Ficava parado no salão, jogando os ombros para um lado e para o outro sem sair do lugar. Em compensação, quanto assunto! Ela se afastava, tirava uma das mãos do rapaz e acrescentava gestos a um assunto infindável. Ele franzia a testa, muito concentrado naquelas palavras. Educado, quando encontrava uma brecha, falava baixinho, olhando bem nos olhos da parceira. E balanga pra cá, balanga pra lá. E tititi, tititi, blablablá, blablablá. O casal com problemas saiu da pista arrasado, apesar de ter dado, como de costume, um show no foxtrote, na valsa, em tudo que a orquestra soprou.
Baile na Roça - Di Cavalcanti.

Outro dia, antes do baile, a mulher chamou o companheiro a um canto e espetou-o com o tridente de sua diabólica inveja.
Ele não reagiu com menosprezo, ao contrário, concordou com ela, pois sentia-se desmoralizado socialmente. Onde já se viu aquele silêncio? O que achariam deles? Um casal com problemas de relacionamento? Casamento de fachada? Tomassem uma decisão.
Decisão... Essa estava dada, bastava falar um com o outro. Mas o quê? Falar, a bem da verdade, poderia atrapalhar o casal, perturbar o entrosamento rítmico cobrado pela dança. Diante da possibilidade de dançar mal, abateu sobre cada um o silêncio dos silêncios. Nem música, nem nada ali entre eles. A solução acabou assaltando, de estalo, a cabecinha inteligente da mulher.
No baile daquela noite, o casal dançou e falou exultante. Para ser sincero, não foi exatamente uma fala. Eu conto.
Mal colocaram os pés no salão, ela disse: “1, 2, 3”, e ele emendou: “4, 5, 6”. Daí, ela: “7, 8, 9”.
Numa animação de dar inveja, contando de três em três, vararam a noite sem arredar os pés do salão.

29.11.12

Alô, é o novo prefeito?


Novo prefeito, velhos problemas.
Novo prefeito, novos problemas.
O homem que se candidatou a prefeito sabe e, é o que se espera, prepara-se para enfrentar toda gama de problemas. (Ninguém entra de gaiato no navio.) Sabe que não basta sair por aí asfaltando ruas, melhorando o sistema de esgoto, disciplinando o trânsito. O bom prefeito vai às calçadas ouvir os habitantes, inclusive os que não votaram nele, e — sem golpe baixo ou interesse espúrio— costurar alianças. A população demandará obras, é fato, mas também matéria de outra natureza. Alguém vai querer saber quem matou a Soninha ou o Pelé dos Queijos. Não é da alçada do prefeito, mas um pinguinho de responsabilidade sobre a questão da violência recai sobre ele. Além disso, somos carne e alma, e esta quer aquilo que, como a própria, seja intangível.  A cultura, por exemplo.
Arco amplo, que vai da culinária à poesia, do modo de falar ou da moda à música, da preservação do patrimônio histórico às festas populares (carnaval, folia de reis, exposição agropecuária etc.), a cultura é manifestação espontânea, mas, para ganhar terreno e tornar-se bem comum, precisa, quase sempre, da intermediação do governo.
No campo das artes, tenho a impressão de que Passos avançou nos últimos anos. Cito alguns exemplos que me vêm à mente. Alguns músicos tocam em locais adequados (Magrão e família, por exemplo). Há grupos de teatro em plena atividade (muitos se beneficiam da reforma do Teatro do Rotary). Há avanços no campo audiovisual, como é o caso do Festival Selton Mello (ligado à FESP), sem contar a incansável determinação do Itamar Bonfim. É possível detectar alguma resistência no campo do folclore. Acompanho no Facebook a mobilização do grupo “Memória de Passos”, administrado por Jesuína Faria, Heliza Faria, Leila Andrade, Sílvia Mendonça, José de Paula Silva e Welfare Joele. Preocupado com a preservação do patrimônio histórico, esse grupo será, ou poderá ser, ou mesmo deverá ser, uma voz política importante nas discussões em torno da municipalidade.
Nas comemorações do aniversário da cidade, foi dado um passo e tanto na incorporação da literatura como evento que transcende as salas de aula ou os encontros de escritores como o Intercâmbio Literário (Hilda Mendonça à frente). A Festa Literária de Passos, a FLIPassos, foi executada com sucesso pela administração derrotada no último pleito. Se a política for levada como disputa de rua, briga de vândalos, o atual prefeito dará as costas ao evento, se prenderá a críticas irônicas e rasteiras e a vida continuará, com perda clara para todos os munícipes. Se fizer política com pê maiúsculo, a FLIPassos será analisada, reformulada (se preciso) e repetida nos próximos anos.

Como acredito na força libertadora (e transgressora, vá lá) da literatura, não sento e espero, trato de pressionar o novo prefeito, o que, do ponto de vista da democracia, é legítimo. Assim, senhor Ataíde, descontinuar a FLIPassos será pisar na bola, pois estamos falando de um evento-investimento, cujos frutos serão colhidos no futuro — futuro próximo. Dando prosseguimento à festa literária (o Governo Federal tem verba para destinar a municípios interessados em eventos desse naipe), todos nós, em breve, nos regalaremos com suas consequências. Pense nisso enquanto cuida das inúmeras outras questões que o aguardam a partir de janeiro. Desejo-lhe sucesso, pois indo bem sua administração Passos poderá vir a ser uma cidade melhor.

29.11.11

Em Passos


Estou com os pés nos 50 anos. Na realidade, quando esta crônica for lida, já terei a metade de 100. Se é muito ou pouco, não me interessa. Sei que vivi muita coisa, tive ilusões, incertezas, decepções, alegrias, tudo isso, como é da vida e de todos.
Chego aos 50 sem nenhuma vontade de comemorar a data no estilo bolo e velas. Nunca gostei. Prefiro, no dia, jantar com a família. Isso não quer dizer, todavia, que não festeje. Festejo sim.
Desta vez, por exemplo, o início dos festejos se deu em Passos. Foram, depois de um ano longe da cidade, três dias de folia. No dia 11 do 11 de 2011, relancei, no Bule Verde — espaço cultural que é sonho mais que sonhado do Paulinho Buldog  —, meus três livros. Bem, para isso, o pessoal do Bule armou uma noite daquelas, com congadas, música com os Jerônimos, perfomance. Isso tudo se já não bastassem o espaço em si, as peças expostas nele e sua arquitetura. Não, mas não acaba aí. Além de amigos e parentes, estiveram lá para conversar comigo pessoas de alguma forma especiais para mim, entre elas (não fiquem com ciúme os demais, se não os nomeio), o Sebastião Borges, sapateiro das antigas, homem que carrega a memória da língua do sapateiro e outras tantas, as quais poderíamos chamar de história da cidade.
Praça da Matriz, foto própria (2009).

A festa continou no outro dia, quando eu e meus amigos de adolescência nos reunimos, pelo terceiro ano consecutivo, para celebrar nossa amizade. Talvez tenha sido a reunião com o menor número de pessoas, mas, ai, ai, ai, ninguém nos tira o amor que sentimos uns pelos outros. Este ano tínhamos a dor da perda do Piccirillo, mas conseguimos fazer dela um fato a mais para ganharmos força e seguir adiante. Tem de ser assim, e assim tem sido e será.
Olho para o final de semana e reafirmo o que talvez já tenha dito por aqui: há algo raro em minha cidade. Não sei a palavra que possa defini-lo nem ouso inventar alguma. Apenas digo que essa raridade é feita de coisas simples. Do sotaque. De nosso português não muito chegado a plurais. Do tempero nem muito quente como o baiano, nem muito frio como os sugeridos pelos nutricionistas zelosos com nossa saúde. Da música triste — não, nada de tristeza, não é isso, estou enganado. A música dos pretos das congadas nos carrega para a proximidade de Deus, talvez com muito mais eficiência do que as orações, católicas ou não.
Claro, nem tudo foram flores, e eu cometi uma rata e tanto. Fui pro microfone do Bule Verde recitar um poema meu, publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais, e engasguei, esquecendo seus versos bem no meio. Para tentar salvar minha pele, reproduzo o poema. E me despeço. Vou ali viver meus 51, que, dizem, é uma boa ideia.

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                                                                                  Para Bia Werneck
Meu coração mineiro
Ante a poluição de São Paulo
Sente, como quem traga traças,
A solidão sólida de correr aflito
Avenidas adentro, entre gigolôs e maníacos,
Procurando, procurando, looking for...
Teu nome em outdoor é lavanderia,
E sou a acidez da cidra crua,
Enquanto a rua espalha medo.
Atravessá-la e socorrer-me ou
Paralisar nádegas pulmões?

Meu coração mineiro,
Longe das montanhas, em desabrigo,
Treme, como gelatina gelada,
Ao deparar o olhar cego
Comendo com as mãos
Outros, outras, others...
Teu nome no disco é música,
E sou marginal moda de viola,
Enquanto a rua espelha o meu medo.
Atravessá-la e socorrer-me ou
Paralisar pés rins?