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21.4.25

A cocada do Bruxo

Igor Calazans é um poeta de Niterói e vive no Rio. É também um animador cultural, oferece oficinas de poesia e organiza saraus, entre outras coisas. Enfim, é um cara desprendido que gosta de juntar poetas os mais distintos. E junta.

Ultimamente ele organiza dois saraus. Um, no Baratos da Ribeiro – sebo e ponto de eventos culturais fincado no coração de Botafogo –, é um tributo a algum poeta, o "Ode ao Poeta". O encontro funciona assim: Igor distribui poemas da pessoa homenageada, e aqueles no público que se sentirem à vontade escolhem um para falar ao microfone. Quando o homenageado está presente, ao final lhe é feita uma pequena entrevista, e o espaço fica aberto para que ele leia seus poemas e outros que o influenciaram ou que são de seu agrado. É comovente.

O outro é o Epoché – termo grego, cunhado pelos céticos, em oposição ao dogmatismo –, um sarau mais tradicional, no qual poetas são convidados para declamar dois ou três poemas. O surpreendente é que desfilam poesias de toda sorte – sem dogmas – e os ouvidos se adaptam às mudanças de rumo. Há algum tempo, a reunião tem sido no Capitu Café, situado no último endereço de Machado de Assis.

Quando anunciei que estaria no sarau, que aconteceu no dia 12 de abril, minhas amigas curitibanas, as arquitetas e cronistas Fernanda (Morishita) e Mônica (Moro Harger), me avisaram que estariam no Rio e iriam me ver. E foram. E não couberam no recinto, tendo de ficar na calçada, por sorte, em mesa servida pelo café. Com elas estavam o filho da Fernanda, o Theo – que eu já conhecia de papel, por ser a figura central do livro de crônicas de sua mãe, "Cartas para Theo" (Editora Verso) –, e outras amigas, pessoas agradáveis que esticavam os assuntos sempre de forma leve e inteligente. Me dividindo entre os dois espaços, entrei e saí da área do sarau várias vezes (no outro dia, me justifiquei com os poetas que acabei por não assistir, o motivo era justo e retratava o sucesso do evento).

É inevitável, nesses nossos dias documentais, que a gente se fotografe. Para escritores, o Capitu é um sonho. À porta há uma escultura do antigo e ilustre morador, um convite para rodeá-lo e fazer selfies e não selfies a perder de vista. Na escultura, Machado está sentado à mesa. Numa das mãos, uma xícara vazia de café, na outra uma caneta-tinteiro que se aproxima do papel pousado bem à sua frente. O Bruxo toma notas. Mais na ponta da mesa, um pote que se parece com um balde de leite pequeno – na certa, o recipiente da tinta – e um pratinho com doce. Sugeri que não era doce nenhum e sim um prensado de maconha. Rimos, tiramos fotos. Numa delas, um homem aparecia assim no canto, e eu disse que na edição da foto a gente o tiraria. Mais risadas, inclusive do futuro excluído.

Esse homem, Alviño seu nome, se aproximou de nós, o celular aberto em uma foto. Queria tirar de nossa cabeça a ideia espúria do conteúdo do pratinho, aquilo não era maconha, mas uma cocada. Aí virou zueira, bagunça, brincadeira sem fim. Ele então nos contou que é o autor da escultura. Mais ainda, dentro do café, a série de desenhos do criador de Capitu e Braz Cuba é também dele. Ou seja: ao lado do sarau, uma exposição bem bonita. Viva Machado, que, descubro, se amarrava numa cocada.

Em seus últimos dias do décimo ano de vida e já se preparando para subir a ladeira da adolescência, Theo dormiu nos braços de um tio, o que levou minhas queridas cronistas de Curitiba para casa antes da esticada a um tradicional restaurante do Cosme Velho. Lá, nesse dia tão intenso e fraterno, formou-se uma imensa mesa recheada de poetas. Uma beleza só, promovida pelo nosso Calazans.

13.7.24

Casa 11

Para quem não é do Rio de Janeiro ou está por fora, preciso dizer o que é a Casa 11. É um sebo. Começou como um sebo e, em seguida, passou a vender livros novos, portanto é uma livraria. Mas, antes mesmo de se materializar, foi pensada como um centro cultural. Logo é um centro cultural.

O espaço fica em Laranjeiras, a cem metros do Instituto Nacional do Coração, um hospital público. A história começa quando uma médica, num momento de folga, bate perna pelo bairro. Ela encontra, numa galeria antiga e aconchegante, uma pequena loja vazia, o que a faz se lembrar da livraria que manteve por longos anos em Santa Teresa. Nostálgica, volta ao hospital e comenta com outros médicos o ocorrido e os provoca: por que não abrir ali um sebo em sociedade? Poderiam formar o acervo inicial com livros que tivessem em casa e receber doações. O custo de manutenção da loja, por sua vez, seria cotizado entre eles. Logo havia um bom número deles disposto a embarcar no sonho. E não demorou muito para não médicos também se incorporarem ao grupo. Não sei quantos são ao certo, mas a Casa 11 tem mais de cem sócios (algumas cotas são compartilhadas por mais de uma pessoa).

Vai dar errado, vaticina a pessoa que tem na cabeça sociedades ambiciosas por lucro e eficiência, a métrica capitalista. Na Casa 11, não se busca o lucro, que, claro, vem. Basta vender um livro e há uma sobra, não é? Mas, no caso, essa sobra ou cobre os custos (que os sócios estão dispostos a bancar) ou se transforma em novas compras. Mais que vender livros, a ideia é movimentar a cena.

A inauguração foi um festão. Havia música, vinho, abraços, encontros. Vez ou outra, promovem festas e já são uma referência em matéria de lançamentos e mesas de bate-papo. Além disso, o nome passou a circular pela cidade, parou em jornais, enfim, a maioria das pessoas já sabe o que é. O antinegócio deu tão certo que alugaram a sala ao lado, a ser inaugurada em breve, provavelmente com festa.

Como se não bastasse, a Casa 11 promove eventos em outros lugares, como foi a recente Festa Literária de Laranjeiras, da qual falo em seguida. Antes pontuo que o tema do empreendimento nefelibata é “mais livros, menos farmácias”, uma cutucada no fato de que no Brasil as farmácias prosperam a olhos nus. A doença pode ser curada com leitura, contrapõe a sociedade dos médicos amantes dos livros.

Com esse espírito, a Casa 11 organizou a festa literária, na qual livreiros vizinhos (como os do Jacaré Livros) e um pessoal ligado à gastronomia se juntaram. As palestras privilegiaram a experiência com mediação de leitura em lugares normalmente excluídos dos investimentos culturais, as favelas, em particular, deram destaque à literatura indígena e, fiel ao slogan, à relação entre saúde e literatura. Ainda que um amigo tenha criticado a ausência de referência a escritores locais – Machado de Assis, do Cosme Velho, bairro adjacente a Laranjeiras; Sérgio Sant’anna, de Laranjeiras, entre outros que têm os pés no bairro –, o que é uma boa observação, isso não diminui o caráter inovador da proposta.

Passei por lá, embora não tenha podido ficar muito tempo. Vi a mesa sobre mediação de leitura e ouvi o coral do São Vicente (escola do Cosme Velho, que fica defronte ao prédio erguido no terreno da casa de Machado). Já conhecia o coral, pois filhos meus estudaram lá, mas, entre a última vez que o ouvira e a recente, percebi uma evolução impressionante. É verdade que havia um elemento emotivo muito grande: foi a primeira apresentação do grupo depois de duas de suas cantoras terem falecido, uma delas muito minha amiga. Além disso, cantaram Milton Nascimento.

Antes do coral, assisti a uma parte da mesa “Mediação de leitura e cidadania: use sem moderação”, organizada por Bia Serra, com os palestrantes negros Vanessa Soares, Otávio Junior e Maria Chocolate. Quando cheguei, Vanessa Soares terminava sua fala. Ouvi então os outros dois. Otávio Junior é bem conhecido, e sua experiência está contada em “O livreiro do Alemão”. Morador do Complexo do Alemão, fominha de bola, com sonho e capacidade de ser jogador de futebol, seu caminho sofreu uma inflexão ao encontrar um livro abandonado no campo da pelada. Não custou muito a se perguntar por que os livros não narravam histórias de meninos como ele – o que lançou na feira é sua tentativa de ocupar esse espaço. Otávio é um sujeito objetivo, ainda que fale com emoção. Já Maria Chocolate, uma senhora assim da minha idade, sessenta e alguns anos, é puro transbordamento. Filha de pais analfabetos, ouvia a profecia da mãe de que seria professora, o que parecia um disparate – como, no meio de tanta penúria? Pois aconteceu. E foi além: um dia montou, na varanda de sua casa, num bairro pobre de Caxias, uma biblioteca, onde orienta crianças em suas leituras. Dona Maria Chocolate, que também lançava um livro, se espanta com a própria trajetória: acabou reconhecida (seu espaço foi visitado por Ziraldo, entre outros), mesmo fazendo tudo de forma precária. É um depoimento comovente. O que veio a seguir, o coral, a ausência de minha amiga e a música do Bituca elevaram aquela comoção inicial ao quadrado de mil, a ponto de eu não conseguir esconder minha emoção e de uma das cantoras (outra minha amiga), lá do palco, percebê-la.




11.9.23

Viajando na maionese e na abobrinha

Não faz muito tempo, li “Madame Bovary”, de Flaubert. O autor e o editor da revista em que o romance foi publicado tornaram-se réus porque, aos olhos de seus contemporâneos, o adultério – feminino, se fosse o masculino estava tudo certo, sabemos bem disso – teria ganhado certo glamour naquelas páginas. Não é bem assim, quem leu sabe o fim da intensa Emma, a madame. (Espero que essa pequena confidência não seja vista como spoiler e afaste possíveis leitores.) Não vou analisar ou fazer uma resenha do “romance dos romances”, pois não tenho interesse nem os apetrechos exigidos pela empreitada – sou apenas um leitor amador. Trago-o à tona porque fiquei pensando se nosso “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, não seria um “Madame Bovary” do ponto de vista do monsieur Bovary, que, como todos sabem, inclusive quem nunca leu o livro, é um corno. Corno manso, devo acrescentar, na esperança de atrair novos leitores ao romance francês. De quebra, também ao brasileiro.

Retomei uma leitura de muitos anos atrás e dessa vez fui com ela até o fim: “Crônica da casa assassinada”, de Lúcio Cardoso, um livro e tanto, no tamanho (umas 500 páginas) e na qualidade. Quando vejo autores contemporâneos explorando, num mesmo texto, vários narradores, fico pensando que um dos que mais souberam fazer isso foi esse mineiro de Curvelo. Desse ponto de vista, ele é um mestre, e a obra um primor. Mas Lúcio Cardoso (não sei se por pressão externa de pré-leitores ou do editor, ou se interna, a pior delas) não manteve sua história no extremo. Quando nos acostumamos com o fato de o clã dos Menezes ter cruzado a fronteira da moral burguesa, a trama recua e nega o horror, bem, isso até onde seria possível negá-lo naquela altura do romance. No prefácio da publicação comemorativa de quarenta anos da primeira edição, lançada em 2000 pela Civilização Brasileira, André Seffrin diz que “se o último capítulo dilui e desfibra boa parte da tensão e do enigma que o livro encerra, e se no todo a narrativa deixa transparecer um engenho demasiadamente literário, estes detalhes são infinitamente pequenos ante o poder extraordinário da poesia que se levanta destas páginas”. Concordo, e isso me faz pensar no que seria um bom romance. Na realidade, não sei, mas anoto que pelo menos uma – quem sabe duas – de suas partes deve ser muito boa: a história, o texto, a estrutura... ou a coragem de quem o escreve. Flaubert é corajoso. Machado de Assis é corajoso. Lúcio Cardoso é corajoso. Clarice Lispector, Carolina Maria de Jesus, Hilda Hilst, Maria Valéria Rezende são corajosas. Viva a coragem, mesmo aquela – ou principalmente ela – que não tem nada de clara e triunfante.

Troco o assunto literatura por um ameno: comida, que, aliás, dá título a esta crônica em que uso maionese e abobrinha para expressar uma conversa inconsequente, meio à deriva. Sem querer armar confusão, afirmo de forma contundente: a segunda melhor comida do mundo é o pão de queijo. Não os deixarei sem saber qual é a primeira, claro. Num texto em que dei até spoiler, vou esconder uma coisica à toa? A melhor comida do mundo é o pão de queijo da Nilzinha.

Não há comida sem bebida, mesmo os médicos dizendo que é melhor não misturá-las durante as refeições. Olha só, médico nenhum me disse isso, mas essa “verdade” zanza por aí muito antes da existência da internet. Essa, sejamos sinceros, só dá celeridade a assuntos candentes, que despertam apenas o nosso – reles rudes, giróvagos mesmerizados – interesse. Me lembro que em tempos pré-redes sociais uma de minhas irmãs foi convencida de que o jeito mais fácil de emagrecer seria comer com uma colher pequena. Ela adotou a estratégia e, de fato, emagreceu, mas não naquele momento, e sim muitos anos depois, quando já havia abandonado a tal colherzinha, deixado de comer doce e virado rata de academia. Ela é enxutinha agora, passados uns tantos anos após ter recebido a preciosa dica. Se estivéssemos entre 2020 e 2022, interstício do nosso aprisionamento, chamaríamos aquela divulgadora da ciência para nos dizer se a dieta do talher miúdo é comprovada e eficaz, mas, agora que ela cutucou até Freud, parece mais sensato deixá-la de lado e mudar de assunto.

Aliás, não vou mudar de assunto, e sim fugir do enorme parêntese em que me meti. Eu ia falar de bebida e acabei expondo minha irmã e desferindo indelicadezas contra quem eu nem conheço. Falemos de bebida. Não sei se vocês tomam, assim na maciota, um drinquezinho ou uma cervejola. Caso não bebam, não vou aconselhá-los a beber, haja vista que o álcool faz um mal danado e não raro leva ao vício – o que está comprovado, mas há de se pesarem os prós e os contras, pois, nas pesquisas divulgadas até a semana passada, o vinho tinto chileno é visto como um elixir cardíaco. Se você, correndo os riscos do vício e da cirrose, toma um gole aqui e outro ali, preciso dizer o seguinte: beba água entre uma talagada e outra. Não sei se está provado pela ciência – ainda que minha irmã, aquela da dieta, tenha visto na internet que sim –, mas, no meu caso, atenua bem a inevitável ressaca.

31.7.22

Semana do escritor

                                                                           Dia 25 de julho é o Dia Nacional do Escritor

 (celebro todos, mas não poupo nenhum, a começar por mim)

 

Dois escritores se encontram num bar. Se encontram por acaso, jamais se fariam companhia, pois se odeiam. Um finge que não vê o outro, numa reciprocidade comovente. O que chegou primeiro chama o garçom e, em tom de quem quer ser ouvido por todos, particularmente por aquele, pede uma caipirinha à Quixote. O outro ri nas entranhas, discreto, onde já se viu tamanha estupidez. O drinque chega e é reluzente, incrivelmente bonito. O primeiro escritor dá um gole, e o segundo sente uma pontada que não consegue localizar bem onde é. Ao segundo gole do escritor de fala alta e ostensiva, o que achou a tal da caipirinha à Quixote não só um péssimo nome, mas também absurdo histórico e desrespeito literário, sente mais que uma pontada. Ele começa a ver estrelas. Quanto mais o outro bebe, mais estrelas cobrem sua visão e, logo depois, não são mais estrelas, são moinhos de vento. Então o escritor que, sem beber, se embebedava, levanta-se e começa a combater os moinhos de vento. Só no outro dia, Dulcinéia, a enfermeira roliça, lhe confidencia a razão de ele estar amarrado ao leito de um hospício.

 

**

— E o que você faz?

— Sou escritora.

— Jura?

— Por são Machado e santa Meireles.

— Você não é cristã, certo?

— Como assim?

— Esses santos não são da bíblia.

 

**

No dia em que seu amado livrinho atingiu a marca de um milhão de exemplares vendidos, ele ficou eufórico. Bote eufórico nisso. Um milhão? Pensa no que é isso. Vende-se um livro, depois um segundo, um leitor comenta e, em seguida, vendem-se dez de uma vez. Uma livraria encomenda mil e, não demora muito, mais mil e depois mais mil e enfim cinco mil. Que loucura, um milhão. Me belisca que vou ter um troço. Ah, tremenda alegria. Alegria é pouco. Tremenda felicidade! Uma coisa dessas deveria ser desfrutada, o que faria descendo à rua e experimentando a notoriedade. Mal posou o pé na calçada, recebeu uma livrada na cabeça. Nem teve tempo de olhar de onde partia o ataque, que livro era, caíram sobre seus ombros mais dois e, no próximo segundo, outros três e quatro. Saiu correndo, enquanto novos o atingiam feito bala. Conseguiu olhar de relance a capa de um deles, e era o seu. O seu! Dobrou a esquina e, quando se achava salvo, levou uma saraivada de tiros, uma biblioteca inteira saída de uma baioneta adaptada. Disparou em fuga feito um doido. De vez em quando, olhava para trás e via que a pilha de livros só fazia crescer, logo tomando a calçada e o asfalto. No barato, eram cem mil, dez por cento de sua venda. Que diabos teria ocorrido? De repente, o ataque cessou, e ele, ao chegar esbaforido a um novo cruzamento, viu uma senhora velha, encarquilhada e encurvada, apoiando-se, com a mesma mão com que segurava uma sacola de mercado, numa bengala. Resolveu ajudá-la a atravessar a rua. Estendeu-lhe o braço. Davam passos lentos, no ritmo dela. No meio do caminho, o sinal abriu, e os carros começaram a buzinar. Foi então que a mulher olhou para ele. Olhou, desviou o olhar na direção dos automóveis. A buzina não se intimidou, tampouco ela, que, enfim, encarou seu guia.

— Você não é o autor deste livro aqui? — parou (carros em ponto morto aceleraram, buzinas blateraram, motoristas xingaram) e, com um grande esforço, tirou da sacolinha o exemplar do best-seller.

— Sim, sou eu.

Ela então, com movimento surpreendentemente rápido, levantou a bengala e acertou a testa do escritor. Motoristas e caronas aplaudiram, passantes uivaram, moradores jogaram páginas picotadas do livro pela janela. Depois, tudo perdeu a pressa. A senhorinha poderia terminar de atravessar a rua, a cidade estava salva.

 

                                                                **           

— Mãe?

— O que foi?

— O livro...

— O que tem ele?

— Bem, sabe, ele me deu uma vontade danada de continuar viva.

19.2.17

A crise

Sempre há os que são capazes de compreender o movimento geral dentro de um contexto histórico. A crise econômica, por exemplo, com a fuga do emprego fabril das economias centrais, explicaria o fortalecimento da direita populista, evidente no caso Trump, mas também visível na Europa. Na Áustria, por pouco esse grupo não assume o poder. Na França, eles andam cercando o poder não é de hoje. A Grã-Bretanha deixou a União Europeia, num processo comandado também pela direita. Em tudo isso, percebe-se como os trabalhadores vão pouco a pouco associando suas perdas à presença do estrangeiro e, passo seguinte, aliando-se aos xenófobos. Somente os insensíveis não percebem que estamos vivendo o pior dos mundos.
O Brasil não está no centro do capitalismo, apesar de ser uma das dez maiores economias do mundo. Por isso, o emprego que não está mais nos Estados Unidos ou na Europa bem pode ter sido em parte transferido para estes trópicos. Portanto, a crise brasileira difere da que se vê nos países ricos e é típica de uma patologia de classe. Nossa elite — oligarquia, a bem da verdade — busca de todas as formas recuperar o espaço do poder, para usufruir de suas benesses de forma exclusiva (por pensar tratar-se de um direito historicamente estabelecido). Se a volta dos que não foram se vestiu de legalidade, apontando-se o dedo para os tropeços do governo Dilma, o passo seguinte foi mostrar que, mais importante que esses deslizes, era a crise provocada por um mau gerenciamento (que levava à inflação, ao desemprego etc.). Nosso desemprego, nessa leitura, se explicava por uma questão de política econômica, nada parecido com aquele que se via e se vê nos Estados Unidos (menos) e na Europa. Lançada a base de uma nova política — que promove ainda mais desemprego por retrair a demanda do Estado —, o governo começou a tropeçar nas suas contradições, haja vista que está quase todo ele imbricado nos mesmos escândalos do governo anterior, nada mais natural porque este pariu o novo, que não tem nada de novo.
Neste processo pelo qual estamos passando, acabamos presos a uma separação radical — nós e eles, nós contra eles. Essa ruptura não dá sinais de arrefecimento, e começo a crer que a saída para tudo isso não virá lustrada pelo verniz de uma capenga democracia. O PMDB governa mais interessado em acomodar seus pares, tirando-os da linha de frente da caçada aos corruptos; o PSDB não faz diferente e aposta que os fatos poderão repetir aqueles da época de Itamar Franco, com o que voltarão, pelo voto, à presidência. Por sua vez, o PT está mais perdido que tudo, suas aparições ocorrem apenas para dizer que Lula e Dilma são pessoas de bem. Uma oposição clara, programática, nem passa pela cabeça do partido. Por fim, a justiça está de certa forma desconfortável por desempenhar o papel que lhe caiu no colo e que, por sua vez, poderá fazer com que ela tenha de tomar decisões que, de fato, ferem o espírito da democracia, como destituir toda a linha sucessória e, de uma hora para outra, pousar no executivo. Tudo isso é uma pena e um retrocesso.
Peço-lhes desculpas por este texto tão sisudo e provavelmente equivocado, mas não haveria outro modo de chegar aonde quero chegar. Eu tenho uma solução (não sou o único, já ouvi outras vozes clamando por isso) menos traumática para essa crise toda: devolver o Brasil a Portugal. Claro, antes de tudo, teremos de demonstrar por a + b que o Cabral que temos agora não é o mesmo que nos descobriu — não são nem parentes distantes —, portanto não estamos tratando mal um herói português ao manter o Cabral contemporâneo e brasileiro preso em Bangu. Feito isso, eu acho, nossos patrícios nos acolherão de braços abertos — talvez vejam como uma oportunidade para reaver o prejuízo recente que sofreram ao se meterem em negócios de telefonia celular por aqui. Ficaremos bem com Portugal ao devolvermos a eles o amor próprio das grandes potências, abrindo-lhes as portas para, quem sabe, tentarem refazer nossa história, dessa vez sem escravos, sem os ciclos da cana, do ouro, sem entradas e bandeiras, sem invasão holandesa ou francesa e sem que a gente coma o bispo Sardinha.
Detalhe do quadro Batalha do Avaí, óleo de Pedro Américo sobre um dos últimos episódios da guerra do Paraguai, ocorrido em 11 de dezembro de 1868 (Foto: Museu de Belas Artes/Reprodução)
É bom que nos apressemos com essa solução uterina antes que nos ocorra algo tão terrível quanto o que está sendo urdido na calada pelo atual governo: um poder absoluto, à custa, quem sabe, de qualquer migalha de liberdade. O que seria igualmente ruim? Vendo-nos tão estarrecidos, o Paraguai resolver vir aqui vingar o que lhe fizemos no longínquo século XIX, o mesmo no qual inventamos, em cima do conflito, um herói moderno, Caxias, e Machado de Assis começou a nos decifrar.

26.12.16

Natal com Machado

Comecei a escrever crônicas na passagem do século XX para o XXI, convidado pelo amigo e escritor Marco Túlio Costa, que, naquela época, ajudava a reerguer um antigo jornal de Passos. (Portanto, se há um culpado, é ele.) Apesar desses dezessete anos, este é meu primeiro texto que sai justamente no dia do Natal. É verdade que escrevi uma crônica natalina, e nela contei de uma ceia, na casa da tia Yole, quando vi as renas e o Papai Noel cruzarem os céus. Essa visão, ao contrário do que se pudesse esperar, me fez descrer de vez da figura do velhinho de barba branca. Vi para descrer, o que São Tomé diria disso?


Natal singelo numa rua de Botafogo, Rio de Janeiro

Nada dessas coisas importa mais, hoje escrevo para ser lido na mais celebrada festa cristã. Quero fugir das platitudes, do senso comum, o que não é, adianto, fácil. Eventos repetitivos nos levam a buscar repetidas formas de lidar com ele. Feliz Natal! Que Cristo nasça e renasça em seus corações. Que o bom velhinho não se esqueça de você. O meu amigo oculto é vesgo, mas enxerga longe. Tudo isso embalado pela Simone, que, ao cantar a versão traduzida de “Happy Xmas (War is over)” do John Lennon, viu-a transformada em canção para estimular o comércio, destituída da mensagem pacifista. 

Não pretendo seguir o caminho oposto, aquele no qual muita gente procura macular o espírito da festa, trazendo à tona tudo de desumano que brota no meio de nós. 2016 é um ano propício a isso, haja vista o número de pessoas que têm fugido de seus lugares de nascimento para tentar, sem estrutura alguma, a vida em outro país — são sírios, são moçambicanos, a lista é grande. Sem contar nossas tragédias caseiras, muitas evitáveis, como essa que acomete o jovem negro, vítima preferida da guerra contra o tráfico. 

Não quis escrever platitudes, e eis que estão escritas. Não quis escrever sequer duas linhas que borrassem a festa, e eis que estão escritas. Preciso buscar uma compensação a meu deslize e a minha incapacidade de trazer algo novo para sua leitura. Já sei, um poema, um pequeno poema, e pronto. Escolho este de Machado de Assis por identificação, pois me parece que ele também penou para escrever qualquer coisa sobre o Natal. 

Aonde chegamos? A Machado. Ótima companhia.

(Ah, antes que eu me esqueça, feliz 2017. (Se for possível.))





Soneto de Natal
            Machado de Assis

Um homem, — era aquela noite amiga,
noite cristã, berço no Nazareno, —
ao relembrar os dias de pequeno,
e a viva dança, e a lépida cantiga,

quis transportar ao verso doce e ameno
as sensações da sua idade antiga,
naquela mesma velha noite amiga,
noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
a pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”


Ilustração retirada do site de Antonio Miranda.