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19.11.22

Anotações de improviso

— O que é o mercado?

— Aquele lugar onde, entre outros, o João Sílvio vendia um Canastra daqui, ó. Oferecia também arroz, feijão, até sardinha — em lata e nacional, é verdade. E tudo, veja bem, anotado em caderneta.

— Mas é esse que anda nervoso?

— Ah, não, o nervosinho é de outra categoria. Ele não vende nada, muito menos fiado, mas ganha muito e pressiona que só.

 

Ó, Deus que não existe, dou-te algum contorno, um vulto, quiçá mãos e braços, e me aconchego em ti. Agradeço-te então a existência de Milton Nascimento. Reclamo da subtração repentina de Gal, mas também agradeço por ter-nos dado essa voz, essa beleza.

 

Estar no meio de uma torcida de futebol talvez seja a coisa mais animalesca que existe. As torcidas são violentas e comportam-se como se estivessem em guerra. Dito isso, estar no meio da torcida faz um bem danado, pois liberamos os ácidos da violência, que precisam ser descarregados de uma maneira ou outra, afinal somos violentos.

 

Será que, quando os portugueses desembarcaram aqui nesta terra, que na realidade não era uma, mas muitas, cada uma ocupada por um povo indígena diferente, houve um olho no olho entre eles e o grupo nativo com quem mantiveram o primeiro contato? Aposto que não, a espoliação requer o fingimento, e este não suportaria o enfrentamento imposto pelo olhar recíproco.


Vi um sujeito parado numa esquina, e sua postura era de quem vivia uma angústia, talvez não soubesse como chegar ao endereço a que deveria se dirigir. Resolvi ajudá-lo. Ele me disse que não iria a lugar nenhum, na realidade esperava um amigo. Já ia me retirando, quando ele me chamou. Me olhou de cima a baixo. Era a mim que esperava. (Ou a qualquer outro.)

22.2.16

Sou Mangueira

Sou torcedor da Mangueira, o mais fuleiro de todos, aquele que grita aos quatro ventos o nome da escola, mas não conhece os sambas, não assiste aos desfiles. Acompanho, quando muito, a apuração e, se a Mangueira não ganha, digo que foi roubo e, se ganha, não digo nada, nem mesmo comemoro. Um torcedor desprezível, mas torcedor assim mesmo.

Por que comecei a gostar dessa escola? Um pouquinho porque gosto de manga e, mais ainda, da árvore que dá manga. Associação afetiva, portanto. Outro pouquinho porque, às vésperas de um carnaval, a Cuca, minha irmã, apareceu com um disquinho do Ataulfo Alves Júnior no qual ele cantava “Os meninos da Mangueira”, de Rildo Hora e Sérgio Cabral — “Um menino da Mangueira recebeu pelo natal um pandeiro e uma cuíca, que lhe deu Papai Noel, um mulato sarará, primo-irmão de dona Zica”. A música me levava a pensar na iniciação dos meninos ao samba. Meninos que eu antevia negros, de short e barrigudinhos, feito os meninos pobres de minha cidade, lá onde a herança africana aparecia mais nas congadas do que no samba, embora este também tivesse sua importância em escolas de samba como a “Malandro é o gato” e a “Passense”.

A razão maior dessa simpatia está ligada aos anos entre 1987 e 1997, período no qual trabalhei ao pé do morro da Mangueira. Convivi com a comunidade e percebi algumas de suas dificuldades — que iam, e decerto ainda vão, desde o acesso precário entre a rua asfaltada e o barraco, passando pela violência exercida pela polícia e pelo tráfico, até a falta completa do Estado, patente no abandono das crianças, que, cedo, bandeavam para o comércio ilegal das drogas ou, em posição menos desfavorável, se é que é possível, para o comércio informal de quinquilharias — e também de suas alegrias — entre elas, simples de perceber, o orgulho da escola. Aprendi a gostar dali e, por extensão, reforcei minha torcida pela verde e rosa.

De forma recorrente, Mangueira e Flamengo são tratados como similares. A escola e o time seriam os mais queridos do povo, os de maior torcida. Eu, um botafoguense, recuso essa abordagem, mesmo porque futebol e samba não se parecem em nada. Futebol é todo dia, os times disputam vários campeonatos. As escolas de samba vivem para um dia só. Ao longo do ano, claro, promovem festas — concurso de samba-enredo, ensaios nas quadras —, tudo para o brilho efêmero do tal dia. Nos estádios, as torcidas estão separadas, são touros bravos que, num descuido, chifram o outro, não se contentando com a simples vitória no campo. No sambódromo, não, todos estão misturados, dança-se, canta-se, namora-se. Portanto, se o amor que se tem pela Mangueira é popular, ele é de natureza distinta daquele que abraça o futebol, mais festiva que competitiva — ainda que a competição exista e sustente toda a (indústria da) festa.

Silencio minhas digressões. Abro uma cerveja hipotética e brindo a Mangueira e seu campeonato. Brindo Maria Bethânia, essa cantora que ao longo da vida, ao lado de sua música, fez questão de dar voz à poesia. Brindo a festa popular, mesmo sabendo que não há inocência nos arranjos comerciais que acomodam sem atrito dinheiro público, do bicho, do tráfico, de outras cidades, de outros países (democráticos ou não). Brindo, com muita inocência, o homem comum, que vive para o samba, que vive do samba, que se confunde com o samba. Viva!


Gustavo Pellizzon / O Globo / Arquivo: 25/07/2011