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7.4.24

Problemas alheios

 

Na Tailândia – especificamente na província de Lop Buri –, macacos, lá protegidos por lei, têm promovido verdadeiras guerras entre gangues. Não são raros ataques a humanos, mas a coisa fica feia mesmo durante o enfrentamento de um grupo contra o outro. O conflito não ocorre na mata, habitat dos animais, mas no centro urbano. Ou seja, você está lá no seu carro, ou pior, parado na calçada, esperando a chance de atravessar a rua, quando de repente uma horda de primatas cruza à sua frente para brigar com a outra que está bem às suas costas. Não conheço a realidade da Tailândia, portanto não posso afirmar se esse é o maior problema deles. Me arrisco a dizer que não, um país nada mais é do que um saco de problemas.

Apesar do inusitado dessa guerra nos moldes antigos, no tapa e na coragem, sem armas – alguns bichos confeccionam ferramentas para auxiliá-los em suas ações básicas, mas não sei de nenhum que produza armas –, os tailandeses deveriam agradecer pelo fato de suas ruas não serem tomadas pela polícia carioca, especializada em soltar tiros a esmo contra bandidos – verdadeiros ou inventados – nas ruas da cidade, para dizer a verdade, nas ruas em torno das favelas, principalmente em seus becos. Nem pela “nova” polícia paulista. Enquanto os macacos disputavam território, o governador de São Paulo, importado do Rio de Janeiro e com as palavras a seguir, encaminhava o pessoal dos direitos humanos à ONU ou à Liga da Justiça, ao raio que o parta, porque ele não estava nem aí com as críticas à truculência de seus comandados nas periferias. Ainda agora essa polícia matou Edneia, uma jovem de pouco mais de trinta anos, cabeleireira, com seis filhos para criar. A imprensa fala em mais um caso de bala perdida. É insuficiente a explicação, quando não cínica.

Os finlandeses são felizes, os mais felizes do mundo, constata uma pesquisa tradicional. Eu já estive lá e conheço seus dias cinzentos e frios, mesmo fora do inverno. Duvido um pouco dessa felicidade, mas não muito. Como assim? Acompanhe a historinha: num habitual dia sombrio, eu cruzava uma praça de Helsinque e, de repente, o sol se abriu. Uma mulher que ia logo adiante de mim se sentou num banco, tirou a blusa, o sutiã e ficou tomando sua carga de vitamina D. Isso, sim, me cheira a felicidade, ao miúdo da felicidade, mas quantas vezes no ano poderão se dar a esse luxo?

Igualmente não sei se o único problema da Finlândia é o frio. Sei um pouco, na verdade. O alcoolismo é uma questão sensível por lá. Quando estive no país, tinha em mente um dos episódios de “Uma noite sobre a terra” (Night on Earth), de Jim Jarmusch. O filme reúne cinco histórias, cada uma delas se passa em uma cidade, Nova York, Roma, Londres, Los Angeles e Helsinque, e os personagens estão sempre em um táxi. Pela lente do diretor americano, as ruas de Helsinque estão cheias de bêbados, o que constatei em minha visita. Se é certo que as cidades finlandesas jamais serão atacadas por macacos – podem ser por ursos e, às vezes, são – nem pela polícia vingativa e falsamente punitiva brasileira, eles têm, bem ao lado, a Rússia e sua discordância ameaçadora sobre a intenção da Finlândia de entrar para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o que veio a acontecer no ano passado. Uma bala perdida do poderio russo pode extinguir a felicidade e os bêbados da felicidade.

Minha expedição sem sair de casa à Tailândia ou à Finlândia se faz sem bússolas, até sem a orientação das estrelas. Penso na briga de macacos ou na felicidade “medida” pela estatística um pouco para não pensar, por exemplo, nas guerras entre Rússia e Ucrânia ou entre Israel e o Hamas, esta um banho de sangue cruel, comandado por um extremista de direita sem nenhuma visão além da vingança. Ah, senhor da guerra, leia “Judas”, de seu compatriota Amós Oz. Ou simplesmente leia (desconfio da absoluta falta de leitura dessa gente).

Dizem que a grama do vizinho é mais verde, mas a desgraça alheia maltrata mais do que a nossa. Penso assim? Ora sim, ora não. Vagueio, leitora, vagueio, leitor, e, com as mãos no bolso e andando de lado, chuto pedrinhas.

7.10.23

O encanto estrangeiro

 Não é raro rirmos do estrangeiro. Tampouco é raro a troça desandar para o preconceito, como é o caso do português entre os brasileiros. O que, nesse caso, é estranho, pois, veja bem, quando eles chegaram por aqui, havia apenas os indígenas, logo as diferenças evidentes entre ambos os grupos eram tão grandes que, diante dos sustos recíprocos, deve ter sobrado pouco espaço para graça. Tudo bem, a nudez de uns e o excesso de roupas dos outros podem ter se traduzido em dedos apontados para lá e para cá e risinhos de canto de boca. Imagino que o português só tenha virado piada depois de o país ter alcançado uma vida urbana mais intensa, quando os escravizados já eram uma parte substantiva da população.

Galindo, professor, tradutor e escritor, em seu livro “Latim em pó” defende que o “brasileiro”, nosso verdadeiro idioma, nasceu de uma mistura do português de Portugal do século XVI com as demais línguas que por aqui circulavam, em particular as indígenas e as africanas. Ele acaba por concluir que o brasileiro é o pretoguês, reforçando a influência africana no nosso modo de falar. Se é assim, enquanto nossa língua se distanciava do português castiço, o sujeito verdadeiramente brasileiro que se estabelecia passou a ironizar o colonizador. Da ironia à piada e dela ao preconceito é um pulo.

Apesar do perigo em errar a dose, é difícil não rir de um estrangeiro, que, a bem da verdade, nem precisa ser de outro país. Nasci no interior de Minas e em cada uma de minhas mudanças convivi com ironias e gozações. Quando fui para Belo Horizonte, brincavam (estou sendo suave) com meu “erre retroflexo”; ao chegar ao Rio, com meus excessos de “uais” e “nossas” e “virgens marias”. Mesmo hoje, vira e mexe alguém aponta alguma de minhas notas dissonantes ao ouvido carioca. É do jogo.

Fui fazer um curso em Madri e, num fim de semana, eu e um colega chileno conseguimos uma viagem bem barata para Lisboa. Ficamos dois dias por lá, tempo suficiente para conhecer um pouco da cidade, comer uma boa bacalhoada servida por um garçom goiano e ouvir uma apresentação muito triste de fado. E, claro, para enfrentar as diferenças — bem além da língua — entre o português e o brasileiro. Perguntei a um taxista aonde ia o trem que passa sobre o Tejo. Ele me corrigiu: “O comboio?” Concordei. Ele então respondeu à minha pergunta: “Ora, pois, para o outro lado, mas depois regressa”. O chileno, que não falava bulhufas de português, caiu na risada. Isso de compreender sem entender acontece. Na Alemanha, eu sabia exatamente se meus amigos mantinham conversas amenas ou não — e desconfiava de quando caçoavam de mim. Seja como for, e voltando a Portugal, a beira do Tejo era o ponto das baladas. Fui ao banheiro de um dos bares, e todas as piadas que fazemos com os portugueses estavam pintadas (não pichadas ou rabiscadas) nas paredes, com um detalhe: os personagens tacanhos éramos nós, os brasileiros.

Um funcionário do instituto de estatística da Espanha veio fazer uma consultoria na área em que trabalho no IBGE. Um dia o levamos para almoçar num local mais ajeitadinho. Escolhemos um restaurante mineiro, de que, aliás, ele gostou muito, achou a comida parecida com a espanhola. Cerveja aqui, caipirinha ali, ele, mais solto, afirmou que na Espanha a mulher ideal era a dinamarquesa; em Portugal, a polonesa; na Alemanha, a espanhola (posso ter trocado as nacionalidades, mas o espírito era esse). Dito isso, quis saber qual era a mulher ideal para o brasileiro. Um gaiato gritou lá da ponta oposta da mesa: “A do outro”. O espanhol gostou tanto da resposta que passou a contar a história, agora anedota, em seus cursos. Sei disso porque fui aluno dele logo depois. Quando viajei para fazer o curso, levei-lhe de presente uma boa cachaça. A primeira pergunta que me fez foi se poderia colocá-la no congelador, feito uma vodca. Não tinha ideia, mas ele, passado um tempo, me disse que colocou e ficou muito bom.


Obra de Goya



Esse espanhol, Manuel, seu nome, teve disposição para passear comigo por Madri. Fomos ao Museu do Prado, que ele conhecia em detalhes graças à sua mulher, ex-funcionária de lá. Diante de cada obra, meu anfitrião discorria sobre o período em que ela foi criada, a técnica utilizada, dava alguma palavrinha sobre a biografia do artista, em particular de sua relação com o poder, ilustrava, enfim, os Velázques, Rubens, El Greco espalhados pelo salão. Uma hora, no entanto, a voz de Manuel sumiu, deixou de me alcançar: havíamos chegado à parte em que estão as “pinturas negras” de Goya, obra que ele, já velho e, sem sair da Espanha, vivendo uma espécie de exílio, pintou no reboco de sua casa (na Quinta del Sordo). Diante delas, fui perdendo o interesse por tudo fora do meu campo de visão e audição. Um estrangeiro, morto fazia muito tempo, me cobrava uma compreensão do mundo distinta da que eu tinha. Goya parecia me dizer que no mundo, no mundo ideal, não haveria fronteiras. Caminhamos em sentido oposto.

15.7.23

CM e a rapadura

Carlos Magno, na certidão de nascimento e na esperança familiar de se tornar um grande homem; Classe Medião, como, depois de homem feito e cheio de história, o descreveria aos pais um novo amigo do filho, encantado com tantos brinquedos e aparelhos eletrônicos existentes na casa dos vizinhos recém-instalados no prédio; mas foi como CM que ficou conhecido. O senhor CM. O parça CM. Papi CM. CM, meu amor.

Na infância, carregou caixa de engraxate, negociou passarinho, fez uns pequenos furtos. Depois foi trabalhar na loja de esporte do seu Kalu, de lá arrumou um emprego num banco privado e, por milagre – opinião de sua mãe, baseada no fato de nunca ter visto o Carlinhos (pra mamãe não tinha essa de CM) com um caderno na mão –, passou num concurso do Banco do Brasil. Foi mandado para uma cidade distante. Não sendo conhecido de ninguém, fez do emprego um cabide para favores de toda sorte. Favores, diga-se de passagem, que custavam aos beneficiários uns bons bagarotes.

Quando visitava a mãe, levava-lhe presentes. Filho atencioso, está muito bem no serviço público, comentava envaidecida a senhora. De fato, estava, só que o recheio de sua conta tinha pouco a ver com o salário mensal. Bastava compará-lo a um colega mais ou menos contemporâneo para constatar isso. O outro estaria bem, mas ali no limite, e bastava um sopro nos ares da conjuntura para consumir sua poupança, fazê-lo tirar o filho da escola particular ou voltar a tomar a cerveja barata ou mesmo deixar de tomá-la. Já CM nem se preocupava com cenários econômicos, micro ou macro.

Assediou a moça bonita, filha de uma autoridade importante do município, e foi correspondido. Casamento, filho, construção de uma casa confortável. Um monte de amigos. Depois a transferência para a cidade grande. Quando se instalou no prédio de bairro nobre, aconteceu o caso que lhe custou a alcunha de Classe Medião. Ele achou foi graça, era isso mesmo, mas que não o chamassem assim, pois era CM. Para o filho. Para a mulher. Para a mãe; não, pra ela, não. Para os clientes vips. Nas reuniões de condomínio, à boca pequena, o chamavam do apelido que lhe desagradava, mais por pilhéria que por maldade.

Ah, a vida na capital. No início, o deslumbre. Almoços caros, bares da moda, uma amizade colorida. No entanto os arranjos do banco tornaram-se mais difíceis; difíceis, não, impossíveis. Lá no interior, os favores lhe eram pedidos e já chegavam com o orçamento definido. Era pegar ou largar. Ele sempre pegou, porque ser trouxa não era de seu feitio. Mas na capital... Deveria se oferecer? Desenrolo aquele pedido de empréstimo em troca de um pequeno agrado. Faço sua assinatura subir para o gerente agora. Sumo com essa ficha meio suja. Cidade grande, gente miúda. Vai que todo mundo ali fosse honestíssimo? Ou que o jogo fosse maior? Que ajuda em empréstimo coisa nenhuma, a questão era ocultar umas exportações, usufruir de um câmbio especial, dar um calote sem pena nas contas do governo.

CM foi vendo o dinheiro minguar e a timidez crescer. Não era desses, o que se passava? Veio então o vento outonal de uma crise econômica, e o sortudo bambeou as pernas. Prudente, dispensou a amiga. Mais adiante, a empregada. Tirou o filho da escola privada, notícia recebida com ironia no condomínio: “Agora é o Classe Medinha”. Não ficou muito mais tempo no apartamento caro e bonito, deixando para trás aluguéis, taxas e impostos atrasados. Foi morar longe e começou a economizar nas refeições, a descolar umas caronas para não enfiar o salário todo no transporte urbano. A mulher se mandou para a casa dos pais, lá na cidade do interior, e logo entrou na justiça cobrando-lhe uma pensão pra lá de escorchante.

Conheceu a solidão da pessoa sem dinheiro. Maldisse seu infortúnio e deu de beber. Um dia, embalado pela cachaça (das baratas, nada de luxo), pegou um papel e escreveu: “Sou o lateral esquerdo – ou talvez o beque central – ou talvez o quarto zagueiro – ou talvez o lateral direito – ou todos eles, incluindo o cabeça de área – de minha defesa devassada”.

Seria poeta, decidiu com a certeza do borracho. Escreveria umas coisas aqui, outras ali e, para não perder o hábito, roubaria uns versinhos. Ninguém notaria, afinal quem lê poesia nesse mundo? Se viu recitando seus versinhos nos programas vespertinos de televisão. A fama logo se traduziria em grana. Estava quase feliz com seus devaneios quando o pileque passou, deixando, ainda, a maldita ressaca no descontrole de tudo. Nessa hora, ouviu a mãe dizendo aos vizinhos: “o Carlinhos, coitado, entregou a rapadura”.



19.11.22

Anotações de improviso

— O que é o mercado?

— Aquele lugar onde, entre outros, o João Sílvio vendia um Canastra daqui, ó. Oferecia também arroz, feijão, até sardinha — em lata e nacional, é verdade. E tudo, veja bem, anotado em caderneta.

— Mas é esse que anda nervoso?

— Ah, não, o nervosinho é de outra categoria. Ele não vende nada, muito menos fiado, mas ganha muito e pressiona que só.

 

Ó, Deus que não existe, dou-te algum contorno, um vulto, quiçá mãos e braços, e me aconchego em ti. Agradeço-te então a existência de Milton Nascimento. Reclamo da subtração repentina de Gal, mas também agradeço por ter-nos dado essa voz, essa beleza.

 

Estar no meio de uma torcida de futebol talvez seja a coisa mais animalesca que existe. As torcidas são violentas e comportam-se como se estivessem em guerra. Dito isso, estar no meio da torcida faz um bem danado, pois liberamos os ácidos da violência, que precisam ser descarregados de uma maneira ou outra, afinal somos violentos.

 

Será que, quando os portugueses desembarcaram aqui nesta terra, que na realidade não era uma, mas muitas, cada uma ocupada por um povo indígena diferente, houve um olho no olho entre eles e o grupo nativo com quem mantiveram o primeiro contato? Aposto que não, a espoliação requer o fingimento, e este não suportaria o enfrentamento imposto pelo olhar recíproco.


Vi um sujeito parado numa esquina, e sua postura era de quem vivia uma angústia, talvez não soubesse como chegar ao endereço a que deveria se dirigir. Resolvi ajudá-lo. Ele me disse que não iria a lugar nenhum, na realidade esperava um amigo. Já ia me retirando, quando ele me chamou. Me olhou de cima a baixo. Era a mim que esperava. (Ou a qualquer outro.)

24.5.21

Realismo mágico em três versões

 






Com o realismo mágico, García Márquez reportou o mundo a sua volta, em particular o de sua juventude vivida no interior da Colômbia. Sim, era uma espécie de reportagem sobre o extraordinário embutido nas histórias narradas por seus avós e de modo algum criado por ele. Na minha infância, eram comuns os casos situados na fronteira entre o real e o imaginário, entre o visível e o invisível. Eu também — e muita gente de sessenta anos ou mais — poderia ter inventado, se me fosse dado talento, o realismo mágico, bastava registrar, ao lado de mulas sem cabeça e sacis, as peripécias de meus antepassados. O avô materno de minha mãe colocava maçãs na cabeça de suas filhas e, de uma certa distância, atirava na fruta. Verdade? É o que sei. Nas mãos de Gabo, suspeito, as maçãs seriam para lá de rubras e as meninas, apesar de pálidas, esperariam os tiros de olhos abertos.

O escritor colombiano não só registrou as histórias de seus ancestrais, falsas ou verdadeiras, o que ele não poderia atestar, como também espalhou, a seu gosto, ervas e pimenta sobre elas. Não fosse assim, não seria um escritor, mas um contador de causos. Nem contador de causos, já que esses, ao relatar o que viram ou ouviram, dão um jeito no inverossímil da realidade. Não sendo escritor nem contador de causo, García Márquez talvez pudesse ter sido um contabilista com talento para esconder do fisco parte da renda de seus clientes. Sempre projeto sobre o Nobel de 1982 a pecha de mentiroso. Creio que lhe cai bem.

O boom da literatura fantástica ficou para trás. Entretanto esses dias tão cheios de assombros parecem propícios à exploração do mágico. Sendo assim, sugiro três argumentos, que podem ser explorados em diferentes nichos de mercado, àqueles que nalgum canto do universo escrevem sob a bênção do velho Gabo. Corram à cozinha, separem os temperos mais picantes e mãos à obra.

Distopia:  no lugar dos coronéis déspotas, velhos e sozinhos, o personagem é o homem orgulhoso da própria ignorância e fiel à violência. Ele tem o olhar vidrado, não como o de um louco, mas como o de uma besta. Recusa o passado, encantado ou não, por ser um tempo morto. Seu foco são o presente, para desfrutar as benesses da fortuna, e o futuro, para garantir a boa vida dos descendentes e perpetuar o próprio nome como um herói da pátria. Ambicioso e gabola, apresenta-se numa versão mais que requentada do velho caudilho. O déspota atualizado percebe a passagem do real para o virtual, no qual age. As fake news, sua mão sobre o novo mundo, trocam o acaso e a riqueza do contraditório por algoritmos que escravizam, inicialmente, aqueles que o escolheram como libertador e, em seguida, os demais.


Humor: o olhar vidrado do poderoso expressa o assombro de quem não entende uma vírgula do que está se passando. Ele é o menino do “A vida é bela” que, ao crescer, continuou a enxergar o real como um jogo. Em vez de viver, joga, e tudo para ele — inclusive ou principalmente o horror — é encantamento e beleza. Envolvido em sucessivas situações vexatórias, como a de negar a ciência, bradar contra a democracia e babar de medo, vê-se transformado num palhaço sem graça e sem circo. Quando chega ao limite da tolerância, ao apontar o dedo contra seus detratores e ameaçá-los de morte, causa mais riso que medo. Não fosse, apesar de patético, perigoso, seu desatino seria comovente.


Terror: o novo Messias teria voltado à terra para acabar com a corrupção original, o passo em falso de Adão e Eva, e com a alimentada pela cobiça. Seu discurso enaltece um passado em nada similar ao fantasmagórico e recorrente de García Márquez, mas um que nunca existiu, aquele no qual, sob ditadura, homens e mulheres foram felizes. Encontra seguidores fanáticos, no entanto, quando o discurso messiânico se transforma em idiotice política, surgem os desiludidos, que, em número crescente, fogem para lugares distantes, se ajeitam em pequenos sítios e abandonam o mundo virtual, praça de guerra do líder. O até então ídolo se vê incapaz de manejar a tecnologia a seu favor, perdendo assim o poder de influir com suas mentiras na vida de todos, seus partidários ou não. Abandonado, meio milhão de almas penadas o visitam e o aniquilam. Enquanto isso, os fugitivos se agarram à única ideia do falso Messias com a qual ainda concordam, a de o passado ter sido o melhor momento não exatamente de suas vidas, mas da existência humana. Empenham-se, então, em reerguer montanhas, replantar florestas, desinventar a agricultura, sobreviver da caça, enfim, dedicam-se a arrastar suas vidas cada vez mais para trás. Até que chega a hora de enfrentar os dinossauros.

 

25.2.21

Urgência no céu

 Ao olhar para a Terra, como faz todas as manhãs, Deus sentiu um baque. Só agora?, pensou o arcanjo que ordena os pensamentos de Deus. Pensou, mas não ousou falar, afinal, um ano na Terra é um segundo no relógio divino, não deveria ser tão inflexível com Deus, logo com Ele. Mas Deus, e isso é que importa, sentiu o baque ao ver que um corpo invisível, tanto quanto Ele, mas sem a Sua significância, pregava uma derrota fragorosa em Seus filhos. Dessa vez, Suas crianças não promoviam a guerra para matarem umas às outros, embora as guerras persistissem, elas simplesmente caíam feridas ou mortas pelo tal vírus. Não só por ele, concluiu Deus, ao fixar melhor Seus óculos no rosto que nunca se cansa. Suas crianças lidavam mal com o bichinho, não teriam aprendido nada com as situações similares enfrentadas ao longo da História. Eram destituídos de inteligência? Deus sabia que não. Suas crianças guerreavam até quando não havia motivo, motivo lá deles, que Deus nunca compreendeu ao certo.

Deus foi olhando caso a caso. A Nova Zelândia e outros poucos lidaram bem com tudo desde o início, ali estava uma gente que aprendera alguma coisa. Israel cuidava bem dos seus, aplicando-lhes rapidamente a vacina, embora maltratasse seus vizinhos palestinos, dificultando-lhes o acesso ao elixir. Uma gota de alegria e outra de tristeza. A Europa ia aos trancos e barrancos, porém ricos como eram, dariam um jeito em tudo. O mesmo aconteceria nos EUA, no Canadá. A África é a lágrima de Deus, e ele preferiu olhar mais tarde e com cuidado aquele caso. Talvez tivesse de intervir, sabia-se lá se segurando a mão dos poderosos dos países ricos, fazendo-os transferir recursos e/ou vacinas, ou mandando uma tormenta onde abundasse a indiferença em relação às crianças que deram início à vida na Terra.

Quando bateu os olhos no Brasil, Deus caiu sentado. Os arcanjos deram-lhe de beber, molharam Seu rosto, afrouxaram Suas vestes. Seu arcanjo confessor pediu aos outros que saíssem. Deus nem esperou que o arcanjo se aproximasse depois de fechar a porta e foi logo dizendo: muitos mortos, uma sandice atrás da outra, políticos interessados em si mesmos e não em quem representam, a pobreza crescendo como flor no Éden, o amor sendo ceifado como praga. O confessor nunca havia visto Deus assim, quer dizer, já, mas havia, dessa vez, uma entrega, uma desistência. Deus retomou a voz. Disse ao arcanjo que precisaria pensar bem em como agiria, e ele agiria. (O arcanjo suspirou, ah, o velho Deus!) Uma primeira atitude seria talvez cosmética, não se importava, era necessária. Que lhe chamassem Aurélio e Houaiss.

— Senhores, o que é Brasil?

— Um país, Pai — adiantou-se Houaiss.

— Disso eu sei, embora no momento preferia não saber. Mas a palavra, o que é?

— Substantivo masculino, hoje nome do país, mas foi primeiro a árvore que ali abundava, o Pau-brasil. Por extensão, e ainda como substantivo, a cor dessa árvore, um avermelhado, uma tintura fabricada com sua madeira — explicou-lhe Aurélio.

— Um substantivo. Pois os senhores, sentem-se ali e tratem de transformá-lo em um adjetivo.

— Um adjetivo, Pai?

— Sim, Houaiss. Um adjetivo que ande ao lado dos piores, daqueles que existem para marcar os que andam longe de mim.

Os dois dicionaristas, um pouco acabrunhados, sentindo-se traidores da pátria, não tinham o que fazer, uma ordem de Deus não se questiona, cumpre-se. Além do mais, bem, além do mais, eles olhavam para o país e viam como tudo encaminhava para a destruição. Dia triste no infinito.

12.10.20

A pergunta de Alice

 

Para Stella Maris Rezende, fã das palavras desenganadas


Alice levanta a mão e pergunta qual a diferença entre Política e política. O professor, que está ouvindo, mas não está lendo, não entende a qual diferença ela se refere e pede que se explique. A aluna carrega em Política, fazendo um som grave no “Po”, e abranda em política, que sai quase como “pulítica”. Os demais alunos fazem coro ao professor, ninguém pesca nada. Ela é dessas que, vira e mexe, levam uma anotação na caderneta: “atrapalha os colegas”, “conversa demais”, “ri alto”, mas, quando chegam as provas, acumula seus oito, poucos, nove, alguns, e dez, em enxurrada.

O professor é seu fã. Sabe que ela capta as coisas no ar, que fará provas espetaculares e que, além de tudo e por sorte, é bem-humorada, sociável, tem o que chamam de inteligência emocional. Ele acredita que, depois de cumprida a vida escolar, Alice será uma mulher pronta a ajudar o país a sepultar, sem o esquecer, o passado escravocrata e misógino.

Não lhe sai da cabeça uma história que passou a contar em reunião de professores e, no entusiasmo, também em mesa de bar. Certa vez perguntou aos alunos se algum sabia o significado da palavra “jucundo”. Era uma preparação para a leitura de um texto no qual a palavra apareceria; um texto antigo, é certo. A sala ficou em polvorosa. Logo, grupinhos aqui e ali cochichavam entre si e riam. O professor com quem todos se abriam perguntou qual o motivo da risada. O garoto levado do fundo da sala, sempre ele, inteligente, mas desinteressado dos estudos, falou que devia ter a ver com “cu fundo” ou “cu junto”. A risada foi tremenda, até o professor riu, e não foi diferente com Alice.

Serenada a algazarra, o professor pediu que o arruaceiro lesse a definição no Houaiss. O menino puxou o ar como se inspirasse a contrariedade e leu sem gaguejar: “que manifesta, que denota alegria; feliz, jovial, vivo; que se apresenta ou transcorre de modo agradável, suave, aprazível”. Os alunos se olharam, e Alice não se conteve: “Professor, me desculpe, mas nunca ouvi uma palavra tão triste quanto essa, ela não pode significar alegria, deve ser por isso que deixou de ser usada.” Na visão do professor, essa história mostrava uma Alice perspicaz e sensível, algo além da inteligência celebrada nas avaliações escolares. Os demais professores concordavam com o colega, não por conta da história, e os amigos do bar não entendiam o que uma coisa tinha a ver com a outra.

Mas agora ela fazia uma pergunta estranha. O professor insistiu no pedido de uma explicação adicional. Alice disse então que a diferença estava em que a primeira era com P maiúsculo e a segunda com minúsculo. A sala em peso soltou um ai, um ai jucundo e um pouco irônico, até aborrecido. Era como se dissessem: “Ora, Alice, por que você não passou logo a visão?”

O professor contornou o zunzum dos jovens, elogiou a pergunta e começou a falar sobre substantivos até levar a conversa para os negócios do Estado, da Polis grega, de onde se origina a palavra política. Tendo chegado ao campo da história, mostrou como era importante e nobre a política, e aí não sabemos se ele queria dizer Política ou política, pois não enfrentou a questão. Terminada a explanação, os alunos estavam com seus olhares perdidos, pareciam mais ignorantes do que quando nem passava por suas cabeças esse assunto.

Mapa encontrado em O Globo.

Alice pensou, pensou, coçou o queixo, enrolou os cabelos com o indicador e, então, abriu uma folha grande em que sopas de letrinhas se espalhavam. Setas mostravam que o partido A, inimigo do B num estado, era coligado a ele em outro estado. Em alguns lugares longe dos grandes centros — por exemplo, ali, onde, no passado, Graciliano Ramos atuou como prefeito, — o partido à direita da direita fazia acordos com o da esquerda sem exageros.

O professor sentiu-se acuado, não que a aluna apontasse alguma bobagem no que ele dissera, mas, mesmo assim, sentia-se prensado contra a parede — contra o muro foi a imagem que se formou em sua cabeça. Aproximou-se de Alice, pediu a atenção de todos e foi muito categórico, ainda que falasse suavemente, quase sussurrando: “Não deu certo, moçada, até aqui não deu certo. Mas é preciso insistir, a gente aprenderá que o importante é a política com P maiúsculo. A tarefa é de vocês, a quem peço desculpas”.

Saiu da sala de aula com as mãos no bolso e, pesando sobre as costas, uma tristeza grande e barulhenta, cujo significado, ele tinha certeza, não constava dos dicionários. Estava triste feito a palavra jucundo nos ouvidos de Alice.








20.1.20

Esmiuçando um país

Gennady Privedentsev, artista russo.

Um país não é aquela roupa velha que se veste de quando em quando, longe dos estranhos, na intimidade.

Um país não é uma saudade, sequer uma nostalgia miúda. Não é uma música que seu pai cantava enquanto preparava o cigarro de palha. Não é a lembrança que sua mãe mantém de um antigo amante.

Não é uma tarde com crianças correndo no quintal. Igualmente não são dois vizinhos batendo papo pela janela de suas casas.

Um país não é uma bola na trave. Não é um grito inesperado daquele homem que caminha em silêncio. Qualquer muleta abandonada na calçada é apenas uma potencial metáfora para o país.

Por mais que se pense que um país seja suas sextas-feiras e feriados, ele não é isso. Tampouco é o domingo, no qual velhos casais reencontram o desejo.

Um país, veja bem, não é o conjunto de suas desgraças. Não é o sorriso do velho banguela ao ver seu neto banguela rindo do vento que lhe assopra o rostinho.

Um país não é nem a chuva ruidosa (muito menos a garoa) nem a mulher que, no meio da rua, parece chorar e ao mesmo tempo sorrir. Não é a gargalhada de um grupo de adolescentes.

Alguns querem que um país seja o aplauso comovido para aquela cantora cuja voz é apenas um fiapo da voz de quando ela estava no auge. Esqueçam. Um país não é a vassoura que varre a calçada.

Um país está longe de ser um assalto a banco. Do mesmo modo, está longe de ser um ato altruísta de um mendigo. Até poderia ser, mas não é, um beijo que o senhor violento, às escondidas, dá em uma flor cujo cheiro é mais intenso que a cor. Um país não é a sua literatura ou seus muros pichados.

Um país não é uma greve geral. Não é um dia sem consumir carne ou um dia sem consumir ou um dia em que se vai de visita ao túmulo dos pais.

Um país não são as crianças na escola. Não são os jovens na escola. Não são os adultos empregados. Não são nossas certezas ou sonhos.

Um país não é um filme de terror — ainda que um filme de terror possa ser um país; ainda que uma comédia possa ser um país. Ainda que a tristeza possa representar o país. Ainda que a alegria faça parte das saudades de um país.

Um país não é a sabedoria. Não são os acepipes servidos em reuniões festivas. Não são as quitandas cuja receita é anterior ao próprio país. Um país não são seus tambores e festas.

Um país não tem o rosto que os mapas dizem que ele tem.

Um país — o nosso — é um daqui a pouco urgente.

9.12.19

Minha filha, eu e uns bichos estranhos


Um besouro desses comuns, o escaravelho, quando cai de pernas para o ar, é um deus nos acuda. Imagino que todos já viram uma cena dessas. Eu pelo menos vi muitas, primeiro, na fazenda de minha avó, depois, já crescido, na de meu irmão. Na verdade, até mesmo em casa, quando a cidade em que cresci era menos urbana do que é hoje. Confesso que nem sempre salvei os pobres coitados.

Parto do princípio de que um besouro naquela situação não é capaz de se virar, de “pôr-se de pé” e, enfim, levantar voo a caminho de seus afazeres. O afazer que garante a sobrevivência de um escaravelho é formar uma bola com bosta de cavalo para enfiar num buraco na terra e, então, protegido, se alimentar da iguaria. Diga-se que os besourinhos que saem dos ovos deixados numa bola dessas nascem com o alimento garantido. Espertos os besouros. Sábios.




Sábios ou não, de pernas para cima tornam-se indefesos. O interessante é que aqueles que não ajudei, na manhã seguinte, nunca estavam na varanda ou no quintal onde os encontrara na noite anterior. Eles acabam se virando? São devorados por cachorros, gatos, ratos, lagartixas e até por tartarugas? Sinceramente não sei, mas imagino que sempre ocorra o pior. Se há uma imagem que associo ao desespero, à derrota inglória, é a de um besouro de pernas para cima.

Eu estou assim, um besouro desses — agonizando.

A que ponto cheguei! Percorria as ruas dessa crônica com um pé na ciência, particularmente na entomologia, e outro na lembrança da infância e fui bater no poste da minha fervura privada. Por favor, leitor, não me abandone, juro que não vou confessar minhas ansiedades ou coisas do gênero. Então o que farei?

Ora, dizer que não estou sozinho, hoje formamos um país de besouros com as pernas para cima. Eis a metáfora do Brasil. Ó, céus! Quer dizer que estamos assim: comendo bosta e, incapazes de nos desvirar, a mercê da fome de outros bichos?

Que triste.

Lá pelos seus quatro anos, minha filha andava encafifada com lobos, com o Lobo Mau para dizer a verdade. Eu e ela fomos ao zoológico para ver um guará, a espécie brasileira. Custamos a achar o local em que ficavam e mais ainda a vê-los, pois estavam metidos no fundo da jaula, deitados em algum lugar, enfim, indisponíveis. De repente, apareceu um, um só. Ao avistá-lo, coloquei minha filha no colo, apontei com o dedo e disse: “Olha o lobo”. Ela, frustrada com o que via, em nada parecido com o Lobo Mau, respondeu: “Isso não é um lobo, pai, isso é uma tartaruga”.

Alguns lobos não passam de tartarugas, mas os besouros, coitados, são comidos por um e por outro. Se é que não se desviram e alçam voos. Se é... quero acreditar nisso.

24.6.19

Burocratas contra o encanto


Começo com uma história. Eu estudava na USP e tinha um colega de Pernambuco, um funcionário público licenciado que viveria em São Paulo enquanto durasse o mestrado. Ao tomar uma carona com ele, vi que seu carro tinha placa de Recife. Imaginei sua viagem para São Paulo. Saíra numa manhã de sábado, dirigira uns 800 quilômetros, parara para descansar em Feira de Santana, na Bahia, e seguira viagem no domingo ainda de madrugada, quando, lutando contra o cansaço, percorrera os quase 1.900 quilômetros restantes até São Paulo. Ou, o que parecia mais sensato, fizera outra parada em Belo Horizonte, 1.300 e tantos quilômetros de Feira de Santana. Ou viajara sem tanta pressa pelo litoral, curtindo praia, conquistando amores.

Quando perguntei ao colega sobre a viagem, constatei que minhas especulações passaram longe da verdade, ele despachara o carro num navio. Sim, embarcara o carro no bem-bom de um navio em Recife para resgatá-lo em Santos. É uma história menor? Não, não é, só é um pouco mais fria, um carro no navio, seu dono no avião.

Na época dessa história, o padrão das placas dos automóveis era o de duas letras e quatro algarismos. (Meu pai tinha um KT 0108, que eu chamava de “Catoio 8” — mas isso não tem importância.) Pouco depois, as placas passaram a ter três letras seguidas de quatro algarismos. No mais antigo e no que o substituiu, deveriam estar impressos o estado e o município.

No momento, está em processo a implementação de um novo padrão, agora com três letras seguidas por um algarismo, outra letra e mais dois algarismos. Não há mais a indicação do estado ou do município, somente a do país. Assim, atende-se ao propósito de dar unidade aos países que formam o Mercosul, já que segue as diretrizes indicadas por ele. Nada contra.

Nada contra, mas há um problema: ao abandonar o modelo ainda em vigor, perdemos uma fonte primorosa de devaneios e inspiração. Coloquem-se na Praça JK de Cássia, Minas Gerais, por onde passa um carro de Desterro, Paraíba, com a placa GKL 0229. Não captou a questão?




Serei didático. Nas placas que estão sendo deixadas de lado, as letras iniciais indicam o estado do primeiro emplacamento. Quando esse modelo entrou em vigor, o Paraná serviu como teste. Por isso, carro com placa que se inicia com a letra “A” foi necessariamente registrado lá. Pavimentei a estrada aonde quero chegar. Continuo.

Uma placa GKL teve origem em Minas Gerais. Na do carro que passou por Cássia, terra de tantos parentes e onde Antonio Candido passou a infância, a cidade indicada é da Paraíba. Um cassiense, morador da Paraíba, terá comprado o carro na cidade natal e, como vivia na outra cidade, fez o certo e o transferiu para o local de moradia? Ou o carro teve origem em outro ponto de Minas e o sujeito da Paraíba passava ali por Cássia por acaso, talvez com o objetivo de, tomando a estrada para Delfinópolis, chegar à Serra da Canastra para curtir uns dias com seu novo amor?

Perguntas sem resposta. Pergunta sem resposta se parece com poesia: ambas alimentam os sentidos, e só (só?). A mudança ora em processo nos tira essa desciência tão cara à imaginação. Os burocratas agem contra o encanto; é birra deles.

As novas placas nos impedem de devanear, de imaginar a possível história de amor que carrega um carro emplacado no Rio Grande do Sul e transferido para Roraima estar circulando por Maceió. Alguns dirão, ora, amplia o foco, pense num carro do Brasil nas ruas da Bolívia ou do Chile. O que não esconderá? É verdade, mas, nesse caso, o certo é pensar em viagens turísticas — a família ou os amigos realizando um sonho antigo —, ou, desculpem-me a dureza e o possível preconceito, em roubo. Podem até ser histórias bonitas ou aventureiras, mas previsíveis e menos românticas do que aquelas insinuadas pelas placas gravadas com estado e município.

1.4.19

Homens nas ruas do Rio

Com uma das mãos no bolso, coça a perna e respira fundo. A tristeza não mede esforços para se apoderar de seus sentimentos, homem. Ela é assim, sempre assim: dona da festa escura, da face incolor, do sono tolo. Mas o mar está bem ali — o sol também. Crianças correm no pátio das escolas, e gritam, e riem, e não sabem de nada. Respire, a tristeza não passa de uma coceira passageira.


Foto do autor.


Você, com essa pressa toda, já pensou se o pior for justamente chegar a tempo? Digo isso porque, das poucas coisas que me ficaram das lições de escola, uma pode não ter sido uma lição, pelo menos não uma formal. A professora do quarto ano primário (hoje, acho, quinto do ensino básico) disse para a classe que “mais vale perder um minuto na vida do que a vida em um minuto”. Autoajuda fajuta, mas... e se ela estiver certa? Contenha-se, homem, desacelere, o relógio não passa de uma frágil prisão para o tempo.

Passo por um homem que ri desbragadamente. Contagiado, sigo em frente rindo desbragadamente. Esbarro num jovem que me olha e, em vez de rir, veste a cara do espanto.

Encostado no poste, o rapaz de camisa estampada e cabelo grande preso num lenço observa os meninos que correm pelas ruas, todos com uma garrafa de plástico cujo conteúdo aspiram. O jovem — não parece rico, talvez goste de samba e toque bem tocado o tamborim, pode estar no centro para encontrar o pai, a mãe, quem sabe para comprar o material escolar —, bem, ele ao olhar os meninos loucos de solvente, começa a pensar em como tudo isso é triste. O que ele vai fazer com essa constatação ninguém sabe, é possível que se torne indiferente ao nosso fracasso. Mas talvez não.

 O senhor e a senhora conversam à espera da condução. Quer dizer, ele fala, fala muito, conta de fulano que foi traído, de sicrana que está endividada, da vizinhança que já foi sossegada e não é mais. A mulher balança a cabeça, muito raramente deixa que lhe escape um “sim”, um “não”, um “é mesmo?”. Ele acena para o 409 e, antes de entrar no ônibus, diz que foi um prazer conhecê-la. Ela dá um tchauzinho contido, e ele entende que o prazer foi todo dela.

Na rua Voluntários da Pátria, há uma leva de abandonados; são mendigos, muitos com problemas mentais. O senhor que vive na esquina da 19 de Fevereiro varre a calçada o tempo todo. Um rapaz sobe e desce a rua entre os carros e não se abala com buzinas, bicicletas ou freadas. Sentado na calçada estreita e tumultuada, um terceiro pede esmola às mesmas pessoas que obriga a andar pela rua. O que encontro aos sábados desistiu de me pedir dinheiro, mas, educado, não deixa de me cumprimentar. Além desses, a crise despejou pela rua viva e caótica uma verdadeira chuva de desesperados.

O catador de latinhas para diante da sede da Maçonaria da rua do Lavradio. Contempla sem pressa a esfinge metálica que adorna o edifício histórico. Não sei se, como é o senso comum, tenta decifrá-la, se imagina quanto ganharia com a venda da imagem derretida ou se espera por um inaudível grito de ferro que o console.

O senhor nem é tão velho, mas tem jeitão de velho. Ele anda devagar e chupa um picolé. Quando leva a boca ao picolé — e não o picolé à boca, fica vesgo.

O menino com o uniforme de escola pública e seu responsável (não arrisco a dizer que é o pai, parece tão novo) descem do ônibus. O menino diz alguma coisa, parece que externa um medo, mas pode ser que revele a incompreensão sobre um fato qualquer. O responsável larga a mão do garoto, se ajoelha diante dele e o abraça.

O policial bate o cassetete contra a palma da mão, em seguida, fecha e abre os dedos sobre o bastão. Faz isso mais uma vez. Outra. Outras tantas. O tédio usa farda.

Dois bêbados ziguezagueiam pela rua. Dois passos pra frente, dois pro lado, pro lado de cá, pro lado de lá. Pra cá quando é pra lá, pra lá quando é pra cá. Pra frente de novo. Pra trás. Opa, pra frente. Opa, pro lado. De cá? De lá? Por um triz, não caem. O mais alto para e, quase empertigado, brada: “Não disse? A terra é plana”. 

23.7.17

Ali onde Getúlio entrou para a história

Este Brasil não tem jeito. Em mesa de bar com amigos, encasquetamos com tal afirmação. Todos somos desses que acreditam, pelo menos em tese, que a política é a única forma de superarmos os entraves que estão aí, à vista de todos. Porém, com a lambança feita pelos políticos, fomos parar na sarjeta da desesperança. O Brasil não tem jeito.

Numa tentativa de nos agarrar a alguma coisa positiva, uma das mulheres falou do movimento feminino, da potência que há nele. Rimos um pouco com a história da namorada de um desses reacionários que veio a público dar uma banana pro cara. Por sua vez, o outro homem sentado à mesa se sentia esperançoso ao acompanhar o crescimento de seus netos. Buscávamos algo que estivesse à margem da política de terno, gravata e tailleur e concordamos que o que vier virá das mulheres, dos negros, dos gays ou dos marginalizados de modo geral e comerá pelas bordas a desfaçatez da elite.

Contei-lhes então uma história que me ocorreu dia desses, que reproduzo aqui com a intenção de compartilhar um pouco do meu vacilante otimismo.

Eu e minha mulher fomos andar no Aterro, longe de casa. Para nossa surpresa, no calçadão encontramos alguns amigos, depois, no Museu da República, outro amigo e, em seguida, no Largo do Machado, mais uma amiga, e outras duas, na Marquês de Abrantes. Até parecia uma caminhada pelas ruas da minha pequena Passos, não a de agora com seus mais de cento e dez mil habitantes, mas aquela na qual eu vivia e era ocupada por um quarto da população atual.

No Museu, meu colega de trabalho estava acompanhado de sua esposa e da netinha de uns três ou quatro anos. Antes da história, devo dizer da alegria de ver avós agindo como avós, pois a criança ganhara um picolé, coisa que a mãe não gosta que ela coma. O casal desobedecia a filha. Viva a desobediência dos avós! Minha avó, diabética, me levava ao seu quarto, fechava a porta e, desde que eu jurasse guardar em segredo, me dava doce de caju, os melhores que já comi. Enquanto ela esteve viva, o segredo não saiu da minha boca.

A menina não gostou do picolé de morango, sabor que os avós escolheram na esperança de cometerem uma desobediência menor, afinal morango é fruta, é saudável. A garotinha, três mordidas depois, disse que não queria aquele e, na mesma hora, roubou o do avô, um de chocolate — aquilo que longe muito longe tem parentesco distante com o cacau —, e com ele se distraiu até o fim.

Ao nos despedirmos, eu disse para a menina: “Você é muito gatinha”. Ela olhou bem nos meus olhos e retrucou: “Eu não sou gatinha, sou...” (disse então, com muito orgulho, o nome e o sobrenome.) Ali onde, com um gesto radical, Getúlio entrou para a história, com uma troca de frases simplórias, eu e a neta de meus amigos ficamos assim: eu, quase sessenta anos, um sujeito que tem procurado não ser machista, mas que fracassa, e naquele momento acabara de fracassar; ela, quatro anos, sem a menor ideia dessa discussão toda em torno do feminismo, feminista pronta.

2.10.16

Autoentrevista em dias de muito assunto e pouca certeza ou o contrário

Para Teresa, professora num país triste

Nosso entrevistado de hoje, eu mesmo, nasceu em Minas, viveu em Minas, mas não parou aí. Mudou-se para o Rio, depois para São Paulo, de onde voltou para o Rio. Na infância, interiorano ainda, devaneou que viveria em Porto Alegre, quem sabe em Montevidéu, mas isso nunca aconteceu e está longe de acontecer. O destino não se importa com sonhos sem pé nem cabeça de um moleque qualquer. O destino é sério, sério. Que nem Teresa, a professora de francês com quem o entrevistado não aprendeu nada, de francês, devo dizer, pois foi com ela que ele começou a apreciar a beleza farta. Veja bem, não a beleza, mas a beleza farta.




Feita a apresentação, vamos à entrevista.

P: Alguma certeza na vida?

R: Sim.

P: Qual? (Capricho no tom irônico.)

R: Estou vivo.

P: O senhor conhece alguém que, não estando vivo, seria entrevistado?

R: A Tomie Ohtake. Um deputado espera por ela lá no congresso. Te digo mais, não é um caso isolado, tem morto espalhado por aí que tem muita explicação a dar, portanto, se não está, deveria estar sendo entrevistado.

P: Voltemos um pouco. Falemos de suas certezas. Além de estar vivo, outra?

R: Não estou morto.

(A entrevista será difícil...)

P: O fato de o senhor estar vivo e não estar morto me alivia. Agora, devo me explicar: ao fazer a pergunta, gostaria de saber se o senhor tem alguma certeza política, por exemplo. Tem?

R: A política é um bom negócio.

P: Do ponto de vista financeiro?

R: Aí já não sei.

P: Então em que sentido a política é um bom negócio?

R: À esquerda e à direita. Em todos os sentidos, entende?

P: Creio que sim, senhor, creio que sim. Mas, sejamos mais explícitos: o que o senhor acha do Temer?

R: Que ele se acha.

P: Só isso?

R: Achar, só isso, no mais eu torço.

P: Por ele?

R: Contra.

P: Quer dizer que o senhor é a favor do PT, do Lula, da Dilma?

R: ...

P: Quem cala, consente...

R: Ou se segura para não partir a cara de entrevistador tão bitolado. Com vinte e seis letras é possível escrever todas as palavras do mundo, com dez algarismos, todos os números. Não reduza a complexidade a a e não a ou a zero e não zero.

P: Devemos mudar de assunto?

R: Você deve.

P: Sugira algum.

R: Teresa.

P: A professora de francês?

R: Ela mesma.

P: Teresa está ligada a quê?

R: Ao amor.

P: O senhor a amou?

R: Não, mas todo homem deveria amar uma mulher cujo marido é um caminhoneiro.

P: Isso é uma filosofia?

R: De jeito algum, é uma frustração.

O entrevistado sai da sala e enfia-se no quarto. A entrevista, tudo indica, vai ficar assim, borocoxô, inconclusa. Ao recolher meu material, ouço-o chorando. Chora e murmura um nome. Teresa? Não, Teresa não, soa como se fosse o nome de um país triste.

23.2.15

Preciso escrever uma crônica




Preciso escrever uma crônica sem medidas. Gorda e linda. Um pouco excessiva, por isso mesmo enxuta, e que dê conta de tudo, do que está sobre a água e do que soçobrou milênios de anos atrás. Apesar dessa ingerência no tempo, que ela não dê conta da passagem das horas e de seus desdobramentos. Nem nostálgica nem pretensiosa, mal conectada à sombra do futuro. Uma crônica — como de fato deve ser — de hoje para hoje. Imensa e miúda.
Preciso escrever uma crônica que nem acorde nem adormeça ninguém, mas que, ao acordado, leve uma réstia de descanso e, ao adormecido, uma côdea de consciência. Uma crônica claudicante nas suas certezas e muito determinada em seus desvãos. Crônica para o amigo na UTI e para a filha da amiga que prepara o casamento. Para alegres e tristes. Deus e o diabo.
Minha necessidade não tem a ver com a obrigação de entregar o material para edição, mas sim com urgências pessoais, inexoráveis. Não quero calar a boca nesse mundo estúpido, que resolve tudo na bala, covarde que só vendo. Não quero, entretanto, cair na armadilha desse mesmo mundo, objetivo e interesseiro, e virar um gatilho, um fogo contra o peito daquele que não conheço, daquele com o qual não concordo. Há espaço para todos nós, digo ou quero dizer com a crônica que, a ponto de sair (feito a bala da arma), me coça o dedo.
Vejo a jovem democracia brasileira cair pelas sarjetas, como se fosse os bêbados de um carnaval mal bebido e mal pulado. Quanto custou a democracia a uma geração não conta, e os mesmos que lutaram por ela vão aos poucos encurralando-a num canto. Já ouço gritos de “curra, curra”. Há uma torcida pelo pior. Quando sangrarmos a mulher dos trinta anos — tão bem cantada por Balzac —, nos descobriremos incapazes. Correremos dos homens, da polícia, mas haverá pouco espaço para nos esconder e, além do mais, por que voltaremos a viver escondidos, exilados? Vamos nos repetir?
Escrevo a partir do meu ponto de vista, longe da sabedoria, na medida em que caminho com meus pés no chão esburacado das minhas impressões. Assim, claro, posso estar errado. Todo esse disse-me-disse e esse o-ladrão-é-ele podem ser apenas desajustes temporários, coisa que passa. Se for assim, que o acerto não venha pelas graças de um salvador da pátria.
Preciso escrever uma crônica bêbada, mas protegida das ressacas física e moral. Uma crônica que arranque um riso do sisudo e um quê de preocupação do desavisado. Tenho urgências, já disse. Mais que urgências, tenho comichões de escrevê-la e, com ela, pescar não os aplausos dos leitores, mas o apaziguamento das minhas dúvidas, estas que são atiçadas com o carvão da minha covardia.
Preciso escrever uma crônica que seja um grito que me escapa, no qual eu diga — sem saber sugerir um remendo, uma solução — não, não é assim que construiremos um país. Não mesmo.
Vou me sentar para tentar escrever tal crônica, se é que já não a escrevi.