Mal entramos num tradicional bar de cozinha alemã de BH, apontei o sujeito sentado sozinho à mesa. “Não é o Woody?” Mais interessado em pedir a cerveja e o rosbife, RG deu uma olhada rápida e concordou. O homem era a cara e o focinho do cineasta americano, autor de filmes incríveis e sobre o qual uma sombra de pedofilia ainda pesa, apesar de a justiça tê-lo inocentado. Quando a véu de noiva chegou e molhamos as palavras, o colega de mesa voltou o rosto novamente em direção ao sósia. Dessa vez, se espantou. “Fotografa a peça.” Missão impossível, havia entre nós e o sujeito um grupo ruidoso e movimentado, gente que mudava de cadeira, levantava-se para fumar ou ir ao banheiro. O registro morreria na nossa memória.
Isso de fotografar me lembra “Mystery Train”, de Jim
Jarmusch, um filme com três episódios cujo único ponto em comum é o fato de os
personagens estarem hospedados em um mesmo hotel em Memphis. Na primeira
história, um casal de japoneses chega à cidade americana para visitar o túmulo
de Elvis Presley. No aeroporto, o rapaz dispara a tirar fotos, sua companheira
lhe pergunta por que ele fotografa todos os aeroportos e nunca as paisagens
lindas visitadas nos quatro cantos do mundo. Ele responde que os aeroportos são
todos iguais, portanto é preciso fotografá-los para não caírem no esquecimento.
O Woody Allen de Minas seria uma paisagem deslumbrante, inesquecível, portanto,
segundo o personagem de Jarmusch, desnecessária de ser captada.
Voltando ao bar, que é o que interessa, de repente, WA se
levanta e, ao se encaminhar para fora do bar, cutuca as costas de RG e o chama
de “meu ídolo”. Desconcertado, meu parceiro de copo leva uns segundos para
processar quem era aquele seu fã. Quando a ficha cai, o nome do sósia salta-lhe
à boca. O Allen mineiro estava uns goles acima e, impulsionado pelo encontro,
começou a contar casos que esclareceram a ligação entre o fã e o ídolo. Este,
por sua vez, não conseguia parar de rir. Ria de tudo. Se o WA estivesse sóbrio,
teria ficado chateado. Enfim, ouvimos um pouco daquelas histórias, tiramos
fotos, nos desejamos boas festas. A vida seguiu, quer dizer, papamos o rosbife,
descemos algumas cervejas e, pronto, fomos eu para minha casa, RG para a dele.
WA decerto tomou um avião.
RG escreveu “O dia em que os Beatles visitaram Belo
Horizonte” (editora Lê) e garante que os meninos estiveram em Minas, embora
seja impossível checar as evidências porque o quarteto, antes do sucesso, teria
ido de avião de Londres ao Rio pela Panam e de trem do Rio a BH pela Vera Cruz,
empresas que não existem mais. Além disso, não se hospedaram em hotel, mas num
apartamento na Afonso Pena defronte ao Parque Municipal, onde RG morou até a
mocidade, e dali Paul McCartney teria visto e se deslumbrado com um pássaro
preto, nessa versão, a verdadeira fonte de inspiração de Blackbird. Esse
apartamento também não existe ou ninguém sabe de seus moradores daquela época.
Agora que vi o cineasta e jazzista em BH, começo a acreditar que o livro de meu
amigo não é uma ficção, mas um relato de quem presenciou os queridinhos de
Liverpool — ou seus sósias — flanando pela Capital dos Sonhos. Ê, Minas!
As coisas não acontecem isoladas uma das outras, segundo a
voz popular. Digo isso porque, quando fui embora de Belo Horizonte, encontrei
uma possível personagem de Woody Allen no ônibus. Detectei tratar-se de uma
pessoa compulsiva ao despachar minhas malas no bagageiro. Ela fazia o mesmo e
falava, falava pelos cotovelos — não seria a primeira vez que uma mulher seria
o alter ego do diretor. Naquele instante, contava a outro passageiro uma
história que visivelmente não interessava a ele. O caso tinha a ver com uma
esfirra dura comprada num bar de beira de estrada — na viagem feita na noite
anterior, do interior para Belo Horizonte — e era descrito com riqueza de
detalhes, principalmente o enfrentamento com a vendedora intransigente, disposta
a não trocar o salgado. Precisava desabafar, pensei, mas, ao se acomodar no
ônibus, a falação não teve fim. Como não havia ninguém ao seu lado, passou a gravar
e disparar em sequência mensagens pelo zap. Certa hora, estiquei o ouvido. A
personagem do diretor de Nova Iorque dizia a um interlocutor, depois repetia a
outro — chegou a falar com aquele rapaz do início, que, sentado na poltrona
depois do corredor, fez ouvido de mouco — que o Brasil era um absurdo, veja só,
não havia iluminação nas rodovias, tudo era escuro, e sobravam árvores, era
preciso podá-las em bom número.
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| Imagem criada por IA |
Maldade minha com Woody, a senhora não era uma de suas personagens, está mais para essa grei que reza para pneus e crê na terra plana. A essa altura, deve estar aplaudindo o senhor Laranja, sem desconfiar de que o que ele fez ao sequestrar o polêmico Maduro, com quem não me simpatizo, e sua esposa é crime. Um ato terrorista? Ah, isso é para os advogados, não entendo nada de direito internacional.

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