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13.7.26

Viagens à Terrinha

Em 2025, depois de seis anos, voltei a minha cidade natal, Passos, interior de Minas. Daquela vez, passei por experiências incríveis, a começar pela recepção surpresa que meus amigos da vida inteira me fizeram. Os abraços e brindes reforçaram a amizade em momento em que a política nos separa de forma até violenta. Isso para mim foi um aprendizado e uma reconexão com uma parte minha agradável e humana.

Naqueles dias, convidando meu amigo Rodrigo Leste, escritor e ator belo-horizontino, organizei uma Felifitá — Festa Literária de Fim de Tarde. O evento ocorreu num local que eu desconhecia, o Instituto Motirõ, uma instância político-cultural tocada na força e na coragem por Márcio Carvalho e Betânia Marques, dois professores. No Motirõ, juntou-se a nós o grupo Vastafala — reunião de amantes do teatro e da poesia cuja história é semente de tudo que veio depois.

Também esteve conosco o cronista da cidade, Sebastião Wenceslau Borges. Ele contou a história da "língua do sapateiro", dialeto criado pelos artesãos (como ele) para conversas veladas — às vezes para falar mal de clientes que cobravam rapidez no serviço e pechinchavam, noutras para erotizar as mulheres do high society. Meu mestre Gilberto Abreu, poeta e romancista de mão cheia, também marcou presença. Ele foi meu professor de história antes de deixar a cidade por questões políticas para se tornar um grande docente, vereador e secretário municipal em Ribeirão Preto. Por fim, e tão importante quanto os demais, a poeta Marise Pacheco, integrante do revolucionário grupo de estudantes secundaristas que, em plena ditadura, produziu a Protótipo, revista mimeografada que circulou pelo Brasil. Reunimos umas cinquenta pessoas e fizemos um sarau inesquecível. Minha emoção circulou, então, nesse eixo afetivo-cultural.

Acabo de voltar de Passos, de uma outra viagem igualmente mágica. Fomos eu, minha filha (que não voltava lá há uns dez anos) e, pela primeira vez, meu genro. Antes de chegar a Passos, paramos na Estância dos Lagos, um condomínio bonito à beira da represa de Furnas, para o casamento da Jéssica e do Thales — ela, filha dos meus primos-irmãos, Rosa e Jânio.


Escarpas do Lago, Capitólio, Minas Gerais


Que festa! Não me lembro de ter ido a outra igual, e não digo apenas pela grandiosidade. O lugar é maravilhoso e os convidados estavam de fato irmanados. Ali, revi pessoas que passaram pela minha vida, mas que não eram do grupo mais próximo. Eram homens e mulheres com os quais não mantive contato desde a adolescência. Brinquei com alguns, chamando-os pelo nome de seus pais. É isto: vamos ficando iguais aos nossos velhos, o que é uma coisa bonita. Esses reencontros não trouxeram nostalgia, mas me fizeram ver como a vida é realmente um sopro. Um sopro às vezes com cisco, às vezes apenas uma lufada mansa, incapaz de levantar um fio de cabelo, e refrescante.

A viagem com minha filha e meu genro foi ótima, tanto pelas estradas atravessadas ao som de boa música, quanto por tudo que vivemos lá. Helena já havia avisado ao Luan para não se assustar, pois vários conhecidos diriam que ela é a cara da minha mãe. Não deu outra. Só no casamento, contei uns vinte comentários desses. A figura de minha mãe no rosto de minha filha é forte para mim e para ela, que sempre teve uma relação profunda com a avó.

Fomos visitar o túmulo de meus pais, que custamos a encontrar. Uma vez lá, Helena depositou sobre ele lírios brancos. Ela não sabia, mas nos santinhos de primeira comunhão dos filhos de dona Haydée vinha escrito: “Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; e eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles” — versículos de Mateus e de Lucas.

Nós três ainda mergulhamos nas cachoeiras ao redor do Lago de Furnas. Nesta época do ano, a água é gelada, mas não há o risco de trombas d’água e o sol é forte. O corpo ainda agora agradece por essa limpeza.

Por fim, houve o lançamento de “Os verbos estão cansados” (Editora Patuá), meu mais recente livro de contos. Outra festa, na qual velhos e novos amigos, parentes e pessoas da cultura — inclusive a diretora municipal — me prestigiaram. O local, um bar com espetinhos maravilhosos, foi perfeito para o encontro.

Registro, em letras maiúsculas, a presença do escritor belo-horizontino Ronaldo Guimarães, responsável pela orelha do meu livro. Esse admirável amigo saiu cedo de BH e venceu quase quatrocentos quilômetros de estrada só para tomar uma cerveja comigo. Ao ser apresentado ao Ronaldo, o escritor Marco Túlio Costa, morador de Passos e colecionador de prêmios literários, inclusive o Jabuti, brincou dizendo que estava ali a pessoa certa para "puxar a minha orelha". Não discordo, mas a presença de meu orelhista me mostrou o verdadeiro significado da amizade.

23.3.26

Outras guerras

Dia 8 de março, fui à manifestação pelo Dia Internacional da Mulher, que, no Rio, estava bonita, ainda que não com o número de pessoas — particularmente de homens — ideal. Hoje, depois que as mulheres, em luta, conquistaram tantos espaços, não é possível cruzar os braços e achar que toda a violência que sofrem sejam casos isolados, coisa de homem desajustado. Não é, não. O mundo anda bem complicado, e a ascensão dessa direita adepta da guerra e da anticiência, xenofóbica e misógina reflete o ressentimento masculino. No caso do senhor Laranja estadunidense, a reação vem com o que há de mais moderno em termos de armas de destruição, não poupando sequer as crianças, haja vista que um dos alvos americanos no Irã foi uma escola infantil para meninas. O presidente americano faz o trabalho sujo enquanto a maioria de nós, homens, se senta à sombra à espera do novo dia, que na realidade é o velho, o velhíssimo, impossível de ser reproduzido.

Minha amiga Graça, dia desses, me mandou um post reportando o primeiro concurso de miss travesti em Minas Gerais, ocorrido em 1966. Ela conheceu, conviveu até, com a ganhadora, Sofia de Carlo. Interessante é que a vice-campeã, Erika, é minha conterrânea. Posso estar enganado, mas é uma pessoa apagada da história municipal, o que é compreensível, mas não justificável. O que terá sido dela? Em que rua nasceu e cresceu? Continua em Passos (imagina a barra que era naquela época, se ainda é hoje)? Está viva? As travestis, as trans e todas as pessoas nesse grande leque LGBTQIAPN+ formam outra população na mira dos machos em modo vingança.

Diante da notícia anterior, brinco que Passos faz parte da vanguarda, mas, na verdade, a cidade, como tantas outras, está inserida no cenário da violência. No final de semana em que se celebrava o Dia da Mulher — me corrijo, é dia da luta, ligado a momentos de protagonismo feminino nas questões trabalhistas —, uma jovem de 15 anos levou dezessete facadas na zona rural do município. Não houve assalto, ela não sofria ameaças, tudo indica tratar-se de mais um feminicídio. Triste.

É preciso que não percamos de vista essas histórias. O estupro coletivo acontecido no Rio de Janeiro — quatro rapazes armaram uma cilada para a ex-namorada de um deles; ele e ela menores de idade —, ao chegar à mídia, revela muitos outros. Pior que isso, redes misóginas, a machosfera, vêm à tona. Nelas, homens e jovens ensinam uns aos outros como violentar mulheres, como impor o sim ao não. Num mundo de tantas guerras, ao que parece, as mulheres são a pátria a ser abatida.

27.1.25

Atores

Nas relações pessoais, namoro, por exemplo, não é raro um dizer que chegou ao limite, que não tem um minuto de paz. É um exagero, quem não tem um minuto de paz é a população de Gaza, os favelados desse Brasil imenso, também os de nossos países vizinhos, africanos de todos os quadrantes, ucranianos, sírios, bem, a lista é grande. Somos superlativos ao expressar nossas pequenas falências e, do mesmo modo, as alegrias miúdas. Sou a pessoa mais feliz do mundo, comi o melhor pão de queijo do universo. Enfim, as palavras nos servem para nos levar além de nós.

Ney Latorraca, em entrevista à Bruna Lombardi – se não estou enganado –, respondeu que não era bom de cama, mas de texto, sim. Uma namorada, naquela altura vivendo em Portugal, de vez em quando ligava para ele e dizia: fala, Ney, fala aquelas coisas, fala. Já o Ney Matogrosso, ao se aproximar dos cinquentas anos, respondeu a um repórter que sua vida sexual estava morna, que tinha muita preguiça de tirar a roupa. Nossos dois Neys mentiam? Isso não faz a menor diferença. Somos, eis a verdade, personagens de nós mesmos.

Lá em Passos, na minha infância... Passos é a minha infância. E parte da adolescência. Passos é a minha vida, mas isso não interessa agora. Enfim, lá havia um garoto, Tiãozinho, goleiro nato e frangueiro. Se o elogiávamos – bravo, Tião! – por agarrar uma bola, ele se atirava no campo. Esclareço. Alguém dava um chutão e Tiãozinho encaixava a bola sem precisar fazer movimento nenhum, um petardo direcionado aos seus braços. Era nessa hora que, aplaudido, ele pulava no chão. Grande Tiãozinho, ator de um único papel, mas ouso dizer, do quilate do Selton Mello, nosso conterrâneo.

Por falar no Selton, a família dele é de artistas. Seu tio, Silas, fez muitas peças com o histórico grupo Alfa, uma turma que não só atuava, como também escrevia boas peças sobre a “Ardeia”. Além do mais, muitos eram (alguns ainda são) professores, logo influenciaram um bando de garotos, eu entre eles. Me lembro do badalado diretor Gabriel Vilela, nascido no Carmo do Rio Claro, cidade vizinha a Passos, dizer que sua paixão pelo teatro teve início ou foi reforçada ao ver nosso maior ator, Gustavo Lemos, o Gugu, atuar em “O Inspetor Geral” (Gogol), dirigido pelo Reinaldo Fonseca, um dos que alimentaram minha cabecinha com migalhas da arte. Outro tio do Selton, Stanley (a letra “S” foi patenteada pela família, só faltou serem Silva), vestia-se de palhaço durante o Carnaval e era a alegria da garotada, mas não só dela. Stanley, a quem eu procurava para uma conversa logo que chegava à cidade, era exímio imitador. Uma de suas melhores imitações era a de um primo de mamãe, Dirceu, que, não sei bem por que, tinha uma voz rouca, provavelmente consequência de alguma cirurgia. Dona Haydée adorava esse primo e, quando visitada por ele, preparava um prato especial, sempre o mesmo. Meu pai morria por aquela comida que só dava o ar de sua graça naquela ocasião rara. O que ele fazia para contornar o problema? Pedia ao Stanley que passasse um trote em minha mãe imitando o primo e marcando um almoço para o dia seguinte. Mesa posta, papai lambia os beiços, enquanto mamãe cultivava uma raiva pelo bolo recebido. Raiva passageira, no outro dia já tinha se esquecido de tudo, rindo da molecagem do marido e do Stanley.

Tínhamos um vizinho que trabalhava numa loja de eletrodomésticos e, um dia, ao chegar para almoçar, me viu, distraído e assobiando – eu era de assobios –, sentado na escada de minha casa. Aproximou-se e perguntou se não compraríamos uma TV para torcer pela seleção canarinho na Copa de 1970 que estava por acontecer. Olhei bem para ele e disse que sim, inclusive minha mãe havia me pedido para passar na loja e resolver esse assunto. Um parêntese: eu tinha oito anos. Ele não se importou com minha idade, anotou a encomenda e mandou entregar, no final da tarde, uma enorme Telefunken valvulada. Minha mãe não se fez de rogada e nem se chateou com a atitude de um pirralho e de um vendedor sem vergonha, instalou a danada e, bem, a vida a partir daí foi novela, futebol, a Copa, a grande Copa, um punhado de campeonatos que acompanhei, programas de auditório, o básico dos poucos canais existentes. No início, ao assistir às novelas, eu pensava que, enquanto acompanhava a vida de umas pessoas, elas acompanhavam a minha. Todos estávamos atuando – ou, ao contrário, todos estávamos ali, na real. Acho que a tecnologia de hoje nos levou a esse ponto.

26.2.22

Pra não dizer que não deixei de não falar dos horrores


Uma de minhas irmãs confessou que anda gostando de gim, mas que é para não nos preocuparmos, toma um drinque muito de vez em quando. Não me preocupo, mas cantarolo o conselho do velho Vinícius de Moraes, uma autoridade no assunto: “o gim é um veneno, cuidado, benzinho, não beba demais”.

A pandemia me transformou em sonhador. Quer dizer, uma vez acordado, a sensação dos sonhos sai da cama comigo, mesmo que eu não me lembre exatamente deles. Às vezes, acordo angustiado, mas, como não registro os sonhos — o que, numa mesa de bar, uma psicanalista considerou um pecado —, as imagens logo se dissipam. Volto a dormir, ou não. Dia desses sonhei que espalhava uns brinquedinhos de plástico ou umas bijuterias, não consegui definir se uma coisa ou outra, sobre o capô de um Ford Rabudo. Foi como uma volta a minha infância nos anos 1960, quando os táxis de minha cidade eram velhos automóveis dos anos 1940. 



Ford rabudo

 Numa mesa de bar, havia uma parente do Milton Nascimento. Isso não é nada e não seria nada se, de repente, o Deus em pessoa não passasse por lá. Muito simpático, deu um alô geral e foi para um compromisso. Eu havia me preparado tanto para aquele dia, arquitetado tudinho, mas não aconteceu. Falariam ao Milton: “Este é o Xandão”. Depois, a pessoa que nos apresentava me diria: “Você está careca de saber quem ele é, não?”. Eu responderia: “Claro. Muito prazer, Fernando Brant, sou seu fã”.

A piada criaria uma empatia imediata entre nós dois, e ele sentaria ao meu lado. Falaríamos de Minas, de nossas vidas em Passos e Três Pontas, cidades próximas. Quando ele descobrisse que eu escrevia umas bobaginhas, pediria uma letra, que eu rascunharia ali mesmo, e ele, ali mesmo, delinearia a melodia. A gente se transformaria em parceiro, emendando um sucesso atrás do outro. Algum tempo depois, alguém faria uma brincadeira com ele dizendo que o conhecia muito bem, ele não era o Xandão da Haydée e do Joaquim?

Sonho bom é sonho acordado.

Ao ver uma foto antiga, de pessoas desconhecidas, tive muita vontade de ser uma delas. Talvez pelos sorrisos. Ou pelo bolo, branco, semelhante à torta de abacaxi com coco que minha mãe fazia, mas nem sempre. Ela tinha disso. Uma das primeiras vezes que meu cunhado almoçou lá em casa, mamãe preparou um coq au vin, um trem chique. Bem, durante os demais trinta e quatro anos vividos por ela, meu cunhado pediu o franguinho francês. Não logrou sucesso.

Quando dona Haydée queria, em casa se fazia doce com a casca da melancia; também com a casca, no caso do abacaxi, se fazia o aluá, bebida, segundo ela, muito apreciada por Dom Pedro I. Quando a senhora que comia jabuticaba com garfo e faca queria, essas coisas de preparo delicado eram feitas. Mas só quando ela queria.

Na Copa do Mundo de 1974, ouvi a partida entre Brasil e Polônia dentro do Fusca vermelho, ano 1966, do meu irmão. Atravessávamos a Serra da Mantiqueira, indo do Rio a Passos. O rádio não ficava sintonizado o tempo todo, assim, até hoje não sei se ganhamos ou perdemos. Mas, também, era decisão de terceiro lugar, quem se preocupa com isso?

Outra viagem entre Rio e Passos. Dessa vez, eu dirigia, meu pai acompanhava. Fomos parados por excesso (não muito) de velocidade. Desci do carro, meu pai desceu também e, ao chegar perto de onde o militar anotava os dados da multa, me deu uma bronquinha, já havia me avisado para ir devagar etc. e tal. Voltando ao carro, ele olhou o relógio e, fazendo-se ouvir por todos, lamentou o nosso atraso, teríamos de correr.

O velho não demonstrava interesse por uma comida específica, a não ser, talvez, pelo pudim de pão. Mas, se o doce — feito quando mamãe queria — fosse servido na sobremesa, ele, magro e nem um pouco guloso, comeria um pedaço pequeno. Sóbrio no gostar, impiedoso no não gostar: naquela casa no Beco dos Aflitos, nem quando mamãe quis, se comeu bacalhau.

Seu Joaquim jamais foi de verdades ou filosofias. Mas não me estranharia se ele lançasse a máxima: lambisgoias à parte, o mundo não está para mexericas. Não quer dizer nada, mas meu pai era mesmo um pândego.



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Lançarei pela Urutau o livro de poesias "O sol pelo basculante". Como tem ocorrido nesse período de pandemia, as editoras vêm recorrendo à campanha de pré-venda, garantindo assim os recursos que viabilizem a produção do livro. 

Para acessar o site e adquirir seu livro (se dentro do prazo a meta não for alcançada, o dinheiro é devolvido), entre aqui. Vale dizer que há muitas opções de compra disponíveis, desde o livro eletrônico até "pacotes" com mais de um exemplar deste título ou com outros livros da editora. No site, é possível que o título ainda esteja com um pequeno erro, "um" no lugar de "o".

Espero que eu possa fazer uma noite de autógrafos, quem sabe um pouco diferente: em vez de meus amigos irem lá comprar o livro, levarão seus exemplares apenas para eu colocar aquela dedicatória que, graças a minha letra, ninguém entenderá. O vinho ou a cerveja, de todo modo, continuarão nos ajudando a manter alguma alegria em tempos tão sombrios.

Agora, se a compra já for a do livro autografado, bem, aí o encontro será apenas para tomar umas e outras e matar nossas saudades.

Espero que a pandemia arrefeça para que os planos de encontro se concretizem.

6.11.21

Pedaço de Minas

Chove, e Nelson Freire está morto. Ouço, neste instante, Encores, disco lançado em 2019 para comemorar seus 75 anos. A morte e a chuva não me entristecem, mas me roubam a alegria. Recorro à música como forma de compensar a perda. A chuva, neste ano seco e maltratado, cai como festa.

Em um texto que estou começando a escrever, um dos personagens é preso em Formiga, cidade de Marco Túlio Costa, que, sem saber de minhas maquinações recentes (praticamente ninguém sabe delas), repassou a um pequeno grupo (nós dois mais Alexandre Marino e Antonio Barreto) uma matéria sobre Lamartine Babo, autor de “Serra da Boa Esperança”, música feita quando o compositor esteve na cidade de Boa Esperança — não muito distante de Formiga e de Passos, minha cidade natal — para conhecer uma pessoa com quem correspondia, Nair, codinome de Carlos Netto, um dentista que, passando-se por mulher, conseguia fotos autografadas de artistas do rádio. (Não conto essa história aqui, seus detalhes pitorescos são encontrados na internet.) Nascido em Boa Esperança, Nelson Freire deixou a cidade a conselho de sua professora de piano, que se viu incapaz, ao fim de poucas aulas, de ensinar muito mais ao molecote de quatro anos. Conselho acatado, a família se mudou para o Rio, e Nelson se tornou um dos maiores pianistas do mundo.

De Boa Esperança, onde esteve uma única vez, Lamartine Babo foi a Formiga, cidade à qual voltaria com alguma frequência. Numa delas, impressionado com uma cantora, Babita, mãe do músico Zebeto Corrêa, pediu-lhe que cantasse uma composição recém-feita, “Eu sonhei que tu estavas tão linda”. A música foi um sucesso à época — décadas de 1930, 1940 — e, tempos depois, marcaria minha juventude, pois, como acontecia Brasil afora, inclusive em Passos, Francisco Petrônio, em seu famoso “Baile da saudade”, a cantava no ponto alto do show. Meu texto em processo começa num baile daqueles, quando dois jovens deslocados em sua pequena cidade dançam a música que lhes parece o passado do passado, mas, guiados por ela, acabam tornando-se namorados.












Chegaram ao mesmo tempo a notícia da morte de Nelson Freire e as histórias de Lamartine Babo. O pesar da primeira e a graça da segunda, bem como sua ligação com o meu texto embrionário, me levaram a pensar sobre esse pedaço de Minas, a passagem do sul para o oeste, onde estão fincadas minhas raízes. Lá, o presidente atual e seu projeto obtuso, extremista e incivilizado foram eleitos com mais de 60% dos votos, um motivo e tanto para me fazer triste.

Triste, formulei, sem pretensão de abrangência, deixando a memória e o esquecimento se entenderem como bem quisessem, uma lista de artistas daquelas bandas — Milton Nascimento, Ezequias Marques, os irmãos Grilo, Alexandre Marino, Stella Maris Rezende, Gustavo Lemos, Gilda Parenti, Antonio Barreto, Reinaldo Barbosa, Marise Pacheco, Selton e Danton Mello, Edel Holz, Elpídio Lemos de Vasconcelos (avô de Maria Valéria Rezende), Marco Túlio Costa, Hilda Mendonça, Silviano Santiago, Bárbara Mançanares, Marco Ajeje, Wagner de Castro, Lilo Clareto, Arlete Porto Soares, João e Gilberto Abreu, Zininha Negrão, Gabriel Villela, Tibless Machado, Gilvan de Oliveira, Maurílio Romão, Consuelo de Paula, Váscoli, Irmãos Jerônimo, Celso Faria, Kaju Ribeiro, Ramon Pitter, Sebastião Borges, José Reis Santos, Jerônimo Neto, Ana Lis Soares, Wagner Tiso, Zé Vicente —, uns vivos, outros mortos, uns de renome nacional, mundial, muitos em busca de seu espaço, vários da cena local. À medida que pensava neles, eu os chamava, e ainda outros, para, juntos, enfrentarmos a perda de Nelson Freire e, ao mesmo tempo, encararmos o desafio de devolver nosso país ao campo da disputa democrática e republicana.

17.2.20

O assobio

para Viveca e Boinha

Aos 18 anos, eu, amigo da noite e de seus maus conselhos, voltava para casa quando os miseravelmente responsáveis (mal sabia que seria um deles em futuro próximo), já acordados, preparavam-se para o trabalho. Foi nessa época que, tendo ficado viúva, tia Yole me escolheu para acompanhá-la nas visitas que fazia à fazenda deixada pelo tio Elin.

Eu me recolhia às três ou quatro da manhã, às seis era despertado, às seis e pouco minha tia e eu entrávamos no carro e fazíamos uma pequena viagem de uns cinquenta quilômetros, de Passos a Cássia. Chegávamos ao Morro Alto, que tinha apenas um curral, nada mais, descíamos e literalmente olhávamos para o pasto e seus boizinhos. Era tudo. “Está tudo bem, não está, querido?” “Sim, tia, está tudo ótimo.” Minha resposta tinha mais a ver com o meu estado deplorável. Apesar de o bate-estaca da boate ainda ecoar pela cabeça e de os infortúnios da ressaca já se prepararem para tomar conta da área, tudo estava bem; ótimo era exagero.

Uma vez, fomos acompanhados por um primo meu (sem parentesco com a tia), veterinário. Ele examinaria o Astuto, touro reprodutor — de má fama, por ter um apetite sexual típico dos pandas — com o qual o tio Elin planejara desenvolver o maior e mais bonito plantel do Sudoeste de Minas, mas que, nas mãos de quem não tinha intimidade com a pecuária, acabou se transformando num estorvo.

Durante a consulta, aproveitando um descuido da tia, meu primo cochichou comigo que não voltaria com ela na direção (ele, de fato, foi o motorista da volta). Puro machismo, claro, tia Yole dirigia bem, aliás dirigiu até às vésperas de morrer, o que foi acontecer quando tinha quase noventa anos (que ela não me ouça falar de sua idade, que, aliás, ganharia mais um ano no próximo 20 de fevereiro), mais de trinta depois da história que conto. O que talvez tenha assustado meu primo é que, alérgica ao sol, ela se protegia segurando uma revista; quer dizer: dirigia com uma só das mãos.

Passada essa época, evoluímos de sobrinho e tia para cúmplices: eu acobertei algumas de suas traquinagens, ela, muitas das minhas. Para reforçar nossos vínculos, houve a escrita. Tia Yole escrevia com sensibilidade, lindamente. Lembro-me da carta que me mandou quando a Helena nasceu. E é inesquecível a crônica que dedicou a meu padrinho, um solteirão, um joão-ninguém, um homem doce, qualidades que “Yoyó, a viúva louca”, como eu carinhosamente a chamava, soube destacar.

Não vou dizer da beleza de minha tia. Não vou dizer de como eram engraçadas suas histórias com o marido, cujo humor era a sua forma de estar na droga deste mundo. Não vou dizer como ela era sofisticada. Vou deixar apenas esse caso miúdo que vivemos juntos. Ah, e acrescentar que tia Yole assobiava. Quem assobia, não sei se vocês sabem, perpetua sua passagem pelo mundo.

6.1.20

Esqueça os famosos



Para dona Euza, Cristina e familiares do JC


Você conhece algum escritor famoso?

Foi o que me perguntaram quando participei, em 2018, de um dos eventos ligados à Feira Literária de Passos, minha cidade natal. A pergunta seca foi o ápice de uma participação tensa. Acompanhem.

Eu falava com alunos do ensino médio que não conheciam nem meus livros nem meu blog, na realidade, não sabiam nada de mim. Quando era para ser astro de um evento, me vi um zé-ninguém. Como sair daquela situação? Abri O bichano experimental (Editora Patuá), livro que lançaria no dia seguinte, e, apostando no humor como um bom jeito de iniciar o papo, li uma crônica a meu juízo engraçada. As garotas e os garotos sequer ensaiaram um sorriso.

Minha única certeza era de que a conversa deveria servir-se da literatura, então pensei em ler outra crônica do livro. Adolescentes gostam das coisas que dialogam com seus calores. Agarrado a esta ideia, li "Arranjos fresquinhos para uma velha cantiga pornográfica e outra antipatriótica". Eles riram, as duas meninas sentadas logo na primeira fila se deram as mãos, o ambiente desanuviou, passamos a falar uns com os outros. A leitura certa, na hora certa, concluí.

Passado o embaraço inicial e alcançada uma certa cumplicidade, estava preparado para tudo, mas talvez não para a singela questão, que, uma vez formulada, fez meu cérebro ecoar incessantemente: famoso, famoso, famoso. Com certeza, o meu famoso seria diferente do famoso daqueles jovens. Na minha lista João Gilberto Noll, Maria Valéria Rezende, Stella Mariz Rezende, uma parte da fina flor da literatura com quem mantenho laços afetivos. Como seria a deles? Youtubers da hora, best-sellers de sempre, enfim, as celebridades daquela semana? Estávamos num impasse, e eu poderia elaborar um ensaio tresloucado sobre a fama, mas não o fiz. Ao se dar conta da besteira que eu gaguejava como resposta, sabiamente a coordenadora encerrou a conversa.

Por que diabo gostamos tanto de famosos, dos famosos entre os famosos, dos midiáticos, melhor dizendo? Por associá-los a super-humanos ou a pessoas isentas das ziquiziras da vida? Hipótese medíocre, mas vai saber.

Não ligo para essa pompa incentivada pelo mercado e, de fato, dentro ou fora da literatura, conheço poucos que se encaixariam nesse perfil. Desse grupinho pequeno, o mais popular morreu na passagem de 2019 para 2020, o cantor sertanejo Juliano Cezar, com quem convivi antes de ele se tornar estrela do show business.

Não fomos os maiores amigos do mundo, mas compartilhamos algumas mesas de bar, mantivemos animadas conversas de jovens. Sempre metido com cavalos, o inicialmente peão de rodeios um dia me disse que seria cantor. E foi. Em nosso último encontro, o já conhecidíssimo artista e eu fazíamos compras na avenida da Moda da nossa Passos. Trocamos palavras amáveis, falamos de sua mãe e da Cristina, sua irmã e (ela sim) minha amiga, demo-nos um abraço. Ele era o cara humilde e educado de sempre e, mais importante, ainda sonhava.

Não acompanhei de perto a vida artística do Juliano, não gosto muito do sertanejo, principalmente do mais recente, mas sua carreira se meteu na minha vida. Conto.

Certa vez, no meu trabalho, recebemos por duas semanas um consultor americano. Era um senhor boa praça, fácil de lidar. No início da segunda semana da consultoria, perguntei a ele o que havia feito na folga. Mórmon, descobrira onde era a sua igreja. Além disso, passeara pelo calçadão de Copacabana e, principalmente, assistira a programas de televisão. Na programação dominical, ouviu algumas músicas agradáveis, com um quê da música country americana. Anotara o nome de um dos cantores, era o Juliano. No final do expediente, fui com ele a uma loja comprar discos do meu amigo.

Senti orgulho daquele moleque, de maneira alguma por ele ter sensibilizado um ouvinte estrangeiro; fiquei feliz ao constatar que o JC — não o homem do palco, não o apresentador de televisão, não o famoso, mas o velho e bom Lagartixa — realizara seu sonho de ser cantor. Boa, garoto!

Se pudesse voltar ao papo com os estudantes, diria que não há escritor famoso, há escritores. Muitos, assim como Juliano Cezar fez com a música, firmaram cedo seu compromisso com a literatura. A rapaziada deveria procurar por eles.

4.3.19

Meu curriculum vitae


Graduado em álbum de figurinhas, com mestrado em perdê-las no bafo.

Pelo assombro, doutor honoris causa em situações de emudecimento.

Aluno ouvinte de ideias furadas, ourives de angústias sem brilho, rábula das causas cabreiras.

Químico apenas teórico na faculdade do amor sem beijo.

Pároco da igreja de um deus ambivalente, metade qualquer coisa, metade coisa nenhuma.

Militante separatista do partido de um homem só, com pós-graduação em ouvir de pé e impassível qualquer sermão de louco.

Na universidade dos contempladores de pôr do sol, bolsista por mérito.

Grão-mestre em ruína alheia, vulgo amigo da onça.

Técnico ferroviário nesses trens lá de Minas, metalúrgico em céu de diamantes, subcoordenador de estados utópicos de exceção.

Síndico em condomínios que não saem do papel.

Preparador de infantocanibais barítonos para coral de descontentes.

Campeiro que anuncia com dez badaladas o passado logo adiante.

Regador de desertos, doxógrafo de filosofia de botequim, copidesque de não escritos.

PhD em dialeto de bêbados maltratados pela lucidez.

Professor emérito de Ignorância III, turma de quarta-feira (sexta, caso chova na quarta).

Todos os títulos podem ser confirmados com um simples pulo em cidades a que nunca fui, Anta Gorda ou Não-Me-Toque, no Rio Grande do Sul, Feliz Deserto, nas Alagoas, ou naquela que vivi por tanto tempo, Passos, a princesa do Sudoeste de Minas ou a cidade que anda. Nesta, não saia perguntando por mim pela rua, procure o Limão, ele guarda meus diplomas, que de fato são as digitais que deixei nos copos em que tomei a primeira dose, a segunda cerveja, o terceiro fogo paulista, enfim, nos copos que me deram verdadeiras aulas de como viver honestamente uma vida à toa.













25.12.17

Repertório

O editor da Rubem é um jovem, o Henrique Fendrich. Nem bem sei como um dia ele me convidou para escrever em sua revista eletrônica, o fato é que eu aceitei, e minhas crônicas por ali passeiam há mais de cinco anos. Encontrei em Henrique um conhecedor da crônica brasileira, um senhor conhecedor, melhor dizendo. Ele, que também é cronista dos bons, realmente leu tudo, o que deveria garantir-lhe um espaço nas festas literárias, nos saraus do Sesc, em júris de concurso, mas, até onde alcanço do seu dia a dia, isso não acontece. O jornalista Henrique vive de trabalhos avulsos em Curitiba. Oh, Brasil!

A erudição do jovem editor, vez por outra, levanta do pó do esquecimento algum ou alguma cronista. Recentemente foi a vez de Marisa Raja Gabaglia, escritora que escancarava o peito, virava-se do avesso. Não conheço absolutamente nada do que ela escreveu, portanto foi no perfil feito pelo Henrique que encontrei a seguinte frase: “Sonho com a família perdida como se a pudesse recuperar. Sonho com a família como os cegos sonham com a luz.”

Em meados de dezembro, passei uns dias na companhia do meu amigo Marco Túlio Costa — um Escritor, disse noutra oportunidade e repito em quantas julgar necessário. Acontece que o Túlio não é só um escritor, é também um sujeito que vira e mexe arruma um projeto para atuar como voluntário. Seu livro “A árvore do medo” (Editora Formato), por exemplo, foi escrito a partir de suas oficinas com crianças carentes da cidade de Passos, onde vive. Ultimamente, ele trabalha com a Associação dos Deficientes Visuais. Nesses dias que passamos juntos, meu amigo me contou várias histórias da turma que acompanha, histórias divertidas, pois aqueles cegos são alegres e contornam com humor suas limitações. Túlio perguntou a dois cegos de nascença se eles sonhavam e com o que sonhavam. A resposta é que sonhavam com sons e tatos.

Marisa Raja Gabaglia, ao dizer que sonha com a família da mesma forma como os cegos sonham com a luz, está idealizando o sonho dos cegos ou simplesmente está dizendo — ela, que abriu mão da sua — que, na verdade, não sonha com família alguma? A julgar pelo levantamento da vida da escritora, esse do Henrique, a frase está apoiada na ilusão de que os cegos sonham com a luz, pois Marisa era carente do convívio familiar.

Certa vez, ouvi o Túlio (onipresente por aqui) aconselhar algumas professoras do ensino médio a não se preocuparem com o que o escritor quis dizer; como leitores deveríamos nos perguntar o que aquilo escrito sabe-se lá por quem significa para nós. Acabei de dar esse tropeço, mas até certo ponto justifico-o. Não houvesse eu sido alertado para a espécie muito singular de que é feito o sonho de um cego (pelo menos aqueles que nasceram assim), a frase de Gabaglia teria uma única leitura. Tendo ganhado repertório, a leitura se multiplicou e desse modo tornou-se mais interessante. Ah, como isso é bom. E como leva uma vida inteira nosso processo de alfabetização.

23.7.17

Ali onde Getúlio entrou para a história

Este Brasil não tem jeito. Em mesa de bar com amigos, encasquetamos com tal afirmação. Todos somos desses que acreditam, pelo menos em tese, que a política é a única forma de superarmos os entraves que estão aí, à vista de todos. Porém, com a lambança feita pelos políticos, fomos parar na sarjeta da desesperança. O Brasil não tem jeito.

Numa tentativa de nos agarrar a alguma coisa positiva, uma das mulheres falou do movimento feminino, da potência que há nele. Rimos um pouco com a história da namorada de um desses reacionários que veio a público dar uma banana pro cara. Por sua vez, o outro homem sentado à mesa se sentia esperançoso ao acompanhar o crescimento de seus netos. Buscávamos algo que estivesse à margem da política de terno, gravata e tailleur e concordamos que o que vier virá das mulheres, dos negros, dos gays ou dos marginalizados de modo geral e comerá pelas bordas a desfaçatez da elite.

Contei-lhes então uma história que me ocorreu dia desses, que reproduzo aqui com a intenção de compartilhar um pouco do meu vacilante otimismo.

Eu e minha mulher fomos andar no Aterro, longe de casa. Para nossa surpresa, no calçadão encontramos alguns amigos, depois, no Museu da República, outro amigo e, em seguida, no Largo do Machado, mais uma amiga, e outras duas, na Marquês de Abrantes. Até parecia uma caminhada pelas ruas da minha pequena Passos, não a de agora com seus mais de cento e dez mil habitantes, mas aquela na qual eu vivia e era ocupada por um quarto da população atual.

No Museu, meu colega de trabalho estava acompanhado de sua esposa e da netinha de uns três ou quatro anos. Antes da história, devo dizer da alegria de ver avós agindo como avós, pois a criança ganhara um picolé, coisa que a mãe não gosta que ela coma. O casal desobedecia a filha. Viva a desobediência dos avós! Minha avó, diabética, me levava ao seu quarto, fechava a porta e, desde que eu jurasse guardar em segredo, me dava doce de caju, os melhores que já comi. Enquanto ela esteve viva, o segredo não saiu da minha boca.

A menina não gostou do picolé de morango, sabor que os avós escolheram na esperança de cometerem uma desobediência menor, afinal morango é fruta, é saudável. A garotinha, três mordidas depois, disse que não queria aquele e, na mesma hora, roubou o do avô, um de chocolate — aquilo que longe muito longe tem parentesco distante com o cacau —, e com ele se distraiu até o fim.

Ao nos despedirmos, eu disse para a menina: “Você é muito gatinha”. Ela olhou bem nos meus olhos e retrucou: “Eu não sou gatinha, sou...” (disse então, com muito orgulho, o nome e o sobrenome.) Ali onde, com um gesto radical, Getúlio entrou para a história, com uma troca de frases simplórias, eu e a neta de meus amigos ficamos assim: eu, quase sessenta anos, um sujeito que tem procurado não ser machista, mas que fracassa, e naquele momento acabara de fracassar; ela, quatro anos, sem a menor ideia dessa discussão toda em torno do feminismo, feminista pronta.

16.10.16

Boris Fausto e as memórias intrusas


“O brilho do bronze — Um diário”, do historiador Boris Fausto (Cosac Naify), presente de minha amiga Nilma Lacerda, foi escrito a partir da morte da esposa do octogenário professor da USP e contempla os anos entre 2010 e 2014. Há muito a dizer depois de ler esse livro, desde especular como são os valores de um intelectual uspiano das antigas até louvar a forma como um senhor encara com bravura o luto e a solidão. Esse senhor, diga-se de passagem, além de comentar as visitas ao cemitério, o enfrentamento do cotidiano sem a parceira de anos, analisa, entre outras coisas, a política, em especial as manifestações de 2013. Tudo num tom, digamos, alto, de um intelectual de boa formação, cuja vida foi marcada pela perda precoce da mãe.


Foto de Renato Parada, tirada na época do lançamento do livro


Sinto-me atraído pelos momentos comezinhos narrados ao longo do livro, como quando Fausto fala de suas lembranças sem importância. Conta, por exemplo, de um diálogo — por ter a ver com Lins, cidade dos Pratas, me fez pensar no Leonel Prata — que certa vez ele escutou entre dois italianos. Estavam todos na entrada do cinema, na São Paulo dos anos de 1950 (talvez tenha sido um pouco antes, a julgar por uma breve pesquisa que fiz), e os italianos discutiam futebol, mais precisamente a partida que haveria entre dois times do interior, a Linense e o XV de Piracicaba, cujo resultado daria ao vencedor um lugar na primeira divisão do futebol paulista[1]. Um disse, tropeçando na língua, que torcia pelo “Lincense”, no que o outro, um pouco espantado, quis saber a razão. O diálogo entre eles, no registro do autor do diário, foi o seguinte:

"— Perché? — indagou o que fizera a pergunta.
 — Perché a me non mi piace Piracicaba."

Até onde eu saiba, Fausto não tem ligação nem com Lins nem com Piracicaba, portanto essa história foi fixada em sua memória por puro capricho de seus neurônios. Apostando que cada um de nós cultiva pelo menos uma dessas memórias intrusas, que o professor prefere chamar de insignificantes, mal terminada a leitura, saí à caça da(s) minha(s).

Encontrei de cara algumas bem miúdas, mas, ao contrário da narrada por Fausto, guardadas ou mal guardadas no espaço do afeto, ou seja, lembranças que acusavam o meu envolvimento direto com os fatos. Uma vez, em Passos, no Bar do Vicente, que ficava ao lado do Grande Hotel, ao perguntar se eu aceitava uma bebida e eu dizer que queria uma sodinha (o nome que se dava à Soda Limonada da Antártica), meu padrinho indagou se eu havia parado de beber — insinuando que me oferecera uma bebida alcóolica. Eu tinha menos de dez anos, registre-se. Nos meus primeiros meses de Rio de Janeiro, o atendente de uma loja quis saber qual era minha graça — meu nome, esclareceu, diante de minha hesitação. Enfim, histórias irrelevantes, embora marcadas pela presença amorosa de meu padrinho e por minha chegada à cidade na qual acabaria fazendo minha vida. Não servem como paralelo à narrada no livro. Busco outra.

Era algum ano anterior a 1977, eu vivia em Passos. Eram dias de eleição, talvez fosse mesmo o dia da eleição, e eu não votava ainda. Na Praça da Matriz, um pouco fora de seu centro, vi um monte de gente aglomerada. Por achar o movimento estranho, fixei meu olhar no grupo. Um senhor — logo o reconheci, era o empresário mais bem-sucedido da cidade naquela época — atirava dinheiro pro ar. Os que estavam um pouco afastados dele, feito corvos atacando a carcaça de um boi, se jogaram sobre as notas, disputando-as à tapa, puxões de cabelo e unhadas, coisas que os corvos não costumam fazer.

À medida que escrevia o parágrafo anterior, fui percebendo que minha história não se compara à de Fausto. A dele não o atinge de frente, a minha, ao contrário, por ter desnudado aos olhos de um adolescente como são alguns políticos ou a política, ainda reverbera na minha visão de mundo. Naquele episódio entendi a forma como a elite tratava — e continua tratando, basta ver, na imprensa carioca, as várias notícias de compra de votos, agora, em 2016 — os menos esclarecidos e/ou os mais necessitados.

Não desisto de encontrar uma história leve que eu tenha presenciado e guardado sem outro motivo que não o de usá-la como uma anedota a ser dividida entre amigos. Opa, uma salta na tela da minha memória. Ainda em Passos, num começo de noite, eu atravessava a rua para entrar no clube e vi, encostado ao lado da porta pela qual eu passaria, Z., meu professor no ginásio. Entre nós passou alguém, não me recordo quem, e perguntou ao mestre: “Cumé que cê tá?” Um jovem de 25 anos, se tanto, Z. respondeu: “Doido”. Ambos riram, e eu entrei no clube sem atinar para o significado daquele papo. Não demorou muito, destrinchei o código e comecei a achar a história engraçada. Continuo achando, e não passa disso.



[1] Em 1948, segundo o site do Linense, o time de Lins não subiu para a primeira divisão ao perder por cinco a um do XV de Piracicaba. 





3.5.14

Modos de crescer

Na edição brasileira do El PaísLuiz Ruffato conta, em crônica de 1º/4/2014, “Voando pelos ares”, como se tornou adulto. Não dou detalhes, corram ao site e leiam vocês mesmos, mas adianto que o processo de amadurecimento do escritor esteve ligado a uma bicicleta. Sim, a uma bicicleta. Cada um com a sua história.
No primeiro final de semana de abril, li notícias de mais morte de jovens em Passos, todas por acidentes automobilísticos. Antes e depois, outras notícias também de Passos — corriqueiras nos dias atuais — deram conta de dois ou três assassinatos de meninos de alguma forma ligados ao tráfico de drogas e a todo o submundo que se forma em seu entorno.
A morte de alguns amigos meus ainda jovens foi, penso, parte importante do meu processo de amadurecimento. O maior baque foi a morte do Branco. Era um garoto cheio de vida e que, para a alegria de seus colegas, tinha um fusca equipado com um som da melhor qualidade. Metidos naquele carro, enquanto a fita cassete repetia, à exaustão, o Deep Purple, descíamos a rua do meio, subíamos ao trevo, contornávamos mil vezes a Praça da Matriz. A música era nossa praia. Um pouco depois, ele ganhou ou comprou uma moto de 50 cilindradas e, nela, perdeu a vida. A notícia da morte dele, depois de dias e mais dias hospitalizado, me pegou dormindo. O Glã passou lá em casa e pediu que me acordassem. É, ser despertado com uma bomba dessas não é bolinho.
Velamos nosso amigo a madrugada toda. (No corpo cercado de flores, não restou nenhum pingo da beleza que lhe havia garantido sucesso com as meninas.) Na volta para casa, pela Rua dos Brandões, em algazarra, pedimos pão na padaria que se preparava para abrir. A moçada, nos bafos de seus dezesseis anos, não sabia sofrer em silêncio. Na verdade, nessa idade não sabemos fazer nada sem certo estardalhaço.
A partir da perda do Branco, nunca mais fui o mesmo. (A vida, insatisfeita, ou a morte, faminta, ainda levaram outros tantos: Nuna, Diminhas, Caco, Boda, Serjão, Cunha... não foram poucos). Morremos, descobri. Para adiar a morte eu teria de aprender a cuidar de mim, me sugeriu a intuição. Dar-se conta de que é preciso cuidar de si mesmo, a meu ver, é amadurecer. Não deixei de fazer besteiras — opa, fiz poucas e boas — mas quem fez ou deixou de fazê-las não era o filho do pai, da mãe, nem de deus, e, sim, alguém que, no soco, havia perdido a inocência e tomado a vida nas próprias mãos.
Deixando a questão pessoal de lado, o fato é que jovens morrem aos montes e, na maioria das vezes, engrossam as estatísticas de morte violenta. No passado, em acidentes e por excesso de drogas. Hoje, ao lado disso, muitas mortes associam-se ao tráfico, o que mostra que, num intervalo de mais ou menos 30 anos, mesmo em cidades do porte de Passos, o tráfico se consolidou em uma estrutura empresarial. Armada. A liberação das drogas e a consequente legalização de um mercado que deve persistir fariam diminuir o número de mortes violentas entre os jovens (não só entre eles, é verdade). Antes que alguém levante a mão e questione, já respondo: não, não acredito que o consumo aumentará com isso, ao contrário, com uma campanha forte (vide a de cigarros) poderá mesmo diminuir.
Num mundo menos violento, crescem as chances de o amadurecimento resultar de uma experiência como a vivida pelo Ruffato. Mas, não se animem, tornar-se adulto por conta de uma bicicleta é tão intenso quanto por qualquer outra forma. Crescer dói.
Imagem captada no site "Ai, minha nossa senhora".

                                  

29.1.13

Coisas da prima


Filha da tia Expedita e do tio Tonico, Rita é a prima que inspira esta crônica. Morava na Primeira Chapada antes de sair de Passos, há tempos. Casou-se em Ribeirão Preto com um bom Edson e, mesmo naquele calor medonho, ela e ele trouxeram à luz André e Thiago.
Rita é a maior contadora de casos do mundo. Ela memoriza as histórias, sabe encontrar o lado jocoso de cada uma delas e, quando se dispõe a contá-las, tem a manha de como segurar a plateia. Quem a conhece talvez concorde comigo; os outros, principalmente os muito jovens, terão de botar fé na minha afirmação — ou acompanhar esta crônica e tirar as próprias conclusões.
Sem o charme da prima, conto uma das inúmeras que ouvi dela. Eu a conto porque, neste mundo de urgências e importâncias superlativas, essa história é, como a maioria do repertório da Rita, sem importância alguma. É apenas caseira... e deliciosa. Com ela, o mundo fica assim também: caseiro e delicioso. Por alguns momentos. Que seja!
Ocorreu em Passos entre os anos de 1950 e 1960. Época festiva, de muitos bailes, acabou, sem querer, fissurando a felicidade de um casal bom de dança. Quem olha de fora os dramas alheios tende a achá-los miúdos, coisa de somenos. Não sejamos assim, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” (Caetano Veloso). O casal com problema dançava o fino, poucos chegavam a seus pés, mas, e aí estava o busílis, entrava mudo e saía calado da pista.
Certa vez, por exemplo, bem ao lado do casal, uma dupla desengonçada, tropeçando nos próprios pés, vagava alegre e falante música adentro. A moça ria, o rapaz falava. O rapaz ria, a moça falava. Outro casal mais adiante nem sequer dançava, isso mesmo, nem sequer dançava. Ficava parado no salão, jogando os ombros para um lado e para o outro sem sair do lugar. Em compensação, quanto assunto! Ela se afastava, tirava uma das mãos do rapaz e acrescentava gestos a um assunto infindável. Ele franzia a testa, muito concentrado naquelas palavras. Educado, quando encontrava uma brecha, falava baixinho, olhando bem nos olhos da parceira. E balanga pra cá, balanga pra lá. E tititi, tititi, blablablá, blablablá. O casal com problemas saiu da pista arrasado, apesar de ter dado, como de costume, um show no foxtrote, na valsa, em tudo que a orquestra soprou.
Baile na Roça - Di Cavalcanti.

Outro dia, antes do baile, a mulher chamou o companheiro a um canto e espetou-o com o tridente de sua diabólica inveja.
Ele não reagiu com menosprezo, ao contrário, concordou com ela, pois sentia-se desmoralizado socialmente. Onde já se viu aquele silêncio? O que achariam deles? Um casal com problemas de relacionamento? Casamento de fachada? Tomassem uma decisão.
Decisão... Essa estava dada, bastava falar um com o outro. Mas o quê? Falar, a bem da verdade, poderia atrapalhar o casal, perturbar o entrosamento rítmico cobrado pela dança. Diante da possibilidade de dançar mal, abateu sobre cada um o silêncio dos silêncios. Nem música, nem nada ali entre eles. A solução acabou assaltando, de estalo, a cabecinha inteligente da mulher.
No baile daquela noite, o casal dançou e falou exultante. Para ser sincero, não foi exatamente uma fala. Eu conto.
Mal colocaram os pés no salão, ela disse: “1, 2, 3”, e ele emendou: “4, 5, 6”. Daí, ela: “7, 8, 9”.
Numa animação de dar inveja, contando de três em três, vararam a noite sem arredar os pés do salão.

29.11.12

Alô, é o novo prefeito?


Novo prefeito, velhos problemas.
Novo prefeito, novos problemas.
O homem que se candidatou a prefeito sabe e, é o que se espera, prepara-se para enfrentar toda gama de problemas. (Ninguém entra de gaiato no navio.) Sabe que não basta sair por aí asfaltando ruas, melhorando o sistema de esgoto, disciplinando o trânsito. O bom prefeito vai às calçadas ouvir os habitantes, inclusive os que não votaram nele, e — sem golpe baixo ou interesse espúrio— costurar alianças. A população demandará obras, é fato, mas também matéria de outra natureza. Alguém vai querer saber quem matou a Soninha ou o Pelé dos Queijos. Não é da alçada do prefeito, mas um pinguinho de responsabilidade sobre a questão da violência recai sobre ele. Além disso, somos carne e alma, e esta quer aquilo que, como a própria, seja intangível.  A cultura, por exemplo.
Arco amplo, que vai da culinária à poesia, do modo de falar ou da moda à música, da preservação do patrimônio histórico às festas populares (carnaval, folia de reis, exposição agropecuária etc.), a cultura é manifestação espontânea, mas, para ganhar terreno e tornar-se bem comum, precisa, quase sempre, da intermediação do governo.
No campo das artes, tenho a impressão de que Passos avançou nos últimos anos. Cito alguns exemplos que me vêm à mente. Alguns músicos tocam em locais adequados (Magrão e família, por exemplo). Há grupos de teatro em plena atividade (muitos se beneficiam da reforma do Teatro do Rotary). Há avanços no campo audiovisual, como é o caso do Festival Selton Mello (ligado à FESP), sem contar a incansável determinação do Itamar Bonfim. É possível detectar alguma resistência no campo do folclore. Acompanho no Facebook a mobilização do grupo “Memória de Passos”, administrado por Jesuína Faria, Heliza Faria, Leila Andrade, Sílvia Mendonça, José de Paula Silva e Welfare Joele. Preocupado com a preservação do patrimônio histórico, esse grupo será, ou poderá ser, ou mesmo deverá ser, uma voz política importante nas discussões em torno da municipalidade.
Nas comemorações do aniversário da cidade, foi dado um passo e tanto na incorporação da literatura como evento que transcende as salas de aula ou os encontros de escritores como o Intercâmbio Literário (Hilda Mendonça à frente). A Festa Literária de Passos, a FLIPassos, foi executada com sucesso pela administração derrotada no último pleito. Se a política for levada como disputa de rua, briga de vândalos, o atual prefeito dará as costas ao evento, se prenderá a críticas irônicas e rasteiras e a vida continuará, com perda clara para todos os munícipes. Se fizer política com pê maiúsculo, a FLIPassos será analisada, reformulada (se preciso) e repetida nos próximos anos.

Como acredito na força libertadora (e transgressora, vá lá) da literatura, não sento e espero, trato de pressionar o novo prefeito, o que, do ponto de vista da democracia, é legítimo. Assim, senhor Ataíde, descontinuar a FLIPassos será pisar na bola, pois estamos falando de um evento-investimento, cujos frutos serão colhidos no futuro — futuro próximo. Dando prosseguimento à festa literária (o Governo Federal tem verba para destinar a municípios interessados em eventos desse naipe), todos nós, em breve, nos regalaremos com suas consequências. Pense nisso enquanto cuida das inúmeras outras questões que o aguardam a partir de janeiro. Desejo-lhe sucesso, pois indo bem sua administração Passos poderá vir a ser uma cidade melhor.

30.5.12

FLIPassos: o presente pelos 154 anos de Passos


Há muito tempo não passava tantos dias em Passos, certamente desde a morte de minha mãe, em 2007. O motivo que me levou à cidade desta vez era nobre: a I FLIPassos (Feira Literária de Passos), evento que fez parte das comemorações do aniversário do município.
Eu e outros tantos escritores, passenses e de diversos cantos de Minas, tivemos uma agenda cheia. Visitamos escolas, fizemos leituras em praça pública e lançamos livros. Participamos de reuniões de escritores e batemos papo com os leitores. Nada diferente das feiras literárias. Porém havia um diferencial que atingiu com certeza a mim e aos demais conterrâneos: a feira foi em nossa cidade.
Assim, os relatos que ouvíamos, seja nas reuniões formais, com a presença da secretária de Educação, Cultura, Esporte e Lazer ou da diretora de Cultura, seja nas informais, tanto nos emocionavam como nos deixavam ainda mais certos da importância de um evento como esse para uma cidade. Ao participar de encontros em escolas, nos damos conta, por um lado, de como é importante para o estudante-leitor ver o escritor, conversar com ele. Talvez essa seja uma das maneiras mais atrativas de estimular a leitura, afinal de contas o escritor é uma pessoa que sabe fazer a ponte entre sua literatura e a atualidade, esta uma vivência comum a todos. Essa ponte, creio, é um facilitador, além de estímulo. Por outro lado, ao participar desses encontros com as escolas, há um caminho inverso, qual seja: os escritores descobrem como sua obra alcança o leitor, enfim, que leitura ela ganha. Essa via de mão dupla enriquece escritores e leitores.
Não posso deixar de mencionar o relato emocionado de Nelson Cruz, Neusa Sorrenti, Cristina Agostinho e Maurílio Andréas G. Silveira ao voltarem de visitas que fizeram às escolas, em particular às escolas rurais. Nelson Cruz, por exemplo, nos disse que, numa escola rural, encontrou, numa modesta biblioteca, três de seus livros. Uma vitória pessoal, mas também uma certeza de que a política de compras do governo está bem direcionada. Nelson não só chamou a atenção para esse deleite pessoal, como também registrou a qualidade do trabalho das crianças, feito com desenvoltura e criatividade. Disso tiramos uma conclusão óbvia: há professores dedicados em Passos, e eles estão fazendo um excelente trabalho. Aliás, sabemos, o ensino é sacerdócio. Coisas assim nos dão esperança de que a educação esteja sendo levada a sério.
Por tudo isso, a FLIPassos deverá ser um evento perene, incluído no calendário da cidade, independentemente de quem a esteja administrando. Isso não é fácil, pois a política gosta do personalismo. Cabe então a nós, que não somos políticos, reivindicar que esse evento — e outros de igual dimensão, ligados ao teatro, à música, ao cinema etc. — seja do povo e para o povo. E, mais do que isso, cabe a nós tentar atrair nossos agricultores, pecuaristas, donos de fábricas e comerciantes a participar da feira. Participar com grana, claro, mas também de outra forma, por exemplo, divulgando e abrindo a porta de seus estabelecimentos para eventos.
Desfile pelo dia da cidade. As escolas homenagearam os escritores da FLIPassos. Desfilei com o meu colégio, o Polivalente (fui da primeira turma, em 1972).
Para terminar, agradeço a todos que me prestigiaram. Em particular, agradeço ao pessoal do Polivalente, a escola em que estudei e que me homenageou no desfile do dia da cidade. De todas as emoções que tive nessa passagem em Passos, as mais fortes estiveram ligadas à escola. O encontro com os alunos para bate-papo. O desfile em si. Além disso, o encontro com Cecília Barros, a vovó-diretora de meu tempo, e com alguns colegas contemporâneos (Nilo, Auro e Teresinha) me deixou... me deixou... me deixou sem palavras.
Ah, no fim do evento, outro assassinato em Passos. A literatura não salva nada, mas, onde se lê mais, a vida é vista em sua real importância.