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20.4.26

Ares de abril

 


Abril, ao abandonar o verão, promete temperaturas amenas, o que nem sempre cumpre. O de 2026, quente e já pelo meio, acontece em um ano no qual o menino levado, El Niño, vai aprontar das suas. Ouvi de um especialista que ainda não se pode prever catástrofes — tempos mais secos no Norte e chuvosos no Sul, sim —, mas é certa uma elevação considerável da temperatura a partir de setembro.

Por motivos alheios ao clima, tenho um acerto de contas com este mês em que dois irmãos, um sobrinho-afilhado, duas sobrinhas-netas e alguns amigos fazem aniversário, pois de cara nos levou aquela amiga – escritora, tradutora e, corajosa, também editora – um pouco mais velha que eu, portanto nem jovem nem idosa. Não, senhor, não é assim que se inicia seu mandato no calendário. Não é assim que se comporta. Sua função é nos dar mãos fortes para muitos parabéns e, insisto, aliviar o calor, nos ajudando a poupar o dinheiro gasto com o ventilador ou o ar-condicionado.

O mês de arianos e taurinos também nos tirou uma prima com mais de 90 anos. Sempre lamentamos a morte, mas minha prima, ao contrário da amiga, teve uma vida plena, não foi antes do tempo. Espero que o senhor entenda a diferença entre encerrar um ciclo completo e interromper aquele por se completar.

Mal associo minha prima à plenitude, me questiono, pois relembro o que me aconteceu um pouco depois do dia internacional da mentira, marco inicial do mês da descoberta do Brasil e de São Jorge.

No meu ônibus de sempre, me sentei ao lado de uma senhora; 97 anos, viria a saber. Estava sozinha e puxou assunto comigo de uma forma pouco usual. Na página da revista que eu lia, havia uma charge: uma mulher está deitada na cama, ao lado de uma cartola de mágico, e um homem, à porta do quarto, diz: “Eu sei que você está aí”. A senhora então, invadindo minha leitura, perguntou quem estaria ali. Ri. Ela respondeu com um sorriso maroto e emendou, assim do nada, que o atual presidente dos EUA é o diabo. Me fisgou. Confessou a idade e contou que servira desde seus doze anos a uma família brasileira, grande parte do tempo vivendo na Inglaterra. Lá, não foram raras as vezes em que cuidou de quinze crianças enquanto os pais se divertiam em pubs. Histórias de exploração começaram a saltar em minha cabeça, mas achei melhor não entrar nesse assunto.

Continuando a conversa, enfiou outra observação política: com o Bolsa Família, o presidente brasileiro estava fazendo com que ninguém mais quisesse trabalhar. O velho e desgastado papo conservador. Para quem achava Trump o diabo, assassino de crianças, a opinião sobre a transferência de renda era um passo e tanto atrás. Depois de tentar, sem sucesso, lhe explicar a ideia desse programa, perguntei se ela estava a passeio ou voltara de vez ao Brasil. Voltou de vez, mesmo sob protesto, já que os patrões viam no país um lugar de no money, no job.

Embora lúcida, com capacidade visual e auditiva impressionante, era dona de um pensamento estranho, que alcançou o ápice ao culpar as mulheres por todas as mazelas do mundo. Fazem filhos e não se importam com a criação deles, enfatizou. Atordoado com tamanho disparate, tentei voltar à leitura. Fui mais uma vez interrompido, agora a senhorinha falava da comida brasileira, da alegria de comer feijão de domingo a domingo.

Enfim, ela toda em si, quase um milagre da natureza, e eu, transitando entre o encanto e a covardia, nos separamos. Para desembarcar, atravessou o ônibus e desceu as escadas sem vacilo algum, num andar de quem tem mais ou menos a idade de minha amiga que, um dia depois, abril, o senhor impediria de chegar aos setenta.

Não bastassem o calor, as mortes ao meu redor e o episódio triste e anedótico do ônibus, este mês de outono infantil seguiu com a ameaça feita pelo Orange Man de extinguir numa noite a civilização persa. Reforçando o comportamento habitual de menino valente de rua que, na hora H, se esconde entre as pernas dos pais, o energúmeno recuou.

Sabe de uma coisa, mês que estende o tapete vermelho para maio, esse, sim, lindo, de céu espetacular? Embora eu não entenda nem acredite no zodíaco, você avança sem personalidade própria, arredio à intensidade ariana e à persistência taurina. Fica um conselho: se redima, sopre-nos um vento fresco, ainda é tempo.




31.7.21

O dicionarista de ocasião

O nome na tela do celular já adianta o início do diálogo:

— Sargento?

— Não.

— Márquez?

— Tampouco.

Garcia, amigo de infância, sempre foi atrapalhado (feito o sargento que persegue o Zorro) e fabulista (à moda do escritor colombiano). Por isso, o estribilho sempre que vejo seu nome na tela. A bem da verdade, quando meu nome é anunciado no celular dele, vem a contrapartida.

— Pires?

— Nem canto.

— Magno?

— Quem dera!

Nossas provocações recíprocas são, claro, temperadas de afeto e respeito. Ele não é só atrapalhado e fabulista, tem um rol de qualidades invejáveis, entre elas, a paciência. Quanto a mim, espero não ser apenas um romântico metido a grande, mas é melhor perguntar a ele.

Desta vez, Garcia liga preocupado com o Brasil. Com a política. Ele não milita na esquerda nem na direita, é um conciliador, um sujeito de centro. E o problema dele está aí.

— Esse Centrão não me representa.

— Como assim? Vocês não estão todos em cima do mesmo muro, só esperando a hora de dar o bote num lado ou no outro?

— Em política, você é um beócio. Isso que você diz faz parte do compêndio desses aí. Sou do centro dos Neves.

— Do neto?

— Não me venha com blasfêmia. Aquele de centro não tem nada; de Centrão, tudo. Não honra o avô.

— Então conclua.

— Daí que é preciso sequestrar o apodo de Centrão desses... desses... desses facínoras.

— Apodo, é? Hoje você está caprichando, é compêndio cá, beócio lá, facínora aqui.

— As frases são minhas, falo do jeito que quiser.

— Perdão, prometo ser daqui pra frente um respeitoso ouvinte.

— Centro, nas raias da política, é uma coisa importante. Quem ocupa esse espaço de consenso não vai pra lá nem pra cá, ao contrário, puxa as pontas pro meio.

— Hum, sei. Nas raias...

— Sim, nas raias. Ignorarei seus apartes pífios de agora em diante. Cumpra sua promessa e ouça. O tal Centrão nem busca o entendimento nem amortece as colisões de ideias. Estão ora no centro, ora à esquerda, ora à direita sem coerência ou vergonha. Esse Nogueira, por exemplo, já disse que o Lula foi o melhor presidente do Brasil e chamou o atual presindecente, a quem vai servir como ministro, de fascista. Haja maleabilidade.

— Maleabilidade...

— O que há, hein? Resolveu me tomar pra Cristo?

— Não, de jeito algum. Vamos lá, você quer mudar o... qual é a palavra mesmo?

— Apodo, iletrado, apodo. Pra mim, em vez de Centrão, a súcia deveria ser chamada de Sabujão.

— Você comeu o dicionário?

— Nestes tempos incivis, é a única leitura que não mexe com meus nervos.

Desconfio de que Garcia ligou apenas para fazer uma piada e exibir sua erudição passageira. Gaiatices do velho amigo. É hora de dizer, a nosso modo, adeus.

— Sargento?

— Não.

— Márquez?

— Tampouco.

— Outra hora nos falamos, douto amigo.

— Que assim seja, pagodeiro de butique e pequeno apedeuta político.

7.2.18

Mais uma curva fechada

Minha amiga me disse que, sentada no metrô, enquanto se deslocava do trabalho para a livraria, onde afinal nos encontramos, observou que as pessoas estavam tristes. Reforçou: “As pessoas estão tristes até a raiz.” Mesmo o Chico Buarque, a quem assistira uns dias antes, lhe pareceu abatido, sem energia.
Sei que estamos sob pressão e a um passo de jogar a toalha e dizer: não dá mais. O sinal está fechado para nós, que não somos nem tão jovens assim, quiçá para os jovens. Ah, Belchior, você não teve tempo de presenciar nossa deblace. Só nós assistimos a sua derrota de homem triturado pela máquina, isso que se vê todos os dias e nos leva a dar de ombros e seguir adiante.
A queda coletiva está acontecendo e não parece ser a soma das individuais. É um processo. Adoniran Barbosa viu situação semelhante a isso, miúda, é verdade, no desmanche do Bexiga, no ocaso do seu mundo. Ecoa agora o que o Sargento Oliveira, de “Um samba no Bexiga”, fala, com intenção de acalmar as pessoas: “Num tem importância / Foi chamada as ambulância / Carma pessoal / A situação aqui está muito cínica / Os mais pior vai pras Clínica.” A dimensão das “tragédias” tem distintas implicações: no fracasso de um país Brasil, não há clínica que suporte tantos e tantas que precisam de socorro. Não haverá toque de silêncio em cornetas ou bumbos, simplesmente chegará o fim.
Eu e minha amiga fomos ouvir o papo de Rogério Reis, o fotógrafo responsável pela foto que serviu de modelo à estátua de Carlos Drummond de Andrade em Copacabana. A história do encontro dos dois é ótima. Antes da foto emblemática, Rogério fez outras, também muito conhecidas: Drummond, com um livro indecifrável na mão, ora está sentado, ora levemente deitado num tapete persa do chão de sua casa. Rogério tinha uns vinte anos nas duas oportunidades que teve de fazer as fotografias. Alguém na plateia comentou que, para tirar fotos como aquelas, o fotógrafo deveria ter uma grande empatia com o fotografado, rara capacidade principalmente em um jovem. Verdade. Que moleque era aquele e que poeta — um velho que completava oitenta anos — era aquele?
Falo da década de 1980. O Brasil também capotava na curva, mas conseguimos um alívio, desse modo torto com o qual historicamente avançamos. E Drummond estava vivo. E Rogério, hoje com sessenta anos, um pouco mais, um pouco menos, apostava todas as suas fichas na vida que mal começava. Apostávamos nossas fichas, eis a diferença para os dias atuais. Reunimos um milhão de pessoas em várias praças para ouvir um palanque com oligarcas, democratas históricos e exilados recém-chegados levantando as mesmas bandeiras. Alguma coisa nos unia. Hoje mais nada.
Uns querem a mão dura para enquadrar os meninos levados e as meninas levadas que nos tornamos aos olhos reacionários. Solução infantil, que não encontra adeptos nem na psicologia mais velha e/ou velhaca. Outros acreditam que o erro foi só do lado de lá, que há um homem bom capaz de dar jeito em tudo. Não, não há um homem bom. Ou por outra: não há um homem bom para além do que eu e você possamos ser.
Esse caso do apartamento no Guarujá, a um leigo feito eu, parece pouco substantivo, difícil de, a partir dele, levar uma pessoa à condenação. Apesar disso, Lula tem culpa pela conjuntura esfacelada. Tem sim. Culpa política. Não só ele, diga-se, e nomeiem-se mais alguns: Fernando Henrique e Aécio, um MDB de cabo a rabo e mais inúmeros entre políticos anões e religiosos devotos do cifrão. Conseguiram, em certos momentos com mérito, levar o carro para além da curva. Seguros de si, trocando a direção uns com os outros, pisaram fundo no acelerador logo em seguida. Estamos de novo no meio de outra curva. Os pneus são os mesmos de quarenta anos atrás, e o farol está queimado. A direção está e estará nas mãos de um político, e é bom que seja assim, apesar dos pesares. Os passageiros, que já tememos a velocidade, agarramo-nos à mão do destino. Somos bois abatidos, que ainda mugem (baixo).
A situação está cínica. Cínica e meia.

11.12.17

Papo reto

Você que sabe que a terra é plana; que Paul McCartney morreu antes de os Beatles fazerem sucesso; que Elvis está vivo, vivíssimo. Você — o mesmo ou outro parecido com o primeiro — que não tem um pingo de dúvida de que a ida do homem à lua foi apenas um truque dirigido por Kubrick, a mando dos estúdios de Hollywood; que advoga que tomar óleo de coco, chá de boldo ou urina de homem ou mulher virgens cura até falta de dinheiro. Também você — reforço: o mesmo ou outro parecido com o/os anterior/es — que tem absoluta certeza de que Deus fala e atua por meio do pregador da esquina; que acredita fervorosamente na boa vontade daqueles homens circunspectos que, por meio de um discurso empolado, oferecem solução para tudo, particularmente para o fim da sua pobreza, que não depende da redução da riqueza deles. Você que toma uma colher de azeite para evitar a ressaca; que bebe diariamente, mas é só uma social, nada demais. Você que diz que ter fé é acreditar cegamente, sem questionamento, em tudo — esquecendo-se ou desconhecendo o fato de que muitos santos, inclusive Moisés e Jesus, exercitaram a dúvida até o limite. Você que é democrata, mas defende a violência como o melhor antídoto contra a violência; que é avançado, mas sente saudades do tempo em que os homens eram homens e as mulheres eram mulheres. Você que, solidário às mulheres, defende com unhas e dentes que o problema da violência contra elas está na minissaia que usam. Você que vê, no Brasil de Lula (e no de Temer, diga-se) e até mesmo nos Estados Unidos de Obama, a evidência da ascensão do comunismo. Você que não é racista, mas — é o que você diz — francamente tudo tem limite. Você que não é homofóbico, mas, ora, meu Deus, você se espanta, tudo tem limite. Você que já andou no lombo de mula sem cabeça. Você que já viveu de tudo e aprendeu que o esforço sempre é recompensado, ainda que não seja exatamente isso que lhe aconteceu. Você que não se deixa enganar. Você que não muda de opinião. Você que acha bobagem essa coisa de livro, de filme, de teatro, de pintura; que acredita que o mundo está como está porque ninguém quer trabalhar. Você que fuma, mas não traga.




Pois bem: é com você que estou falando e quero lhe dizer uma coisa: você está mal, muito mal. Porém sou obrigado a reconhecer: você ganhou, o mundo é seu, e você não fará bom uso dele — aliás, você, dono do mundo não é de hoje, nunca fez bom uso dele.

2.10.16

Autoentrevista em dias de muito assunto e pouca certeza ou o contrário

Para Teresa, professora num país triste

Nosso entrevistado de hoje, eu mesmo, nasceu em Minas, viveu em Minas, mas não parou aí. Mudou-se para o Rio, depois para São Paulo, de onde voltou para o Rio. Na infância, interiorano ainda, devaneou que viveria em Porto Alegre, quem sabe em Montevidéu, mas isso nunca aconteceu e está longe de acontecer. O destino não se importa com sonhos sem pé nem cabeça de um moleque qualquer. O destino é sério, sério. Que nem Teresa, a professora de francês com quem o entrevistado não aprendeu nada, de francês, devo dizer, pois foi com ela que ele começou a apreciar a beleza farta. Veja bem, não a beleza, mas a beleza farta.




Feita a apresentação, vamos à entrevista.

P: Alguma certeza na vida?

R: Sim.

P: Qual? (Capricho no tom irônico.)

R: Estou vivo.

P: O senhor conhece alguém que, não estando vivo, seria entrevistado?

R: A Tomie Ohtake. Um deputado espera por ela lá no congresso. Te digo mais, não é um caso isolado, tem morto espalhado por aí que tem muita explicação a dar, portanto, se não está, deveria estar sendo entrevistado.

P: Voltemos um pouco. Falemos de suas certezas. Além de estar vivo, outra?

R: Não estou morto.

(A entrevista será difícil...)

P: O fato de o senhor estar vivo e não estar morto me alivia. Agora, devo me explicar: ao fazer a pergunta, gostaria de saber se o senhor tem alguma certeza política, por exemplo. Tem?

R: A política é um bom negócio.

P: Do ponto de vista financeiro?

R: Aí já não sei.

P: Então em que sentido a política é um bom negócio?

R: À esquerda e à direita. Em todos os sentidos, entende?

P: Creio que sim, senhor, creio que sim. Mas, sejamos mais explícitos: o que o senhor acha do Temer?

R: Que ele se acha.

P: Só isso?

R: Achar, só isso, no mais eu torço.

P: Por ele?

R: Contra.

P: Quer dizer que o senhor é a favor do PT, do Lula, da Dilma?

R: ...

P: Quem cala, consente...

R: Ou se segura para não partir a cara de entrevistador tão bitolado. Com vinte e seis letras é possível escrever todas as palavras do mundo, com dez algarismos, todos os números. Não reduza a complexidade a a e não a ou a zero e não zero.

P: Devemos mudar de assunto?

R: Você deve.

P: Sugira algum.

R: Teresa.

P: A professora de francês?

R: Ela mesma.

P: Teresa está ligada a quê?

R: Ao amor.

P: O senhor a amou?

R: Não, mas todo homem deveria amar uma mulher cujo marido é um caminhoneiro.

P: Isso é uma filosofia?

R: De jeito algum, é uma frustração.

O entrevistado sai da sala e enfia-se no quarto. A entrevista, tudo indica, vai ficar assim, borocoxô, inconclusa. Ao recolher meu material, ouço-o chorando. Chora e murmura um nome. Teresa? Não, Teresa não, soa como se fosse o nome de um país triste.

12.4.13

Que fevereiro foi esse?


Do ponto de vista do universo, dos universos, melhor dizendo, caiu um pedregulho na Terra, logo ali na Rússia. Um pedregulho, e todo aquele estrago. Como somos pequenos!
Duas estagiárias do Senado Federal foram demitidas por terem postado no Facebook a foto de uma ratazana encontrada na gráfica do próprio Senado ao lado de um comentário do tipo: “Renan Calheiros não é o único problema.” Abandono a discussão importante a propósito de se as meninas deveriam ou não ser demitidas, se as empresas deveriam ou não bisbilhotar a vida virtual de seus funcionários etc. e tal. Prefiro dizer que essa história mostra bem como o Renan está “pedindo”. Não só ele, claro, todos os senadores que o recolocaram como presidente da casa em que nem deveria entrar.
Há uns vinte anos, o médico que trouxe à luz meus filhos mais velhos mudou-se do Rio para Santa Catarina. Fugia da violência. O mundo dá voltas, camará.
Não entendo dos meandros do poder do Vaticano, sei avaliar, quando muito, como Bento XVI tem-se mostrado conservador em muitos assuntos. Logo, não reajo nem com alívio nem com apreensão a sua renúncia. Por outro lado, ri com algumas tiradas em torno desse assunto. No Facebook, além de lançarem Sarney, Lula e Malafaia como candidatos à sucessão, fizeram uma charge na qual o Papa incentiva a renúncia do Renan, pois, se ele, que é Papa, renunciou, o que impediria o senador de fazer o mesmo? Tenho amigos sérios e que entendem de política de modo geral, a do Vaticano em particular. Eles me disseram que alguns possíveis substitutos do Papa podem fazer com que consideremos light o conservadorismo do que se despediu em fevereiro.
Um acidente na Avenida Brasil envolvendo um ônibus não é raro, mas acidente provocado por conta de um passageiro indignado ter agredido o motorista que não quis parar fora do ponto já não é assim tão comum. O passageiro é um desequilibrado, não resta dúvida, e, se hoje ele agride por motivo tão banal, amanhã poderá fazer coisa pior por outros vãos motivos. Não conheço o desfecho da história, mas aproveito o incidente para refletir sobre o seguinte: ponto de ônibus no Rio de Janeiro é mais uma ideia do que um lugar onde as linhas A e B param e a C não. Sim, os motoristas fazem o que querem. Não só eles, nós, os passageiros, igualmente. É um tal de pedir ao “motô” — somos sempre transgressores gente boa — para abrir a porta um minutinho. Além disso, acho incrível uma coisa: em frente a minha casa, há um recuo para os ônibus pararem para embarque e desembarque. Com isso, saem um pouco da rua, e o trânsito flui normalmente. O que acontece? Os passageiros ocupam esse lugar, e os ônibus param no meio da rua, e a rua vira o caos. Somos miúdos, mas nossa estupidez não.
Vaticinei há um tempo: Yoani Sánchez não viria ao Brasil. Naquela época, não viria por não conseguir o visto para deixar Cuba. Pois bem, minha “profecia” se concretizou, só que agora, apesar de ter estado por aqui, ela continuou não vindo, pois não a deixamos circular livremente, lançar seu livro, participar do debate sobre um filme no qual dera um depoimento. Cerceamos a moça que, se não tivesse sido constrangida, poderia ter respondido a muitas perguntas que esclarecessem exatamente quem ela é. Qualifico essa passagem da blogueira por aqui como um vexame nacional. 

Fevereiro não foi um mês como outro qualquer. Nunca é, por causa do carnaval, essa coisa toda. Mas a renúncia do Papa, a queda de um meteoro e a vinda/não vinda da Yoani Sánchez ao Brasil tornaram o esquisitão fevereiro mais esquisitão ainda. Que doideira! 

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E veio março. Um Papa Argentino: de um lado, mais piadas e, de outro, uma esperança política na sua figura controversa. E outra briga num ônibus municipal no Rio de Janeiro vitimou 7 pessoas. E três homens, enlouquecidos e reincidentes, estupraram na van (deveria ser apenas mais uma possibilidade de transporte público) uma turista francesa. Esperamos por abril ou já jogamos a toalha e ficamos na expectativa de 2014?

9.8.12

Perversão e verdade


Lendo o artigo de Francisco Goldman (publicado originalmente na revista “The New Yorker” e reproduzido na Piauí de maio), Filhos da guerra suja, duas questões brotaram dele.
A primeira tem a ver com a perversão. Tenho tendência a pensar na perversão como uma questão de foro íntimo. Desvio que acontece na relação entre homem e mulher, adulto e criança, mas, claro, há a perversão comandada pelo Estado, sempre houve, talvez haja sempre. Cito Herodes, que, para liquidar um futuro homem, mandou exterminar todas as crianças de até dois anos de idade. Cito também Hitler, disposto a fazer uma limpeza racial. Perversos ambos. Mas também a ditadura argentina mais recente foi perversa, possivelmente a mais perversa de todas, haja vista que não planejou o extermínio das crianças, mas o sequestro delas. Arrancadas das famílias transgressoras da ordem, seriam educadas num ambiente de pureza ideológica.
O artigo, na realidade, usa essa questão como pano de fundo, pois o que está em jogo é a suposta origem dos filhos adotados da mandatária do Clarín, jornal importante, verdadeiro império da informação nas terras de Maradona e do tango. Depois de idas e vindas, sobre as quais falarei em seguida, a situação atual é que não há evidência de que o casal de jovens adotados pela senhora tenha origem em famílias que contestavam a ditadura. Todavia, não se esgotaram todas as possibilidades de pesquisa.
Foto publicada em El Pais.

Pois bem, as tais idas e vindas lançam luz sobre a questão da verdade. O Clarín é um jornal poderoso, digamos assim. Pertence à tal grande imprensa, essa sobre a qual sempre há suspeita de locupletação com o poder. É uma discussão infindável essa da ligação entre imprensa e poder, foge ao escopo dessa crônica, mas acho que a concorrência (o fato de existirem vários grupos) diminui a chance de uma aliança maliciosa entre essas duas instituições da democracia.
Volto ao caso argentino, baseando-me no artigo do senhor Francisco Goldman. Enquanto o casal Kirchner (no poder desde 2003) manteve boas relações com o grupo Clarín, a questão da adoção irregular dos filhos da proprietária não emergiu, ou não passou de assunto que correu à franja da profusão de fatos ligados ao sequestro de crianças na Argentina. No entanto, quando a presidência e o grupo jornalístico passaram a estar em lados opostos, surgiram as leis que de certa forma obrigaram o uso do DNA para confirmar a origem dos adotados. Os filhos da senhora do Clarín, em nome da lei, sofreram uma série de constrangimentos, que também souberam contornar de forma burlesca. Leiam o artigo, vale a pena.
Enfim, tudo isso para dizer que a verdade é uma construção. A turma lá de cima faz das tripas coração para que o fato em si seja a versão dele. Estamos vivendo, no Brasil, momentos decisivos ligados ao “mensalão”. Claro, há um jogo de interesse tremendo na questão. O episódio, ainda mal contado (pelo menos sem uma versão definitiva), do encontro entre Lula, Gilmar Mendes e Nelson Jobim é apenas uma onda pequena que pode estar anunciando um tsunami. 
Espero uma imprensa comprometida com a verdade. Com a verdade dos fatos. Sem perversão.