17.11.25
Old School
3.11.25
Uma festa de bolso
Era tempo de pandemia, e eu estava sentado na mesa do
escritório — um puxadinho do quarto — quando a ideia explodiu na cabeça:
Felifitá — Festa Literária de Fim de Tarde. Veio assim pronta, como quase
prontos vêm alguns poemas. A ideia de uma reunião que pudesse acontecer em
qualquer lugar, desde que à tarde, me foi soprada por uma musa. Não deveria
dizer isso, já que foge ao assunto e é polêmico, mas muitos poemas meus nascem exatamente
desse modo e, com isso, ferem de jeito a história de que literatura se faz com
suor.
A Felifitá é uma festa de bolso — pode acontecer numa mesa
de bar, num encontro de esquina, ao telefone, ou, tomando as palavras de
Hyldon, autor de “Casinha de sapé”, “na chuva, na rua ou na fazenda”. Brinco
que a inventei por estar cansado de não ser convidado para nenhuma das inúmeras
espalhadas pelo país. Na minha, vou sempre, o que é e não é totalmente verdade,
pois às vezes organizo o encontro, escolhendo os convidados, e depois me junto
aos ouvintes.
Até hoje, fiz três ou quatro no Rio, uma em Belo Horizonte e
a mais recente em Passos. As do Rio nunca foram um sarau, embora tenha havido
leitura de poesias ou contos, já as mineiras foram. A de Passos, no início da
segunda quinzena de outubro, aconteceu seis anos depois de minha última ida lá.
A festinha, cujo nome, em processo de registro no INPI, recebi diretamente das
mãos de uma das meninas de Mnemósine e Zeus, facilitou — a partir da
literatura, meu esteio nesta vida — minha reaproximação com a cidade natal.
Vejam só: estar à toa, com as ideias soltas, me deu um nome.
Passei a usá-lo em eventos amadores – depois que Nilma Lacerda, em resenha de
“Aí onde não cabe” (editora Patuá) no site do jornal Rascunho, me chamou de
amador, apoiada em Barthes, tornei-me fiel à ideia —, e eles não só têm me dado
a chance de juntar amigos como também têm me ajudado a refazer afetos. Não é
pouca coisa. Aliás, é um excesso. Nesse momento de puro regozijo egoico (que
marcará toda a crônica, me desculpem), confesso: isso me tem feito um bem
danado.
****
No campo da criação, mas agora uma pensada e executada ao
longo de muitos anos, ou seja, suada, estou com um novo livro na praça, “Os
verbos estão cansados” (editora Patuá). Em dezessete contos, lido com
personagens femininas (em oito), masculinas (em outros oito) e, em “A
descoberta”, conto posicionado no centro do livro, com uma criança que tanto
pode ser uma menina quanto um menino. Juliana Garbayo, escritora da qual muito
ouviremos falar, escreveu o seguinte no prefácio:
“Ler ‘Os verbos estão cansados’ é se deixar levar por esse
jogo onde cada resposta é, na verdade, o início de uma nova pergunta. E talvez
seja essa a sua maior sacada: a intuição de que, enquanto houver perguntas, a
narrativa continua viva”.
O trecho ilustra bem o que se passa em meus contos, gênero ao
qual volto depois de oito anos (“Uns e outros mais dois ou três”, o anterior,
compõe a coleção Estilingues 30, também da Patuá, e é de 2017). O livro, para
quem quer conhecer o meu lado contista, está à venda no site da editora.
Aviso aos cariocas e aos que estiverem na “cidade
maravilhosa, purgatório da beleza e do caos” (Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e
Laufer) que no dia 11 de novembro haverá lançamento (no Ernesto Bar, localizado
na Lapa, ao lado da sala Cecília Meirelles), um evento no qual meu amigo João
Paulo Vaz também apresentará seus novos contos, reunidos em “Os meninos” (7 Letras).
****
A crônica toda montada no ego escorrega no final. Na última terça-feira, dia 28, em uma operação desarrazoada, as polícias do Rio de Janeiro, sob o comando do governador Cláudio Castro, deixaram um rastro de mais de cem mortos, a maior matança da história policial brasileira — superou a intervenção no Carandiru e a mais recente, também no Rio desse governador, no Jacarezinho. Não acredito de modo algum que matanças desse tipo resolvam o problema da violência — mesmo que matem só os bandidos, o que nunca acontece, pois inocentes morrem aos montes, É só um teatro com vistas a receber os aplausos daqueles que não acreditam na possibilidade da vida comum em harmonia, uns porque lucram com o caos, outros porque a violência está tão próxima deles que a confundem com a própria vida.
®marcaregistrada
30.7.25
Um amador da literatura - resenha de Nilma Lacerda
Duas novelas de Alexandre Brandão revelam a leveza, o humor e a densidade de um escritor amador — no melhor sentido barthesiano do termo (1)
Em 1995, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de
Janeiro, uma exposição apresentou ao público intrigantes obras visuais de um
grande pensador da literatura. Roland Barthes, artista amador, com
curadoria de Silviano Santiago, não apenas surpreendia com sua produção
plástica inesperada e bela, como também instigava reflexões sobre o conceito de
artista amador. Diz Barthes:
O amador não é obrigatoriamente definido por um saber
menor ou uma técnica imperfeita […], mas, sim, por isto: ele é o que não
mostra, o que não se faz ouvir. […] O amador procura produzir apenas o seu
próprio gozo (mas nada proíbe que este, sem que ele o saiba, venha a ser nosso
por acréscimo) […]
Alexandre Brandão é um amador da literatura — no sentido
mais nobre do termo. Pratica com afinco o ofício de narrar: escreve contos,
poesia, novelas e crônicas, além de funcionar como uma espécie de embaixador da
literatura alheia, divulgando o trabalho de colegas em encontros e conversas.
De sobrenome generoso, Brandão constrói uma obra sólida, em produção constante,
e compreende que a vida literária só existe em regime de troca — como bem
apontou Antonio Candido. Tudo isso longe dos holofotes, que hoje brilham mais
por engano do que por merecimento.
Mineiro do interior que desemboca no Rio — como tantos —,
Brandão é um autor ao qual convém prestar atenção. Seu mais recente
livro, aí onde não cabe, reúne duas novelas: zerinho ou um e o
anjo ouve os noturnos. Seguindo os passos de grandes cronistas do Rio de
maravilhas e mazelas, o autor captura tipos humanos com a leveza de quem
trafega entre elegância e marginalidade.
A primeira novela, zerinho ou um, vencedora do
prêmio Flipoços/Kindle para escritores independentes em 2022, atualiza O
príncipe e o mendigo de Twain no Rio contemporâneo. O narrador, a um
só tempo irônico e compassivo, acompanha as vidas entrelaçadas de Blasco,
bilionário por acaso, e Dico, excêntrico sonhador. Segundo Andréa Bieri, há ali
um convite a um pacto fáustico. O jogo de trocas identitárias se dá em uma
narrativa onde as metamorfoses ocorrem com naturalidade, beirando o onírico.
Nesse terreno em que a realidade é porosa, personagens
circulam como alegorias vivas. Delcídio, amigo de Blasco nos tempos de
escassez, transforma-se literalmente em cão fiel — com direito a coleira e
pelos. Em tom de blague, o narrador revela o que, nas ruas da cidade, parece
pitoresco, mas é profundamente humano: a fé nos dados viciados da sorte, a
ilusão da liberdade como permanência.
Caminhar pela cidade é, para Dico, estratégia contra o tédio
e a solidão. Ele busca um cão, um vínculo. Percebe, então, os sinais da vida
urbana:
Captava os sinais que reverberavam na cidade: o porteiro
vendo televisão em seu posto de trabalho, a ratazana correndo de um saco de
lixo a outro; a mulher, ao passar por ele, dizendo ao celular: “Agora é tarde,
não dá mais”; e ainda o homem, debruçado à janela, fumando.
É uma cidade de flashes e ruídos, de fragmentos sem nexo — à
maneira do mundo drummondiano evocado nos versos da orelha do livro: “Meu bem,
o mundo é fechado/ se não for antes vazio”. Mas também há espaço para Leminski:
“Não discuto/ com o destino/ o que pintar/ eu assino”. Blasco e Dico assinam o
que a vida lhes oferece, seguindo em cena — ainda que troquem de papel.
Blasco saiu à rua. Caminhou pela calçada maltratada pelo
prefeito relapso. Esbarrou na bicicleta amarrada ao poste em frente à casa 408.
Pulou o buraco aberto na calçada pela raiz de uma árvore.
A cidade — feita de tropeços, desvios e surpresas — é também
o cenário da segunda novela, o anjo ouve os noturnos. Clara, a
protagonista, lida com a morte do pai. Ao organizar seus pertences, encontra
uma foto enigmática, que a conduz por um labirinto de descobertas. A imagem que
ela tinha do pai — homem silencioso, apreciador dos Noturnos de Chopin —
desmancha-se diante de revelações inesperadas.
Mostrei-lhe a foto de meu pai. Você é filha do Anjo? Do
Anjo – me espantei? […] desconversou. Insisti. Ele disse, em tom pouco
convincente, que o apelido tinha a ver com Chopin. Fernando gostava de Chopin,
que produzia a música dos anjos.
Clara é lançada a uma investigação que, embora permeada por
sinais e deslocamentos, não busca apenas respostas sobre o pai. Ela tateia o
próprio mundo — seus limites, fragilidades e possibilidades. Em Cantagalo, no
final da narrativa, o canto do galo ecoa como prenúncio de manhãs por vir.
Com estrutura de romance policial que deixa pontas
soltas, o anjo ouve os noturnos joga com o gênero. Os títulos
dos capítulos remetem mais à crônica do que à linearidade narrativa. Os
grafismos de Ricardo Tamm, presentes desde a capa até as páginas internas,
dialogam com esse caráter fragmentário e lúdico da obra: linhas emaranhadas,
setas, asas interrompidas, giletes partidas, braços estendidos para o vazio.
aí onde não cabe habita justamente as frestas do
real. São duas novelas que revêm papéis e lugares urbanos, apontando perdas
como ponto de partida. Um mundo de minúsculas, de frases em curso de sentença.
Nada começa — tudo continua. As identidades se esgarçam para abrir espaço ao
inédito. A leveza, o humor, o deslocamento: eis os instrumentos de Brandão,
que, como suas personagens, segue caminhando, sem certezas.
Como Barthes sugeriu, o amador escreve para o próprio
prazer. Mas, não raro, esse prazer extravasa — e nos atinge. É o que faz
Alexandre Brandão, em silêncio, à margem, entre letras que desenham um mundo
por vir.
(1) Resenha publicada no site do Rascunho, em 30 de julho de 2025.
30.6.25
Em São Paulo, com livros
Estive em São Paulo com a desculpa de lançar meu mais
recente livro, “Aí onde não cabe”, editora Patuá. Digo desculpa porque o livro
já tem um ano e meio de vida – se é que se pode dizer assim, haja vista que
levei uns seis ou sete escrevendo uma de suas duas novelas – e já havia sido
lançado na cidade em fevereiro. Assim, essa foi a forma que encontrei de me
forçar a visitar a Feira do Livro, evento que, à distância, sempre acompanhei
com interesse.
Não me arrependi. As tendas são montadas na Praça Charles
Miller, em frente ao estádio do Pacaembu. Em dias ora frios, ora quentes, ora
com garoa, ora com o céu mudando de azul a nublado, o espaço é acolhedor.
Pessoas passeiam com seus cachorros e espiam livros. Atletas se exercitam entre
livros. Crianças correm de um livro para outro. O livro, enfim, abandona sua
pretensa sacralidade, as bibliotecas, os espaços sisudos, e ganha a praça. A
Praça Charles Miller é dos livros, como o céu é do avião. Mas ultimamente o
céu tem sido das bombas enviadas por energúmenos que não leem. Bem, sigamos.
As conversas se dão em um auditório aberto, e, para acompanhá-las,
não é necessário pré-agendamento ou a obrigação de se sentar na plateia. Como
só fiquei um dia na cidade, acompanhei, assim mesmo não totalmente, o papo sobre
futebol entre Mário Prata e Ugo Giorgetti. Mário falou de seu romance “O drible
da vaca” (Record), Ugo, de suas crônicas jornalísticas reunidas em “Era uma vez
o futebol” (Imprimatur/7 Letras). Mário contou que o livro, uma especulação
delirante sobre a origem do esporte bretão, exigiu muita pesquisa. Nela
descobriu, por exemplo, que a rainha Vitória, famosa por impor valores morais
rígidos a seus súditos, era chegada a um baseado, quer dizer, a maconha lhe era
receitada por um guru indiano, já não me lembro por qual razão. Ugo, por sua
vez, reclamou do futebol – segundo ele, uma das grandes artes brasileiras, ao
lado da literatura, do cinema, da música e das artes visuais –, que, com o VAR,
quer se transformar numa ciência exata. É saudoso dos tempos em que a mãe do
juiz não tinha sossego. Ugo também confidenciou que, nas tratativas para a sua
participação na Feira, a pessoa encarregada do contato perguntou-lhe qual o
número da sua chuteira, com vistas a convocá-lo para a pelada entre escritores
que aconteceria no último dia. “Essa pessoa não sabe quem eu sou”, disse o senhor
de mais de oitenta anos, que se locomove com o auxílio de uma bengala. Paulo
Werneck, o organizador da coisa toda, pediu desculpas, a pessoa cumpria um
protocolo acordado.
Fiquei quase o tempo todo na tenda da Patuá dividida com
outras editoras. Não me lembro de todas, mas a relativamente nova e já com
ótimo catálogo, Sinete, era uma delas. Naquele cantinho, conversava com uns e
outros, inclusive com conhecidos apenas de redes sociais ou vistos de relance
nalgum canto. Ótima chance de perceber que tem muita gente empenhada em
produzir um trabalho sério e permanente. Particularmente interessantes foram as
conversas com o Eduardo Lacerda e a Pricila Gunutzmann, meus editores da Patuá,
e com o Whisner Fraga, escritor de garfo e faca – seu mais recente livro,
lançado por sua própria editora, “as fomes inaugurais”, é uma coletânea potente
de minicontos – e editor sensível e cuidadoso da Sinete. A vida desses
abnegados não é fácil, não. Para eles, leitor, acenda uma vela, quem é de vela;
reze uma prece, quem é de prece; bata um tambor, quem é de tambor. Mas,
principalmente, comprem os seus (nossos) livros.
Duas primas minhas – uma de segundo grau, a outra, de
terceiro – apareceram lá. A de segundo grau é minha conhecida desde os tempos
em que éramos bem crianças, ela, então, mais nova que eu, praticamente um bebê.
A de terceiro grau, não, só a conhecia de redes sociais, mas é filha de outro
primo, de segundo grau, que foi meu grande amigo e que não está mais por essas
bandas da terra. Com as duas e seus parceiros fomos conversando, conversando, a
Feira fechou e nos deslocamos para um lugar que eu desconhecia (Bar Balcão) e
continuamos a conversar, a conversar. Coisa linda quando os elos familiares se
justificam. Pena que um outro primo – este de primeiro grau – passou pela tenda
da Patuá num momento em que eu não estava. Nos desencontramos.
A Feira me pareceu equacionar bem os espaços entre as grandes corporações e as menores. Havia as tendas maiores – a Patuá e suas parceiras ocupavam duas de tamanho padrão – e umas enormes divididas por inúmeras editoras, que, por sua vez, tinham direito a uma espécie de balcão. Essas tendas coletivas localizavam-se bem no meio da feira. A Patuá na entrada à esquerda. Ou seja, houve uma preocupação com a visibilidade dos pequenos, esse resistente povo do livro.
O Rio de Janeiro merecia uma feira dessas a céu aberto. No ano passado, por exemplo, não houve a Primavera dos Livros, que acontecia nos jardins do Museu da República. A Festa Literária das Periferias – FLUP, itinerante e dos mais importantes eventos literários do país, costuma ocupar espaços públicos, ao ar livre, mas não é uma festa de editoras. Beira da praia, Parque Madureira, rua do Mercado, praças San Salvador, Saens Peña ou Paris, MAM, Quinta da Boa Vista: não faltam lugares bonitos para um evento desses.
22.3.25
Março dançante
Este março de 2025 tem sido agitado. Festas de aniversário, inclusive do meu caçula e da editora Patuá no Rio de Janeiro, lançamentos e encontros casuais com amigos do peito. Sem contar o carnaval. Não é sempre assim e, aliás, esse ritmo poderia ser mais intenso se meus quatro sobrinhos marcianos (é assim que se fala?) morassem no Rio, pelo menos no Brasil. Dois estão na França, um na Austrália e outro, que vai ser papai já, já, no Canadá. Eu os saúdo de longe.
Ao mesmo tempo tem sido um mês intenso de leituras, quer
dizer, de leituras de originais. Leio um livro com um conjunto de textos
curtos, que ora são crônicas, ora contos (alguns dando voz a animais, quase
fábulas, ou fábulas sem moral da história), ora ensaios, ora artigos de opinião.
Um olhar amoroso sobre o mundo do Moacyr Godoy Moreira, escritor com quem
mantive intensa troca de e-mails há um tempo, antes de nos perdermos. Fui
reencontrá-lo em fevereiro, também numa festa, a da Patuá em São Paulo.
Justamente essa leitura me fez pensar em como somos
atingidos de tantas maneiras por ela. Antes de continuar com o Moacyr, cito um
vídeo do escritor Décio Zylbersztajn, de sua série no Instagram chamada
Bibliotopia. Umberto Eco teria dito que há diferentes leitores, Décio
complementa: também diferentes leituras: a compartilhada, a releitura, a de
textos de múltiplos sentidos, muitas outras. Cita a escritora polonesa Olga
Torkaczuk, que lamenta o fato de as leituras contemporâneas serem muito ao pé
da letra, literais demais (ou, digo eu, literárias de menos). A partir disso,
me ocorre como uma frase – ou verso, no caso de um poema ou de uma letra de
música – pode ser poderosa.
Volto ao Moacyr. Um de seus personagens confessa que em “Sol
de primavera”, música de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, seus olhos se enchem de
água ao ouvir “abre as janelas do meu peito”. Acho isso bonito, quase (ou hiper)
religioso. Tenho uma coisa parecida com “eu sou o cheiro dos livros
desesperados”, de Caetano Veloso em “Reconvexo”. Aliás, essa é a música que me
tira da cadeira (obviamente depois de ter encharcado as palavras e desenferrujado
os pés) nas festas. Virou até uma marca da família.
Há algum tempo, pilotava a churrasqueira na festa de minha
filha – uma dezembrina –, e o piloto de
churrasqueira, vocês sabem, jamais passaria no teste do bafômetro. Pois bem,
quando tocou essa música, larguei espetos e picanhas quase prontas, olhei a
turma e disse: “Renata, vamos dançar?”. Renata é uma amiga de minha filha,
dessas que a gente adota na família expandida que construímos na vida. De lá
para cá, quando a música toca, ouço: “Renata, vamos dançar?”, nem é preciso que
ela esteja na festa. Quase sempre a pista enche, e nela rodopio todo serelepe.
Mas, veja bem, enquanto todos olham meus pesinhos claudicantes, meus quadris animados, minhas mãozinhas erguidas ao céu, ninguém percebe, à moda do personagem do Moacyr, meus olhos nublando ao pensar nos livros desesperados. Não são todos, mas são os meus e os de muitos amigos.
15.6.24
Perdidos em tempos eletrônicos
Espero no ponto o 409 ou o 410. Se há alguém que me acompanhe e que, me acompanhando, retenha algum detalhe de minhas crônicas, ele ou ela talvez saibam que estas são as linhas de ônibus que uso em meu trajeto casa-trabalho-casa.
Depois de me acomodar numa ou noutra condução, saco um livro
da mochila ou chafurdo no celular ou simplesmente aprecio a paisagem e, não
demora muito, desço na primeira parada da Lapa, ando uns 500 metros e chego ao
trabalho. Costumava alterar o jeito de voltar para casa, em vez de ônibus, tomar
o metrô, mas a tarifa deste está pela hora trágica da morte sofrida e súbita,
três reais mais cara que a do ônibus. Pasmem, o metrô – de extensão tímida numa
cidade com tantos problemas de transporte público – tem o mesmo preço do trem
que circula entre a Central e o subúrbio, ou seja, a turma que mora longe, que
ganha menos, se virando em trabalho pouco qualificado, gasta o mesmo que os mais
afortunados. Somos uma nação cruel. Seja como for, tenho voltado de ônibus para
casa, opção, aliás, muito boa, pois dele se pode ver gente, assim como no
metrô, mas principalmente pode-se apreciar a paisagem, um privilégio de quem
vive nessa cidade que, de tão bela, faz cair o queixo até de um Noel Rosa e
arranca lágrima dos menos emotivos.
Peço a compreensão de quem passou pelas linhas inúteis anteriores
e uma segunda chance, não era nada disso que gostaria de dizer, me perdi mal
comecei a crônica, mas, uma vez dito, dito está. Continuem comigo, por favor.
Espero no ponto o 409 ou o 410. Antes de um deles chegar –
será o 410 – encosta o 309. A viagem nesta linha leva, do início ao fim, mais
ou menos 1h30m – num percurso, entre o terminal Alvorada, na Barra, e a Central
do Brasil, com mais de 70 paradas – e nela vão verdadeiros estrangeiros. Digo
isso porque a pessoa que toma o coletivo na Barra – às vezes vindo do Recreio,
de Curicica, de Santa Cruz, sabe-se lá de onde –, não conhece muito bem São
Conrado, Gávea, Jardim Botânico, Humaitá, Botafogo, Flamengo, Glória e o
Centro, os bairros pelos quais o ônibus passa. Essa parece ser a situação do casal
que, ao saltar, se vê largado na rua e não na calçada. A senhora logo sobe para
o espaço dos pedestres, o senhor fica no dos veículos, coladinho ao passeio.
Ele olha abismado para um lado e outro. Vê um supermercado ali, um banco aqui.
Uma perfumaria à esquerda, uma lanchonete à direita. Experimenta o mundo como
se acabasse de chegar a ele. Já a senhora excede em objetividade. Olha para cima,
olha para baixo e pronto: aponta o sentido da praia, para onde começa a
caminhar. O senhor dá umas cabeçadas antes de segui-la.
Fico espantado por não terem tirado um celular do bolso e
consultado o mapa. Ou mesmo já descerem com a lição tomada, numa consulta
prévia feita no percurso que, da Barra a Botafogo, deve ter consumido mais da
metade do tempo total da viagem ponta a ponta. Pode ser que não tenham
intimidade com o aparelhinho que controla a nossa vida. Duvido. A julgar pelo
jeito aéreo do senhor, imagino que, se tivesse um, mesmo folheado a ouro, o
teria sacado e, na rua, não na calçada, começaria a consulta. Um homem daquele,
que faz pouco caso de um atropelamento, não há de temer trombadinha, nem os de
terra estrangeira. Ou teme tanto que deixou o celular em casa. Fica o mistério:
por que não fizeram uma consulta rápida e eficiente, antes ou naquele momento?
Vão pelo faro da mulher, é o que sei dizer. Meu 410 chega,
entro, pago, consigo me sentar, sacar o livro do Leonardo Almeida Filho, Berro
(Editora Patuá), e começar a lê-lo. Em um segundo, a leitura me deixa encantado
com a engenharia amorosa usada por meu amigo na construção de seus contos – já lhe
deram um prêmio? Pois deem. Preso ao texto, nem namoro o Aterro, ou seja, abstenho-me
da paisagem. Se não desfruto da beleza, poderia ter optado pela rapidez do
metrô, embora, claro, de ônibus economize três pratas, o que, na atual
circunstância, faz diferença.
Depois de saltar da condução e antes de me ajeitar na mesa
do trabalho, volto a pensar no casal e, a partir dele, nas formas que inventamos
para nos localizarmos em território desconhecido. Antes da facilidade do mapa
eletrônico, havia o mapa em papel – tenho dificuldades em consultá-lo – a
bússola – essa, que a meu juízo continua a falar mandarim, não deve levar
ninguém da Torre Eiffel ao Museu Rodin ou do Recreio a uma rua de Botafogo – e,
antes deles, as estrelas. A história humana talvez possa ser contada a partir da
evolução das ferramentas de localização. No meu caso, no tempo anterior à
traquitana eletrônica, sempre apostei na intuição, igual ao casal. Orgulhoso,
nem perguntar a um estranho perguntava, o que já gerou conflito aos que, com
espírito científico, caminhavam comigo. Nunca deixei de chegar ao destino, não
sei se pelo melhor caminho, mas isso não importa.
14.5.24
Resenha Aí onde não cabe (Editora Patuá) - Mário Baggio
AÍ ONDE NÃO CABE” (Patuá, 2024), duas novelas de Alexandre
Brandão
A prosa de Alexandre Brandão é tão instigante quanto sua
poesia. Os poemas de “O sol pelo basculante” (2022) davam conta, com alguma
ironia e muita melancolia, do período medonho da pandemia. O luto estava
explícito ali, em versos doloridos, assim como a memória da infância e da
juventude num tempo em que a vida era muito mais suportável e fácil de ser
vivida.
“Aí onde não cabe” traz um elemento novo — o estranhamento,
esse poderosíssimo recurso narrativo que atiça a curiosidade do leitor —, a
começar pelo título geral do volume (onde é “aí”? o que não cabe aí?) e pelos
títulos individuais das novelas (são duas): “Zerinho ou um” e “O anjo ouve os
noturnos”. Os dois textos estão impressos nos lados opostos do livro, isto é,
termina-se a leitura de um e vira-se o livro de ponta-cabeça para começar a
leitura do outro. O leitor acha estranho, mas gosta. Muito.
Em “Zerinho ou um”, Dico e Blasco protagonizam um estranho
“se eu fosse você por um dia”, como se um espelho mágico devolvesse a cada um a
imagem que o outro queria ter. Dico está acossado pela inadequação na vida e
almeja radicalizar o seu “estar no mundo”, em que a liberdade é inegociável;
Blasco, em infinita solidão e abandono, tira, por acaso e sem esperar, uma
sorte grande. Num determinado momento os dois se encontram, e é quando o
espelho faz sua arte: reflete o duplo, ou melhor, o avesso, ou melhor ainda, o
complemento. Um encontro estranho, diga-se, que trará desdobramentos
inesperados para os dois personagens. Nesta novela, o autor deita e rola no
nonsense e brinda o leitor com uma história deliciosamente estranha, cheia de
ironia e humor.
Em “O anjo ouve os noturnos”, Clara, após a morte do pai,
cuida de limpar as gavetas do escritório em que ele trabalhava. Encontra um
envelope lacrado e, ao abri-lo, sua vida vira do avesso. Tem início uma trama
policial insólita e estranhíssima, cheia de personagens dissimulados e, como
nos filmes noir, nunca são o que aparentam ser e sempre escondem algum segredo.
Uma trama que dificilmente terá fim, cabendo ao leitor determinar onde está o
ponto final numa história que, se tem um clichê como pontapé inicial (um
envelope misterioso entre os pertences de um morto), vai se desenrolar de modo
absolutamente original. O estranhamento seguirá com o leitor muito tempo depois
de finalizada a leitura.
As ilustrações de Ricardo Tamm, em determinados pontos das
duas novelas, acentuam o estranhamento. Assemelhadas a rabiscos, são imagens
que ora antecipam algumas ações, ora funcionam como conclusões no sentido de
perguntarem ao leitor: “Eu não disse?” O leitor acha estranho, mas gosta.
Muito.
Mário Baggio
Resenha de Aí onde não cabe (Editora Patuá) - Ione Mattos
OPINIONE
29_02_2024
“aí onde não cabe”, uma bem armada confluência entre duas
novelas de Alexandre Brandão e ilustrações de Ricardo Tamm, mexeu comigo. O
conjunto, em um único volume de dupla face, me propôs, ou eu mesma me propus,
não sei precisar, uma experiência entre personagens comuns e cotidianas,
vivenciando desconfortos em que “o absurdo perde a modéstia”, como já o disse
Nelson Rodrigues.
No design do livro, as novelas “zerinho ou um” e “o anjo ouve os noturnos” estão de ponta-cabeça uma em relação à outra. Marcando fronteiras e organizando meu olhar, a capa de “zerinho ou um” abre para “o anjo ouve os noturnos”, e vice-versa. Hum... ─ cismei eu, não são dois em um. São um em dois.
Começou por aí, pela materialidade do livro em minhas mãos, a minha aproximação com os textos e as pistas da ilustração: setas apontando circularidades, interseções, convergências, só tomando forma concreta onde a lâmina corta (de ambos os lados, dividida), obrigando-me, para seguir, a revirar o volume e correr páginas onde as linhas desenhadas sugerem mãos trêmulas que se sobrepõem, mas jamais se entrelaçam.
Sim, as novelas não se tocam: não é o mesmo enredo, não se repetem as personagens, tampouco os tópicos são similares. Mas as ilustrações, garatujas intencionais, unem-se à narrativa para sugerir-nos a interseção em uma dimensão mais ampla, tal como costuma acontecer conosco e nossas histórias pessoais: individuais na medida limitada de nossa posição nos acontecimentos, coletivas no ambiente que as contextualiza e determina. Afinal, todo acontecimento esconde modos de vida e os modos de vida nunca são individuais, e sim sociais, relacionais.
Dico e Blasco, as personagens de “zerinho e um”, ocupam um lugar específico na estrutura que os situa, espaço que não é o de Clara e demais personagens de “o anjo ouve os noturnos”, daí a diversidade dos enredos. O que essa diversidade desvenda, no entanto, são os condicionantes comuns, que tornam inconsequentes as buscas por uma saída. Estão todos (ou estamos todos?) presos nessa trama coletiva, os esforços e as vias por uma saída pessoal tornando-se respostas que nada podem diante do todo.
Leituras instigantes, as novelas somam, em doses variadas, as facetas que há tempos admiro nos textos de Alexandre ─ o ficcionista, o poeta, o cronista, faces de perspectivas de humor sutis e inusitadas.
Ali estão as construções poéticas: “o silêncio, esse específico, tornava-se uma necessidade premente”; “sorrir subestimava a sua alegria”; “inocente chão de estrelas e luas”; “casa sem rosto”; “o cansaço não lhe fazia sala”...
As observações singulares: “tropeçava no pé dos próprios problemas”; “livrara-se da fome sem fim dos boletos”; “não comungava mais de nenhum pingo de ontens: era o homem do ali em diante”; “não se pode pedir lucidez a um homem distraído”; “o coração de quem perdeu os olhos está mais protegido que o de quem não vê”.
A ironia do humor: “─ O que sou por fora, sou por dentro. ─ Existe gente assim? ─ Devo ser um teste de Deus.”; “─ Pago o olho da cara por ele. ─ Os dois?”; “não era um pássaro, muito menos um galo, quem cantou ali foi sua culpa”; “a felicidade, tudo indicava, custava o preço de uma faxina”; “todo pensamento de cão, ou de cães famintos, não passava de um pedaço de osso”; “o esperado diapasão masculino, ora falando de mulheres, ora de futebol”...
Contudo, desta vez, os textos estão construídos também sobre estranhamentos, dos quais destaco a atmosfera como elemento de cena nos noturnos de múltiplos sentidos. Não somente externos e sonoros, como os de Chopin e da noite, mas internos e viscerais, como os que vivem nas pessoas, tantas vezes indecifráveis como as sombras e a escuridão. Para quem Clara, a narradora, afinal se dirige: “Que os Noturnos me consolassem. Ou me tornassem bárbara”. Fascinantes e selvagens noturnos.
Ambas as novelas, nas vozes dos narradores, são não apenas provocativas das nossas curiosidades e emoções, mas igualmente subversivas em relação aos nossos padrões de realidade, convites abertos ao imaginário: a interpretação fantasiosa dos fatos, as indagações sem resposta, os comportamentos nonsense e as percepções sem sentido. Uma boa mexida na cabeça e nas emoções do leitor.
13.9.21
A semana passada
Os dias depois daquilo foram longos. Como se as horas se esquecessem de passar (Wish you were here, Sônia Peçanha).
Eu sei que o Brasil está de cabeça para baixo. A última
semana foi terrível, ou mais terrível que as anteriores, que já haviam sido
terríveis. Somar terribilidade a terribilidade faz parte de uma matemática
menos acessível, aquela na qual a concretude da aritmética básica é trocada
pela abstração. Faço essa comparação e me arrependo. A matemática é linda,
quase sagrada, mesmo que não a entendamos em toda a sua complexidade. Acho que
foi Galileu quem definiu a matemática como o alfabeto usado por Deus para
escrever o Universo.
Seja como for, hoje deixo de lado o Brasil de cabeça para
baixo, dou de ombro para o desastre coletivo e falo de uma perda particular, a
da Sônia Peçanha. Na semana terrivelmente terrível do Brasil, fez um ano da
morte da escritora, da amiga. No último dia 8, acordei e havia no zap uma
mensagem da Marilena Moraes, outra escritora do nosso grupo — o Estilingues —,
com um link para a música do Pink
Floyd, Wish you were here, numa gravação
de Dime Nineteen. Com esse título, Soninha escreveu um conto — está em seu
último livro, “Relógio d’água” (Editora Patuá) — que é prova irrefutável de seu
talento. Não fosse a literatura tão maltratada no Brasil, e viesse à luz não só
o que as grandes editoras alardeiam, ela seria lida por muita gente, estudada
de norte a sul; enfim, reconhecida. Mas não é assim. Azar de quem não a lê,
sorte a minha de ter acompanhado sua trajetória desde o início, de ter lido
seus textos ainda em estado embrionário. Azar o meu de ter perdido uma amiga desse
porte, grande artista, grande ser humano.
Sim, Soninha era uma mulher gigante. Nunca, em mais de trinta
anos de amizade, a presenciei em atitude vaidosa, arrogante ou coisa que o
valha. Ao contrário, a vi alinhada a lutas por justiça social e se desdobrando
para ajudar crianças pobres. Vi ainda, inúmeras vezes, aquela mulher calada
abrir a boca para uma pequena ironia, para dividir seu sorriso com os mais
chegados, também para falar com toda a segurança e paixão sobre literatura.
Semana passada, o Brasil ficou muito pior do que estava, mas
nem todos sabem que a falta da Soninha o piora ainda mais.
Para terminar, deixo um poema dedicado a ela.
Sônia
Espichar pela ponta da tristeza
espichar até que, solto,
o fio permita confeccionar
o agasalho com que me protegerei
de tua ausência - de tua presença
em outra dimensão,
como é o teu modo de entender o fim.
Tricotar esse fio e, aos poucos,
ver a lã de cor aguda
mesclar-se à plácida
como duas vozes
em canto
em oração
em luta
como a tua voz
leve e presente
irônica e assertiva
sábia e humilde.
Tricotar os fios de tua cabeleira
num colete de gola em V de vigor
numa saia justa de poesia
numa lembrança de teu
sorriso, de teu olhar pronto
a reinventar o mundo, para o qual reservas
água, ar, intensidade
azeite, pão e o gesto
solidário carregado pelas mãos
: as tuas.
Tricotar o frio no fio
a presença na ausência
a alegria na tristeza
a saudade na comunhão
a espera na fúria
tricotar, com cuidado,
teu estilo no meu
teu brilho no da Cristina
teu segredo no da Marilena
teu amor no da Miriam
teu silêncio no da Nilma
teu aprendizado no da Vânia.
Ver a luz
— atirada do Estilingues
(tua e nossa palavra de vida) —
acertar o pássaro amoroso
que, em pios de conforto, assume
a tarefa de cuidar de ti
: aceitar teu voo.
16.3.20
Em torno do umbigo
15.1.20
40 anos no Rio
#nenhumapoesiaumaantologia
Lançamentos:
15/02, em São Paulo (na Patuscada, Rua Murat, 40, Vila Madalena).
05/03, no Rio de Janeiro (local por ser definido).
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Coleção Estilingues 30

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Para adquirir os livros, tome este caminho. A coleção pode ser adquirida inteira (com desconto) ou escolher apenas alguns dos livros.
7.10.18
6.8.18
Pelas bordas de Paraty
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| Foto do autor. Paraty/2018. |
Minha mulher, quando visita alguma cidade histórica, costuma dizer que pressente o trânsito de seus fantasmas. Nos dias da festa literária, é certo que os espectros apuram seus ouvidos e saem às ruas para ver o que o futuro traz. Eles entendem o beco escuro no qual estamos metidos, pois não é de hoje que o Brasil vive preso a suas incapacidades. Mas o que é o episódio de racismo sofrido por Sara Cristina Trajano, a colaboradora da editora Patuá que se desdobrava para fazer a “Casa do Desejo” funcionar, eles não entendem. Sim, os fantasmas são do tempo em que o conceito de racismo não existia e negro só era considerado gente quando os senhores de escravo enfiavam filhos negras adentro. Hoje, apesar da vigilância contra o racismo, alguns homens de erudição simplesmente o ignoram, que foi o que aconteceu a Sara.















