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7.4.25

Meu Deus particular

 Se não estou lelé da cuca, falei do Milton Nascimento em uma crônica recente. Volto a falar dele, leitor e leitora, agora por conta do documentário “Milton Bituca Nascimento”, dirigido por Flávia Moraes. O filme acompanha a parte internacional de “A última sessão de música”, a derradeira turnê do menino nascido carioca e crescido mineiro.

Na viagem, Bituca confessa seu amor à mãe, desfruta de momentos de carinho com o filho, canta para plateias europeias e estadunidenses, tudo entremeado por depoimentos sobre sua dimensão artística. O filme carrega a ideia de que ele teria apresentado o Brasil ao mundo. É verdade, mas Carmen Miranda, Tom Jobim, João Gilberto e tantos outros o precederam. Milton, por sua vez, percorreu uma trilha especial, tendo sido abraçado por Wayne Shorter, Herbie Hancock, afluentes do grande rio chamado Miles Davies. E continua sendo, agora, por exemplo, por Esperanza Spalding, baixista e cantora de jazz com quem gravou um CD (“Milton + esperanza”) indicado ao Grammy, cuja cerimônia de premiação esnobou o senhor de oitenta anos, com saúde debilitada. Uma vaia aos organizadores.

Que som é aquele, de onde veio? A essa pergunta, repetida em depoimentos e na narração, ensaiam-se várias respostas, inclusive a sempre lembrada influência mineral, das montanhas. Não me lembro quem fala – Chico Amaral (músico mineiro), se não me engano – que o melhor a fazer é fechar os olhos e se deixar levar pelo mistério, sem querer entendê-lo. Com as mãos em movimentos circulares, Quincy Jones sugere uma benção especial de Deus em Miles Davies e Milton Nascimento. Acredito nessa distinção, mas isso não os impediu de cortar bons dobrados em suas vidas terrenas. O vício do primeiro, a doença do segundo. O racismo, nos dois casos.

O depoimento do Wagner Tiso, parceiro desde os tempos de meninos em Três Pontas, é comovente. Desculpando-se, ele chora – a moça na fila de trás da minha no cinema faz eco: “eu também estou chorando”. Bom, e eu também. O Chico Buarque, outro octogenário, ao assistir àquele vídeo famoso – Milton vocalizando o início de “O que será?”, ao lado de um Chico encantado –, experimenta a mesma emoção, expressa num leve piscar de olhos, uma forma de não deixar as lágrimas caírem. A gente está no mesmo barco, bambino.

Há pelo menos um momento de poesia absoluta: Criolo e Mano Brown, um sem saber o que se passa com o outro, falam a letra de “Morro Velho”. Criolo, sereno, se agarra à beleza da amizade entre o preto e o branco, o rico e o pobre. Mano Brown, contestador, não esquece a luta de classe, delimita bem que, no fim, é o preto na lida e o branco no comando, dono de tudo. Há que se dizer que as duas coisas estão na letra do Milton. Essas leituras tão distintas acontecem com Hamilton de Holanda solando a melodia no bandolim. Nessa cena, o filme toma outra dimensão, são três caras que se chegaram ao Bituca bem depois do Clube da Esquina, das andanças mundo afora, das parcerias com Elis, Chico, Caetano e Gil. É forte. Assim como é forte o final, Milton ouvindo e regendo Angela Maria cantar Babalu. Presenciamos a reverência sentimental do homem ao seu berço musical, as cantoras.

Corro o risco de cometer uma heresia, mas vamos lá: o texto narrado por Fernanda Montenegro é fraco, repetitivo. E a narração da atriz – que me marcou em “Eles não usam Black-tie” e nos recentes “Ainda estou aqui” e “Vitória” – me pareceu excessiva.

Fui à estreia de “A última sessão de música” (na saída, Lenine flanava pelo estacionamento assobiando “Meu menino”, música da Ana Terra e Danilo Caymmi, gravada no Clube da Esquina 2 e não cantada no show). Não sou chegado a ninguém, não fui agraciado diretamente com um convite vip, mas estava lá. A história é longa, não a contarei, o que interessa é que eu e uma grande amiga fazíamos parte da plateia. O show me jogou nas cordas, emoção que deixou de ser momentânea, transformando-se em perene: ficou como memória de minha querida amiga que em breve nos deixaria.

É nascimento.

É vida, “vida, que amor brincadeira”.

Não poderia deixar de ser morte.

Milton é meu Deus particular.





10.3.25

Oscar e escola de samba, nem ligo

 Se há duas coisas que, em graus variados, não me pegam são desfile de escola de samba (um pouco) e entrega do Oscar (bastante). Apesar disso, me vi às voltas com ambas durante os dias de Carnaval.

As escolas que gostaria de ver, Mangueira, da qual sou torcedor, e Portela reverenciando Milton Nascimento, eram as últimas a se apresentar em seus respectivos dias. Sem atraso, entrariam na avenida às duas e meia da matina. Nessa hora, meu bem, durmo o sono dos justos e o dos injustos. Com o desfile de cada escola disponível aos assinantes, bem acordado, no meio da tarde, assisti aos dois e, de quebra, ao da Beija-Flor.

A Mangueira me comoveu. Aquela bateria simulando um tiroteio, som que faz parte da paisagem de quem vive nas favelas cariocas, e depois saltando para o funk e o jongo, para, por fim, chegar ao samba tradicional, e tão próprio da Estação Primeira, foi um acontecimento. Um dos jurados – justo o que foi meu vizinho – achou por bem tirar um décimo da Verde e Rosa. Deve ter suas razões, não posso discutir, mas os outros três cravaram a nota máxima, e a “Surdo Um” (apelido carinhoso), sob o comando de Taranta Neto e Rodrigo Explosão, ficou com dez. Numa leitura política que tem marcado a escola, a comissão de frente destacou os “crias”, como são chamados os jovens da favela, ao dar a eles lugar de potência e criatividade, uma contestação à perversidade dos que os veem como problema. Bem, os jurados não gostaram, e a comissão não faturou a nota máxima.

A Portela mexeu comigo quando escolheu Milton Nascimento como tema. Isso tanto é verdade que anunciei – quer dizer, comentei com dois cupinchas – minha troca circunstancial da casaca verde e rosa pela azul e branco. Esperei por um espetáculo brilhante, porém, confesso, não captei muito o sentido do que foi para a avenida. Mas isso não deve ser problema da escola, eu é que não entendo nada de desfile. De todo jeito, ver o Bituca sentado no trono abençoado por Paulinho da Viola, Monarco, tia Surica e tantos outros já vale um Carnaval e duas missas. Sabendo ainda que um dos carnavalescos é filho de um amigo meu, botafoguense ainda por cima, todo o meu envolvimento com essa invasão “mineira” só fez crescer.

A Beija-Flor, odiada por tantos – talvez por ser, junto da Imperatriz Leopoldinense, a que mais ameaça o domínio da Mangueira e da Portela –, com um samba-enredo fácil de aprender, sustentou a beleza das fantasias, a alegria dos integrantes, a emoção da despedida de Neguinho da Beija-Flor como puxador de samba e, o mais importante, a homenagem a um personagem da escola, o Laíla. Campeã sem contestação. Opa, eu não contesto, mas, entre as próprias escolas, há insatisfação e acusação de falcatrua. Isso é lá com eles, meu samba é no pé. Me corrijo, no sofá, vendo o desfile gravado.

O Oscar assisti ao vivo e inteiro. A tradução simultânea funcionou bem, e isso facilita a vida de um monoglota. De todo modo, com boa ou má tradução, a cerimônia é chata. Alguns momentos são bonitos – destaco o discurso pé na porta dos diretores (Yuval Abraham, Basel Adra, Rachel Szor, Hamdan Ballal, uns palestinos, outros judeus) de “No Other Land”, vencedor de melhor documentário –, mas as piadas são pífias, quando não equivocadas. Ao dizer que sua mulher achou uma boa ideia o marido sumir, como no filme brasileiro, o apresentador se mostrou tão desconectado de “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, que deveria, um pouco depois – aconselhado ou pressionado pelos produtores da festa –, pedir desculpas. (E eles lá pedem desculpas?) Enfim, o brasileiro ganhou merecidamente como o melhor estrangeiro e temos de comemorar e esperar – sem muito otimismo – que isso se traduza em mais recursos para o cinema nacional. Só para lembrar: em Berlim, "O Último Azul", do pernambucano Gabriel Mascaro, levou o Urso de Prata, o Grande Prêmio do Júri.

O ganhador do Oscar, “Anora”, de Sean S. Baker, é uma salada de frutas. Começa com uma pegada “Mil tons de cinza”, passa por uma comédia pastelão e, a meu ver, salvando-se de um vexame, tem um final no mínimo sóbrio – amiga minha o viu como um desfecho machista; entendo, mas não concordo. O Carnaval deu o tratamento que o filme merece, parodiando uma clássica marchinha, que agora é assim:

 

"Se você fosse sincera, oh, oh, oh, Anora

Devolvia o nosso Oscar, oh, oh, oh, agora.”

 

Mário Lago, autor da música, lá do infinito, ergueu um brinde. Fernanda Torres, atriz de ponta e figura simpática e engraçada, deve cantar a versão no escondidinho de seus quartos de hotel, onde tem vivido os últimos meses.

20.4.24

Encontro #1

Uma frase assalta Drummond: “eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça”. Não é novato, publicou livros, sabe bem que o que lhe bate à porta é um poema. Apruma o corpo e espera os versos descerem para bicar o alpiste que espalha sobre a mesa de trabalho. Não há nada de inspiração, comprou a semente e inventou a árvore agora ocupada por pássaros famintos. Viver atento o transformou em poeta. Os versos pousam aos poucos. Drummond alimenta os mais feios e, em seguida, com um peteleco, espanta-os, manda-os de volta ao ninho. Noutra oportunidade – quem sabe ainda naquela manhã? –, é provável que os chame outra vez, pois, de repente, não serão tão feios assim. Seja como for, de longe assiste ao alvoroço faminto daquele monte de palavras, algumas já conectadas a outras, pássaros siameses. “Todas as mães se reconheçam, e que fale como dois olhos”. Tudo que recolhe guarda no bolso do paletó, um temporário alçapão de linho. A tarefa pode demorar – poeta de fibra, faz ginástica diária, está pronto para pequenas maratonas –, mas, se as inexistentes musas resolvem resguardá-lo para embates futuros, a escrita acontece num par de segundos. Pronto de vez, não, é apenas uma versão provisória, a ser revista amanhã ou depois, a primeira de umas tantas.

O final, já em verso, é um sopro a ser lançado contra furacões: “Eu preparo uma canção / que faça acordar os homens / e adormecer as crianças”. Feliz com o resultado, até mesmo excitado, o poeta, de novo menino, quer logo mostrar o feito aos amigos, à mãe, à mulher, ao porteiro do prédio, a Deus. Se faz ou deixa de fazer, depende muito do grau dessa pequena loucura. É de se esperar que, experiente, guarde os versos na gaveta e, um pouco febril, enfie-se na água fria, entorne duas doses de uísque ou, ávido por espiar o mundo que sua canção poderá tornar um pouco melhor, se debruce na janela.

Um dia o poema passa a circular. Uma mulher chora ao lê-lo. Tomado pela inveja, um poeta não sabe se beija Drummond e agradece ou se afasta-se daquele que acaba de jogá-lo na sarjeta da qual nunca se levantará. Certo é que o poema acaba lido por um carioca, adotado por Minas, com Minas no próprio nome, Milton Nascimento.

A mãe de Bituca, Maria do Carmo, foi levada pela tuberculose quando ele não tinha nem dois anos. A dona da pensão na qual ela trabalhava acolheu o menino como filho, um querido filho. Adotado por uma família, adotado por um Estado, Milton deve ter se visto naquela canção em que as mães todas, biológicas ou não, de sangue ou de terra, se reconhecerão. Ele tomará de Drummond aquelas palavras para cantá-las e levá-las a lugares aonde o poema talvez não chegue. Compõe então uma melodia. Grava a melodia. Em “Canção amiga”, não canta, como dizia Elis Regina, com a voz de Deus, sua voz é uma deusa, cuja bíblia são as palavras de Drummond.

Depois da audição protocolar, na qual, diante do cantor tão tímido quanto ele, segurou a emoção, Drummond faz outra, longe de todo o mundo, ele e o vinil. O menino toma o desejo do velho poeta e o faz ligar para Vinícius de Moraes, acostumado ao mundo musical, a quem se confessa comovido como o diabo do diabo. Ou não, o entorpecimento o leva à rua, onde gasta a sola do sapato no calçadão de Copacabana. Não tem coragem de assobiar, na realidade não sabe reproduzir a melodia. Não pode cantar aquela música ou qualquer outra, sua voz soaria como montanhas dinamitadas pelo capital, embora num tom agudo, de uma ave disposta a silenciar o céu. Chuta de leve uma lata de cerveja ou xinga em pensamento um cachorro de rua. Volta à casa e, antes de se deitar no quarto de hóspede, pede a Dolores para não ser incomodado. Agitado, vira-se e revira-se na cama. Enebriado pela vaidade, está feliz. Não é vaidade. Ou é. O que importa? Está feliz. Acomoda-se assim de lado, fecha os olhos e, numa velocidade jamais a ser alcançada ao rascunhar um mísero poemeto, dorme o sono do mundo.

19.11.22

Anotações de improviso

— O que é o mercado?

— Aquele lugar onde, entre outros, o João Sílvio vendia um Canastra daqui, ó. Oferecia também arroz, feijão, até sardinha — em lata e nacional, é verdade. E tudo, veja bem, anotado em caderneta.

— Mas é esse que anda nervoso?

— Ah, não, o nervosinho é de outra categoria. Ele não vende nada, muito menos fiado, mas ganha muito e pressiona que só.

 

Ó, Deus que não existe, dou-te algum contorno, um vulto, quiçá mãos e braços, e me aconchego em ti. Agradeço-te então a existência de Milton Nascimento. Reclamo da subtração repentina de Gal, mas também agradeço por ter-nos dado essa voz, essa beleza.

 

Estar no meio de uma torcida de futebol talvez seja a coisa mais animalesca que existe. As torcidas são violentas e comportam-se como se estivessem em guerra. Dito isso, estar no meio da torcida faz um bem danado, pois liberamos os ácidos da violência, que precisam ser descarregados de uma maneira ou outra, afinal somos violentos.

 

Será que, quando os portugueses desembarcaram aqui nesta terra, que na realidade não era uma, mas muitas, cada uma ocupada por um povo indígena diferente, houve um olho no olho entre eles e o grupo nativo com quem mantiveram o primeiro contato? Aposto que não, a espoliação requer o fingimento, e este não suportaria o enfrentamento imposto pelo olhar recíproco.


Vi um sujeito parado numa esquina, e sua postura era de quem vivia uma angústia, talvez não soubesse como chegar ao endereço a que deveria se dirigir. Resolvi ajudá-lo. Ele me disse que não iria a lugar nenhum, na realidade esperava um amigo. Já ia me retirando, quando ele me chamou. Me olhou de cima a baixo. Era a mim que esperava. (Ou a qualquer outro.)

26.9.22

Sobrevoo em Poços de Caldas

 Aos poucos, vou dando meus passinhos fora de casa. Ainda uso máscara e mantenho os braços prontinhos para uma nova dose da vacina contra esse vírus furibundo. Venha quando quiser, garota. Montado nessa coragem contida, fui à décima-sétima edição da Flipoços (Feira Literária de Poços de Caldas), cujo patrono foi, no aniversário de 50 anos do antológico Clube da Esquina, Milton Nascimento.

Gosto de ver os ônibus escolares desembarcarem meninos e meninas pequenos e outros já adolescentes e acompanhar a sua movimentação. Falam muito e se encantam com tudo. Em Poços, com um vale-livro nas mãos, eles foram à compra. Sem me apoiar em nenhuma ciência, acho que a moçada correu para os livros de fantasia e cards de não sei quê. Ah, não vou reclamar de suas escolhas, exigir que prestigiem a alta literatura, prefiro deixá-los na deles. Se são picados pelos livros, hoje leem isso, amanhã aquilo.

Festas e feiras literárias se fortalecem com mesas pensantes, convocações e compartilhamento de beleza. Na Flipoços, houve encontros importantes, como aquele que reuniu os responsáveis por eventos similares espalhados pelo Brasil. A Fli do Xingu, a de Pernambuco, a do Cerrado de Minas, o Fórum das Letras de Ouro Preto, a (quase septuagenária) Feira do Livro de Porto Alegre e a Bienal de Minas estavam lá na companhia de Gisele Ferreira, a idealizadora da feira anfitriã. Levantaram como proposta criar uma espécie de federação e, assim, ganhar força política para pressionar as várias instâncias do Estado e se aproximar da iniciativa privada.

Na Flipoços, tive notícias do Polígono Sul-Mineiro do Livro, esse entrelaçamento de pessoas e instituições que, naquele espaço de Minas, a minha Minas, faz um esforço tremendo em prol da leitura. O Polígono armou mesas para pensar a leitura e premiar leitores da região que se destacaram ao longo do ano. Acompanho o que essa turma faz, é espetacular.

A grande estrela da feira em ano musical foi Ney Matogrosso. Ele participou, num dia, da mesa de lançamento de sua biografia e, no outro, acompanhou a exibição do documentário sobre sua trajetória, feito por Felipe Nepomuceno, e respondeu a algumas manifestações da plateia. Diante de uma figura que, mais que um ídolo, parece um farol, sobrou emoção, e muita gente não conteve as lágrimas. Alguns, como eu, estavam assim porque esse senhor de oitenta anos carrega uma ideia de país pela qual lutamos e que, hoje, está ameaçada. Outros tinham em Ney a força que lhes deu ar e coragem. Um homem, no meio do caminho entre a juventude e a velhice, pediu a palavra. Não queria dizer nada, apenas que Ney o autorizasse a se aproximar (de máscara, porque Ney anda de máscara) do palco e beijar sua mão. Naquele beijo, de um, o beijo de todos.

Em feiras e festas, os bastidores são tão importantes quanto os eventos. Na secretaria, onde tomávamos um bom expresso e beliscávamos um delicioso docinho de leite, trocávamos ideias e livros, firmávamos amizades, prometíamos encontros. Não há como não registrar como as responsáveis (equipe feminina, o que é digno de registro) pela organização do evento nos acolhiam de forma eficiente e amorosa. Coisas de Minas, posso garantir.

Tive encontros com gente não ligada diretamente à feira. Procurei o Pedro César, músico e ativista de Poços, que eu havia conhecido no ano passado no Rio. Tomamos algumas cervejas, e ele me apresentou a outros jovens – à Carol, por exemplo, que papeou comigo enquanto eu tomava um chope num dia e, no outro, papeou comigo também tomando um chope  – e me aproximou da esperança, esse sentimento que nos estão sequestrando. A intermediação da mesa de que participei foi feita pela Cacá D’Arcadia, outra jovem bem preparada e que disputa, pelo PT, uma vaga na Assembleia de Minas.

Todos os encontros foram precedidos por um não previsto. Cheguei à cidade às cinco da manhã, e Danilo estava na rodoviária para me levar ao hotel. Conversador, ele logo disse que não era da cidade, havia nascido não muito longe dali. Perguntei onde. Em Passos. Minha cidade, ora! Ele então perguntou de que Brandão eu era, já que na terrinha há pelo menos dois ramos (meu pai era de um, minha mãe do outro). Antes que eu respondesse, ele quis saber o nome de minha mãe. Naquela altura, Danilo apostava em quem ela poderia ser. Quando falei Haydée, ele disse que era filho da Dionésia. Ah, a Dionésia! Ela começou a frequentar nossa casa para fazer as mãos e os pés de dona Haydée e, nos feriados e férias, de não sei mais quantas mulheres. Mas Dionésia ultrapassou essa função e ajudou minha mãe no joguinho de loteria, no pagamento dos boletos, nisso e naquilo. Muitas vezes, fazia companhia à minha mãe, almoçava com ela, papeava. Enfim, Dionésia doou parte de seu afeto a nossa família, e nunca conseguiremos agradecer tamanha generosidade. Esse encontro com o Danilo e, de quebra, com meu passado anunciava dias lindos, exatamente como foram.

26.2.22

Pra não dizer que não deixei de não falar dos horrores


Uma de minhas irmãs confessou que anda gostando de gim, mas que é para não nos preocuparmos, toma um drinque muito de vez em quando. Não me preocupo, mas cantarolo o conselho do velho Vinícius de Moraes, uma autoridade no assunto: “o gim é um veneno, cuidado, benzinho, não beba demais”.

A pandemia me transformou em sonhador. Quer dizer, uma vez acordado, a sensação dos sonhos sai da cama comigo, mesmo que eu não me lembre exatamente deles. Às vezes, acordo angustiado, mas, como não registro os sonhos — o que, numa mesa de bar, uma psicanalista considerou um pecado —, as imagens logo se dissipam. Volto a dormir, ou não. Dia desses sonhei que espalhava uns brinquedinhos de plástico ou umas bijuterias, não consegui definir se uma coisa ou outra, sobre o capô de um Ford Rabudo. Foi como uma volta a minha infância nos anos 1960, quando os táxis de minha cidade eram velhos automóveis dos anos 1940. 



Ford rabudo

 Numa mesa de bar, havia uma parente do Milton Nascimento. Isso não é nada e não seria nada se, de repente, o Deus em pessoa não passasse por lá. Muito simpático, deu um alô geral e foi para um compromisso. Eu havia me preparado tanto para aquele dia, arquitetado tudinho, mas não aconteceu. Falariam ao Milton: “Este é o Xandão”. Depois, a pessoa que nos apresentava me diria: “Você está careca de saber quem ele é, não?”. Eu responderia: “Claro. Muito prazer, Fernando Brant, sou seu fã”.

A piada criaria uma empatia imediata entre nós dois, e ele sentaria ao meu lado. Falaríamos de Minas, de nossas vidas em Passos e Três Pontas, cidades próximas. Quando ele descobrisse que eu escrevia umas bobaginhas, pediria uma letra, que eu rascunharia ali mesmo, e ele, ali mesmo, delinearia a melodia. A gente se transformaria em parceiro, emendando um sucesso atrás do outro. Algum tempo depois, alguém faria uma brincadeira com ele dizendo que o conhecia muito bem, ele não era o Xandão da Haydée e do Joaquim?

Sonho bom é sonho acordado.

Ao ver uma foto antiga, de pessoas desconhecidas, tive muita vontade de ser uma delas. Talvez pelos sorrisos. Ou pelo bolo, branco, semelhante à torta de abacaxi com coco que minha mãe fazia, mas nem sempre. Ela tinha disso. Uma das primeiras vezes que meu cunhado almoçou lá em casa, mamãe preparou um coq au vin, um trem chique. Bem, durante os demais trinta e quatro anos vividos por ela, meu cunhado pediu o franguinho francês. Não logrou sucesso.

Quando dona Haydée queria, em casa se fazia doce com a casca da melancia; também com a casca, no caso do abacaxi, se fazia o aluá, bebida, segundo ela, muito apreciada por Dom Pedro I. Quando a senhora que comia jabuticaba com garfo e faca queria, essas coisas de preparo delicado eram feitas. Mas só quando ela queria.

Na Copa do Mundo de 1974, ouvi a partida entre Brasil e Polônia dentro do Fusca vermelho, ano 1966, do meu irmão. Atravessávamos a Serra da Mantiqueira, indo do Rio a Passos. O rádio não ficava sintonizado o tempo todo, assim, até hoje não sei se ganhamos ou perdemos. Mas, também, era decisão de terceiro lugar, quem se preocupa com isso?

Outra viagem entre Rio e Passos. Dessa vez, eu dirigia, meu pai acompanhava. Fomos parados por excesso (não muito) de velocidade. Desci do carro, meu pai desceu também e, ao chegar perto de onde o militar anotava os dados da multa, me deu uma bronquinha, já havia me avisado para ir devagar etc. e tal. Voltando ao carro, ele olhou o relógio e, fazendo-se ouvir por todos, lamentou o nosso atraso, teríamos de correr.

O velho não demonstrava interesse por uma comida específica, a não ser, talvez, pelo pudim de pão. Mas, se o doce — feito quando mamãe queria — fosse servido na sobremesa, ele, magro e nem um pouco guloso, comeria um pedaço pequeno. Sóbrio no gostar, impiedoso no não gostar: naquela casa no Beco dos Aflitos, nem quando mamãe quis, se comeu bacalhau.

Seu Joaquim jamais foi de verdades ou filosofias. Mas não me estranharia se ele lançasse a máxima: lambisgoias à parte, o mundo não está para mexericas. Não quer dizer nada, mas meu pai era mesmo um pândego.



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Lançarei pela Urutau o livro de poesias "O sol pelo basculante". Como tem ocorrido nesse período de pandemia, as editoras vêm recorrendo à campanha de pré-venda, garantindo assim os recursos que viabilizem a produção do livro. 

Para acessar o site e adquirir seu livro (se dentro do prazo a meta não for alcançada, o dinheiro é devolvido), entre aqui. Vale dizer que há muitas opções de compra disponíveis, desde o livro eletrônico até "pacotes" com mais de um exemplar deste título ou com outros livros da editora. No site, é possível que o título ainda esteja com um pequeno erro, "um" no lugar de "o".

Espero que eu possa fazer uma noite de autógrafos, quem sabe um pouco diferente: em vez de meus amigos irem lá comprar o livro, levarão seus exemplares apenas para eu colocar aquela dedicatória que, graças a minha letra, ninguém entenderá. O vinho ou a cerveja, de todo modo, continuarão nos ajudando a manter alguma alegria em tempos tão sombrios.

Agora, se a compra já for a do livro autografado, bem, aí o encontro será apenas para tomar umas e outras e matar nossas saudades.

Espero que a pandemia arrefeça para que os planos de encontro se concretizem.

23.10.21

O velhinho

Enquanto a pandemia desnudava a incompetência bolsonariana, Paula Lavigne fazia vídeos caseiros de Caetano Veloso. Ele aparecia de pijama, sapato com sola de corda, retratado, aos meus olhos, como um velhinho. Em um dos vídeos o artista discorda de Celso Cunha, de quem lê um livro da década de 1980, que vaticinava o fim do sotaque caipira. Caetano argumenta que o tal “R retroflexo” está aí, firme e forte, como demostram falantes do Centro-Oeste, do Paraná (Moro, o “ex-tudo”), Tabata Amaral, Mano Brown e cantores sertanejos. Tendo encontrado o mesmo “R” no espanhol falado no Paraguai, Caetano o liga à influência do Tupi-Guarani. Pijamas, pantufas, resistência ao exercício físico, gula de paçoca, alguma rabugice, às vezes dificuldade de entender determinada coisa: um velho, mas um velho que, curioso e atento, estuda. Naqueles vídeos, havia um atrito (velado) entre o marido e a mulher, além da pressão para que ele fizesse uma live (ele e os filhos fariam uma linda).


Imagens extraídas do Instagram de Caetano Veloso



A mesma exposição da velhice encontrei em pequenos vídeos que Augusto Nascimento, filho de Milton, fez do pai. Ora, os autores de “Paula e Bebeto” são velhos e, no frio, têm, como Milton faz, de se agasalhar com exagero e, em casa, devem abusar do pijama. De todo modo, por ter crescido encantado com a potência desses caras — e de Chico, Gil e Paulinho da Viola, a plêiade de nossos gênios musicais —, é difícil lidar com seu declínio.

A pandemia fez um ano, fez um ano e meio e caminha para o segundo. Somamos 600 mil mortos e uma leva de outros desastres. Mas eis que, livre do pijama e da câmera invasiva de Paula, Caetano lançou uma nova música, a primeira de um álbum (“Meu coco”) que viria a público um pouco depois. Não é uma música qualquer, é uma baita música. “Anjos tronchos” (Drummond espia e ouve) dialoga com o que é o grande bem e o grande mal do nosso tempo, a internet, isso que nos aproximaria e miseravelmente tem nos distanciado, que foi criado para nos libertar e tem nos aprisionado, que foi concebido como plural, descentralizado, e tem se aglutinado em monopólios; isso que se tem reduzido a um grande mercado. Caetano compõe com faro e fúria de jovem. Não por acaso, ele, que na música diz: “Agora a minha história é um denso algoritmo / Que vende venda a vendedores reais”, afirma em entrevista: “Meu desejo é confundir os algoritmos”. Ah, moleque! A velhice em Caetano é um detalhe besta, talvez lhe pese, pois a velhice pesa, mas não lhe subtrai a fome de compreender e embelezar o mundo e a capacidade de nos surpreender.

29.10.18

O violão no baú

Se não me falha a memória — e a crônica, no seu miúdo, sempre é sobre memórias que falham —, há dezoito anos escrevo crônicas. Por suposto, tratei de muitos assuntos e me repeti inúmeras vezes. Repetir-se é tão humano quanto errar... amar... abluir-se (aprendi esta palavra num romance do Vargas Llosa; sugiro, a quem não sabe o que é, correr ao dicionário, se possível antes do banho).

Deixo o exibicionismo de lado e vou ao que interessa, repetindo-me ou não. Se der sorte (se dermos), velho assunto em roupa nova, o que já é alguma coisa.

No início da adolescência, eu era um moleque gordinho e, como estratégia para não ceder ao fracasso da vida amorosa que se mostrava a meus olhos, resolvi aprender violão. Aprendi. Mais até: compus algumas músicas. Com isso conquistei de fato, senão amores, alguns olhares, um tanto de carinho e uns dois ou três suspiros.

Foto do autor, de Conservatória.
Mais tarde, então um homem magrinho (entre a gordura da infância e a atual, houve a magreza), encontrei meu amor, alguém que nunca me ouvira tocar e cantar. Ou seja, o violão não parece ter ajudado. Seja como for, nos meus vinte anos, olhei pros meus dedos, mirei minhas mãos e concluí: “Véi, você é o pior violonista do planeta, se emenda, poupe o ouvido dos amigos, descanse sua garganta, que mais grita do que canta, e suas mãos e dedos, que vão encontrar coisa melhor pra fazer, não se preocupe”. Enfiei minha viola no baú e fui cuidar da vida.


O que era cuidar da vida sem o violão? Sem saber o que era, letrista de meia dúzia de músicas, passei a escrever poesia. E, claro, assim como em certo momento achei que eu era uma espécie de Baden Bituca de Holanda, ao escrever os primeiros versos me vi como um Manuel Drummond de Meireles Mendes. Se um dia esfaqueei o músico, fui condescendente com o poeta. Humildemente descobri que o Xandão era só o Xandão, e à escrita ao rés do chão, rodapé da literatura, me filiei. Fui da poesia pro conto, do conto pra crônica. E, tendo ido, voltei da crônica pro conto, do conto pra poesia. E vou e volto, já que a vida — ora em valsa, ora em samba, ora em tango e bolero que algum mestre tange —, não passa disso. 

17.9.15

Quatro

Silêncio

É de dentro do silêncio — caverna sem sombra, colo extemporâneo para um homão feito eu — que escrevo agora e de onde imagino não sair tão cedo. Silêncio, com medo de se quebrar, não dá margem nem a pensamento, pequeno que seja.


O canto das cigarras faz parte do silêncio. E, no extremo silêncio, ouve-se o formigar das trabalhadeiras. Logo, concluo, o silêncio silencioso é uma invenção, mas o meu, agora, este —  ah, este silêncio! — fechou as portas para o mundo, e o mundo foi fazer barulho lá longe, na p que o pariu ruidoso. 


Preto e branco

Leio o livro duplo de Nilma Lacerda. De um lado “Viver é feito à mão”, de outro, “Viver é risco em vermelho” (bela edição da Editora Positivo). Duas histórias muito parecidas e, assim mesmo, inconfundíveis. Parecidas porque as duas personagens se envolvem com a escrita, porto ao qual chegam como forma de lidar com suas dores. Distintas porque a menina da primeira história é de classe média, branca provavelmente. A da segunda, negra, vive sem pai nem mãe na favela da Maré. Os problemas da primeira estão associados à família e a toda aquela engrenagem que roda a partir da intriga de um contra o outro, do amor de um pelo outro. Os da segunda advêm da penúria — ponto além da pobreza. O arranjo gráfico do livro é tal que “Viver é feito à mão” se lê da forma habitual: à esquerda, as páginas lidas; à direita, as que devem ser lidas. Já em “Viver é risco em vermelho” ocorre o contrário, à esquerda ficam as páginas ainda não lidas. Simplificando: o primeiro se lê de frente para trás e o segundo de trás para a frente (do objeto livro, não da história). As duas narrativas confluem para as páginas centrais, nas quais o livro acaba, mas — uma vez que aquelas personagens ganham, a partir de contornos tão claros, existência —, as histórias não. Maurício Negro, responsável pelas ilustrações, talvez para evitar a dicotomia cromática sugerida pela pele das meninas — ponto importante no que se conta —, opta pelo vermelho como a cor dominante. Um acerto e tanto, pois o livro é, para resumi-lo em uma só palavra, ardente.
Música




Para me acompanhar vida afora, se tivesse de escolher uma música, uma única, eu estava frito — à milanesa. Uma só? Isso não existe. Por natureza, gosto das que chamam ao repouso ou à reflexão e, se a hipotética escolhida convidasse à dança, seria um acaso, uma interferência no destino da música que não foi feita para dançar.

Dito isso, elejo “Clube da esquina”, parceria do Milton com os irmãos Márcio e Lô Borges, como a música que tenho levado pela vida. Ouvi-la me remete ao período no qual fui deixando de ser menino para me tornar esse homão capenga que sou. Sua letra é noturna e esperançosa, duas grandezas que não se somam, dois touros bravos mantidos apartados em seus domínios. 
A lua


Foto do autor. Lua na Praia Vermelha, Urca, RJ.
Eu e Bia fomos ver a lua na Praia Vermelha. Lá encontramos o poeta e sua Cristina. Ficamos os quatro conversando amenidades, vendo e fotografando a lua — aqui e ali nos espantávamos mais uma vez com a sua beleza e então, como se quiséssemos não cair no golpe de seu encanto, voltávamos à conversa miúda, a um comentário sobre o frio ou a vida de nossos filhos. Se havia poesia ali, éramos nós essa poesia — não estávamos na condição de escritores, mas de escriaturas.

Não sei se, de volta a casa, o poeta escreveu para aquela lua. Eu não, a lua não é para o meu bico de escritor, além do mais, já existe o “Moon do cão”, poema de meu amigo Antonio Barreto (no livro Vastafala), vindo ao mundo sabe-se lá sob qual feitiço. Fiquem com ele, enquanto eu caço por aí alguma musa menos luminosa.


                Lua, deixa de ser assim tão branca
                  e egoísta!


           Que vida besta esta tua:
           aí parada entre tantas coisas
                  inúteis

           satélites, estrelas, naves noturnas:
                  tanajuras de verão!

           Lua capitalista! Uivo branco de Deus!

                 Urubu do Além!

           Desça daí... Vem morar comigo, vem,
           que te dou um Sonrisal e um Cadillac
           em troca de um soneto de Olavo Bilac!