10.1.12

A faxina


O ano está acabando, momento ideal para arrumar a sala, retirar os livros e discos nela esquecidos e extirpar o pó das coisas. Nada de requintes, uma faxina de bom tamanho deve ficar no limite do que minhas mãos e uma flanela trabalhando juntas forem capazes de fazer.
Começo por levantar, largado na mesinha de canto, o “Modern Time” (2006, Sony), de Bob Dylan. Confesso que passei a curtir esse mito a partir desse disco. Dele deslizei para os outros, os antigos e clássicos. Aprende-se com “Modern time” e, de resto, com toda a obra de Mr. Zimmerman uma coisa importante: o terreno da simplicidade é fértil. Dylan e seu grupo, econômicos no número de instrumentos, criam uma imensidade de climas, de sons, de barulhinhos bons que gente leiga como eu nem acredita que se pode fazer tanto com tão pouco.
Ao lado de Dylan, o livro de Marco Túlio Costa, “Mágica para cegos — contos e contracontos” (2011, Editora Saraiva). Marco Túlio ficou conhecido por seus textos para jovens, um dos quais, “Fábulas do amor distante” (2003, Record), ganhou o Jabuti. Todavia, ele escreve para todas as idades, prova disso é esse “Mágica”, um achado. Escrevendo um conto de uma determinada perspectiva para depois escrevê-lo de outra, o autor mineiro, além de contar boas histórias, traz à luz o próprio ofício de escritor. Como Dylan, sem ultrapassar as fronteiras da simplicidade.
Tiro o pó da pedra de mármore. E, ao enfrentar a sujeira que desce até os pés da mesinha, deparo com uma peça que me é cara: um papel amarfanhado, no qual registrei o seguinte verso: “Dize-me tu, montanha dura,/onde nenhum rebanho pasce,/de que lado na terra escura/brilha o nácar de sua face.” A letra está péssima, mas o poema de Cecília Meireles, “Serenata” (Retrato Natural, Obra poética, Nova Aguiar), não para: “Dize-me tu, palmeira fina,/onde nenhum pássaro canta,/em que caverna submarina/seu silêncio em corais descansa.” E assim termina: “Dize-me tu, ó ceu deserto,/dize-me tu se é muito tarde,/se a vida é longe e a dor é perto/ e tudo é feito de acabar-se!” Que homem eu era quando transcrevi o poema? E que outro então quando amassei o papel? E ainda o que o deixou ali, largado a moscas analfabetas?
Jogado ao chão, passo os olhos pela extensão da sala. Vi um resto do garoto que fui... Não, minto; desejei vê-lo. É tarde, dialogo com Cecília. Em seguida, ouço, sem que Nelson Ned cante: “E tudo passa, tudo passará”. Já passou.

Ao lado do telefone, a receita de meu médico, seu conselho para que eu abandone os doces, não bastasse ter deixado o álcool, e a sugestão de fazer um exame que custa o olho da cara. Tudo em nome de um fígado supimpa, apesar dos pesares. Uso a receita como leque, enxugo o suor com o dorso da mão. Gestos, pequenos gestos, os quais, cogito, dão uma espécie de chupeta na memória — essa maldita que não me ajuda, que só me mostra nacos retalhados —, fazendo com que ela, empurrada ladeira abaixo para pegar no tranco, me imponha um sobre-esforço para lembrar a “cena” de “Luz em agosto” (William Faulkner, Cosacnaify) na qual Lena se coloca na estrada à procura de Lucas Burch, o homem que a deixara prenhe. Cena inesquecível, lindamente escrita e traduzida (Celso Mauro Paciornik), mas da qual não recordo — ou da qual não recordo além do ponto aqui e agora registrado —, vítima que sou desse jogo de gato e rato em que estamos eu e meus miolos moles.
Ainda fora do lugar, o DVD do Arnaldo Baptista (“Lóki”, Paulo Henrique Fontenelle, MZA), o que fez o durão aqui ir às lágrimas. Não só pelo drama do roqueiro, mas pelo drama de todos nós, seus contemporâneos, que também temos passado por poucas e boas. Dia desses, um chegado levantou a seguinte estatística: ele e seus amigos de adolescência formavam um grupo de cinquenta e sete pessoas; hoje, quando beiram os cinquenta anos, estão reduzidos a seis. Foram caindo pela estrada afora, por onde deveriam ter ido bem contentes levar doces para a vovozinha. Foram sofrendo overdoses, contaminando-se com vírus letais, envolvendo-se em acidentes. Suicídio ao pé da letra, aparentemente nenhum. Arnaldo está vivo.
Parece melhor não cair nessa de virar o ano com tudo organizado e limpo, pois a limpeza externa tem contrapartida na (minha) sujeira interna e íntima. Abandono a arrumação. Distraído, levanto o caderno de telefone e topo com uma barata. Ela se espreguiça e, de pronto, começa a crescer... E a crescer mais ainda... E ainda mais... Até que dela brota Kafka, que, um tanto quanto assustado, me pergunta: "Onde estou?"
No meio do meu caos de cada dia, Kafka. Bem no meio. 
Postar um comentário