Mostrando postagens com marcador Gabriel García Márquez. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gabriel García Márquez. Mostrar todas as postagens

26.7.25

Anedotas literárias

Soube não faz muito tempo de uma história ocorrida com dois baitas escritores. Vargas Llosa, ainda jovem, foi entrevistar Borges, seu ídolo, em Buenos Aires. O autor de “O Aleph” vivia num apartamento pequeno e não muito bem conservado. O entrevistador, antes dos assuntos literários – senão em vez deles –, começou a fazer perguntas sobre o apartamento, talvez preocupado, até mesmo desapontado, afinal de contas estava diante de um gigante. Quando o escritor peruano foi embora, Borges perguntou se teria sido um corretor de imóvel que o visitara.


Imagem gerada por IA

Um caso desses vai ganhando demãos de tinta ao passar de uma pessoa a outra. Borges pode ter feito a pilhéria da visita para algum amigo, que tratou de passar a outro já com uma camadinha maior de ironia. O fato e o chiste teriam se perdido caso Llosa não se tornasse também um gigante. Quer dizer, na literatura, imenso; na política, não muito distante do que foi o próprio Borges, um fiasco.

Escutei esse caso num trecho de uma palestra que Ricardo Piglia, outro escritor argentino, fez não sei nem onde nem por qual razão. Seja como for, a “vítima” do disse me disse não raro guarda mágoas. Assim, suponho, o soco que Llosa deu em Gabo – por ciúme, já que o colombiano, um grande amigo até então, esticava os olhos para a sua esposa – pode ter tido a força adicional de uma vingança contra Borges.

No Brasil, onde não falta pugilismo literário, há uma historinha com cheiro de invenção e bem conhecida, cujos personagens são diferentes, conforme a versão. Da primeira vez que a ouvi, eram Antonio Maria, cronista e letrista, e Vinícius de Morais. Antonio Maria contou a Vinícius que, na ponte aérea entre São Paulo e Rio, uma moça o confundiu com ele. O ainda embaixador – Antonio Maria faleceu em 1964 e Vinícius perdeu o posto em 1969, na ditadura – ficou curioso e disparou um “e aí?, e aí?, e aí?”. Aí, disse-lhe Maria, ele deu corda ao papo, pediu um uísque, e a conversa engatou. Desceram no Santos Dumont, alojaram-se no restaurante, comeram alguma coisa e tomaram mais uma bebidinha. “E aí?, e aí?” Aí, continuou o letrista de “Manhã de carnaval”, foram para um hotel. “E aí?, e aí?” “Aí, poetinha, você broxou.”

Vinícius, que se casaria nove vezes – salvo engano meu ou dele – não parece ter se importado com isso. Fosse Ziraldo, a coisa fervia, pois o incansável cartunista, escritor e jornalista nunca admitiu um fracasso sexual. Como o autor de “Flicts” ostentava uma senhora coleção de coletes, não duvido dele.

Embora transite entre escritores desde 1987, não tenho grandes histórias, embora uma ou outra tenham lá sua graça. Quando organizamos o grupo Estilingues – eu e seis amigas, depois de recusados na oficina literária que frequentávamos, pois estávamos, segundo a direção, adiantados e atrapalharíamos os novatos, passamos a nos encontrar em casa, vez ou outra contratando uma pessoa para nos orientar –, resolvemos consultar o Sérgio Sant’Anna sobre a possibilidade de nos acompanhar por uns tempos. Fui encarregado de fazer o contato. Liguei para ele e, logo depois de ouvir sua voz, mandei um “a gente somos um grupo”. Educadamente, recusou o convite. Eu faria o mesmo. Ou não? Sei lá.

Me encontrei certa vez com o mesmo Sant’Anna num lançamento, e ele estava apreensivo, pois pela primeira vez ganhara um bom dinheiro com a literatura. Como a grana estava em sua conta-corrente, seu medo era que um hacker a roubasse. Tentei tranquilizá-lo, afinal não era tanto dinheiro assim, e os golpes eram mais no atacado que no varejo. Por falar em roubo cibernético, depois de um tempo sem nos vermos, eu, Horácio – hoje um retrato na parede do meu afeto – e Nelson marcamos um chope no Bar Luiz, tradicional restaurante alemão que não suportou a crise mais recente e foi fechado depois de funcionar por cento e trinta e cinco anos. Lá pelas tantas, Horácio – além de escritor e artista plástico, um pioneiro da computação no Brasil – sugeriu que roubássemos um banco. Seria, como temia Sant’Anna, uma ação limpa, uma invasão eletrônica, um assalto cibernético. Não, não fizemos isso, porém, como defende um meme já clássico, se feito, estaríamos apenas reagindo já que foram os bancos que começaram.

Nesse mesmo Bar Luiz, estávamos eu e um grupo do trabalho, amigos sem nenhuma ligação direta com a literatura, quando um homenzarrão entrou pelo bar lotado e, vendo que tínhamos uma cadeira vazia, pediu para se sentar conosco. Eu sabia quem era, os demais, não. Ele então contou que havia acabado de sair de uma reunião do PDT (cuja sede era a uma quadra dali) e precisava respirar e tomar um chope com Steinhaeger. Deu um gole, deu outro, mais um e, copos quase vazios, dirigiu-se a nós perguntando se o havíamos lido. Permaneci quieto, enquanto os outros se mexiam nas cadeiras e olhavam o vazio. Contrariado, o penetra balançou a cabeça de um lado para o outro, deu mais um gole e falou sem modéstia que era preciso que o lêssemos, seu nome era Fausto Wolff. Levantou-se e foi embora. Meus colegas me olharam um pouco atônitos, e eu afirmei que, apesar daquela mendicância messiânica, sim, deveríamos ler o escritor gaúcho.

24.5.21

Realismo mágico em três versões

 






Com o realismo mágico, García Márquez reportou o mundo a sua volta, em particular o de sua juventude vivida no interior da Colômbia. Sim, era uma espécie de reportagem sobre o extraordinário embutido nas histórias narradas por seus avós e de modo algum criado por ele. Na minha infância, eram comuns os casos situados na fronteira entre o real e o imaginário, entre o visível e o invisível. Eu também — e muita gente de sessenta anos ou mais — poderia ter inventado, se me fosse dado talento, o realismo mágico, bastava registrar, ao lado de mulas sem cabeça e sacis, as peripécias de meus antepassados. O avô materno de minha mãe colocava maçãs na cabeça de suas filhas e, de uma certa distância, atirava na fruta. Verdade? É o que sei. Nas mãos de Gabo, suspeito, as maçãs seriam para lá de rubras e as meninas, apesar de pálidas, esperariam os tiros de olhos abertos.

O escritor colombiano não só registrou as histórias de seus ancestrais, falsas ou verdadeiras, o que ele não poderia atestar, como também espalhou, a seu gosto, ervas e pimenta sobre elas. Não fosse assim, não seria um escritor, mas um contador de causos. Nem contador de causos, já que esses, ao relatar o que viram ou ouviram, dão um jeito no inverossímil da realidade. Não sendo escritor nem contador de causo, García Márquez talvez pudesse ter sido um contabilista com talento para esconder do fisco parte da renda de seus clientes. Sempre projeto sobre o Nobel de 1982 a pecha de mentiroso. Creio que lhe cai bem.

O boom da literatura fantástica ficou para trás. Entretanto esses dias tão cheios de assombros parecem propícios à exploração do mágico. Sendo assim, sugiro três argumentos, que podem ser explorados em diferentes nichos de mercado, àqueles que nalgum canto do universo escrevem sob a bênção do velho Gabo. Corram à cozinha, separem os temperos mais picantes e mãos à obra.

Distopia:  no lugar dos coronéis déspotas, velhos e sozinhos, o personagem é o homem orgulhoso da própria ignorância e fiel à violência. Ele tem o olhar vidrado, não como o de um louco, mas como o de uma besta. Recusa o passado, encantado ou não, por ser um tempo morto. Seu foco são o presente, para desfrutar as benesses da fortuna, e o futuro, para garantir a boa vida dos descendentes e perpetuar o próprio nome como um herói da pátria. Ambicioso e gabola, apresenta-se numa versão mais que requentada do velho caudilho. O déspota atualizado percebe a passagem do real para o virtual, no qual age. As fake news, sua mão sobre o novo mundo, trocam o acaso e a riqueza do contraditório por algoritmos que escravizam, inicialmente, aqueles que o escolheram como libertador e, em seguida, os demais.


Humor: o olhar vidrado do poderoso expressa o assombro de quem não entende uma vírgula do que está se passando. Ele é o menino do “A vida é bela” que, ao crescer, continuou a enxergar o real como um jogo. Em vez de viver, joga, e tudo para ele — inclusive ou principalmente o horror — é encantamento e beleza. Envolvido em sucessivas situações vexatórias, como a de negar a ciência, bradar contra a democracia e babar de medo, vê-se transformado num palhaço sem graça e sem circo. Quando chega ao limite da tolerância, ao apontar o dedo contra seus detratores e ameaçá-los de morte, causa mais riso que medo. Não fosse, apesar de patético, perigoso, seu desatino seria comovente.


Terror: o novo Messias teria voltado à terra para acabar com a corrupção original, o passo em falso de Adão e Eva, e com a alimentada pela cobiça. Seu discurso enaltece um passado em nada similar ao fantasmagórico e recorrente de García Márquez, mas um que nunca existiu, aquele no qual, sob ditadura, homens e mulheres foram felizes. Encontra seguidores fanáticos, no entanto, quando o discurso messiânico se transforma em idiotice política, surgem os desiludidos, que, em número crescente, fogem para lugares distantes, se ajeitam em pequenos sítios e abandonam o mundo virtual, praça de guerra do líder. O até então ídolo se vê incapaz de manejar a tecnologia a seu favor, perdendo assim o poder de influir com suas mentiras na vida de todos, seus partidários ou não. Abandonado, meio milhão de almas penadas o visitam e o aniquilam. Enquanto isso, os fugitivos se agarram à única ideia do falso Messias com a qual ainda concordam, a de o passado ter sido o melhor momento não exatamente de suas vidas, mas da existência humana. Empenham-se, então, em reerguer montanhas, replantar florestas, desinventar a agricultura, sobreviver da caça, enfim, dedicam-se a arrastar suas vidas cada vez mais para trás. Até que chega a hora de enfrentar os dinossauros.

 

30.6.13

Imagens colombianas e outras

Em maio circulou pela internet reportagem sobre um dicionário muito particular, o “Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças” (não há notícia de que tenha sido traduzido no Brasil, e o título é o que consta das matérias). O livro, um apanhado de definições genéricas, foi resultado do que o professor colombiano Javier Naranjo recolheu no seu convívio com crianças ao longo dos dez anos em que lecionou numa região rural de seu país.
Naranjo, autor do livro.
Há coisas realmente surpreendentes. Uma pequerrucha de sete anos, Natalia Bueno, diz que a igreja é “onde a pessoa vai perdoar Deus”. Imagino que o professor catalogou essa “definição” sem fazer nenhum juízo de valor a respeito. Já não sei se, ao sair o livro, a menina não tenha levado um bom corretivo. De seus pais. Do pároco local. Eu considero a frase um soco nas nossas certezas religiosas, o que me apraz, não por ser assunto religioso; de fato me apraz tudo que vá contra qualquer outra certeza. É meu espírito anárquico, e cínico.
Menos controversa é a frase de Duvan Arnnulfo Arango, que, no alto de seus oito anos, definiu o céu como sendo “de onde sai o dia”. Com a mesma idade, Leidy Johanna García afirmou que a lua “é o que nos dá a noite”. Para terminar as citações, com pitada poética e uma ironia desmesurada, ao definir mãe, Juan Alzate (seis anos) disse que “mãe entende e depois vai dormir”.
Ao ler a matéria, me lembrei de Gabriel García Márquez. Se há algo que marque a literatura do colombiano são algumas das imagens que ilustram suas histórias. Boi que sobe escada (“O outono de um patriarca”). Borboletas amarelas que anunciam a presença de Maurício Babilonia (“Cem anos de solidão”). O médico que, ao auscultar um coração, ouve as lágrimas que o paciente derrama dentro do peito (“Crônica de uma morte anunciada”).
García Márquez.

Por pouco não alinhavo uma teoria. Já ia dizendo que o realismo mágico é apenas uma reportagem de García Márquez sobre as entranhas de seu país, haja vista que os meninos do dicionário são tão realistas mágicos quanto ele. Mas aí me curvei às minhas lembranças de pés quebrados. E Kafka, lá doutra banda? E Juan Rulfo, anterior ao colombiano? E os surrealistas? Não encontro razão, mas, nessa viagem rasa, aportei em Murilo Mendes, ele também cheio de imagens brutas. Num de seus poemas mais conhecidos, uma paródia à “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, ele canta: “Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade/ e ouvir um sabiá com certidão de idade!” E noutro momento, em “O homem, a luta e a eternidade”, seus versos finais são estes: “Um dia a morte devolverá meu corpo,/minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins/meus olhos verão a luz da perfeição/ e não haverá mais tempo.”
Murilo Mendes, por Guignard.

Entre o pensamento bruto das crianças colombianas (e de qualquer outra, na verdade) e os trabalhos de García Márquez ou Murilo Mendes, há uma linha estendida, longa; numa ponta, o bárbaro; na outra, a sofisticação, o pensamento profundo e articulado. Mas pergunte a um escritor, os que citei ou outros, o que procuram. Aposto um contra mil que todos querem recuperar a criança que um dia foram, querem abraçar a espontaneidade e a visão assustada e virgem que os pequenos têm.