Mostrando postagens com marcador Portugal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Portugal. Mostrar todas as postagens

19.11.22

Anotações de improviso

— O que é o mercado?

— Aquele lugar onde, entre outros, o João Sílvio vendia um Canastra daqui, ó. Oferecia também arroz, feijão, até sardinha — em lata e nacional, é verdade. E tudo, veja bem, anotado em caderneta.

— Mas é esse que anda nervoso?

— Ah, não, o nervosinho é de outra categoria. Ele não vende nada, muito menos fiado, mas ganha muito e pressiona que só.

 

Ó, Deus que não existe, dou-te algum contorno, um vulto, quiçá mãos e braços, e me aconchego em ti. Agradeço-te então a existência de Milton Nascimento. Reclamo da subtração repentina de Gal, mas também agradeço por ter-nos dado essa voz, essa beleza.

 

Estar no meio de uma torcida de futebol talvez seja a coisa mais animalesca que existe. As torcidas são violentas e comportam-se como se estivessem em guerra. Dito isso, estar no meio da torcida faz um bem danado, pois liberamos os ácidos da violência, que precisam ser descarregados de uma maneira ou outra, afinal somos violentos.

 

Será que, quando os portugueses desembarcaram aqui nesta terra, que na realidade não era uma, mas muitas, cada uma ocupada por um povo indígena diferente, houve um olho no olho entre eles e o grupo nativo com quem mantiveram o primeiro contato? Aposto que não, a espoliação requer o fingimento, e este não suportaria o enfrentamento imposto pelo olhar recíproco.


Vi um sujeito parado numa esquina, e sua postura era de quem vivia uma angústia, talvez não soubesse como chegar ao endereço a que deveria se dirigir. Resolvi ajudá-lo. Ele me disse que não iria a lugar nenhum, na realidade esperava um amigo. Já ia me retirando, quando ele me chamou. Me olhou de cima a baixo. Era a mim que esperava. (Ou a qualquer outro.)

19.2.17

A crise

Sempre há os que são capazes de compreender o movimento geral dentro de um contexto histórico. A crise econômica, por exemplo, com a fuga do emprego fabril das economias centrais, explicaria o fortalecimento da direita populista, evidente no caso Trump, mas também visível na Europa. Na Áustria, por pouco esse grupo não assume o poder. Na França, eles andam cercando o poder não é de hoje. A Grã-Bretanha deixou a União Europeia, num processo comandado também pela direita. Em tudo isso, percebe-se como os trabalhadores vão pouco a pouco associando suas perdas à presença do estrangeiro e, passo seguinte, aliando-se aos xenófobos. Somente os insensíveis não percebem que estamos vivendo o pior dos mundos.
O Brasil não está no centro do capitalismo, apesar de ser uma das dez maiores economias do mundo. Por isso, o emprego que não está mais nos Estados Unidos ou na Europa bem pode ter sido em parte transferido para estes trópicos. Portanto, a crise brasileira difere da que se vê nos países ricos e é típica de uma patologia de classe. Nossa elite — oligarquia, a bem da verdade — busca de todas as formas recuperar o espaço do poder, para usufruir de suas benesses de forma exclusiva (por pensar tratar-se de um direito historicamente estabelecido). Se a volta dos que não foram se vestiu de legalidade, apontando-se o dedo para os tropeços do governo Dilma, o passo seguinte foi mostrar que, mais importante que esses deslizes, era a crise provocada por um mau gerenciamento (que levava à inflação, ao desemprego etc.). Nosso desemprego, nessa leitura, se explicava por uma questão de política econômica, nada parecido com aquele que se via e se vê nos Estados Unidos (menos) e na Europa. Lançada a base de uma nova política — que promove ainda mais desemprego por retrair a demanda do Estado —, o governo começou a tropeçar nas suas contradições, haja vista que está quase todo ele imbricado nos mesmos escândalos do governo anterior, nada mais natural porque este pariu o novo, que não tem nada de novo.
Neste processo pelo qual estamos passando, acabamos presos a uma separação radical — nós e eles, nós contra eles. Essa ruptura não dá sinais de arrefecimento, e começo a crer que a saída para tudo isso não virá lustrada pelo verniz de uma capenga democracia. O PMDB governa mais interessado em acomodar seus pares, tirando-os da linha de frente da caçada aos corruptos; o PSDB não faz diferente e aposta que os fatos poderão repetir aqueles da época de Itamar Franco, com o que voltarão, pelo voto, à presidência. Por sua vez, o PT está mais perdido que tudo, suas aparições ocorrem apenas para dizer que Lula e Dilma são pessoas de bem. Uma oposição clara, programática, nem passa pela cabeça do partido. Por fim, a justiça está de certa forma desconfortável por desempenhar o papel que lhe caiu no colo e que, por sua vez, poderá fazer com que ela tenha de tomar decisões que, de fato, ferem o espírito da democracia, como destituir toda a linha sucessória e, de uma hora para outra, pousar no executivo. Tudo isso é uma pena e um retrocesso.
Peço-lhes desculpas por este texto tão sisudo e provavelmente equivocado, mas não haveria outro modo de chegar aonde quero chegar. Eu tenho uma solução (não sou o único, já ouvi outras vozes clamando por isso) menos traumática para essa crise toda: devolver o Brasil a Portugal. Claro, antes de tudo, teremos de demonstrar por a + b que o Cabral que temos agora não é o mesmo que nos descobriu — não são nem parentes distantes —, portanto não estamos tratando mal um herói português ao manter o Cabral contemporâneo e brasileiro preso em Bangu. Feito isso, eu acho, nossos patrícios nos acolherão de braços abertos — talvez vejam como uma oportunidade para reaver o prejuízo recente que sofreram ao se meterem em negócios de telefonia celular por aqui. Ficaremos bem com Portugal ao devolvermos a eles o amor próprio das grandes potências, abrindo-lhes as portas para, quem sabe, tentarem refazer nossa história, dessa vez sem escravos, sem os ciclos da cana, do ouro, sem entradas e bandeiras, sem invasão holandesa ou francesa e sem que a gente coma o bispo Sardinha.
Detalhe do quadro Batalha do Avaí, óleo de Pedro Américo sobre um dos últimos episódios da guerra do Paraguai, ocorrido em 11 de dezembro de 1868 (Foto: Museu de Belas Artes/Reprodução)
É bom que nos apressemos com essa solução uterina antes que nos ocorra algo tão terrível quanto o que está sendo urdido na calada pelo atual governo: um poder absoluto, à custa, quem sabe, de qualquer migalha de liberdade. O que seria igualmente ruim? Vendo-nos tão estarrecidos, o Paraguai resolver vir aqui vingar o que lhe fizemos no longínquo século XIX, o mesmo no qual inventamos, em cima do conflito, um herói moderno, Caxias, e Machado de Assis começou a nos decifrar.

18.4.16

Mexendo na língua

“Um orador de boca cheia é um virtuose de refugos: na cesta de entulhos da literatura vai recolhendo imagens esfiapadas, carretéis perifrásticos, antíteses ruborizadas, prosopopeias trovejantes, metonímias desparafusadas, clips enferrujados, anáforas babadas, tmeses tortas, anacolutos malignos, sinédoques descartáveis e demais tropos e trapos de hiperbólica aceitação no mercado paralelo.” (Paulo Mendes Campos, Congelamento.)


Ao longo de sua existência, nosso português de todo dia tem sofrido muitas alterações em suas regras ortográficas. Na primeira metade do século passado, trocaram-se “pharmacia” por “farmácia”, “caza” por “casa”, “sciencia” por “ciência”. Recentemente, tiraram o trema de “linguiça” e, cortando na própria pele, de "linguística". Mataram o trema, eis a verdade. Se a grafia antiga soa, depois de um tempo, estranha, deixar uma determinada grafia de lado não é nada fácil, porque os que a usavam acostumaram-se com um jeito de escrever e, da noite pro dia ou num intervalo de tempo acordado longe de todos, em gabinetes, veem-se obrigados a abandoná-lo e adotar outro. A última reforma, presente em nossa memória e bastante contestada em Portugal, prova isso.

Tenho comigo que, ao mudar uma grafia, não só a relação das pessoas com a palavra é modificada, como também a coisa nomeada por ela ganha um novo destino. “Pharmacia”, durante muito tempo, foi o local onde os medicamentos eram preparados e vendidos — o que atualmente chamamos de farmácia de manipulação. Ao trocar “ph” por “f”, abriu-se caminho para a proliferação das farmácias, que passaram a vender remédios (e não só) produzidos em laboratórios. Quando se escrevia a palavra à moda antiga, na minha cidade natal, não devia haver mais que duas. Hoje, no quarteirão da minha casa, no Rio de Janeiro, são três, e, ao longo da rua com seus dois quilômetros, quinze ou mais. Estamos mais doentes? Temos mais possibilidades de nos curar? A doença e sua cura sustentam uma indústria rentável? Tudo isso é verdade, mas a mudança ortográfica impingida à palavra reinventou o negócio e garantiu o sucesso comercial do estabelecimento farmacêutico.

Quando fui alfabetizado, escrevia-se “êle”, “almôço”, “govêrno”. Concordo que ficou mais fácil escrever essas palavras sem o acento, entretanto, assim como o homem sem chapéu perde um pouco de sua necessária formalidade, ao perder o acento circunflexo, a palavra que designa a terceira pessoa do masculino jogou essa terceira pessoa na vala da vulgaridade. Pense nas refeições feitas atualmente: cada membro da família num canto da sala, com o prato no colo e a cabeça nas nuvens do celular. Isso seria possível no tempo do “almôço”? Nunca! Nem falo em governo (que, cauteloso, não volto a escrever na grafia cerimoniosa de antanho). Tenho de fazer uma pequena reflexão sobre a palavra “ela”, sempre escrita sem o adorno do circunflexo. Quer dizer que as mulheres foram e são vulgares? Muito pelo contrário, um chapéu a mais ou a menos não as diferenciaria em nada, razão pela qual não se acentuava a palavra antes e não se passou a acentuá-la depois da reforma levada a cabo durante a ditadura militar. Vulgar são os homens. (Ufa, acho que me saí bem.)

Reformas ortográficas têm sido feitas aos borbotões, só que ninguém mexe naquilo que facilitaria nossas vidas. Acompanhem meu raciocínio.

Você sabe o que são as perífrases? Não? Puxe pela memória. Perífrase é, segundo o Aurélio, a “designação de alguém ou de algo por construção que dê relevo a uma de suas qualidades, e não por seu nome”. O exemplo do dicionário é “a luz de minha vida em lugar de meu amor”. Talvez, feito eu, você conhecesse a “coisa”, mas nunca soube seu nome — ou, se soube, não o reteve.

Sem querer abusar de sua paciência, vou ao fundo do fundo buscar a palavra “tmese”, sinônimo de mesóclise, quer dizer, a “intercalação de pronome átono em um verbo”. Um exemplo da minha cachola: “Dir-te-iam, em áureos tempos, que andamos às cegas rumo ao fim do mundo.” Uma frase meio pessimista, mas esqueça sua mensagem, a frase tem a única intenção de ilustrar o que vem a ser uma tmese.

As palavras anteriores e outras tantas, mal-encaradas em sua essência, fazem parte do que poderia ser visto como o suprassumo da gramática. Todos passaríamos bem sem elas caso não enfrentássemos tantas provas ao longo da vida de estudante. Provas que, nesse caso específico, foram apenas uma cobrança da nossa capacidade de memorização.





Meu texto quis apenas isto: chamar a atenção para os efeitos das mudanças no terreno da língua. (Acabo de escrever uma catáfora, “unidade linguística que se refere a outra, enunciada mais adiante”). Como os exemplos que citei provam por a mais b, as mudanças ortográficas repercutem na vida real, que vibra muito além da palavra escrita (o que podemos esperar do mundo lusófono sem o trema?). Sendo assim, um conselho, a essa altura óbvio, aos sabichões que porventura resolvam dedicar seu precioso tempo à exigida simplificação: muito cuidado com as consequências que podem advir daí. Pensem, ponderem. Repensem e ponderem mais uma vez. De qualquer modo, pelo amor ao deus das coisas triviais, corram o risco. Antevejo, de cara, um efeito colateral positivo na mudança: facilitará a decoreba, melhorando, com isso, a nota da moçada.