20.8.17

A ciência cansada




A moça que vai descer do ônibus antes de mim leva o celular no bolso de trás da calça. Eu me pergunto a razão disso, não me parece natural, muito menos seguro, haja vista que o aparelho fica metade para fora. No bolso de trás, totalmente protegida, os homens, principalmente eles, levam a carteira, sempre foi assim. Não, não e não. Meu pai, agora me lembrei nitidamente, levava a carteira no bolso da frente, no da direita. Ele usava daquelas calças cujos bolsos frontais são fundos, bem fundos, logo uma carteira solta ali está seguríssima. Esse modelo é o mesmo que o Veríssimo disse em crônica usar a vida toda e, por conta dessa fidelidade ter estado, em determinados períodos, na moda e noutros fora. Veríssimo, mestre, você não passa de um démodé, a calça com bolsos mais rasos está na crista da onda pelo menos desde os anos de 1980. O Whatsapp demanda ter rapidamente à mão o celular, por isso a vitória da calça atual. De novo cometo uma inverdade, o bolso curto existe, acabei de dizer, antes das redes sociais, logo a causalidade é outra: não fosse o bolso raso, não haveria a rede social, em particular o Whatsapp.

Todo casamento é um equilíbrio precário, seja o casal de que espécie for: negro casado com negro, negro casado com branco, branco com branco, europeu com asiático, velho com novo, homem com homem e mulher com mulher — sem esquecer os poliamorosos e os transgêneros. Enfim, é da natureza dos casais conviver com um perigo à espreita, não percebido, capaz de fazer com que todos se equilibrem na corda bamba; sem sombrinha, acrescento. Sendo assim, os casais vão, ao longo do tempo, criando suas defesas, quer dizer, aqueles que não chutam o balde e voltam à doce vida de solteiro, essa falácia que inventamos, uma vez que estar solteiro é um equilíbrio igualmente precário estabelecido numa casa quase sempre suja, com a cama desfeita e a geladeira vazia. Deixo as tergiversações de lado e vou ao que interessa, no caso o que os números dizem sobre o casamento. A evidência, todos sabem, é que o curso de dança é a última etapa do casamento. É tiro e queda: o casal se matriculou na dança, o casamento chegou ao fim. Nada mais lógico: dançar na corda bamba, e aí com ou sem sombrinha, é impossível, não se vê nem em circo.

O pão cai sempre com a manteiga virada para baixo. Assertivas como essa vieram importadas de países que não sabem o que é pobreza, digo baseado em uma razão muito simples: o pão cai não só da mão daqueles que têm dinheiro para comprar manteiga, cai também de quem come pão com pão.

É dando que se recebe. Esqueçam, essa frase faz parte da oração de São Francisco, este homem bom, mas ruim de prognóstico. O que mais se vê é muita gente dando (ou sendo roubada) sem receber nada em troca. Descarto a frase não por suas questões intrínsecas, simplesmente não serve ao meu propósito. Busco outra então. O preguiçoso fica pobre, mas quem se esforça no trabalho enriquece. Veja que esta é parecida com a outra, mas não escorre de boca de santo, tem mais a ver com os senhores do mercado, esses que nos fazem crer nisso e, por isso, nos fazem perder nossas vidas. Ó, céus, aponte aquele que ficou rico trabalhando.

Apresentei, amigos, quatro teorias. As duas primeiras científicas até a raiz, as outras, como demonstrado, pura balela, coisa de ciência cansada. Em tempos de falsas notícias, tenhamos cuidado, principalmente quando falamos de verdade científica, que se estabelece depois de cumpridas várias etapas, que vão da hipótese ao teste e, em seguida, à crítica. Enfim, ciência exige protocolos. Então, amigos, agarrados à ciência ou desagarrados da ciência cansada me ajudem a responder à questão inicial: como justificar o celular no bolso de trás?





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