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1.6.26

Arco da derrota

Peguei uma rebarba do movimento hippie. Quer dizer, eu via a coisa acontecendo, embora não pertencesse a ela. Para falar a verdade, na minha pacata e conservadora cidade não havia nenhum hippie. Ou, se houve, achou melhor tirar o time de campo, mudar-se para um grande centro e lá desfrutar da filosofia da turma.



Uma filosofia? Sim, paz e amor, essa conjunção simples e difícil. Mais que filosofia — ou menos, não sei —, era uma utopia, ou Utopia, como queiram. O mundo já se permitiu sonhar em acabar com a guerra, as guerras, amar-se livremente, viver em comunhão com a natureza. As más línguas blasfemavam contra esse mundo encantado, espalhavam que nele não haveria lugar para banho e os hippies seriam assim sujinhos. O que é a sujeira diante da guerra? Quem vive em comunhão com a natureza, se banha, os portugueses aprenderam isso tão logo puseram os pés por aqui. Para dizer a verdade, se espantaram com nossos habitantes originários, nus e limpos. Pois então, os hippies estavam mais para indígenas do que para colonizadores.

A utopia defende a igualdade, a fraternidade e a igualdade sem precisar decapitar ninguém.

Falo em decapitação e me meto na outra parte desta crônica. Caminhava pela espetacular pista entre Botafogo e Flamengo — aquela parte onde um tanto de natureza original vive em harmonia com a obra da arquitetura, o Parque do Aterro —, quando um corredor passou por mim. Quer dizer, vários corredores me ultrapassam, ando em modo acelerado, mas não tão acelerado assim. Nessa minha velocidade de cágado aflito, ainda paro e aprecio o Pão de Açúcar, a Enseada de Botafogo, o céu, melhor dizendo, os céus: hoje vermelho, amanhã cinza, no sábado azulíssimo. Faço um parêntese: ando escrevendo uma novela cujo personagem gosta do céu azul, sem nuvem, sem pôr do sol. Não sou como ele, mas o entendo.

Onde eu estava mesmo? Em que parte da crônica, quero dizer, pois sei que contava de uma caminhada entre Botafogo e Flamengo. Ah, sim, um corredor passou por mim. Nas costas dele, a frase na camiseta dizia: “f*ck your peace” — assim mesmo, com “*” no lugar do “u”. Ora, vejam só. Não basta esfaquear a velha utopia e sua esperança de paz, tem de usar o inglês.

O rapaz é a bandeira desses dias atuais nos quais triunfou a guerra, a violência, a distopia, ou Distopia, como queiram. É um mundo medonho. É um mundo cruel. É um mundo que não é de Deus, embora em nome dele se levantem muitas vozes obscuras.

Meus sessenta e quatro anos me dizem que ainda verei atrocidades imensas, mas também que não demora tanto assim para ser chamado para o coração da terra — não para o inferno, que não existe, nem para o céu, que, enquanto morada eterna, tampouco existe —, deixando vocês aí com o abacaxi na mão.

23.7.17

Ali onde Getúlio entrou para a história

Este Brasil não tem jeito. Em mesa de bar com amigos, encasquetamos com tal afirmação. Todos somos desses que acreditam, pelo menos em tese, que a política é a única forma de superarmos os entraves que estão aí, à vista de todos. Porém, com a lambança feita pelos políticos, fomos parar na sarjeta da desesperança. O Brasil não tem jeito.

Numa tentativa de nos agarrar a alguma coisa positiva, uma das mulheres falou do movimento feminino, da potência que há nele. Rimos um pouco com a história da namorada de um desses reacionários que veio a público dar uma banana pro cara. Por sua vez, o outro homem sentado à mesa se sentia esperançoso ao acompanhar o crescimento de seus netos. Buscávamos algo que estivesse à margem da política de terno, gravata e tailleur e concordamos que o que vier virá das mulheres, dos negros, dos gays ou dos marginalizados de modo geral e comerá pelas bordas a desfaçatez da elite.

Contei-lhes então uma história que me ocorreu dia desses, que reproduzo aqui com a intenção de compartilhar um pouco do meu vacilante otimismo.

Eu e minha mulher fomos andar no Aterro, longe de casa. Para nossa surpresa, no calçadão encontramos alguns amigos, depois, no Museu da República, outro amigo e, em seguida, no Largo do Machado, mais uma amiga, e outras duas, na Marquês de Abrantes. Até parecia uma caminhada pelas ruas da minha pequena Passos, não a de agora com seus mais de cento e dez mil habitantes, mas aquela na qual eu vivia e era ocupada por um quarto da população atual.

No Museu, meu colega de trabalho estava acompanhado de sua esposa e da netinha de uns três ou quatro anos. Antes da história, devo dizer da alegria de ver avós agindo como avós, pois a criança ganhara um picolé, coisa que a mãe não gosta que ela coma. O casal desobedecia a filha. Viva a desobediência dos avós! Minha avó, diabética, me levava ao seu quarto, fechava a porta e, desde que eu jurasse guardar em segredo, me dava doce de caju, os melhores que já comi. Enquanto ela esteve viva, o segredo não saiu da minha boca.

A menina não gostou do picolé de morango, sabor que os avós escolheram na esperança de cometerem uma desobediência menor, afinal morango é fruta, é saudável. A garotinha, três mordidas depois, disse que não queria aquele e, na mesma hora, roubou o do avô, um de chocolate — aquilo que longe muito longe tem parentesco distante com o cacau —, e com ele se distraiu até o fim.

Ao nos despedirmos, eu disse para a menina: “Você é muito gatinha”. Ela olhou bem nos meus olhos e retrucou: “Eu não sou gatinha, sou...” (disse então, com muito orgulho, o nome e o sobrenome.) Ali onde, com um gesto radical, Getúlio entrou para a história, com uma troca de frases simplórias, eu e a neta de meus amigos ficamos assim: eu, quase sessenta anos, um sujeito que tem procurado não ser machista, mas que fracassa, e naquele momento acabara de fracassar; ela, quatro anos, sem a menor ideia dessa discussão toda em torno do feminismo, feminista pronta.