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10.5.20

Os menores

“há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis” (Bertolt Brecht)


Não sei se Voltaire, se Pascal ou se um terceiro, em carta, se desculpou com o amigo por escrever um texto longo, pois estava sem tempo para um curto.

Nos anos de 1970, fez sucesso o livro Smal is beatiful (O negócio é ser pequeno), de Ernst Friedrich Schumacher, economista que incentivava o consumo de bens e serviços oferecidos pelos pequenos estabelecimentos, aqueles situados em nossas vizinhanças. Não é uma ideia sepultada, está aí até hoje.

O que pretendo com esses exemplos colhidos aleatoriamente?

Primeiro apontar que o pequeno, ao contrário do que se possa pensar, é um trabalho de extremo cuidado estético, típico de ourives. Segundo chamar a atenção para o fato de que o grande pode destruir a diversidade. Em síntese, sublinhar o pequeno, sua pluralidade e potência.

Sou um artista menor, não no sentido da qualidade do meu trabalho, não é isso que está em jogo, sou menor porque ando por uma faixa menos exposta, quer se pense em termos de mídia quer se pense em termos de acesso a outros escritores.

Como eu, há muitos. Não sou um escritor profissional no sentido de viver do que escrevo, trabalho com o diploma de economista. Porém, na faixa dos miúdos, está uma variedade de artistas que fazem da literatura — ou da música, ou do cinema, ou da fotografia, ou das artes plásticas, ou do teatro, ou do artesanato, enfim, de qualquer uma das artes e de suas manifestações — seu ganha-pão.

Como fazem para sobreviver? De mil maneiras. Há artistas que se apresentam em sinais, no transporte público. Outros enfiam seus livros embaixo do braço e desbravam este país para vendê-los. Existem alguns mais estruturados, com biografia estabelecida ou prêmio incensado, que são convidados para festas literárias, festivais de música, de teatro. Muitos conseguem participar de leis de incentivo patrocinadas por alguma das instâncias de governo. Há uma lista grande de escritores que, para viverem da escrita, trabalham com livros didáticos, revisão, tradução etc. Estou sendo genérico, sem pretensão de esgotar todos os casos. A ideia é focar essa miríade de artistas que, digamos, correm por fora.

A crise econômica, entre nós não é de hoje, foi elevada a uma potência máxima a partir da atual pandemia. Os artistas menores, se vivem com dificuldade quando a maré é boa, desmoronam na situação atual. O que viaja para vender livros, não pode — e, se for responsável, não quer — viajar. O que tem um grupo de teatro não pode (e certamente não quer) nem ensaiar nem se exibir. O músico não tem plateia. O cineasta não tem onde passar seus filmes. É o caos.

Em torno desses artistas, há um emaranhado de editoras, produtoras, locadoras de material e outros tantos serviços, que, do mesmo modo, ruem. Sigo com o exemplo de um setor que conheço mais.

Várias editoras pequenas, chamadas de independentes, trabalham com poucos autores e adotam um modelo de negócio baseado na impressão em pequena escala. A sobrevivência delas está na venda miúda, muitas vezes fora de livrarias. Ao contrário de uma grande, em alguns casos ramificada em outros países — portanto capaz de segurar o tranco por uns bons meses —, a redução da receita da pequena editora é o seu fim.

Escritores menores vendem poucos livros, mas cem livros vendidos de cada um de seus autores, em um ou dois lançamentos, garantem o fluxo necessário à pequena editora. Os lançamentos, todos sabem, estão descartados. A consequência é imediata: cofres vazios e a diminuição imediata desse “nicho” de mercado.

Pouco podemos fazer a não ser, aqui e ali, comprar livros que não seriam comprados agora, contribuir para uma caixinha virtual com vistas a garantir um produto futuro, mas nosso limite é pequeno — há outras demandas: contribuir para instituições que levam alimentos e produtos de limpeza a milhões de desassistidos, por exemplo — e, verdade seja dita, muitos de nós estão sendo jogados ao desemprego ou à redução de salários (os ainda assalariados). Os governos, bem, ou estão perdidos ou, como é o caso do Federal e seu “edaiísmo”, estão se lixando para a cultura, produzida por artistas tanto pequenos quanto grandes.

Não tenho solução para nada. Este meu texto, com ares distintos de uma crônica domingueira, foi a forma encontrada para compartilhar minha angústia. Foi escrito pensando em vários artistas e empresários menores. Cito, em nome deles, Eduardo Lacerda (poeta e editor em São Paulo. Editora Patuá), Marco Ajeje (artista plástico e moveleiro em Tiradentes. Divinas Gerais), Maurílio Romão (ator, diretor e administrador de teatro em Passos. Trupe Ventania). Os três representam trinta, que representam trezentos, que representam três mil, trinta mil, trezentos mil.

Os menores produzem uma beleza vasta, heterogênea, combativa, amorosa, engraçada, inovadora... Pensemos neles. Façamos uma ação por eles.

19.2.17

A crise

Sempre há os que são capazes de compreender o movimento geral dentro de um contexto histórico. A crise econômica, por exemplo, com a fuga do emprego fabril das economias centrais, explicaria o fortalecimento da direita populista, evidente no caso Trump, mas também visível na Europa. Na Áustria, por pouco esse grupo não assume o poder. Na França, eles andam cercando o poder não é de hoje. A Grã-Bretanha deixou a União Europeia, num processo comandado também pela direita. Em tudo isso, percebe-se como os trabalhadores vão pouco a pouco associando suas perdas à presença do estrangeiro e, passo seguinte, aliando-se aos xenófobos. Somente os insensíveis não percebem que estamos vivendo o pior dos mundos.
O Brasil não está no centro do capitalismo, apesar de ser uma das dez maiores economias do mundo. Por isso, o emprego que não está mais nos Estados Unidos ou na Europa bem pode ter sido em parte transferido para estes trópicos. Portanto, a crise brasileira difere da que se vê nos países ricos e é típica de uma patologia de classe. Nossa elite — oligarquia, a bem da verdade — busca de todas as formas recuperar o espaço do poder, para usufruir de suas benesses de forma exclusiva (por pensar tratar-se de um direito historicamente estabelecido). Se a volta dos que não foram se vestiu de legalidade, apontando-se o dedo para os tropeços do governo Dilma, o passo seguinte foi mostrar que, mais importante que esses deslizes, era a crise provocada por um mau gerenciamento (que levava à inflação, ao desemprego etc.). Nosso desemprego, nessa leitura, se explicava por uma questão de política econômica, nada parecido com aquele que se via e se vê nos Estados Unidos (menos) e na Europa. Lançada a base de uma nova política — que promove ainda mais desemprego por retrair a demanda do Estado —, o governo começou a tropeçar nas suas contradições, haja vista que está quase todo ele imbricado nos mesmos escândalos do governo anterior, nada mais natural porque este pariu o novo, que não tem nada de novo.
Neste processo pelo qual estamos passando, acabamos presos a uma separação radical — nós e eles, nós contra eles. Essa ruptura não dá sinais de arrefecimento, e começo a crer que a saída para tudo isso não virá lustrada pelo verniz de uma capenga democracia. O PMDB governa mais interessado em acomodar seus pares, tirando-os da linha de frente da caçada aos corruptos; o PSDB não faz diferente e aposta que os fatos poderão repetir aqueles da época de Itamar Franco, com o que voltarão, pelo voto, à presidência. Por sua vez, o PT está mais perdido que tudo, suas aparições ocorrem apenas para dizer que Lula e Dilma são pessoas de bem. Uma oposição clara, programática, nem passa pela cabeça do partido. Por fim, a justiça está de certa forma desconfortável por desempenhar o papel que lhe caiu no colo e que, por sua vez, poderá fazer com que ela tenha de tomar decisões que, de fato, ferem o espírito da democracia, como destituir toda a linha sucessória e, de uma hora para outra, pousar no executivo. Tudo isso é uma pena e um retrocesso.
Peço-lhes desculpas por este texto tão sisudo e provavelmente equivocado, mas não haveria outro modo de chegar aonde quero chegar. Eu tenho uma solução (não sou o único, já ouvi outras vozes clamando por isso) menos traumática para essa crise toda: devolver o Brasil a Portugal. Claro, antes de tudo, teremos de demonstrar por a + b que o Cabral que temos agora não é o mesmo que nos descobriu — não são nem parentes distantes —, portanto não estamos tratando mal um herói português ao manter o Cabral contemporâneo e brasileiro preso em Bangu. Feito isso, eu acho, nossos patrícios nos acolherão de braços abertos — talvez vejam como uma oportunidade para reaver o prejuízo recente que sofreram ao se meterem em negócios de telefonia celular por aqui. Ficaremos bem com Portugal ao devolvermos a eles o amor próprio das grandes potências, abrindo-lhes as portas para, quem sabe, tentarem refazer nossa história, dessa vez sem escravos, sem os ciclos da cana, do ouro, sem entradas e bandeiras, sem invasão holandesa ou francesa e sem que a gente coma o bispo Sardinha.
Detalhe do quadro Batalha do Avaí, óleo de Pedro Américo sobre um dos últimos episódios da guerra do Paraguai, ocorrido em 11 de dezembro de 1868 (Foto: Museu de Belas Artes/Reprodução)
É bom que nos apressemos com essa solução uterina antes que nos ocorra algo tão terrível quanto o que está sendo urdido na calada pelo atual governo: um poder absoluto, à custa, quem sabe, de qualquer migalha de liberdade. O que seria igualmente ruim? Vendo-nos tão estarrecidos, o Paraguai resolver vir aqui vingar o que lhe fizemos no longínquo século XIX, o mesmo no qual inventamos, em cima do conflito, um herói moderno, Caxias, e Machado de Assis começou a nos decifrar.