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7.10.24

Um passeio à praça inexistente

Há trinta anos, não se encaminhava à editora o texto do futuro livro em arquivo, nem se recebia ao final da revisão o PDF enviado à gráfica. Sendo assim, com o objetivo de organizar meu primeiro livro, “Contos de homem”, lançado em dezembro de 1995, obriguei-me a digitalizá-lo, tarefa que levou um ano, um ano e meio. A sorte é que essa operação, para quem não tem pressa, pode ser feita com um celular e uma ferramenta de uso descomplicado. Basicamente fotografa-se a página, que de pronto é transformada em texto. É preciso corrigir alguma captação imprecisa, mas funciona.

Com os vinte e quatro contos à mão e tomado por um espírito crítico, resolvi revisá-los. Quem faz esse trabalho é um sujeito com mais de trinta anos dedicados à literatura, o que não é uma garantia de qualidade, pois não necessariamente me tornei um escritor melhor, embora tenha hoje mais consciência do que faço. Nessa empreitada, me pergunto se, num possível relançamento, descartaria alguma coisa. Minha resposta é não. Mesmo não gostando de alguns contos, vendo que houve os que envelheceram mal, deixaria o livro exatamente como está, afinal é o reflexo do homem de trinta e quatro anos que eu era, do qual não me envergonho. Apesar disso, faço pequenos ajustes aqui e ali. Um necessário: corrigir os erros.

A andança pela praça inexistente começa ao corrigir os erros. Quando lancei o livro, enviei-o a Manoel Lobato, escritor mineiro, já falecido. Eu o conheci por intermédio de minha irmã Patrícia, ambos trabalhavam na Imprensa Oficial de Minas Gerais. Lobato me deu grandes aulas – sem estar vestido de professor. Seus apontamentos são primorosos e, mais que isso, homem de controlada vaidade, altruísta da melhor estirpe, sua conduta era a de um escritor e intelectual exemplares. Recebi suas anotações, indicando erros de digitação e uma ou outra escorregada gramatical e tecendo alguns elogios, em carta, que, passado um tempo, fotografei. O resultado ficou bom, está legível, mas faltam o cabeçalho, a saudação e a despedida. Fui então procurar o original com o objetivo de refotografá-lo e juntá-lo ao material que está na pasta do livro – além dos contos, os arquivos do prefácio de João Gilberto Noll e da orelha de Nelson Vasconcelos, e as matérias de Bernardo Ajzenberg (Folha de São Paulo) e Duílio Gomes (Estado de Minas). Até agora não achei, mas...


Imagens do caderno de Haydée


Na caixa onde guardo essas coisas, encontrei fotos antigas – umas 3 x 4 de amigas, namoradas adolescentes que mal me davam a mão –, desenhos dos filhos, uma Placar de 1989, quando, depois de uns vinte anos, o Botafogo sagrou-se campeão carioca e meu filho mais velho, que se tornaria um botafoguense fiel, nasceu. Ainda do pequeno museu, um caderno de recordação de minha mãe em formato de livro, capa aveludada e seu nome escrito, com falhas, em letras douradas. Folheio o caderno. No início, algumas páginas em branco, depois amenidades que seus colegas escreveram em dois momentos. Em 1938, quando ela morava em Belo Horizonte – uma das colegas a chama de carioquinha por conta de minha mãe (nascida em Ponte Nova, Minas) ter vivido no Rio antes. De 1939 até 1941, período em que ela estava de volta ao Rio, estudando no Bennett. Os amigos registravam o que já foi tão comum entre os jovens: declaração de amizade eterna, transcrição de poemas, elogio à dona do caderno. Reproduzo a primeira coisa escrita ali: “Todos os homens são mentirosos, traidores, hipócritas e petulantes; todas as mulheres vãs, artificiais e pérfidas, mas há no mundo algo de sagrado e sublime – a união dessas duas criaturas imperfeitas”, uma citação (não consegui confirmar a autenticidade) de Musset – escritor francês do século XIX – feita pela amiga Yóle Sotomaior (se bem desvendei a letra) em dois de setembro de 1940. Há de se dizer que as entradas não respeitam uma cronologia, a essa primeira seguirão outras de 1938, 1939, 1941. Apesar da confusão temporal, é bom saber que aquelas meninas de dezessete anos lançavam um olhar crítico sobre o mundo, sem – o que já não sei se é bom ou ruim – desacreditar na harmonia da vida conjugal.

A partir de um ponto, somem as intervenções dos amigos, e minha mãe se dedica a transcrever poemas e pensamentos. Poetas brasileiros – Vicente de Carvalho, tio-bisavô das queridas Rezende, a escritora Maria Valéria e suas irmãs Viviana e Valentina, é um dos mais presentes – prevalecem sobre os demais, ainda que, no caso dos pensadores, sejam os gregos e os franceses os mais citados. Ela registra de Victor Hugo: “O riso é um camarada às vezes tão útil como o saber”. Desta vez, minha pesquisa confirmou a fonte, ainda que, recorrendo a uma inteligência artificial, tenha encontrado a frase um pouco distinta: “O riso é o começo da sabedoria”. Preciosismos à parte, minha mãe cultivou o riso, mesmo escondendo-o nas muitas horas bravas da vida.

Na noite que sucedeu meu contato com o caderno, sonhei com mamãe. Mas antes com a Patrícia. Encontrava minha irmã nas escadas do prédio onde moro. Era tudo tão alegre, bem poderia – e pode – ser verdade. Depois aparecia minha mãe. Na realidade, uma mulher sem nenhum de seus traços – nem de ninguém que eu conheça –, dizendo-se minha mãe. Não sei, acho que hackearam as redes sociais do céu ou dos sonhos. Há uma impostora no lugar da dona Haydée.


4.12.23

Um momento mágico

Eram dez da noite, e eu estava no Conto de Réis, restaurante bem no Largo das Forras, em Tiradentes. Com um copo de cerveja numa das mãos e um feijão amigo na outra, observava o movimento da praça. Algumas pessoas estavam entretidas com as imagens transmitidas na fachada da Capela do Senhor Bom Jesus da Pobreza, outras simplesmente passeavam, indo ou vindo de algum lugar, talvez da casa de Papai Noel, talvez de um dos concertos do Festival Artes Vertentes. Sentado com moradores da cidade, ouvia opiniões sobre a tentativa de, na época de Natal, fazer da histórica cidade mineira, tão rica em eventos culturais, uma espécie de Gramado. Uns concordavam com a ideia, outros não. Não que eu não tenha opinião sobre isso (não gosto), mas meus olhos estavam encantados com o trânsito de crianças, jovens e velhos pela rua, todos sem nenhuma preocupação com a violência. Essa tranquilidade me remeteu à minha infância, à minha cidade de origem, que já foi pacífica e não é mais tanto. Enfim, enquanto meu caçula tinha o celular roubado no Rio de Janeiro, e eu ainda não sabia, Tiradentes curtia sem medo uma noite fresca, quase fria, nesse verão dos diabos.

Não sou o único, mas, ao caminhar por cidades históricas, sinto a presença fantasmagórica dos inconfidentes, de “Marília de Dirceu” e Xica da Silva, além de ver nitidamente a dor da escravidão cunhada em cada parede ou muro erguidos. Atualmente, encontro nesse patrimônio de orgulho e vergonha um pouco do que esperamos do mundo: um lugar de pessoas despreocupadas, passeando enquanto a noite é entornada na madrugada. Restaram poucas ilhas calmas em nossa sociedade insana.

Em Tiradentes, tenho sido apresentado a pessoas bacanas. Os cariocas Sérgio e Beth, donos do Conto de Réis, a família em torno do Sabor Rural – Kleber e Fernanda à frente –, a Carmen, funcionária de um banco e que exige que eu abra uma conta antes de me dar um cartão de crédito sem limite e anuidade, uma tremenda burocracia, mon cher. Também Luciana, nascida em uma cidade vizinha de Passos, Carmo do Rio Claro, que me vem à memória por seus doces caramelizados e artesanais (verdadeira obra de arte) e sua tecelagem em tear manual bonita de doer. Sem contar o Gabriel Vilella, criativo diretor de teatro. Quem me facilita tomar contato com os tiradentinos, poucos por nascimento, a maioria por exílio espontâneo, são meus amigos Marco Ajeje e Tereza Portugal. Eles se mudaram para a cidade há uns quinze anos e hoje são bem conhecidos, não só por sua simpatia, mas também pela qualidade do trabalho que fazem na Divinas Gerais, oficina de móveis e artes, e nas associações da sociedade civil a que pertencem ou trabalham como voluntários. Com eles, começo a tomar intimidade com a cidade e já posso frequentar sozinho um boteco e me sentar com um conhecido. Por isso, abraço esse resistente patrimônio histórico onde ainda (tomara que para sempre) se respira sem aflição e medo.

No último final de semana de novembro, Maria Valéria Rezende, premiada escritora, estava em Tiradentes e nos encontramos. Por ela ser filha de mãe e neta de avô passenses, nós nos chamamos de primos. (Seu avô, Elpídio Vasconcelos, foi um artista plástico e fotógrafo que, na primeira metade do século XX, lançou o primeiro livro retratando Passos.) Na infância, frequentando a cidade de seus ascendentes, a prima entrava em casas de familiares para um dedo de prosa, um gole de café, uma degustação de quitandas. Ela tem a impressão de que, de casa em casa, entrava em todas, portanto os passenses seríamos todos do mesmo sangue. Não só concordo como, se for o caso, comprovo com um teste de DNA.

Maria Valéria participava do Festival Artes Vertentes. Fez oficinas de haicai, lançou “Toda palavra dá samba” pela estreante editora paraibana Dromedário, bateu papo com jovens que a vão descobrindo. Deu o show de sempre. Dessa vez, estavam com ela duas de suas irmãs, Valentina e Viviana. Uma primaiada só. Certa hora, consegui sequestrar as três e levá-las à Divinas Gerais. O encontro com a arte do Marco Ajeje (logo incorporado ao ramo sírio-libanês dessa família elástica) foi, nas palavras da Vivi, o momento mais emocionante da viagem. Marquinho – primo delas, meu irmão – é um artista imenso. Seus móveis – feitos em grande parte de madeira de demolição – são, além de bonitos, funcionais; suas esculturas, um deslumbre. Maria Valéria e ele pareciam velhos conhecidos, o que sempre acontece, isso é, dois artistas, se controladas suas vaidades, são afinal velhos conhecidos e bons parceiros.

A escritora ainda conheceu pessoalmente o Celso Faria, violonista de Passos, morador de Belo Horizonte, que fugiu para Tiradentes para vê-la de perto e não deve ter se arrependido. Na companhia do Celso estava Carminha Guerra – musicista responsável pela gravação de discos de poetas como Adélia Prado e Thiago de Mello, além de muitos musicais, como o de Maria Lúcia Godoy (por coincidência, vizinha das primas Rezende em Belo Horizonte) –, que chegou a essa turma meio desavisada. Lá pelas tantas, ela adjetivou o momento como mágico. Graças também a ela, foi mesmo.

11.9.23

Viajando na maionese e na abobrinha

Não faz muito tempo, li “Madame Bovary”, de Flaubert. O autor e o editor da revista em que o romance foi publicado tornaram-se réus porque, aos olhos de seus contemporâneos, o adultério – feminino, se fosse o masculino estava tudo certo, sabemos bem disso – teria ganhado certo glamour naquelas páginas. Não é bem assim, quem leu sabe o fim da intensa Emma, a madame. (Espero que essa pequena confidência não seja vista como spoiler e afaste possíveis leitores.) Não vou analisar ou fazer uma resenha do “romance dos romances”, pois não tenho interesse nem os apetrechos exigidos pela empreitada – sou apenas um leitor amador. Trago-o à tona porque fiquei pensando se nosso “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, não seria um “Madame Bovary” do ponto de vista do monsieur Bovary, que, como todos sabem, inclusive quem nunca leu o livro, é um corno. Corno manso, devo acrescentar, na esperança de atrair novos leitores ao romance francês. De quebra, também ao brasileiro.

Retomei uma leitura de muitos anos atrás e dessa vez fui com ela até o fim: “Crônica da casa assassinada”, de Lúcio Cardoso, um livro e tanto, no tamanho (umas 500 páginas) e na qualidade. Quando vejo autores contemporâneos explorando, num mesmo texto, vários narradores, fico pensando que um dos que mais souberam fazer isso foi esse mineiro de Curvelo. Desse ponto de vista, ele é um mestre, e a obra um primor. Mas Lúcio Cardoso (não sei se por pressão externa de pré-leitores ou do editor, ou se interna, a pior delas) não manteve sua história no extremo. Quando nos acostumamos com o fato de o clã dos Menezes ter cruzado a fronteira da moral burguesa, a trama recua e nega o horror, bem, isso até onde seria possível negá-lo naquela altura do romance. No prefácio da publicação comemorativa de quarenta anos da primeira edição, lançada em 2000 pela Civilização Brasileira, André Seffrin diz que “se o último capítulo dilui e desfibra boa parte da tensão e do enigma que o livro encerra, e se no todo a narrativa deixa transparecer um engenho demasiadamente literário, estes detalhes são infinitamente pequenos ante o poder extraordinário da poesia que se levanta destas páginas”. Concordo, e isso me faz pensar no que seria um bom romance. Na realidade, não sei, mas anoto que pelo menos uma – quem sabe duas – de suas partes deve ser muito boa: a história, o texto, a estrutura... ou a coragem de quem o escreve. Flaubert é corajoso. Machado de Assis é corajoso. Lúcio Cardoso é corajoso. Clarice Lispector, Carolina Maria de Jesus, Hilda Hilst, Maria Valéria Rezende são corajosas. Viva a coragem, mesmo aquela – ou principalmente ela – que não tem nada de clara e triunfante.

Troco o assunto literatura por um ameno: comida, que, aliás, dá título a esta crônica em que uso maionese e abobrinha para expressar uma conversa inconsequente, meio à deriva. Sem querer armar confusão, afirmo de forma contundente: a segunda melhor comida do mundo é o pão de queijo. Não os deixarei sem saber qual é a primeira, claro. Num texto em que dei até spoiler, vou esconder uma coisica à toa? A melhor comida do mundo é o pão de queijo da Nilzinha.

Não há comida sem bebida, mesmo os médicos dizendo que é melhor não misturá-las durante as refeições. Olha só, médico nenhum me disse isso, mas essa “verdade” zanza por aí muito antes da existência da internet. Essa, sejamos sinceros, só dá celeridade a assuntos candentes, que despertam apenas o nosso – reles rudes, giróvagos mesmerizados – interesse. Me lembro que em tempos pré-redes sociais uma de minhas irmãs foi convencida de que o jeito mais fácil de emagrecer seria comer com uma colher pequena. Ela adotou a estratégia e, de fato, emagreceu, mas não naquele momento, e sim muitos anos depois, quando já havia abandonado a tal colherzinha, deixado de comer doce e virado rata de academia. Ela é enxutinha agora, passados uns tantos anos após ter recebido a preciosa dica. Se estivéssemos entre 2020 e 2022, interstício do nosso aprisionamento, chamaríamos aquela divulgadora da ciência para nos dizer se a dieta do talher miúdo é comprovada e eficaz, mas, agora que ela cutucou até Freud, parece mais sensato deixá-la de lado e mudar de assunto.

Aliás, não vou mudar de assunto, e sim fugir do enorme parêntese em que me meti. Eu ia falar de bebida e acabei expondo minha irmã e desferindo indelicadezas contra quem eu nem conheço. Falemos de bebida. Não sei se vocês tomam, assim na maciota, um drinquezinho ou uma cervejola. Caso não bebam, não vou aconselhá-los a beber, haja vista que o álcool faz um mal danado e não raro leva ao vício – o que está comprovado, mas há de se pesarem os prós e os contras, pois, nas pesquisas divulgadas até a semana passada, o vinho tinto chileno é visto como um elixir cardíaco. Se você, correndo os riscos do vício e da cirrose, toma um gole aqui e outro ali, preciso dizer o seguinte: beba água entre uma talagada e outra. Não sei se está provado pela ciência – ainda que minha irmã, aquela da dieta, tenha visto na internet que sim –, mas, no meu caso, atenua bem a inevitável ressaca.

6.1.20

Esqueça os famosos



Para dona Euza, Cristina e familiares do JC


Você conhece algum escritor famoso?

Foi o que me perguntaram quando participei, em 2018, de um dos eventos ligados à Feira Literária de Passos, minha cidade natal. A pergunta seca foi o ápice de uma participação tensa. Acompanhem.

Eu falava com alunos do ensino médio que não conheciam nem meus livros nem meu blog, na realidade, não sabiam nada de mim. Quando era para ser astro de um evento, me vi um zé-ninguém. Como sair daquela situação? Abri O bichano experimental (Editora Patuá), livro que lançaria no dia seguinte, e, apostando no humor como um bom jeito de iniciar o papo, li uma crônica a meu juízo engraçada. As garotas e os garotos sequer ensaiaram um sorriso.

Minha única certeza era de que a conversa deveria servir-se da literatura, então pensei em ler outra crônica do livro. Adolescentes gostam das coisas que dialogam com seus calores. Agarrado a esta ideia, li "Arranjos fresquinhos para uma velha cantiga pornográfica e outra antipatriótica". Eles riram, as duas meninas sentadas logo na primeira fila se deram as mãos, o ambiente desanuviou, passamos a falar uns com os outros. A leitura certa, na hora certa, concluí.

Passado o embaraço inicial e alcançada uma certa cumplicidade, estava preparado para tudo, mas talvez não para a singela questão, que, uma vez formulada, fez meu cérebro ecoar incessantemente: famoso, famoso, famoso. Com certeza, o meu famoso seria diferente do famoso daqueles jovens. Na minha lista João Gilberto Noll, Maria Valéria Rezende, Stella Mariz Rezende, uma parte da fina flor da literatura com quem mantenho laços afetivos. Como seria a deles? Youtubers da hora, best-sellers de sempre, enfim, as celebridades daquela semana? Estávamos num impasse, e eu poderia elaborar um ensaio tresloucado sobre a fama, mas não o fiz. Ao se dar conta da besteira que eu gaguejava como resposta, sabiamente a coordenadora encerrou a conversa.

Por que diabo gostamos tanto de famosos, dos famosos entre os famosos, dos midiáticos, melhor dizendo? Por associá-los a super-humanos ou a pessoas isentas das ziquiziras da vida? Hipótese medíocre, mas vai saber.

Não ligo para essa pompa incentivada pelo mercado e, de fato, dentro ou fora da literatura, conheço poucos que se encaixariam nesse perfil. Desse grupinho pequeno, o mais popular morreu na passagem de 2019 para 2020, o cantor sertanejo Juliano Cezar, com quem convivi antes de ele se tornar estrela do show business.

Não fomos os maiores amigos do mundo, mas compartilhamos algumas mesas de bar, mantivemos animadas conversas de jovens. Sempre metido com cavalos, o inicialmente peão de rodeios um dia me disse que seria cantor. E foi. Em nosso último encontro, o já conhecidíssimo artista e eu fazíamos compras na avenida da Moda da nossa Passos. Trocamos palavras amáveis, falamos de sua mãe e da Cristina, sua irmã e (ela sim) minha amiga, demo-nos um abraço. Ele era o cara humilde e educado de sempre e, mais importante, ainda sonhava.

Não acompanhei de perto a vida artística do Juliano, não gosto muito do sertanejo, principalmente do mais recente, mas sua carreira se meteu na minha vida. Conto.

Certa vez, no meu trabalho, recebemos por duas semanas um consultor americano. Era um senhor boa praça, fácil de lidar. No início da segunda semana da consultoria, perguntei a ele o que havia feito na folga. Mórmon, descobrira onde era a sua igreja. Além disso, passeara pelo calçadão de Copacabana e, principalmente, assistira a programas de televisão. Na programação dominical, ouviu algumas músicas agradáveis, com um quê da música country americana. Anotara o nome de um dos cantores, era o Juliano. No final do expediente, fui com ele a uma loja comprar discos do meu amigo.

Senti orgulho daquele moleque, de maneira alguma por ele ter sensibilizado um ouvinte estrangeiro; fiquei feliz ao constatar que o JC — não o homem do palco, não o apresentador de televisão, não o famoso, mas o velho e bom Lagartixa — realizara seu sonho de ser cantor. Boa, garoto!

Se pudesse voltar ao papo com os estudantes, diria que não há escritor famoso, há escritores. Muitos, assim como Juliano Cezar fez com a música, firmaram cedo seu compromisso com a literatura. A rapaziada deveria procurar por eles.

28.5.18

A matemática da escrita

Não tenho novidades, tenho, se for de seu interesse, uma frase que a Maria Valéria Rezende, a prima, falou numa palestra no Salão Carioca do Livro: “Eu escrevo para levar susto.” Em relação à escrita, não há postura mais radical, e eu, se um dia tiver consciência plena do ofício de escritor, ficarei feliz se disser o mesmo. Sei que me assusto com o que escrevo, talvez seja por isso que eu escreva. Maria Valéria lançou uma possibilidade, que apanho e passo a lidar com ela.



No mesmo salão, eu disse que gosto mais de ler do que de escrever porque o sofrimento de uma leitura pode ser atenuado no intervalo entre uma página e outra, por exemplo, quando deixo o livro para ir à sala fazer a refeição ou para beijar o filho que chega da rua. No caso da escrita, nunca que a gente se desvencilha da dor. Aquela história em gestação aos poucos ganha força suficiente para nos deixar à sua mercê. Não por acaso nossos olhos se perdem e nossa presença não passa de um corpo — um vulto? — na sala, no quarto. Nos tornamos um ser, por sorte, provisório. Uma hora voltamos à terra, às vezes por conta dos compromissos duros da vida, noutras por receber o beijo do filho, o carinho do companheiro, esses que convivem com nossas estranhezas.

O que disse no parágrafo anterior fez parte de uma resposta a outra questão. A mediadora da mesa sobre o livro “Nosotros – 20 contos latino-americanos” (lançado no ano passado pela editora Oito e Meio), Lucia Bettencourt, queria saber o que achávamos de escritores contemporâneos que não se mostram muito chegados à leitura, esses que escrevem, mas não leem. Hoje, não consigo entender tamanha aberração, mas meu impulso artístico veio antes da leitura. Menino ainda eu inventava versinhos; mais tarde, fazia música e letra; e escrevi meus primeiros contos sem ter lido quase nada. Portanto entendo o desejo de escrever, a vontade de se expressar, mas, caro escritor que não lê, suas braçadas não o levarão a lugar nenhum. Agora, atenção: ler não garante talento, ou seja, ler é condição necessária, mas não suficiente para ser um bom escritor. E o que é de fato suficiente, zilhões de novos escritores, os leitores ávidos desta crônica tão sábia, gostarão de saber. Ora, condição suficiente não há, mas entre as necessárias, descobri agora, está a de “escrever pra levar susto”.

30.4.18

Estilingues 30

O Estilingues, formado há 30 anos por um grupo de amigos que se conheceu em uma oficina literária, talvez uma das primeiras do Rio de Janeiro, a OLAC (Afrânio Coutinho), pretende celebrar a data este ano. Desde 2012, Cristina Zarur, Marilena Moraes, Miriam Mambrini, Nilma Lacerda, Sonia Peçanha, Vânia Osório e eu, antecipando as comemorações dos 30 anos, lançamos dois livros de contos — Amores vagos (orelha de Luiz Ruffato) e Mapas de viagem (orelha de Maria Valéria Rezende), coletâneas que têm percorrido o circuito não comercial. Entregamos um livro a uma pessoa e pedimos a ela que, uma vez lido, ele seja passado adiante. Isso quando não “esquecemos” um exemplar por aí: num banco de praça, num ônibus, em qualquer lugar. Sonhamos que nossa estilingada literária, em vez de matar passarinho, ressuscite o prazer da leitura na mesma proporção com que, nestes anos todos, nós temos escrito e lido uns aos outros. Ah, meu leitor, você pode imaginar a força que um grupo ganha compartilhando vinho e texto e embates (que não são raros) por tanto tempo, com tanta persistência. Enfim, vem coisa por aí, vocês verão, ou melhor — e é o que espero —, lerão.


No último encontro, entre o barulho das folhas dos originais e o tinir dos copos, me dei conta de que faz dois anos que não escrevo um conto. Tudo que tenho levado são textos antigos, alguns muito antigos, talvez por isso o livro que organizo para a efeméride me faz pensar em um diálogo com o primeiro, Contos de homem (de 1995). Este é um livro duro, no qual corri riscos: com a escrita, com a organização dos contos, com tudo. Um querido amigo já falecido dizia que, depois que eu seguir para outras paragens, tudo que restará de mim será esse primeiro livro. Espero que ele tenha se enganado, mas o fato é que não me envergonho da obra imatura. Aliás, uma das poucas coisas que inflam minha vaidade é o prefácio escrito pelo mestre João Gilberto Noll.

Estilingues em várias fases


Ficar sem escrever um conto não me incomoda. Não sei quantos anos de escrita, um pouco mais do que os 30 do Estilingues, me calejaram. Aprendi que, se falta conto hoje, amanhã virá uma enxurrada deles (a maioria será jogada fora). Ultimamente, minha vidinha de escritor tem sido a desse cara que, de quinze em quinze dias, escreve com alegria suas crônicas para a Rubem e o No Osso. E que, sem planejamento, em jorro, escreve um poema aqui, outro ali. Não sei se um dia deixarei de escrever, mas que tenho sofrido pouco por não escrever o que sempre gostei tanto, os contos, isso sim, eu sei. 

Deixo minhas questões pessoais de lado. O que importa neste 2018 é a coroação de um encontro de 30 anos, um encontro que firmou uma sólida amizade entre sete artistas, pois é o que somos, e que foi facilitado pela Literatura, essa que não morre.

2.11.15

Escrevendo e andando


Gosto de caminhar: areja o espírito. Faz bem a si mesmo quem leva o cérebro para tomar sol e depois o corpo sarado para ler/escrever/cogitar à sombra. A ciência já mostrou que mente e corpo são uma coisa só, em processo permanente de retroalimentação. Em nichos específicos, a resistência em aceitar o benefício recíproco entre o trabalho intelectual e o físico é alimentada com ironia, mas, apesar disso ou justamente por isso, há um monte de histórias mostrando que o exercício corporal, mesmo o mais tênue e indisciplinado, ajudou muitos pensadores/escritores/leitores.

Rimbaud.

Em “Autobiografia poética e outros textos” (Editora Autêntica), Ferreira Gullar pontua que Rimbaud foi um viajante — com notórias idas e vindas da casa da mãe, no interior da França — que encarou as distâncias caminhando. Quando partiu para a África, no último terço de sua vida (período nebuloso e pouco conhecido), ele cumpriu a pé o trajeto da França à Turquia, dali à Síria e, por fim, à África — caminho similar, ainda que em sentido oposto, ao que se percorre nesta diáspora contemporânea a que assistimos — quase sempre vexados — pela televisão. É verdade que, nesse período final, não se tem notícia de que Rimbaud tenha escrito (traficava armas), mas, enquanto fez seus poemas, seus deslocamentos não foram esporádicos. Da caminhada, concluo, alimentava-se o poeta — e, depois, o traficante.


Hemingway.

Rimbaud nada mais foi que um depositário dos ensinamentos de Aristóteles, criador da Escola Peripatética. Segundo o Aurélio, peripatético é aquilo “que se ensina passeando”, e era isso que o filósofo fazia: ao ar livre, indo de um lado para o outro, repassava suas lições aos estudantes. Por sua vez, Hemingway — e também Victor Hugo, segundo Mario Vargas Llosa, em recente artigo em El País — escrevia de pé, colocando os papéis em branco em um atril. Ele não andava, veja bem, mas seu trabalho de escritor, associado a sentar e produzir, fugiu do lugar comum. Isso sem contar que Hemingway era adepto da pesca, da caça, enfim, um cara que se mexia — e bebia atleticamente, o que não vem ao caso. Outro americano, Philip Roth, não só escreve de pé como caminha para burilar as ideias, se é que não caminha para encontrá-las.

Numa época em que eu não estava nada bem, passei a caminhar pelos sete ou oito quilômetros da lagoa Rodrigo de Freitas. Lembro-me de que, ao começar o exercício, eu me via refém dos tais problemas que me afligiam, porém, a partir do primeiro quilômetro, os pensamentos tornavam-se leves, e essa leveza acabava por dar um nó no baixo astral. Não raro, entre um passo e outro, surpreendia-me um clique “poético”. Eu não suportava encarar a folha em branco sem que pudesse, de cara, emoldurar nela o título do que, incerto, escreveria dali em diante. Numa dessas caminhadas surgiu “Relato das taturanas”, título de um conto de meu primeiro livro, e, de quebra, vislumbrei o próprio conto.

Ao longo do tempo, alguns escritores — quem sabe desejando compensar o sedentarismo — têm criado personagens que caminham. Fiando apenas na memória, listo Geraldo Viramundo — o louquinho de “O grande mentecapto” (Record), de Fernando Sabino, perdido em andanças por Minas Gerais —, tantos errantes na literatura de João Gilberto Noll, uma andarilha de distâncias curtas, Alice, de “Quarenta dias” (Alfaguara/Objetiva), o mais recente romance de Maria Valéria Rezende, e, ainda, Don Quixote, verdadeiro atleta montado em seu Rocinante, ou o ladrão de Jean Genet — à maneira de Rimbaud, cortando a Europa a pé.

Estou feliz. Levantei a bola da relação entre o trabalho intelectual e a atividade física, listei exemplos — meio besta, um meu — e, assim, desenhei um honesto painel sobre a questão. Posso me preparar para finalizar esta crônica com bafos de ensaio (de banda de garagem agarrada a dois ou três acordes). Então, para concluir...

Opa, espere, ouço vozes.
O quê?
Onde?
Quem?

Ah, é ele, o diabo que me habita. Vem dizer que Rimbaud morreu de um câncer que brotou em uma de suas pernas — logo amputada depois de o poeta que não mais escrevia voltar, já doente, mas ainda a pé, da África para a França. O coisa-ruim vai além e me pergunta o que acontece ao personagem de “Hotel Atlântico” (Francis), de João Gilberto Noll. Perde a perna, lembro-me bem. Pergunto ao chifrudo o que afinal tem a ver o fato de um andarilho acabar morrendo de uma ferida em suas pernas. Evasivo, ele se cala. Aproveito seu aparente desânimo e afirmo que a morte é um acidente. No caso de Rimbaud e no do personagem de Noll, um acidente com toque elevado de ironia, pois suas pernas eram a fonte da qual eles emergiam e se firmavam na vida.



Rimbaud. foi da Europa e voltou para ela. Muitos estão fazendo o contrário, com ganas de voltar para suas casas.






29.5.14

Mulheres longe de um ataque de nervos

Recentemente um filme e um livro me chamaram a atenção por contarem histórias de mulheres, longe da juventude, que se “perdem no mundo”.
Em “Ela vai” (no original, “Elle s'en Va”, de Emmanuelle Bercot), Bettie, a personagem de Catherine Deneuve, é dona de um restaurante, divorciada e vive com a mãe. Com a velha desculpa de “vou ali comprar cigarros”, Bettie começa a dirigir a esmo pelo interior da França. Ela se depara com um velho que lhe arranja um cigarro, entra num bar de beira de estrada, frequentado por pessoas sem muitas opções numa cidadezinha daquelas. Desse bar, bêbada, ela sai para um motel com um homem mais jovem. As andanças poderiam levá-la a sabe-se lá onde, mas a filha, com quem vive uma relação conflituosa, pede socorro: por conta de um compromisso de trabalho longe de onde vive, não tem com quem deixar o filho. Avó e neto, distantes de início, aproximam-se, pouco a pouco, pelo afeto e passam a fazer com cumplicidade a viagem sem rumo iniciada por ela. Vivem contratempos (inclusive a falta de dinheiro e um piripaque da avó) que os levam à fazenda do avô do menino, ex-sogro de sua filha. Sim, haverá uma história de amor, que eu, longe de querer tirar o prazer de quem venha a ver o filme, não conto. Seja como for, se filmes dessa espécie estão muito associados a homens (no topo, “Easy Rider”, com Peter Fonda e Dennis Hopper), as mulheres, quando se metem em aventura desse tipo, são jovens (“Corra, Lola, corra”, “Thelma e Louise”). Assim, o mérito do filme é mostrar que, como se diz, a vida só termina quando acaba.
Na literatura, não consigo me lembrar nem mesmo de uma personagem jovem que, à moda dos “perambulantes” de João Gilberto Noll, se perde em ruas ou cidades. Minto, há a do livro da Stella Maris Rezende, “A mocinha do Mercado Central” (Globo Livros), mas é uma mocinha, não uma senhora. Por conta de seu ineditismo, “Quarenta dias”, livro de Maria Valéria Rezende (Alfaguara), é pura surpresa. Impelida a se mudar de João Pessoa para Porto Alegre para ficar próxima da filha com planos de ter filhos, a professora aposentada, ao chegar à nova cidade, se depara com a mudança da filha, que, por conta de um doutorado no exterior, deixa a mãe ao deus-dará. Assim, Alice — podem pensar na personagem de Lewis Carol — conhece Porto Alegre na marra. Quando digo conhece, tenho de dizer que, na verdade, ela se mete na parte menos esplendorosa da cidade, a do povo que vive nas vilas — palavra com a qual os gaúchos nomeiam as favelas. É nesse canto que a paraibana encontra outros “brasileirinhos”, como ela e seus conterrâneos são chamados por lá, inclusive ou principalmente, pelos próprios pobres.
A razão pela qual Alice deixa o apartamento e vai às ruas da cidade desconhecida é um pedido de ajuda, vindo de sua Paraíba, para localizar o filho de uma amiga. Com a história da dor da mãe que perdeu o filho, Alice vai abrindo as portas das vilas e, logo, vai se transformando — ela mesma — de uma tal maneira que já não encontra meios de voltar à vida solitária, mas confortável, estabelecida em Porto Alegre. A incumbência de encontrar o filho da amiga perde o sentido e passa a ser usada apenas quando Alice precisa se aproximar de alguém, conquistar a atenção da pessoa. Durante os tais quarenta dias, a ex-professora, retirada de sua terra natal, se torna uma sem-teto. É uma aventura que, enquanto se desenvolve, dá ao leitor a dimensão de como há solidariedade — quase invisível — entre aqueles que têm pouco ou já não têm nada. No último caso, os dois mendigos com quem Alice trava uma amizade de fato representam o humano sem deformação, sublime. Aliás, será com outro empurrão, dessa vez de sua amiga de rua — e, fora do esperado, uma com teto —, que Alice voltará ao apartamento e, com urgência, passará a contar sua história num caderno em cuja capa estará a gravura de Barbie, essa boneca que representa o oposto do que a ex-professora é, mas que passa a ser a outra com quem Alice dialoga.
Apenas como curiosidade: a religiosa Maria Valéria Rezende viveu quarenta dias zanzando por Porto Alegre, dizendo, como Alice, que procurava o filho de uma amiga. Chegou a dormir em bancos de hospitais e rodoviárias. Isso está relatado em matéria do Estado de São Paulo, do dia 3 de maio de 2014 . Mais uma curiosidade: Maria Valéria, que chama muitos passenses de primos, tem raízes na cidade, passava férias por aí e se lembra até hoje do pontilhão da Santa Casa, coisa que quem nasceu depois da construção do “Tobogã”, ladeira que liga a rua Santo Antônio à Santa Casa, nem sabe que existiu.