13.8.17

E tome palavra com Kátia Bandeira de Mello-Gerlach




E tome palavra




Kátia Bandeira de Mello-Gerlach                               Despejo                               


Ojepsed não passava do gênero escritor ocioso e insolente. Recusava os cumprimentos exigidos pela civilidade a qualquer um que descesse no elevador em sua companhia. Com um bafo de café amargo e carranca, o sujeito irritava. Síndico, sub-síndico e membros do conselho conspiravam o seu despejo em reuniões regadas a garrafas de Malbec despejadas até a última gota. Polarizados na política, os vizinhos gozavam de unanimidade no que dizia respeito ao escriba herdeiro do imóvel após o falecimento de sua mãe no chuveiro a gás, morte que chocara a todos e lançara suspeição no ar. Descarado ágil, Ojepsed usava de charme e sorrisos quando algo lhe interessava, inclusive o desfecho de uma vida. Convencera a vizinha idosa a suspender a queixa crime por conta dos tangos que ele ouvia a cento e setenta decibéis madrugada afora. Cinco dias depois, mais um homicídio no edifício. Nas reuniões de condôminos, Ojepsed chegava carregado de livros embalados em plástico. Poemas auto-publicados. Em casa, os compradores descobriam haver levado gato por lebre: tinham em mãos cadernos em branco com um único verso na capa. Et voilá, os que reclamavam, desapareceriam um por um dos andares a meio lume. Para completar o quadro de indignação geral, Ojepsed começou a abandonar os dejetos do gato gonzalo espanhol em um canto do elevador. Disfarçava esquecimento enquanto a maioria dos vizinhos chamava aquilo de provocação. Um ou outro que ousasse argumentar com Ojepsed tombava na lista dos desaparecidos, sendo que o síndico sequer se despedira de dona Ercília antes de ser encontrado flutuando no mar do Arpoador com as mãos cruzadas sobre o ventre. No fundo, no fundo Ojepsed almejava suceder Rimbaud no papel de poète maudit. O seu nome, no entanto, causava-lhe pejo quando ouvia os sussurros do resto dos moradores que se referiam a ele como Ojépissédi, alcunha para cordelistas pau-de-arara, inadequada para alguém que se intoxicava de incenso e exigia que lhe pedissem autógrafo no ponto do ônibus quando saía para flanar e se abrigava da chuva, sem temer despejos.


(texto em conformidade com as regras do método de Raymond Roussel levemente alterado)



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