6.8.18

Pelas bordas de Paraty

A única pessoa que vi escrevendo em Paraty não era um escritor. Não falo do atendente de bar, transformado, por conta do número excessivo de pedidos, num gastador inconsequente de tinta. Nem tampouco de um daqueles que anotam tudo para não se esquecerem do detalhe do detalhe. Antes de contar essa história, preciso dizer duas palavras que podem facilitar o entendimento de por que registrei, entre tantos acontecimentos, mesas, saraus, bate-papos e livros, justamente esse encontro com um não escritor que escrevia durante a festa da escrita.
Paraty é dessas cidades que me dão uma vontade inexplicável de largar tudo e me mudar para o passado. Viveria como senhor de engenho? Como escravo? Índio? Nossa história — e não só a nossa e não só o passado — é um rosário de violência. Se é assim, o que eu faria em tão distantes séculos? Poeta, escreveria versos estimulado pela cachaça furtada dos engenhos locais, ou, rebelde, arquitetaria uma inconfidência? Quem sabe não me casaria com a mãe de Thomas Mann, pequena alemã nascida na cidade? Eu seria o homem que não houve e, para vencer a resistência dos Bruhns, raptaria a jovem Júlia da Silva Bruhns para me casar com ela. Quando perguntassem ao longo da história da literatura quem era esse tal de Thomas Mann, a resposta seria: “Uai, é filho do Xandão, do Xandão da Haydée.” Ah, Paraty, que embriaguez é essa que suas ruas de calçamento cruel proporcionam?
Foto do autor. Paraty/2018.

Minha mulher, quando visita alguma cidade histórica, costuma dizer que pressente o trânsito de seus fantasmas. Nos dias da festa literária, é certo que os espectros apuram seus ouvidos e saem às ruas para ver o que o futuro traz. Eles entendem o beco escuro no qual estamos metidos, pois não é de hoje que o Brasil vive preso a suas incapacidades. Mas o que é o episódio de racismo sofrido por Sara Cristina Trajano, a colaboradora da editora Patuá que se desdobrava para fazer a “Casa do Desejo” funcionar, eles não entendem. Sim, os fantasmas são do tempo em que o conceito de racismo não existia e negro só era considerado gente quando os senhores de escravo enfiavam filhos negras adentro. Hoje, apesar da vigilância contra o racismo, alguns homens de erudição simplesmente o ignoram, que foi o que aconteceu a Sara.
Em minha primeira FLIP, na qual me aconcheguei na companhia de uns poucos amigos, quando sozinho, flanei pelas ruas feito um doido, como se, tomado pelos fantasmas e pelo delírio de ser um deles, pudesse purificar a história que um dia se passou naquelas ruas sistematicamente invadidas pelo mar. Mas também para procurar, entre tantos amantes da literatura, alguém que, incógnito como eu, pudesse me acalentar a esperança de novos e bons dias. Foi assim que, a certa hora, entrei em um restaurante. A atendente me ofereceu compartilhar a mesa com um moço que, desde o início da festa, ia ali todos os dias. Não me importei, ele não se importou. Acomodei-me e fiquei calado. Ele, bem, ele escrevia enquanto bebia uma cerveja e assim continuou.
Vislumbrei no rapaz uma caricatura. Apostei que estava diante de um desses que se abraçam a um certo romantismo e escrevem em qualquer situação. E haveria melhor situação do que durante a festa mais badalada da literatura no Brasil? O rapaz comprara caderno e caneta e zarpara para o lugar que lhe daria inspiração, pois os poetas — seria um deles — vivem de inspiração.
Ele se manteve na lida até chegar seu macarrão com frutos do mar. Nesse momento, guardou os apetrechos da escrita, encheu o copo e então desculpou-se por não ter me dado atenção. Eu disse que tudo bem e, certo de que sabia a resposta, perguntei se ele era escritor. Não, era engenheiro, trabalhava na empresa de energia de Niterói. E correu a justificar o caderno e a caneta: escrevia uma carta para dizer a alguém que perdera (um amigo? Um amor?) coisas que não poderiam ficar caladas. Apesar da juventude, afirmava-se numa forma de escrita que o tempo vai sepultando sem pena: a epístola. Refiz minha aposta: ele estava habitado por algum dos fantasmas da cidade velha.
Éramos dois.
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