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12.9.20

Seis meses

 

Tempo é templo (Sônia Peçanha)


São 19h54m, e um vizinho grita Vasco. No fone de ouvido, Antologia do Violão, de Paulinho Nogueira, um dos primeiros discos instrumentais que curti na vida e que encontrei bem agora numa plataforma de música. Acabei de ver dois filmes em sequência: “A sociedade literária e a torta de casca de batata” (de Mary Ann Shaffer) e “Intriga de estado” (de Kevin Macdonald). O primeiro tem boas sacadas de roteiro — que, contudo, descamba para uma história de amor com final clichê — e uma péssima atriz no papel principal. O segundo, um thriller envolvendo matéria investigativa de um jornal, políticos americanos e interesses privados sobre funções típicas de estado, no caso a segurança, é bem dirigido e bem interpretado, bom divertimento.


Não vejo as séries de que tanto se fala por aí, sou impaciente para acompanhar histórias a serem lançadas em gotas, episódio a episódio, temporada a temporada. (Como eu faria na época em que Dom Quixote ia a público desse modo, folhetim a folhetim?) Ficar na mão de produtores e seus interesses é demais para o caipirinha aqui. Prefiro os livros, os filmes, as músicas e as finais do basquete, que, muito por conta do engajamento dos atletas em relação aos conflitos raciais nos Estados Unidos, assisto com meu caçula.


A vida nesses quase seis meses de confinamento poderia estar restrita a isso ou também a isso, já que não podem ser esquecidas a faxina, a organização das refeições, a disciplina nos pagamentos dos boletos, as conversas do Whatsapp. Não se consegue perder de vista a pandemia e suas vítimas e as vítimas de sempre, haja ou não pandemia, os negros, as mulheres, os pobres. Enfim, os desgovernos (federal, estadual e municipal) nos beliscam segundo a segundo, impedindo qualquer escapismo de nossa parte.


Acontece que o infortúnio é um cão insaciável, pronto a morder as pessoas que amamos. Mesmo consolado pelo violão de Paulinho Nogueira ou maravilhado pelas enterradas de LeBron James, não abandonamos a preocupação com os filhos e os amigos. E não é para menos.


Esse equilíbrio do confinamento, entretanto, foi ferido pela notícia vinda de uma amiga: Sônia Peçanha, dona de uma escrita refinada e contundente, mulher cujo sorriso e cujas poucas palavras dão fôlego para uma vida, não está mais aqui. Em trinta e três anos de convívio em torno de nosso Estilingues, aprendi com Sônia sobre a delicadeza, acompanhei a evolução de seu talento — o texto preciso e poético — e compreendi, a partir dela, o que é uma postura ética frente à criação.


Soninha não foi vítima da Covid-19. Não posso dizer que tenha sido vencida pela estupidez reinante no país, apesar de conhecer seu posicionamento crítico, indignado. De todo jeito, ela se vai quando atravessamos um dos piores seis meses de nossa vida coletiva, seis meses intermináveis, durante os quais envelhecemos duas, três, quatro, ene vezes além do tempo cronometrado.

13.4.20

Pandemia, modos de rir e de se desesperar

Chovem memes, chovem histórias aterrorizantes. Chove sufoco, chovem gestos de solidariedade. Chove paranoia, chovem motivos para a paranoia. Narrativas contrastantes chovem igualmente e chovem hipocrisia e má-fé ou “dá cá meu pinhão primeiro”. Bem, nós que aqui estamos vamos rindo e chorando, e nesta crônica rio um cadinho para chorar outro tanto.



Depois da quarentena
Sou moço bom, recatado e do lar, com alguns episódios de fuga para o boteco. Pois bem, então, não se escandalizem com o que vou dizer, é só que esse confinamento deixa a gente carente como o quê.
Passado tudo isso, um abracinho nos amigos vai ser pouco, melhor pensarmos desde já numa alternativa forte e acolhedora. Acho que vai ter de ser uma suruba mesmo, respeitosa e sem pecado, mas suruba.

Discussão, discussão, mas virar as costas para a unanimidade provisória...
Discutir se o confinamento deve ser radical ou não, tudo bem. Dizer que, se confinados, a economia esfarela, tudo bem. Agora, quando se forma um entendimento, que pode ser conservador, excessivo — ninguém sabe por enquanto —, ouvir de uns e outros, em particular de médicos, “esqueça isso, a crise é maior que a doença”, dá uma leseira, um “ai, ai, mundo”.

Abrir o negócio
Resolvi, amanhã vou abrir meu negócio.
Mas, Xandão!
É, chega. Já deu, é mimimi e mumuuuuu demais. Tô no preju.
Então tá, se é assim, que assim seja. Mas, a propósito, Xandão, que negócio é esse que você vai abrir?
Ah, meu caderninho de poemas. Ele tá bem ali, na escrivaninha, fechado nem sei desde quando.

O nome dos mortos
Há um momento em que são números. Muitos contaminados na China; taxa de letalidade de tantos por cento. A Itália, apesar das óperas cantadas em suas varandas, apesar do gesto espetacular do Papa, na praça vazia, tem números ainda mais alarmantes. A Espanha perde para o touro da doença. Ninguém vela seus mortos, meras estatísticas. Um dia, no entanto, a morte passa a se chamar Daniel, dona Maria, Godofredinho do Posto, filho da Zuleide. Aí é tormento, abismo e queda.

Bate-papo à distância
Que tal uma conversa (a)fiada?
À distância sanitária aconselhável
por vídeo, áudio, chamada telefônica ou sinais de fumaça
a gente desenrola uma prosa, fala mal de Maria
bem de Jandira
de nós a gente só fala que vai levando.

Você pensa em como seria sem internet e rede social
eu especulo como foi na gripe espanhola
você exclama: nó!
e eu rio. Rio de nervoso, explico. E você ri, ri de mim.
Acabamos numa gargalhada besta. Para, você pede.
Não consigo, gaguejo. Mas a gente para.

Você comenta sobre o moço que se despediu da família pelo  celular
reclamo que durmo mal. Você fala das pílulas, do coquetel de vitaminas
confesso que senti um desejo doido um dia desses,
você chora, sem vergonha nenhuma, chora.
Você precisa de um abraço. É, você concorda lacônico.
Assobiamos músicas diferentes, as duas sobre amigos.

Sugiro que a gente conte uma piada. Nem pensar, você reage.
É piada demais, o dia inteiro, você se encheu delas.
Mas eu queria contar uma. Uma só.
Conte, você ordena.
Vai passar.
É uma piada? Você acha uma pena que eu continue o cínico de sempre.

Depois do silêncio
você pergunta como estou
vou levando, eu digo. E você?
Vou levando.
Não foi sempre assim?
Quem pergunta? Eu ou você, não sei.
Mas foi, foi sempre assim. Era Maria quem dizia isso. Ou era Jandira.

Barrichello
O presindecente chegou tarde à retidão, e a plateia que ainda o incensava, naquele momento aplaudia, com o perdão da rima, o bufão.

16.3.20

Em torno do umbigo

Gostaria de começar esta crônica-espelho com a palavra convulsão, pois me vi num estado convulsivo nos dias próximos ao lançamento no Rio de Janeiro de “Nenhuma poesia: uma antologia” (Editora Patuá), um conjunto de poemas escritos ao longo de quarenta anos. Como quarenta são os anos vividos no Rio, é um livro comemorativo. Sim, uma comemoração minha comigo mesmo. Meu nome é Narciso Alexandre Pessôa Brandão. Ou foi por uns dias. Agora já voltei à realidade estúpida reproduzida pelos espelhos, vitrines, capôs de carros e latas abandonadas nas ruas.

Nos meus dias de beleza revelada pela água, vivi as bobagens mais bobas que a ansiedade nos faz viver. Me vi um adolescente que não sabe muito bem como lidar com os compromissos que, da noite para o dia, mudam de tom. Símbolo dessa mudança era deixar de usar calças curtas. Pois então, nos dias em torno do dia do lançamento, minhas calças compridas estavam sendo confeccionadas pelo alfaiate da delicadeza, da amizade. Eu não sabia e pensava que elas iriam me apertar e me reter no chão. Insônia, dúvidas em cascatas, essas são as companhias da ansiedade adolescente.

Mas também há um nível da ansiedade menos estúpido, aquele no qual um cara com sete livros soltos pelo mundo se vê metido. Será que não fui longe demais, por que não ficar escrevendo meus contos e crônicas, deixando isso de poesia pra lá? Mas por que não, se há material para um livro? Essa briguinha tem, de um lado, a vontade de se dar ao mundo como mais uma voz que lhe quer falar e, de outro, a vaidade, a proteção um tanto quanto covarde do próprio nome.

Publicar o livro foi a vitória de quem quer dialogar. Como digo sempre, escrevo com esse fim. Claro que, ao escrever, busco a forma que me agrade, ou seja, não faço pouco caso das questões estéticas, mas o meu interesse é falar com o hoje.

Amigos que escrevem entendem esse estado convulsivo, um pouco letárgico e muito viçoso. Para quem não escreve, pode soar incompreensível, mas, por favor, faça um esforço, não saia por aí dizendo que o Xandão é cheio de nove horas. Não sou, só tenho um umbigo que, numa hora dessas, fica maior que o mundo.

Chegado o dia do lançamento, raspei o prato do afeto. No quintal da casa que minha filha e outras psicólogas alugam (mulheres, obrigado pelo espaço tão acolhedor), recebi pessoas de vários mundos: da faculdade, do trabalho, da família, do círculo de amigos, da literatura. E foi um encontro, além de lindo, potente. Todos nós sorríamos. Poderia ser simplesmente uma festinha, mas não, ali firmávamos o compromisso calado de manter o sorriso no rosto para enfrentar a monstruosidade que governa nosso país, eco desafinado de uma monstruosidade que se impõe ao mundo.

Na viagem ao umbigo, encontrei forças para sair dele e exigir que a gente lute para retornarmos à convivência social respeitosa — ainda que contraditória, com forças conflituosas puxando a corda cada uma para o seu lado —, que, com a intermediação do Estado, deve buscar o bem comum. 

1.3.20

Conjecturas


Claro, não existem bruxas, existem mulheres que passam o pano no terror comandado por esses nostálgicos da Idade Média.

Claro, não existem mulas sem cabeça, existem homens que se sentem abraçados pelos novos bafos do ultrapassado.

Claro, não existem fantasmas, existem crianças que não querem brincar de bangue-bangue, mas, sim, de atirar e matar.

Claro, claro, claro, Juscelino, retórico, publicitário, político, jamais pensou ser possível dar mil passos para trás avançando o tempo em um ano.

Mayo, Coups de Bâtons 1937.


Exagero, a besta se construiu ou foi parida aos poucos e ao longo do tempo.

Exagero, a besta não é um acidente, um fato raro, um absurdo, um ator que enganou a todos. A besta sempre esteve aí, no peito, na essência.

A besta dormiu em mim?

Sim.

Em você?

Sim.

Por que você canta e enaltece a besta enquanto eu não?

Porque eu, você diz, fui ignorado pelos não ignorantes. Os dedos me apontaram como o ontem. Mas eu estou aqui com Deus — um que não compreende; com a família — uma que não existe, de tão limpa, suja; com a propriedade — conquistada de berço ou de suor, sim, de suor de pronto esquecido. Quem fui, não sou mais. Como com garfo, atiro com bala; as mãos são sujas, as flechas, imprecisas. Os leões matam. Mato igualmente. Os leões rugem. Eu afirmo com todas as letras: mato porque matar a meu modo, saciado, é a atitude dos que não rugem.

Claro, não existe o inferno, a escuridão é um descuido do sol.

Claro, não existe a dor, o fracasso é uma fruta podre.

Claro, não existe a fome, o paraíso é a etapa superior do sacrifício.

Claro, claro, claro, o sonho civilizatório foi pisoteado pela insônia.

Exagero, ninguém está acordado. Anestesiado é como estamos.

Exagero, brinca-se de pique onde não há esconderijo — na luz do deserto.

Você tem comido o riso e arrotado a loucura enquanto eu queimo os versos que não são mais que cinzas.